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sexta-feira, 25 de setembro de 2026

Onde está o Gato? - Poema de Luísa Ducla Soares



Shawn Braley
(American illustrator, b. 1972), 'Magic carpet ride'
 

Onde está o Gato?


Os burros tocam viola.
Os ratos varrem a rua,
As meninas usam barba,
Eu vivo sempre na lua.

Os carapaus têm lã,
As galinhas têm espinhas,
As vacas coca-cola
E chocolates as vinhas.

Os gatos calçam sapatos,
Olha a trança das serpentes,
As moscas falam francês,
Os galos lavam os dentes.

As casas voam no ar,
As nuvens dormem no chão,
Os olhos fazem chichi
E crescem rosas na mão.

Miúdo que estás a ouvir-me,
Pois tens orelhas de rã,
Diz lá o que está errado
Ou faço queixa à mamã.


Luísa Ducla Soares, in Conto estrelas em ti;
17 poetas escrevem para a infância.



'Conto estrelas em ti' - 17 poetas escrevem para a infância.
Coordenação: José António Gomes; Ilustração: 
João Caetano 
Porto: Campo das Letras, 2000.

 

SINOPSE

Conto estrelas em ti
dezassete vozes,
dezassete modos
de escrever poesia
para crianças e jovens.

Autores: Albano Martins, Álvaro Magalhães, Ana Saldanha, António Mota, António Torrado, Fernando Miguel Bernardes, Francisco Duarte Mangas, João Pedro Mésseder, Luísa Dacosta, Luísa Ducla Soares, Maria Alberta Menéres, Mário Castrim, Papiniano Carlos, Raul Malaquias Marques, Teresa Guedes, Vergílio Alberto Vieira e Violeta Figueiredo.
Coordenação: José António Gomes. 
 
 
 Ilustrações de Shawn Braley

Shawn Braley, 'Watchful'
 
 

Shawn Braley, 'Lean on me'
 
 

Shawn Braley, 'Best Friends'
 
 

Shawn Braley, 'Osmosi'
 
 

Shawn Braley, 'Thinking Outside the Box'


"A inteligência no gato é menosprezada."

"Intelligence in the cat is underrated."

Louis Wain,
in "The Quotable Feline"‎, de Jim Dratfield - Chronicle Books Llc, 1997.


domingo, 6 de outubro de 2019

"Anoitecer em Outubro" - Poema de Ferreira Gullar



Théophile Alexandre Steinlen
(Swiss-born French Art Nouveau painter
and printmaker, 1859–1923), Siamese Cat and her kitten, 1920


Anoitecer em Outubro


A noite cai, chove manso lá fora
meu gato dorme
enrodilhado
na cadeira

Num dia qualquer
não existirá mais
nenhum de nós dois
para ouvir
nesta sala
a chuva que eventualmente caia
sobre as calçadas da rua Duvivier


Ferreira Gullar,
Em alguma parte alguma


 
Louis Wain (English artist, 1860–1939), Blue Cat, 1932


Perde o gato
Crónica de Carlos Drummond de Andrade
 
 
Um jornal é lido por muita gente, em muitos lugares; o que ele diz precisa interessar, senão a todos, pelo menos a um certo número de pessoas. Mas o que me brota espontaneamente da máquina, hoje, não interessa a ninguém, salvo a mim mesmo. O leitor, portanto, faça o obséquio de mudar de coluna. Trata-se de um gato.

Não é a primeira vez que o tomo para objeto de escrita. Há tempos, contei de Inácio e de sua convivência. Inácio estava na graça do crescimento, e suas atitudes faziam descobrir um encanto novo no encanto imemorial dos gatos. Mas Inácio desapareceu — e sua falta é mais importante para mim, do que as reformas do ministério.

Gatos somem no Rio de Janeiro. Dizia-se que o fenómeno se relacionava com a indústria doméstica das cuícas, localizada nos morros. Agora ouço dizer que se relaciona com a vida cara e a escassez de alimentos. À falta de uma fatia de vitela, há indivíduos que se consolam comendo carne de gato, caça tão esquiva quanto a outra.

O facto sociológico ou económico me escapa. Não é a sorte geral dos gatos que me preocupa. Concentro-me em Inácio, em seu destino não sabido. Eram duas da madrugada quando o pintor Reis Júnior, que passeia a essa hora com o seu cachimbo e o seu cão, me bateu à porta, noticioso. Em suas andanças, vira um gato cor de ouro como Inácio — cor incomum em gatos comuns — e se dispunha a ajudar-me na captura. Lá fomos sob o vento da praia, em seu encalço. E no lugar indicado, pequeno jardim fronteiro a um edifício, estava o gato. A luz não dava para identificá-lo, e ele se recusou à intimidade. Chamados afetuosos não o comoveram; tentativas de aproximação se frustaram. Ele fugia sempre, para voltar se nos via distantes. Amava. Seria iníquo apartá-lo do alvo de sua obstinada contemplação, a poucos metros. Desistimos. Se for Inácio — pensei — dentro de um ou dois dias estará de volta. Não voltou.

Um gato vive um pouco nas poltronas, no cimento ao sol, no telhado sob a lua. Vive também sobre a mesa do escritório, e o salto preciso que ele dá para atingi-la é mais do que impulso para a cultura. É o movimento civilizado de um organismo plenamente ajustado às leis físicas, e que não carece de suplemento de informação. Livros e papéis, beneficiam-se com a sua presteza austera. Mais do que a coruja, o gato é símbolo e guardião da vida intelectual.

Depois que sumiu Inácio, esses pedaços da casa se desvalorizaram. Falta-lhes a nota grave e macia de Inácio. É extraordinário como o gato “funciona” em uma casa: em silêncio, indiferente, mas adesivo e cheio de personalidade. Se se agravar a mediocridade destas crónicas, os senhores estão avisados: é falta de Inácio. Se tinham alguma coisa aproveitável era a presença de Inácio a meu lado, sua crítica muda, através dos olhos de topázio que longamente me fitavam, aprovando algum trecho feliz, ou através do sono profundo, que antecipava a reação provável dos leitores.

Poderia botar anúncio no jornal. Para quê? Ninguém está pensando em achar gatos. Se Inácio estiver vivo e não sequestrado, voltará sem explicações. É próprio do gato sair sem pedir licença, voltar sem dar satisfação. Se o roubaram, é homenagem a seu charme pessoal, misto de circunspeção e leveza; tratem-no bem, nesse caso, para justificar o roubo, e ainda porque maltratar animais é uma forma de desonestidade. Finalmente, se tiver de voltar, gostaria que o fizesse por conta própria, com suas patas; com a altivez, a serenidade e a elegância dos gatos.


Carlos Drummond de Andrade, "Perde o gato", in Cadeira de Balanço, 1966