Mostrar mensagens com a etiqueta George Segal. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta George Segal. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

"Ai, pudesse eu ser pintor" - Poema de José Jorge Letria



George Segal (American sculptor and painter, n. 1924),
Blue nude on a black bed, 1976 


Ai, pudesse eu ser pintor


Ai, pudesse eu ser pintor e verter
numa folha impressa, limpa, as cores todas
que a cidade me reserva no seu bojo
de água clara e luz aquietada rente
aos muros das hortas e às paredes rosa velho
dos prédios da memória da infância.

Ai, pudesse eu transfigurar-me em ave
daquelas que salpicam em voo o cetim
azul das tardes e pintaria a golpes de asa
uma outra vocação que não a minha, talvez
a tonitruante vocação dos hereges, dos
revoltosos, dos anunciadores de tudo
o que se muda e se transforma; outro
desígnio não quereria ter a não ser este:
o de me fazer na cor comum do que vejo e sinto.


José Jorge Letria



George Segal, Red Haired Girl with Green Robe, 1986


«Love me little, love me long». Há muita verdade neste lindo provérbio inglês. O que é violento é perecível. O que é calmo é duradouro. Um amor brusco e irrefletido, e com natureza de chama participaria da essência dessa primeira ilusão de que eu falei há pouco, e estaria condenado, como toda a chama, a consumir-se a si mesmo. É necessário que as coisas cresçam devagar e lentamente — para que durem muito.

Eça de Queirós, in Correspondência
 
 

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

"Não desafies a alegria" - Poema de João José Cochofel



George Segal (American sculptor and painter, n. 1924),
Helen in Wicker Rocker, 1978



Não desafies


Não desafies 
a alegria.

Quando ela chegar 
um instante só 
não lhe perguntes 
porquê?

Estende as mãos ávidas 
para o calor
da cinza fria.


João José Cochofel, in 'Breve' 
 


George Segal (American sculptor and painter, n. 1924), Untitled


«Não se pode ensinar alguém a amar a grande poesia quando esse alguém chega até nós sem esse amor. Como é que se pode ensinar a solidão?»


Harold Bloom, in O Cânone Ocidental,
Tradução de Manuel Frias Martins



sexta-feira, 17 de maio de 2013

"É tão suave a fuga deste dia" - Poema de Ricardo Reis


 
George Segal (American sculptor and painter, n. 1924), Three Figures in Red Shirt,
from Blue Jeans Series,
1975


É tão suave a fuga deste dia


É tão suave a fuga deste dia, 
Lídia, que não parece, que vivemos. 
Sem dúvida que os deuses 
Nos são gratos esta hora, 

Em paga nobre desta fé que temos 
Na exilada verdade dos seus corpos 
Nos dão o alto prémio 
De nos deixarem ser 

Convivas lúcidos da sua calma, 
Herdeiros um momento do seu jeito 
De viver toda a vida 
Dentro dum só momento, 

Dum só momento, Lídia, em que afastados 
Das terrenas angústias recebemos 
Olímpicas delícias 
Dentro das nossas almas. 

E um só momento nos sentimos deuses 
Imortais pela calma que vestimos 
E a altiva indiferença 
Às coisas passageiras 

Como quem guarda a c'roa da vitória 
Estes fanados louros de um só dia 
Guardemos para termos, 
No futuro enrugado, 

Perene à nossa vista a certa prova 
De que um momento os deuses nos amaram 
E nos deram uma hora 
Não nossa, mas do Olimpo. 


Ricardo Reis, in "Odes" 
Heterónimo de Fernando Pessoa



George Segal, Woman in Red Kimono, 1985 


"Alague o seu coração de esperanças, mas não deixe que ele se afogue nelas."

Fernando Pessoa



George Segal, Untitled (Woman Combing Hair)



"O amor romântico é como um traje, que, como não é eterno, dura tanto quanto dura; e, em breve, sob a veste do ideal que formámos, que se esfacela, surge o corpo real da pessoa humana, em que o vestimos. O amor romântico, portanto, é um caminho de desilusão. Só o não é quando a desilusão, aceite desde o princípio, decide variar de ideal constantemente, tecer constantemente, nas oficinas da alma, novos trajes, com que constantemente se renove o aspeto da criatura, por eles vestida."

Fernando Pessoa, Livro do Desassossego
 


George Segal, Reclining Nude, 1962, pastel on paper


"Deus concede-nos o dom de viver. Compete-nos a nós viver bem."

Voltaire



George Segal, Yellow Nude Reclining



George Segal (American sculptor and painter, n. 1924)
 

quarta-feira, 15 de maio de 2013

"As coisas secretas da alma" - Texto de Mário de Sá-Carneiro



George Segal
(American sculptor and painter, n. 1924),
Woman Brushing Her Hair on Green Chair, 1964



As coisas secretas da alma


«Em todas as almas há coisas secretas cujo segredo é guardado até à morte delas. E são guardadas, mesmo nos momentos mais sinceros, quando nos abismos nos expomos, todos doloridos, num lance de angústia, em face dos amigos mais queridos - porque as palavras que as poderiam traduzir seriam ridículas, mesquinhas, incompreensíveis ao mais perspicaz. Estas coisas são materialmente impossíveis de serem ditas. A própria Natureza as encerrou - não permitindo que a garganta humana pudesse arranjar sons para as exprimir - apenas sons para as caricaturar. E como essas ideias-entranha são as coisas que mais estimamos, falta-nos sempre a coragem de as caricaturar. Daqui os «isolados» que todos nós, os homens, somos. Duas almas que se compreendam inteiramente, que se conheçam, que saibam mutuamente tudo quanto nelas vive - não existem. Nem poderiam existir. No dia em que se compreendessem totalmente - ó ideal dos amorosos! - eu tenho a certeza que se fundiriam numa só. E os corpos morreriam.» 


Mário de Sá-Carneiro, in 'Cartas a Fernando Pessoa' 


As Esculturas de George Segal


Sculpture by George Segal


"A alma, ao contrário do que tu supões, a alma é exterior: envolve e impregna o corpo como um fluido envolve a matéria. Em certos homens a alma chega a ser visível, a atmosfera que os rodeia tomar cor. Há seres cuja alma é uma contínua exalação: arrastam-na como um cometa ao oiro esparralhado da cauda - imensa, dorida, frenética. Há-os cuja alma é de uma sensibilidade extrema: sentem em si todo o universo. Daí também simpatias e antipatias súbitas quando duas almas se tocam, mesmo antes da matéria comunicar. O amor não é senão a impregnação desses fluidos, formando uma só alma, como o ódio é a repulsão dessa névoa sensível. Assim é que o homem faz parte da estrela e a estrela de Deus."

Raul Brandão, Húmus 


 
Sculpture by George Segal, The Diner, 1964


"A única maneira de teres sensações novas é construíres-te uma alma nova."

Fernando Pessoa



Sculpture by George Segal, Woman on a Park Bench, 1998


"Eleva a tal ponto a tua alma, que as ofensas não a possam alcançar."

René Descartes 



Sculpture by George Segal



"Há um cansaço da inteligência abstrata, e é o mais horroroso dos cansaços. Não pesa como o cansaço do corpo, nem inquieta como o cansaço do conhecimento e da emoção. É um peso da consciência do mundo, um não poder respirar da alma."

Fernando Pessoa 



Sculpture by George Segal, Three Figures on Four Benches, 1979


"Conhece alguém as fronteiras à sua alma, para que possa dizer - eu sou eu?"

Fernando Pessoa 



Sculpture by George Segal, 
Gay Liberation, 1980
 

"O homem é uma prisão em que a alma permanece livre."

Victor Hugo



Sculpture by George Segal, Depression Bread Line, 1991
 
 
"De que serve ao homem conquistar o mundo inteiro se perder a alma?"

Blaise Pascal


 
"The Fireside Chat", sculpture by George Segal at the
Franklin Delano Roosevelt Memorial in Washington D.C.
Franklin D. Roosevelt
used radio talks to speak directly
to the American public.