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terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

"O teu amor, bem sei" - Poema de António Franco Alexandre



Luděk Marold (Czech painter and illustrator, 1865–1898),
'A kiss under the parasol', 1895. 



O teu amor, bem sei


o teu amor, bem sei, é uma palavra musical,
espalha-se por todos nós com a mesma ignorância,
o mesmo ar alheio com que fazes girar, suponho, os epiciclos;
ergues os ombros e dizes, hoje, amanhã, nunca mais,
surpreende o vigor, a plenitude
das coxas masculinas, habituadas ao cansaço,
separamo-nos, à procura de sinais mais fixos,
e o circuito das chamas recomeça.

é um país subtil, o olho franco das mulheres,
há nos passeios garrafas com leite apenas cinzento,
os teus pais disseram: o melhor de tudo é ser engenheiro,
morrer de casaco, com todas as pirâmides acesas,
viajar de navio de buenos aires a montevideu.
esta é a viagem que não faremos nunca, soltos
na minuciosa tarde dos lábios,
ágil pobreza.

permanentemente floresce o horizonte em colinas,
os animais olham por dentro, cheios de vazio,
como um ladrão de pouca perícia a luz
desfaz devagarmente os corpos.
ele exclama: quando me libertarás da tosca voz dormida,
para que seja
alto e altivo o coração da coisas? até quando aguardarei,
no harmonioso beliche, que a tua visão cesse?


António Franco Alexandre,
in 'As Moradas 1 & 2'. Lisboa: Assírio & Alvim, 1987;
in 'A Rosa do Mundo – 2001 poemas para o futuro', 3.ª edição,
Lisboa: Assírio & Alvim, 2001.
 
***
 

David Teniers III (Flemish painter and tapestry designer, 1638–1685),
'St Valentine receiving a rosary from the hands of the Virgin', 
1677.
('São Valentim a receber o Santo Rosário das mãos da Santíssima Virgem Maria') 



São Valentim


São Valentim é um santo reconhecido pela Igreja Católica e pelas Igrejas Orientais que dá nome ao "Dia dos Namorados" em muitos países, onde o celebram como "Dia de São Valentim". O nome refere-se a pelo menos três santos martirizados na Roma antiga.
O imperador Cláudio II, durante seu governo, proibiu a realização de casamentos em seu reino, com o objetivo de formar um grande e poderoso exército. Cláudio acreditava que os jovens, que não tivessem família, ou esposa, iam alistar-se com maior facilidade. No entanto, um bispo romano continuou a celebrar casamentos, mesmo com a proibição do imperador. Seu nome era Valentim e as cerimonias eram realizadas em segredo. A prática foi descoberta e Valentim foi preso e condenado à morte. Enquanto estava preso, muitos jovens jogavam flores e bilhetes dizendo que os jovens ainda acreditavam no amor. Entre as pessoas que jogaram mensagens ao bispo estava uma jovem cega, Artérias, filha do carcereiro, a qual conseguiu a permissão do pai para visitar Valentim. Os dois acabaram apaixonando-se e, milagrosamente, a jovem recuperou a visão. O bispo chegou a escrever uma carta de amor para a jovem com a seguinte assinatura: “de seu Valentim”, expressão ainda hoje utilizada. Valentim foi decapitado em 14 de fevereiro de 270.
Entretanto, desde 1969 sua data não é mais celebrada oficialmente pela Igreja Católica em função da precariedade de comprovações históricas que levam em questão até mesmo a sua existência. (daqui)



Cartão comemorativo do "Dia de São Valentim",
publicado em 1883 nos Estados Unidos.


Dia dos Namorados


O "Dia dos Namorados", em alguns países chamado "Dia de São Valentim" é uma data especial e comemorativa na qual se celebra a união amorosa entre casais e namorados, em alguns lugares é o dia de demonstrar afeição entre amigos. Sendo comum a troca de cartões e presentes com símbolo de coração, tais como as tradicionais caixas de bombons. 
Em Portugal e em Angola, assim como em muitos outros países, comemora-se no dia 14 de fevereiro. 
No Brasil a data é comemorada no dia 12 de junho, véspera do dia de Santo António de Lisboa, conhecido pela fama de "Santo Casamenteiro". (daqui)

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

"Tão pouco sentimento é a emoção" - Poema de António Franco Alexandre

domingo, 21 de setembro de 2014

"Saudade" - Poema de António Franco Alexandre



James Jebusa Shannon (Anglo-American artist, 1862–1923),
'White Lilies', Unknown date.



Saudade


Tal como és, assim te quero, e sempre
diverso cada dia do que foste;
cada imperfeito gesto que inventares
me fará desejar-te em outro verso.

Da arte do soneto feito mestre
no concurso sem regra da floresta,
na mais pequena folha te descubro
e no caule do vento é que te perco.

Da turva luz já retirei o emblema
que me sirva de rosto permanente
e venha o cabeçalho do poema;

e pedirei à noite que me empreste
um farrapo do manto incandescente
de que se veste, agora, para ter-te.


António Franco Alexandre
[Matemático, filósofo e poeta português, n. 1944.] 


 
James Jabusa Shannon, 'Springtime', 1896



"O amor é de todas as paixões a mais forte, pois ataca simultaneamente
a cabeça, o coração e os sentidos."


(Voltaire)
 

James Jabusa Shannon, 'Reverie' 


"Quem ama extremamente, deixa de viver em si e vive no que ama."

(Platão) 
 


James Jebusa Shannon, 'Self-portrait' 

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

"Já estou a ficar velho" - Poema de António Franco Alexandre



Steven Kenny
(American surrealist artist, born 1962),
'Man with Blinders', 2012.



Já estou a ficar velho


Já estou a ficar velho, ainda que tenha
esta figura fixa sem idade,
e me mantenha em forma o aparelho
a que todos aqui somos sujeitos:
a correria cega, a suspensão elástica,
o salto em trave e trampolim de folhas,
e outras altas artes de ginástica.
Mas eu bem sei sentir além da aparência,
e já me aconteceu, ao visitar o canto
onde o mundo se acaba em chão de areia,
ali ver o meu fim anunciado.
Quando em tranquilo pouso assim medito,
peso, e calculo tudo aquilo
que não fiz, e não tive, e não alcanço
com o rosto extravagante que me deram,
já tudo bem pensado considero
se não devo encontrar algum consolo
na ciência que conduz o feiticeiro,
e acreditar também, como me diz,
que é, esta vida, emaranhada teia
de mal fiado, mal dobado fio,
e a morte tão somente um singular casulo
de onde sairei transfigurado.
Mas não sei de que valha imaginar
um outro ser incólume e perfeito
que da minha substância seja feito
e tome, noutro mundo, o meu lugar;
se me não lembra, como serei eu?
Se for quem sou, ainda que mude a capa,
há de voltar aqui, onde hoje estou,
viver o mesmo instante, e ver
escapar-lhe das mãos o que me escapa;
veloz embora, e exímio no salto,
o que hoje perco, há de então perdê-lo,
e faltar-lhe outra vez o que me falta.


António Franco Alexandre, in 'Aracne',
Assírio & Alvim, 2004.
 


Steven Kenny, 'The Lantern', oil on linen 30 x 24 in. 
 
 

Steven Kenny, 'The Crux III' (Doves)
 

"My paintings most often focus on the human figure paired with elements found in nature. These surreal, symbolic juxtapositions are intended to work on at least two levels.

The first alludes to the fact that we are an integral part of the natural world and subject to its laws. This seems like an obvious statement until we step back and objectively assess our symbiotic relationship with each other and the Earth. Depending on your perspective, these relationships fall somewhere on the scale between harmonious and dysfunctional.

The second turns the lens around to look inward upon the stewardship of our own emotional, intellectual and psychological landscapes. The same pictorial subject matter allows me to make references to our individual journeys of self-exploration and discovery. Again, depending on who is holding the compass, we are either lost or on the right path.

At the very least, I desire to create images of beauty and mystery that allow the viewer to find their own personal significance in them." -
 Steven Kenny



Steven Kenny, 'The Shadow', 2010, oil on canvas, 30 x 30 inches 



Steven Kenny, 'Tethered Fulcrum', 2010, oil on linen, 16 x 40 inches


Coldplay - Magic (Official video) 

domingo, 14 de setembro de 2014

"Algumas horas outras" - Poema de António Franco Alexandre



Ellen Jantzen, 'Encounter'


Algumas horas outras

1 

algumas horas outras invadiram as sedas, os perfumes 
ácidos da louça, não serão recordadas, ou quanto mais 
as recordarmos, mais a ignorância deitará 
os corpos no tapume de vidros, para que em torno 
se conciliem as vontades singulares, as 
particularidades de um impetuoso alarme. 
ou seja: deixarão as esplanadas baças, os garfos 
encolhidos, para que um amplo destino os atravesse. 
considerem, por exemplo, o paquete que ao meio-dia 
igere as minuciosas palmeiras sobre a 
alta insensatez dos aquedutos. ou ainda 
a ilusão dos alicates ao lado da água, e o seu reflexo 
do outro lado das vidraças: azul, não é? 
assim estas algumas outras horas: como esquecê-las? 

2 

e ainda o sossego das interrogações não se deixa 
facilmente esborratar, ou a qualidade 
das tintas, assim no meio do lençol, 
o impediu até agora. algumas 
são as horas do vasto almofadão translúcido 
onde as janelas germinaram, e são 
as solenes sardinheiras ardidas 
na boca do início. soçobrando a música 
produzimos os locais inamovíveis, as persianas 
corridas sobre o papel meticuloso das suas 
amenas enseadas. não olhes, 
outras algumas horas que a madeira se parte 
e os carinhosos garfos se encolhem na gengiva. 

3 

quem nelas arde mastigando o musgo 
fluvial, ou as longas cortinas inundadas, 
dificilmente evitará outras incertas mesas 
onde dorme. observem como estão cobertas 
pela (metáfora da) nuvem sobre o fundo 
de actos responsáveis, gracejos gratuitos, animais de 
pequeno porte. eles mesmos 
se esquecerão, no solene rebordo das horas, 
de quem foram, de quem teriam sido 
as campânulas inamovíveis, e essas feridas 
precocemente supuradas. então outros se cobrem 
com (a metáfora das) sedas mais cruéis, 
algumas outras horas que adivinham em garfos 
naufragados, o silêncio, a secura. 

4 

observem como rapidamente esquecem, mudando de cor 
a cada rotação das ventoinhas. e ainda 
imagem é pouco fiel, dada a distância 
e o sucessivo afastamento das delicadas 
membranas, observem como 
se dividem, no instante anterior à queda. 
não se encontra explicado o sombrio abcesso 
de cólera, ou de timidez, quando as nódoas estalam 
ao frio pouco vulgar nesta estação do mês. 
ou será isto, e nada mais, o que esquecemos? 


António Franco Alexandre,
in 'Os Objectos Principais', 1979
 

António Franco Alexandre

António Franco Alexandre, poeta português, nasceu no ano de 1944, em Viseu. Em 1962, foi para Toulouse, onde fez os estudos na área da Matemática. Em 1969, os bons resultados obtidos permitiram-lhe a obtenção de uma bolsa para continuar os estudos em Harvard, nos EUA. Contudo, em 1971, voltou de novo para França, agora para Paris, onde se doutorou em Matemática. Quatro anos mais tarde, o apelo do seu país "obriga-o" a regressar e, em 1975, é convidado para professor de Filosofia na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. 
Embora só nos anos 70, a sua obra se veja projetada no mundo literário, António Franco Alexandre publicou o seu primeiro livro intitulado A Distância, em 1969. 
De postura discreta, contrariando os "assédios" para grandes manifestações públicas, não mais deixou estagnar a sua criação literária. 
Acreditando que "se a poesia deve algo à música, não é composição, mas a arte do improviso", deu corpo e alma a diversos títulos, que permitem, hoje, considerá-lo um dos expoentes da poesia portuguesa contemporânea, sendo considerado por Óscar Lopes a melhor revelação poética dos anos oitenta (cf. Cifras do Tempo, Lisboa, 1990, p. 325). 
Em 1999, foi-lhe atribuído o prémio de poesia da Associação Portuguesa de Escritores (APE), com a publicação do livro Quatro Caprichos (Prémio Luís Miguel Nava). 
Autor de uma vasta obra, reflexo de um manifesto interesse pelas áreas da Filosofia, Ética e Estética da Literatura e da Música, assina os títulos seguintes: A Distância (1969), Visitação (1974), Dos Jogos de inverno (1974), Sem Palavras (1974), Nem Coisas (1974), Os Objetos Principais (1979), A Pequena Face (1983), As Moradas 1 e 2 (1987), Oásis (1992), Poemas (1996), Quatro Caprichos (1999), Uma Fábula (2001) e Duende (2002), vencedor do Prémio D. Dinis para poesia em 2003 e do Prémio Correntes d'Escrita em 2005.

António Franco Alexandre. In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2014. 


Galeria de Ellen Jantzen
Ellen Jantzen, 'Path of Plenty', 2012



In “Disturbing the Spirits” 

«I am using imagery to convey my feelings about the state of nature, the nature of trees, and how to express their connection to past, present and future. By obscuring a portion of the image through a veil, I strive to heighten the remaining reality through discovery and reflection.» - Ellen Jantzen


Ellen Jantzen, 'Convergence'


In “Transplanting Reality; Transforming Nature”

«The natural world can be experienced on many levels, from the reality of a mountain to the ethereal essence of living beings. Trees, specifically, have always played a major role in my appreciation of nature. Trees produce the oxygen needed for our breath; we provide carbon dioxide for the trees…. a lovely symbiosis.» - Ellen Jantzen


Ellen Jantzen, 'Extravagance'


«Forests and trees have also played a prominent role in many folktales and legends and have been given deep and sacred meanings. They are seen as powerful symbols of growth, decay and resurrection. But, with the depletion of forests and the resulting impact on humankind, how we respond will determine our future.» - Ellen Jantzen


Ellen Jantzen, 'Imagination'


«In this series I am addressing my concerns by transplanting replica trees into the natural world. These trees take the form of a constructed likeness or of a ghostly apparition. One is artificial, the other a spirit form; both represent the transformation of nature.» - Ellen Jantzen


Ellen Jantzen, 'Attaining Shadow', 2012


Jantzen Ellen, 'Taking Precautions', 2012


Jantzen Ellen, 'Safeguarding Poppies', 2012


Jantzen Ellen, 'In the Field of Gold', 2012


Jantzen Ellen, 'Losing the Way', 2012


Ellen Jantzen, 'Incarnation', 2012