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quinta-feira, 18 de julho de 2024

"Ergo meus olhos " - Poema de Armando Côrtes-Rodrigues


Anders Zorn (Swedish painter, sculptor, and etching artist, 1860–1920), Our Daily Bread, 1886.
["Our daily bread" depicts the artist's mother sitting at the edge of a ditch, cooking potatoes
for the harvesters.] Watercolor on paper, 68 cm x102 cm. Nationalmuseum, Stockholm.


Ergo meus olhos


Ergo meus olhos vagos, na distância
Da sombra do meu Ser...
Pairam de mim além, e a minha Ânsia
Cansa de me viver.

Meus olhos espectrais de comoção,
Olhos da alma, olhando-se a si,
Nimbam de luz a longa escuridão
Da vida que vivi.

Auréola de Dor, que finaliza
Na noite do abismo do meu nada;
Silêncio, prece, comunhão sagrada,
Sombra de luz que em Ti me diviniza,
Tortura do meu fim,
Alma ungida
E perdida
Na grandeza de Si. E já sem ver-me,
Maceração crepuscular de Mim,
Agonizo de Ser-me.


Armando Côrtes-Rodrigues
, in 'Revista Orpheu'

Anders Zorn (Swedish painter, sculptor, and etching artist, 1860–1920),
 Hugo Reisinger holding a fashionable grey Homburg hat, 1907. National Gallery of Art.
[Hugo Reisinger, 1856-1914, was a wealthy German-American businessman and art collector.]


"A obra só se completa e vive quando expressa. Nos meus quadros, o ontem se faz presente no agora. Lanço-me na pintura e na vida por inteiro, como um mergulhador na água. A arte é também história. E expressa a nossa humanidade. A arte é intemporal, embora guarde a fisionomia de cada época." 
 
Iberê Camargo (Pintor, professor e gravurista brasileiro, 19141994)
 

domingo, 1 de agosto de 2021

"Passo triste no mundo" - Poema de Armando Côrtes-Rodrigues



Antoine de La Rochefoucauld
(French artist, patron and art collector, 1862-1959)
 by Émile Schuffenecker (French Post-Impressionist artist, painter, art teacher 
and art collector, 1851-1934), c. 1886. Amsterdam, Van Gogh Museum.


Passo triste no mundo
 

Passo triste no mundo, alheio ao mundo.
Passo no mundo alheio, sem o ver,
E místico, ideal e vagabundo,
Sinto erguer-se minh'alma do profundo
Abismo do seu Ser.

Vivo de Mim, em Mim, e para Mim,
E para Deus em Mim ressuscitado,
Sou Saudade do Longe donde vim,
E sou Ânsia do Longe, em que por fim
Serei transfigurado.

Vivo de Deus, em Deus, e para Deus,
E minh'alma, sonâmbula, esquecida,
Nele fitando os tristes olhos seus,
Passa triste e sozinha, olhando os céus,
No caminho da Vida.

Fui Outro, e, Outro sendo, Outro serei;
Outro vivendo a mística beleza,
Por esta humana forma que encarnei,
Por lágrimas de sangue que chorei
Na terra da tristeza.

Espírito na Dor purificado,
Ser que passa no mundo, sem o ver,
Em esta pobre terra de pecado,
Amor divino em Deus extasiado,
O meu Ser é Não-Ser em Outro-Ser.


Armando César Côrtes-Rodrigues
,
in 'Revista Orpheu' 

 

sábado, 28 de maio de 2016

"Canção do Mar Aberto" - Poema de Armando César Côrtes-Rodrigues


Émile Bernard, Madeleine in the Bois d'Amour, 1888



Canção do Mar Aberto


Onde puseram teus olhos
A mágoa do teu olhar?
Na curva larga dos montes
Ou na planura do mar?

De dia vivi este anseio;
De noite vem o luar,
Deixa uma estrada de prata
Aberta para eu passar.

Caminho por sobre as ondas
Não paro de caminhar.
O longe é sempre mais longe…
Ai de mim se me cansar!...

Morre o meu sonho comigo,
Sem te poder encontrar.


Armando César Côrtes-Rodrigues


segunda-feira, 26 de setembro de 2011

"Sinfonia de Cor" - Poema de Armando Côrtes Rodrigues


José Navarro Llorens (pintor espanhol, 1867-1923), La playa de Valencia


Sinfonia de Cor


Sempre defronte
de mim
o mar azul, o mar imenso, o mar sem fim,
todo igual e azul até ao horizonte.

Neste dia delirante
de luz crua a jorrar, intensa, lá do alto,
uma vela distante
mancha de branco o seu azul-cobalto.

Um traço de espuma branca
junto à penedia
marca a linha da costa em enseada franca.

E a nota branca
das gaivotas em bando,
esvoaçando
à revelia,
e um ritmo novo de alegria,
de ruído e de graça.

Perto uma vela passa,
lenço branco a acenar...

Não ter asas também para poder voar
aonde me levasse a minha fantasia!
E ser gaivota e mergulhar
na água e bater asas,
alegre, todo o dia!

Poisar nos calhaus negros, que são brasas,
brasas negras a arder,
e ver aos pés a referver
aos borbotões de espuma.

Dar um grito e subir,
subir alto e distante,
já quando a terra se esfuma
e o mar aumenta, quanto mais avante.

Partir!

Partir para o delírio das alturas,
só, entre o céu e o mar,
longe do mundo e mais das criaturas.

Ah! Não ter asas e poder voar
de alma desvairada,
entontecer-me de espaço...

– Nota branca riscada
entre o azul do céu e o azul do mar.

Depois voltar
para ver
o sol morrer
num clarão de fogueira,
incendiando o céu, metalizando o mar...

E ver a noite abrir
o regaço
para deixar cair
uma a uma as estrelas.

Adormecer a vê-las...

Depois sonhar,
num delírio de cor, a noite inteira.


Armando César Côrtes-Rodrigues,
in 'Antologia Poética' 


 
José Navarro Llorens, Horse-drawn Carriage and Child on the Beach


"Se eu não fosse um físico, provavelmente seria músico. Eu penso sobre música frequentemente. Eu sonho acordado com música. Eu vejo minha vida em termos de música... obtenho mais alegria na vida através da música." -  Albert Einstein


Cesária Évora - Mar Azul


Cize, como era conhecida Cesária Évora, nasceu a 27 de Agosto de 1941 no Mindelo - Cabo Verde e veio a falecer em 17 de Dezembro de 2011. Aos 16 anos começou a cantar em bares e hotéis, donde veio a ganhar o epíteto de Rainha das Mornas.
Cesária tinha essa enorme capacidade de através da melodia e pela sua voz, por a alma, de buscar no fundo todo um passado vivido, com uma naturalidade crua e vestida de imensa arte.
Desde a saudade da terra natal, à colonização portuguesa que por via do pai, viveu socialmente as complexas relações sociais, até à emigração escrava de São Tomé.
Voz que também foi ouvida pelos soldados portugueses, em finais dos anos 60 através da rádio, principalmente na Guiné, quando ainda não tinha dimensão internacional.
Deixou de cantar durante uns anos para sustentar a família com o seu trabalho. Mais tarde encorajada pelo conhecido músico Bana, volta a cantar. Mas o salto internacional deu-se quando um empresário luso-francês, José da Silva a encorajou a atuar em Paris, gravando em 1988 o álbum "La diva aux pied nus" (A Diva dos pés descalços). A partir daí ganhou projeção internacional, dando espetáculos um pouco por todo o mundo. Tem o seu ponto alto quando ganha em 2004 o Grammy de melhor álbum de World Music contemporânea.
Fica, em seu registo histórico, dentro de sua passagem nesta vida, a voz e o ritmo, de uma certa maneira de viver e de estar.
Cantava com a alma e o espírito interligados como se de uma ciência complexa fosse.
Sabia da "moenga", aliás a sua música era e é dinâmica. Com um cigarro na mão e um copo de whisky na outra, a sua música é subtilmente entendida no espírito, após o ouvinte passar certas fronteiras de estados de almas... Nesses patamares mais subtis da consciência, sente-se na plenitude, a música de Cesária Évora... Uma verdadeira Diva que atravessa gerações. (Daqui)
 
 

domingo, 24 de julho de 2011

"Anoitecer" - Poema de Armando Côrtes-Rodrigues


Harold Mathews Brett (American illustrator and painter, 1880–1955),
Summer Moonlight, s.d.


Anoitecer


Ficou o céu descorado…
E a Noite, que se avizinha,
Vem descendo ao povoado,
Como trôpega velhinha.

Para a guiar com cuidado
Veio-lhe ao encontro a Tardinha,
Não fosse a Noite sozinha
Perder-se em caminho errado.

Vão as duas caminhando…
E como o Sol já não arde,
Para o caminho ir mostrando

A primeira estrela brilha…
Então diz a Noite à Tarde:
– Vai-te deitar minha filha.
 in 'Alma Nova' 


Kenny G - Peace