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terça-feira, 24 de setembro de 2024

"É ela! É ela!" - Poema de Álvares de Azevedo

 

Berthe Morisot (French painter, 1841–1895), Peasant Hanging out the Washing, 1881.
 


É ela! É ela! 

 
 É ela! é ela! — murmurei tremendo,
e o eco ao longe murmurou — é ela!
Eu a vi... minha fada aérea e pura —
a minha lavadeira na janela.

Dessas águas furtadas onde eu moro
eu a vejo estendendo no telhado
os vestidos de chita, as saias brancas;
eu a vejo e suspiro enamorado!

Esta noite eu ousei mais atrevido,
nas telhas que estalavam nos meus passos,
ir espiar seu venturoso sono,
vê-la mais bela de Morfeu nos braços!

Como dormia! que profundo sono!...
Tinha na mão o ferro do engomado...
Como roncava maviosa e pura!...
Quase caí na rua desmaiado!

Afastei a janela, entrei medroso...
Palpitava-lhe o seio adormecido...
Fui beijá-la... roubei do seio dela
um bilhete que estava ali metido...

Oh! decerto... (pensei) é doce página
onde a alma derramou gentis amores;
são versos dela... que amanhã decerto
ela me enviará cheios de flores...

Tremi de febre! Venturosa folha!
Quem pousasse contigo neste seio!
Como Otelo beijando a sua esposa,
eu beijei-a a tremer de devaneio...

É ela! é ela! — repeti tremendo;
mas cantou nesse instante uma coruja...
Abri cioso a página secreta...
Oh! meu Deus! era um rol de roupa suja!

Mas se Werther morreu por ver Carlota
Dando pão com manteiga às criancinhas,
Se achou-a assim tão bela... eu mais te adoro
Sonhando-te a lavar as camisinhas!

É ela! é ela, meu amor, minh'alma,
A Laura, a Beatriz que o céu revela...
É ela! é ela! — murmurei tremendo,
E o eco ao longe suspirou — é ela!
(Antologia poética, 1853), 2ª Parte.
 

sábado, 12 de setembro de 2020

"O Poeta" - Poema de Álvares de Azevedo


Elin Danielson-Gambogi, The Musician, unknown date


O Poeta
Un souvenir heureux est peut-être sur terre
Plus vrai que le bonheur.
A. DE MUSSET
Era uma noite: — eu dormia...
E nos meus sonhos revia
As ilusões que sonhei!
E no meu lado senti...
Meu Deus! por que não morri?
Por que no sono acordei?

No meu leito adormecida,
Palpitante e abatida,
A amante de meu amor,
Os cabelos recendendo
Nas minhas faces correndo,
Como o luar numa flor!

Senti-lhe o colo cheiroso
Arquejando sequioso
E nos lábios, que entreabria
Lânguida respiração,
Um sonho do coração
Que suspirando morria!

Não era um sonho mentido:
Meu coração iludido
O sentiu e não sonhou...
E sentiu que se perdia
Numa dor que não sabia...
Nem ao menos a beijou!

Soluçou o peito ardente,
Sentiu que a alma demente
Lhe desmaiava a tremer,
Embriagou-se de enleio,
No sono daquele seio
Pensou que ele ia morrer!

Que divino pensamento,
Que vida num só momento
Dentro do peito sentiu...
Não sei!... Dorme no passado
Meu pobre sonho doirado...
Esperança que mentiu...

Sabem as noites do céu
E as luas brancas sem véu
Os prantos que derramei!
Contem do vale as florinhas
Esse amor das noites minhas!
Elas sim... que eu não direi!

E se eu tremendo, senhora,
Viesse pálido agora
Lembrar-vos o sonho meu,
Com a fronte descorada
E com a voz sufocada
Dizer-vos baixo: — Sou eu!

Sou eu! que não esqueci
A noite que não dormi,
Que não foi uma ilusão!
Sou eu que sinto morrer
A esperança de viver...
Que o sinto no coração!

Riríeis das esperanças,
Das minhas loucas lembranças,
Que me desmaiam assim?
Ou então, de noite, a medo
Choraríeis em segredo
Uma lágrima por mim!


Álvares de Azevedo




Edith Martineau, Portrait of Herbert Foster-Barham, 1876


"É bem doce o pensamento de ter-se um amigo ainda que ausente."

(Álvares de Azevedo)


Álvares de Azevedo


Biografia de Álvares de Azevedo
Álvares de Azevedo (1831-1852) foi um poeta, escritor e contista, da Segunda Geração Romântica brasileira. Suas poesias retratam o seu mundo interior. É conhecido como "o poeta da dúvida".
Faz parte dos poetas que deixaram em segundo plano, os temas nacionalistas e indianistas, usados na Primeira Geração Romântica, e mergulharam fundo em seu mundo interior. É Patrono da cadeira n.º 2, da Academia Brasileira de Letras.

Manuel António Álvares de Azevedo nasceu em São Paulo no dia 12 de setembro de 1831. Era filho do Doutor Inácio Manuel Alvares de Azevedo e Dona Luísa Azevedo. Aos dois anos de idade, junto com sua família, muda-se para o Rio de Janeiro.
Em 1836 morre seu irmão mais novo, facto que o deixou bastante abalado. Foi aluno brilhante, estudou no colégio do professor Stoll, onde era constantemente elogiado. Em 1845 ingressou no Colégio Pedro II.

Em 1848, Álvares de Azevedo voltou para São Paulo e iniciou o curso de Direito na Faculdade do Largo de São Francisco, onde passou a conviver com vários escritores românticos.
Nessa época fundou a revista da Sociedade Ensaio Filosófico Paulistano, traduziu a obra Parisina, de Byron e o quinto ato de Otelo, de Shakespeare, entre outros trabalhos.

Álvares de Azevedo passava o maior tempo às voltas com os livros da faculdade e dedicado a escrever suas poesias. Toda sua obra poética foi escrita durante os quatro anos que cursou a faculdade. O sentimento de solidão e tristeza, refletidos em seus poemas, era de facto a saudade da família, que ficara no Rio de Janeiro.

  • Morte
Em 1852, Álvares de Azevedo adoece e abandona a faculdade, um ano antes de completar o curso de Direito. Vitimado por uma tuberculose e sofrendo com um tumor, Álvares de Azevedo é operado, mas não resiste.
Álvares de Azevedo faleceu no dia 25 de abril de 1852, com apenas 20 anos de idade. Sua poesia Se Eu Morresse Amanhã!, escrita alguns dias antes de sua morte, foi lida, no dia de seu enterro, pelo escritor Joaquim Manuel de Macedo:

Se Eu Morresse Amanhã

Se eu morresse amanhã, viria ao menos
Fechar meus olhos minha triste irmã;
Minha mãe de saudades morreria
Se eu morresse amanhã!

Quanta glória pressinto em meu futuro!
Que aurora de porvir e que amanhã!
Eu perdera chorando essas coroas
Se eu morresse amanhã!

Que sol! que céu azul! que doce n'alva
Acorda a natureza mais louçã!
Não me batera tanto amor no peito
Se eu morresse amanhã!

Mas essa dor da vida que devora
A ânsia de glória, o doloroso afã...
A dor no peito emudecera ao menos
Se eu morresse amanhã!

  • O Ultra Romantismo
Álvares de Azevedo é o nome mais importante do "Ultra Romantismo", também conhecido como a "Segunda Geração Romântica", quando os poetas deixaram em segundo plano os temas nacionalistas e indianistas e mergulharam no seu mundo interior.

Seus poemas falam constantemente do tédio da vida, das frustrações amorosas e do sentimento de morte. A figura da mulher aparece em seus versos, ora como um anjo, ora como um ser fatal, mas sempre inacessível.

Álvares de Azevedo deixa transparecer em seus textos, a marca de uma adolescência conflitante e dilacerada, representando a experiência mais dramática do Romantismo brasileiro.

Em alguns poemas, Álvares de Azevedo surpreende o leitor, pois além de poeta triste e sofredor, mostra-se irónico e com um grande senso de humor, que ri da própria poesia romântica. Álvaro de Azevedo não teve nenhuma obra publicada em vida. O livro Lira dos Vinte Anos foi a única obra preparada pelo poeta.

  • Livros de Álvares de Azevedo
Macário, obra dramática, (1850)
Lira dos Vinte Anos, poesia (1853)
A Noite na Taverna, prosa (1855)
O Conde Lopo, poesia (1866) 
Edith Martineau, Myrrine


Amor
Quand la mort est si belle, Il est doux de mourir.
 V. Hugo
Amemos! Quero de amor
Viver no teu coração!
Sofrer e amar essa dor
Que desmaia de paixão!

Na tu'alma, em teus encantos
E na tua palidez
E nos teus ardentes prantos
Suspirar de languidez!

Quero em teus lábio beber
Os teus amores do céu,
Quero em teu seio morrer
No enlevo do seio teu!

Quero viver d'esperança,
Quero tremer e sentir!
Na tua cheirosa trança
Quero sonhar e dormir!

Vem, anjo, minha donzela,
Minha'alma, meu coração!
Que noite, que noite bela!
Como é doce a viração!

E entre os suspiros do vento
Da noite ao mole frescor,
Quero viver um momento,
Morrer contigo de amor!


Álvares de Azevedo



Edith Martineau, Hampstead Heath in December, Watercolour


The watercolourist Edith Martineau (1842–1909) was born in Liverpool on 19 June 1842, one of the eight children of Dr James Martineau (1805–1900), the Unitarian theologian and minister, and his wife, Helen (1804–1877). She was also the niece of the author Harriet Martineau (but was not related to the artist Robert Braithwaite Martineau, 1826-1869). She felt that she owed her love of painting to her mother, who was herself artistically gifted, and who had encouraged her children's artistic pursuits from the earliest years, setting them to illustrate "in play-hours the books that they read in school" (see Huish 150). Later on, Edith had a thorough training: first at the Liverpool School of Art, then, when the family moved to London, at Leigh's School of Art. In 1862, still aged only twenty, she became one of the first women to gain admission to the Royal Academy Schools, and in the early 1880s, she also took classes at the Slade School (see Huneault, and Weeks 329). 

By 1862 she was already exhibiting her work, which she continued to do regularly and at a variety of exhibitions, from the Royal Society of Painters in Water Colours and the Royal Academy in London, to Liverpool's Walker Gallery, the Manchester City Art Gallery, the Royal Society of Artists in Birmingham, and others elsewhere (see Huneault). At the Dudley Art Gallery, where she exhibited a number of works in 1876, she was praised for her "half-length" portraits of her father and a Mrs J. L. Roget, which, the reviewer felt, were "clever, painstaking studies, remarkable from freedom of affectation and honest, good painting" (209). She was elected an associate of the Royal Society of Painters in Water Colours in 1888, a particular honour for a woman painter — the Spectator reviewer had said that this was a branch of art "that has seldom been attempted with any success by members of her sex"(209).

In 1904, Marcus Huish writes, "Costume pictures and classical subjects, by which she first claimed attention, have of late years given way to pure landscape, and to flowers out of doors and in the fields" (150). Sadly, she died only a few years later. Her Times obituary compared her watercolours of rural subjects to the work of Helen Allingham, describing her landscapes as being "graceful transcripts of nature, perhaps a little idealized," reflecting "in a very complete way her own tastes and her own kindly and sympathetic nature" (13). — Jacqueline Banerjee
 

Works:


Edith Martineau, Hampstead Heath Looking Towards Harrow on the Hill, 1905, Watercolour


"A vida é uma pedra de amolar: desgasta-nos ou afia-nos, conforme o metal de que somos feitos."

(George Bernard Shaw)

quarta-feira, 9 de setembro de 2020

"Minha musa" - Poema de Álvares de Azevedo


Charles Sprague Pearce (American artist, 1851-1914)


Minha musa



Minha musa é a lembrança
Dos sonhos em que eu vivi,
É de uns lábios a esperança
E a saudade que eu nutri!
É a crença que alentei,
As luas belas que amei
E os olhos por quem morri!

Os meus cantos de saudade
São amores que eu chorei,
São lírios da mocidade
Que murcham porque te amei!
As minhas notas ardentes
São as lágrimas dementes
Que em teu seio derramei!

Do meu outono os desfolhos,
Os astros do teu verão,
A languidez de teus olhos
Inspiram minha canção...
Sou poeta porque és bela,
Tenho em teus olhos, donzela,
A musa do coração!

Se na lira voluptuosa
Entre as fibras que estalei
Um dia atei uma rosa
Cujo aroma respirei...
Foi nas noites de ventura,
Quando em tua formosura
Meus lábios embriaguei!

E se tu queres, donzela,
Sentir minh’alma vibrar,
Solta essa trança tão bela,
Quero nela suspirar!
E dá repousar-me teu seio...
Ouvirás no devaneio
A minha lira cantar!


Álvares de Azevedo,
em Lira dos Vinte Anos


Charles Sprague Pearce, Contadina, 1876,  Private Collection


"A certeza é fatal. O que me encanta é a incerteza.
A neblina torna as coisas maravilhosas."

(Oscar Wilde)


terça-feira, 8 de setembro de 2020

"Marília" - Sonetos de Manuel Maria Barbosa du Bocage


Edith Martineau (British watercolour painter, 18421909),
'Woman with flowers', n. d.



Marília, nos teus olhos buliçosos



Marília, nos teus olhos buliçosos
Os Amores gentis seu facho acendem;
A teus lábios, voando, os ares fendem
Terníssimos desejos sequiosos.

Teus cabelos subtis e luminosos
Mil vistas cegam, mil vontades prendem;
E em arte aos de Minerva se não rendem
Teus alvos, curtos dedos melindrosos.

Reside em teus costumes a candura,
Mora a firmeza no teu peito amante,
A razão com teus risos se mistura. 

És dos Céus o composto mais brilhante;
Deram-se as mãos Virtude e Formosura,
Para criar tua alma e teu semblante.


Manuel Maria Barbosa du Bocage



Edith Martineau, 'In deep thought', 1871


Ó tranças de que Amor prisões me tece



Ó tranças de que Amor prisões me tece,
Ó mãos de neve, que regeis meu fado!
Ó tesouro! Ó mistério! Ó par sagrado,
Onde o menino alígero adormece!

Ó ledos olhos, cuja luz parece
Ténue raio de sol! Ó gesto amado,
De rosas e açucenas semeado,
Por quem morrera esta alma, se pudesse!

Ó lábios, cujo riso a paz me tira,
E por cujos dulcíssimos favores
Talvez o próprio Júpiter suspira!

Ó perfeições! Ó dons encantadores!
De quem sois? Sois de Vénus? — É mentira;
Sois de Marília, sois dos meus amores. 

Edith Martineau, 'Maid crocheting in a field, with a goat standing', n.d. 


Não, Marília, teu gesto vergonhoso



Não, Marília, teu gesto vergonhoso,
A luz dos olhos teus, serena e pura,
Teu riso, que enche as almas de ternura,
Agora meigo, agora desdenhoso;

Tua cândida mão, teu pé mimoso,
Tuas mil perfeições, crer que a ventura
As guarda para mim, fora loucura;
Nem sou digno de ti, nem sou ditoso.

E que mortal, enfim, que peito humano
Merece os braços teus, oh ninfa amada?
Que Narciso? Que herói? Que soberano?

Mas que lê minha mente iluminada!...
Céus!... Penetro o futuro... Ah, não me engano:
De Jove para o toro estás guardada.


Manuel Maria Barbosa du Bocage




Edith Martineau, 'Still life with chrysanthemums and mimosa', n.d.


"Junto do leito meus poetas dormem
— O Dante, a Bíblia, Shakespeare e Byron—
Na mesa confundidos." 

sábado, 30 de setembro de 2017

"Cismar" - Poema de Álvares de Azevedo



Émile Eisman-Semenowsky (Russian-born, French-Polish painter,
1857–1911), 'The love note' 



Cismar


Fala-me, anjo de luz! és glorioso
À minha vista na janela à noite,
Como divino alado mensageiro
Ao ebrioso olhar dos froixos olhos
Do homem que se ajoelha para vê-lo,
Quando resvala em preguiçosas nuvens
Ou navega no seio do ar da noite.
Romeu

Ai! Quando de noite, sozinha à janela,
Co’a face na mão te vejo ao luar,
Por que, suspirando, tu sonhas donzela?
A noite vai bela,
E a vista desmaia
Ao longe na praia
Do mar!

Por quem essa lágrima orvalha-te os dedos,
Como água da chuva cheiroso jasmim?
Na cisma que anjinho te conta segredos?
Que pálidos medos?
Suave morena,
Acaso tens pena
De mim?

Donzela sombria, na brisa não sentes
A dor que um suspiro em meus lábios tremeu?
E a noite, que inspira no seio dos entes
Os sonhos ardentes,
Não diz-te que a voz
Que fala-te a sós
Sou eu?

Acorda! Não durmas da cisma no véu!
Amemos, vivamos, que amor é sonhar!
Um beijo, donzela! Não ouves?
No céu A brisa gemeu…
As vagas murmuram…
As folhas sussurram: Amar!
 

Álvares de Azevedo

[Poeta, contista, dramaturgo e ensaísta brasileiro, 1831–1852]



Émile Eisman Semenowsky, 'Girl Holding a Dove', 1882


"O corpo é o templo onde a natureza pede para ser reverenciada."

(Donatien Alphonse François, Marquês de Sade)
 
 

quarta-feira, 6 de setembro de 2017

"Lembranças de Morrer" - Poema de Álvares de Azevedo


Silvestro Lega (Italian realist painter, 1826-1895), Giuseppe Mazzini Dying, 1873
 
 

Lembranças de Morrer


Quando em meu peito rebentar-se a fibra,
Que o espírito enlaça à dor vivente,
Não derramem por mim nem uma lágrima
Em pálpebra demente.

E nem desfolhem na matéria impura
A flor do vale que adormece ao vento:
Não quero que uma nota de alegria
Se cale por meu triste passamento.

Eu deixo a vida como deixa o tédio
Do deserto, o poento caminheiro
- Como as horas de um longo pesadelo
Que se desfaz ao dobre de um sineiro;

Como o desterro de minh’alma errante,
Onde o fogo insensato a consumia:
Só levo uma saudade – é desses tempos
Que amorosa ilusão embelecia.

Só levo uma saudade – é dessas sombras
Que eu sentia velar nas noites minhas …
De ti, ó minha mãe! pobre coitada
Que por minha tristeza te definhas!

De meu pai… de meus únicos amigos,
Poucos – bem poucos – e que não zombavam
Quando, em noites de febre endoudecido,
Minhas pálidas crenças duvidavam.

Se uma lágrima as pálpebras me inunda,
Se um suspiro nos seios treme ainda,
É pela virgem que sonhei… que nunca
Aos lábios me encostou a face linda!

Só tu à mocidade sonhadora
Do pálido poeta destes flores…
Se viveu, foi por ti! e de esperança
De na vida gozar dos teus amores.

Beijarei a verdade santa e nua,
Verei cristalizar-se o sonho amigo …
Ó minha virgem dos errantes sonhos,
Filha do céu, eu vou amar contigo!

Descansem o meu leito solitário
Na floresta dos homens esquecida,
À sombra de uma cruz, e escrevam nela:
Foi poeta – sonhou – e amou na vida.

Sombras do vale, noites da montanha
Que minha alma cantou e amava tanto,
Protegei o meu corpo abandonado,
E no silêncio derramai-lhe canto!

Mas quando preludia ave d’aurora
E quando à meia-noite o céu repousa,
Arvoredos do bosque, abri os ramos.
Deixai a lua pratear-me a lousa!


 

 
 Giuseppe Mazzini (1805-1872), fundador 
do movimento Jovem Itália.
 
 
Giuseppe Mazzini (Génova, 22 de junho de 1805 — Pisa, 10 de março de 1872) foi um político, maçom e revolucionário da unificação italiana

A Jovem Itália foi uma associação política, fundada em Marselha em julho de 1831 por Giuseppe Mazzini, cujo programa foi publicado num periódico ao qual foi dado o mesmo nome. Seu objetivo era transformar a Itália numa república democrática unitária, mediante a promoção de uma revolução geral nos Estados reacionários italianos e nas terras ocupadas pelo Império Austríaco. 

Mazzini, antigo membro da carbonária italiana fundou a Jovem Itália, ao constatar a ineficácia prática daquela sociedade secreta para seus objetivos políticos. Suas palavras de ordem eram: direito dos homens, progresso, igualdade jurídica e fraternidade. A sociedade organizou células revolucionárias em toda a Península Itálica.

Aqueles que faziam parte dessa associação usavam como pseudónimo o nome de personagens da Idade Média italiana. Nos anos de 1833 e 1834, durante o período de processos no Piemonte e o fracasso da expedição a Saboia, nas quais vários de seus membros foram presos e executados pela polícia do Reino da Sardenha, a associação desapareceu por quatro anos, reaparecendo somente em 1838 na Inglaterra.

Outras revoluções promovidas na Sicília, Abruzzi, Toscana, Reino Lombardo-Vêneto, Romagna (1841 e 1845), Bolonha (1843) também falharam.

Dez anos depois do reaparecimento, em 5 de maio de 1848, a associação foi definitivamente abandonada por Mazzini que fundou, em seu lugar, a Associação Nacional Italiana. A Jovem Itália começou, em seguida, a fazer parte de uma outra associação política mazziniana, a Jovem Europa, juntamente a outras associações similares como a Jovem Alemanha, a Jovem Polónia e a Jovem França.

Também teve curta duração da República Romana de 1848-1849, a qual foi esmagada por um exército francês chamado a ajudar o papa Pio IX (que inicialmente era citado por Mazzini como o mais provável paladino de uma unificação liberal da Itália).

Os movimentos de Mazzini foram basicamente destruídos depois de uma última revolta fracassada contra o Império Austríaco em Milão em 1853, destruindo a esperança de uma Itália democrática em favor da reacionária monarquia dos Saboia, que conseguiu a unificação nacional alguns anos depois.

Entre os membros da Jovem Itália, figuravam Giuseppe Garibaldi e Luigi Rossetti. (daqui)

 

quarta-feira, 30 de agosto de 2017

"Por que mentias?" - Poema de Álvares de Azevedo


Joseph Fagnani (Italian painter, 1819–1873), Polyhymnia, 1869.



Por que mentias?


Por que mentias leviana e bela?
Se minha face pálida sentias
Queimada pela febre, e minha vida
Tu vias desmaiar, por que mentias?

Acordei da ilusão, a sós morrendo
Sinto na mocidade as agonias.
Por tua causa desespero e morro…
Leviana sem dó, por que mentias?

Sabe Deus se te amei! Sabem as noites
Essa dor que alentei, que tu nutrias!
Sabe esse pobre coração que treme
Que a esperança perdeu por que mentias!

Vê minha palidez – a febre lenta
Esse fogo das pálpebras sombrias…
Pousa a mão no meu peito!
Eu morro! Eu morro!
Leviana sem dó, por que mentias?