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terça-feira, 16 de dezembro de 2025

"Às vezes as coisas dentro de nós" - Poema de Fiama Hasse Pais Brandão



Louise Catherine Breslau (Peintre allemande naturalisée suisse, 1856 - 1927),
Portrait des amies, 1881; l'artiste, avec Sophie Schaeppi (Peintre suisse, 1852 - 1921)
et Maria Feller (Musicienne et actrice italienne de la fin du XIXe siècle), MAH, Genève.



Às vezes as coisas dentro de nós


O que nos chama para dentro de nós mesmos
é uma vaga de luz, um pavio, uma sombra incerta.
Qualquer coisa que nos muda a escala do olhar
e nos torna piedosos, como quem já tem fé.
Nós que tivemos a vagarosa alegria repartida
pelo movimento, pela forma, pelo nome,
voltamos ao zero irradiante, ao ver
o que foi grande, o que foi pequeno, aliás
o que não tem tamanho, mas está agora
engrandecido dentro do novo olhar.


Fiama Hasse Pais Brandão, in "As fábulas",
Quasi Edições, 2002.

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2025

"Soneto a Helena" - Poema de Pierre de Ronsard

 

  Portrait of a Lady, c. 1460, National Gallery of Art, Washington, D.C.


Soneto a Helena 


Quando fores bem velha, à noite, à luz da vela
Junto ao fogo do lar, dobando o fio e fiando,
Dirás, ao recitar meus versos e pasmando:
Ronsard me celebrou no tempo em que fui bela.

E entre as servas então não há de haver aquela
Que, já sob o labor do dia dormitando,
Se o meu nome escutar não vá logo acordando
E abençoando o esplendor que o teu nome revela.

Sob a terra eu irei, fantasma silencioso,
Entre as sombras sem fim procurando repouso:
E em tua casa irás, velhinha combalida,

Chorando o meu amor e o teu cruel desdém.
Vive sem esperar pelo dia que vem;
Colhe hoje, desde já, colhe as rosas da vida.


Pierre de Ronsard (1524-1585)
Tradução de Guilherme de Almeida
In Antologia de poetas franceses: do século XV ao século XX.
(Organização R. Magalhães Júnior; vários tradutores.)
Rio de Janeiro: Gráfica Tupy, 1950.

 

domingo, 26 de janeiro de 2025

"O que mais amo" - Poema de Luís Filipe Parrado

 

William Bruce Ellis Ranken (British artist and Edwardian aesthete, 1881-1941),
'The Open Window', These Are My Jewels, 1937.


O que mais amo

 
Não sou capaz de estranhas paixões
e amo, como muitos, o vento forte
que agita a roupa estendida nas cordas,
as bicicletas ferrugentas
de pneus furados
esquecidas em garagens e arrecadações,
a água fresca que mata a sede
ao mais miserável dos homens.
Mas se, como outros, amo os dias de intensa luz
e o descuido dos pássaros no ar,
ninguém ama como eu
as estrias do teu ventre,
a primeira casa de dois filhos.
De todas as coisas prodigiosas que conheço
são elas o que mais se parece
com os rasgos abertos por um arado
na terra crua deste mundo. 


Luís Filipe Parrado
, "Entre a carne e o osso".

 
Luís Filipe Parrado, "Entre a carne e o osso"
Editora Língua Morta, 2012. 


"A poesia é um fogo cuja chama faz arder o espírito de quem ama."
[Pierre de Ronsard, poeta francês, nascido em 1525 e falecido em 1585, foi um dos animadores do grupo literário Pléiade e um dos maiores representantes da poesia francesa do Renascimento, tendo revelado, desde as suas primeiras produções, a influência de poetas como Píndaro Horácio. As suas principais obras são Odes, Les Amours e Sonnets pour Hélène. Ficou conhecido como o príncipe dos poetas. (daqui)]