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sábado, 19 de setembro de 2020

"Bilhete" - Poema de Miguel Torga



William McGregor Paxton (American painter and instructor, 1869–1941),
 'The white veranda', 1902


Bilhete


Nada me dês nem peças.
E não meças
O que podias dar e receber.
Fecha a própria riqueza do teu ser.

Um de nós era a mais
À lírica janela...
Olharam-se os zagais,
Mas não houve novela.

A vida assim o quis,
A vida sem amor.
Não regues a raiz
Do que não teve flor.


Miguel Torga, in 'Diário', 1943



William McGregor Paxton, 'Woman with Book', ca. 1910.


"O moralismo é a antítese da Literatura. A Literatura começa precisamente quando recusamos ser moralistas e instintivamente somos perversos. Quem escreve não pode olhar para onde toda a gente está a olhar, mas para o outro lado."

Gonçalo M. Tavares, Jornal de Letras, Artes e Ideias, 2005



William McGregor Paxton, 'The house maid', 1910


"Perturba-me ser vencido pelo tempo. Nunca percebi o passatempo."

Gonçalo M. Tavares, Diário de Notícias, 2004


sábado, 22 de outubro de 2016

"A minha Religião é o Novo" - Poema de Gonçalo M. Tavares



Franz von Lenbach (German painter, 1836–1904), 'A shepherd boy', 1860,
Oil on canvas, Schack Collection.


A minha Religião é o Novo


A minha Religião é o Novo. 
Este dia, por exemplo; o pôr do Sol, 
estas invenções habituais: o Mar. 
Ainda: 
os cisnes a Ralhar com a água. A Rapariga mais bonita que 
ontem. 
Deus como habitante único. 
Todos somos estrangeiros a esta Região, cujo único habitante 
verdadeiro é Deus (este bem podia ser o Rótulo do nosso 
Frasco). 
Dele também se podia dizer, como homenagem: 
Hóspede discreto. 
Ou mais pomposamente: 
O Enorme Hóspede discreto. 
Ou dizer ainda, para demorar Deus mais tempo nos lábios ou 
neste caso no papel, na escrita, dizer ainda, no seu epitáfio que 
nunca chega, que nunca será útil, dizer dele: 
em todo o lado é hóspede, 
e em todo o lado é Discreto. 


in "Investigações. Novalis"



Franz von Lenbach, 'Two peasant boys on a slope', 1859,
Oil on canvas, Lenbachhaus.


"Quando a alma, ao termo de mil hesitações e desenganos, cravou as raízes para sempre 
num ideal de amor e de verdade, podem calcá-la e torturá-la, podem-na ferir e ensanguentar, 
que quanto mais a calcam, mais ela penetra no seio ardente que deseja."

Guerra Junqueiro
[Político, diplomata, jornalista, escritor e poeta português, 1850–1923]
 

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

"Ali" - Poema de Saúl Dias (Pseudónimo de Júlio Maria dos Reis Pereira)


Alicia Czechowski (American, b. 1953)



Ali


Ali sofreste. Ali amaste. 
Ali é a pedra do teu lar. 
Ali é o teu, bem teu lugar. 
Ali a praça onde jogaste 
o que o destino te quis dar. 

Ali ficou tua pegada 
impressa, firme, sobre o chão. 
Ninguém a vê sob o montão 
de cinza fria e poeirada? 
Distingue-a, sim, teu coração. 

Podem talvez o vento, a neve, 
roubar a flor que tu criaste? 
Ali sofreste. Ali amaste. 
Ali sentiste a vida breve. 
Ali sorriste. Ali choraste. 


Saúl Dias, in "Sangue"

[Júlio Maria dos Reis Pereira (ou Júlio, como artista plástico e Saúl Dias como poeta – Vila do Conde, 1902 — 1983), foi um pintor, ilustrador e poeta português.
Pertence à segunda geração de pintores modernistas portugueses e foi autor de uma obra multifacetada que se divide entre as artes plásticas e a escrita, tendo sido um dos mais importantes colaboradores da revista Presença.]


Alicia Czechowski, Salt Marsh


Alicia Czechowski, Lara as Flora, oil on linen, 28x22 inches


Alicia Czechowski, Insomnia, oil on linen,  36x36


Alicia Czechowski, Lady


Alicia Czechowski, Pink and red ruffled dress


Alicia Czechowski, Bar Interior painting
 

"Quem não gosta de estar sozinho é uma péssima companhia."

Gonçalo M. Tavares
Fonte - Diário de Notícias (2004)

[Gonçalo Manuel Tavares (Luanda, Agosto de 1970), mais conhecido na forma Gonçalo M. Tavares, é um escritor e professor universitário português, cuja primeira obra foi publicada em 2001.]


Leonard Cohen - I'm Your Man 



sábado, 13 de abril de 2013

"A Grande Inteligência é Sobreviver" - Poema de Gonçalo M. Tavares


Tartaruga das Galápagos 


A Grande Inteligência é Sobreviver


A grande Inteligência é sobreviver.
As tartarugas portanto não são teimosas nem lentas, dominam;
SIM, a ciência.
Toda a tecnologia é quase inútil e estúpida,
porque a artesanal tartaruga,
a espontânea TARTARUGA,
permanece sobre a terra mais anos que o homem.
Portanto,
como a grande inteligência é sobreviver,
a tartaruga é Filósofa e Laboratório,
e o Homem que já foi Rei da criação
não passa, afinal, de um crustáceo FALSO,
um lavagante pedante;
um animal de cabeça dura. Ponto.


Gonçalo M. Tavares,
in "Investigações Novalis"
 
 

Gonçalo M. Tavares
 
[Escritor, poeta e professor universitário português, n. 1970] 
 
 * * *

Tartarugas das Galápagos
Tartaruga das Galápagos


Exemplar da subespécie G. n. chathamensis


Exemplar da subespécie G. n. porteri 


O último exemplar da subespécie C. n. abingdoni, chamado Jorge Solitário.
 Morreu em 2012, extinguindo consigo a subespécie.


"Não gostar de uma coisa, é sinónimo de passar para outra. Isto não me vai dar nada: passo. Não tenho prazer em dizer mal de alguém, de um livro. A minha ideia é fazer alguma coisa com aquilo que é bom."
 

Gonçalo M. Tavares,  Mil Folhas, Público (2005)