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sábado, 4 de abril de 2026

"Horizonte" - Poema de Fernando Pessoa

 


Jaume Morera i Galícia (Pintor paisatgista català, 1854-1927), Esperando la marea,
Playa de Arrigunaga
, 1904. Museu d'Art Jaume Morera.
 
 

Horizonte


Ó mar anterior a nós, teus medos
Tinham coral e praias e arvoredos.
Desvendadas a noite e a cerração,
As tormentas passadas e o mistério,
Abria em flor o Longe, e o Sul sidério
Esplendia sobre as naus da iniciação.

Linha severa da longínqua costa —
Quando a nau se aproxima ergue-se a encosta
Em árvores onde o Longe nada tinha;
Mais perto, abre-se a terra em sons e cores:
E, no desembarcar, há aves, flores,
Onde era só, de longe a abstrata linha.

O sonho é ver as formas invisíveis
Da distância imprecisa, e, com sensíveis
Movimentos da esperança e da vontade,
Buscar na linha fria do horizonte
A árvore, a praia, a flor, a ave, a fonte —
Os beijos merecidos da Verdade.

s.d.

Fernando Pessoa, Mensagem
Lisboa: Parceria António Maria Pereira, 1934 
(Lisboa: Ática, 10ª ed. 1972). - 58.


 
Jaume Morera i Galícia, Playa con sol poniente, s.d.
Óleo sobre lienzo, 86 x 102 cm. Colección particular.
 

"Para o desejo do meu coração, o mar é uma gota."


Adélia Prado
, Trecho do poema "Desenredo"
do livro "O Coração Disparado."

terça-feira, 18 de março de 2025

"Cantiga" - Poema de Gilberto Mendonça Teles


 
Claude Monet (French painter and founder of impressionist painting, 1840–1926),
 Belle-Ile, Rain Effect, 1886
, Bridgestone Museum of Art.
 

Cantiga


Pergunto ao mar por que foge
e ao vento por que não vem.
O tempo levou a vida
para outra praia no além.
Há tanto pássaro voando,
meu sonho voou também.
Pousou nas cristas das vagas,
tornou-se espuma salgada
e veio dar nesta praia
onde não há mais ninguém.

E o mar que foge retorna,
retorna o vento também.
Só a vida que foi não volta,
só o tempo que foi não vem.


 Gilberto Mendonça Teles

in "Hora aberta – Poemas reunidos".
4ª ed., aumentada. Petrópolis, RJ: Vozes, 2003.


domingo, 16 de março de 2025

"Veneza" - Poema de Alfred de Musset


Sir Arthur Streeton (Australian landscape painter and a leading member
 of the Heidelberg School, 1867-1943), The Doge's Palace, Venice, 1908.


Veneza


Em Veneza a vermelha,
Nenhum barco aparelha;
Nem pescador, no mar,
Se vê pescar.

Só, sobre o cais sentado,
Vela o leão do Estado,
Que ao horizonte adianta
A brônzea planta.

Ao seu redor, qual bando
De cisnes repousando,
Alinham, numerosas,
Naves airosas.

Dormem na água, que fuma,
E cruzam sob a bruma,
Em leves convulsões,
Os pavilhões.

A Lua, que perpassa,
Desmaia a fronte baça,
De uma nuvem estrelada
Meio velada…

— Como de Santa Cruz
A madre o seu capuz,
Sobre o rosto descai,
Que lho retrai.

E os palácios vetustos,
Os pórticos augustos,
Dos grande as escadas
Ornamentadas,

Mais as ruas, as pontes,
As estátuas e as fontes,
E o golfo, que o vento
Faz turbulento,

São mudos!… Só os guardas,
De longas alabardas,
Vão e vêm nos portais
Dos arsenais.

— Ah! quanta bela, agora,
Moço gentil que adora
Espera na janela
Que venha vê-la…

Outras ao espelho, entanto,
A mascarilha e o manto,
Para o baile a que vão,
Ajeitarão.

No leito perfumado,
O amante idolatrado
Vanina abraça ainda
Dormindo, linda.

Narciso, a louca altiva,
Na gôndola, lasciva,
Aturde-se na orgia
Até ser dia.

Mas quem, na Itália, um pouco,
Oh Céus! não tem de louco?
Quem não dá ao amor
Da vida a flor?

No palácio do doge,
Conte a hora que foge
O relógio cansado,
Em tom magoado…

Deixemo-lo, formosa!
E em tua boca sequiosa
Contemos beijos dados…
Ou perdoados.

Contemos teus encantos
E mais os doces prantos
Das horas de langor
Do nosso amor!


Alfred de Musset
Tradução de Pedro da Silveira, in "Mesa de Amigos"
Angra do Heroísmo, 1986.


 
Mesa de Amigos: versões de poesia
Edição/reimpressão: 04-2002
Editor: Assírio & Alvim
Páginas: 288 


SINOPSE


Pedro da Silveira, açoreano, erudito, poeta, de há muito que tem vindo a traduzir poemas e poetas da sua afinidade eletiva. Juntou há uns anos essas traduções num livro a que chamou "Mesa de Amigos", que foi editado nos Açores. Essa "Mesa", um pouco mais alargada, chega-nos agora de novo, pela mão da Assírio & Alvim. São poetas de várias línguas, tempos e lugares, que os autor "estima" e considera "merecedores de geral estima".

Nesta notável mesa temos então versões (muito boas) dos chineses Fu Hsiuan, Li Tai Po, Tu Fu, dos italianos Leopardi, Bruno Barilli, Saba e Ungaretti, dos franceses Baudelaire, Verlaine, Valéry Larbaud, Jules Laforgue, dos castelhanos Adolfo Bécquer, Ruben Darío, Manuel Machado, dos sul-americanos Pedro Salinas e Cernuda, do catalão Salvador Espriu, dos galegos Rosalía de Castro ou Fermin Bouza Brey, entre outros.

"Numa altura em que talvez se sobrevalorize demasiado ostensivamente o ouro local, há que louvar a humildade com que Pedro da Silveira nos convida a partilhar joias de outras latitudes. Em suma, um livro para aqueles a quem interessa, de facto, a poesia - e não os discursos, modas, estratégias e instituições que dela se pretendem apropriar: ‘Todos estamos sós no coração da terra/ trespassado por um raio de sol;/ e de repente anoitece" (Salvatore Quasimodo, ‘E de repente Anoitece’, pág. 221)." - Manuel de Freitas, Expresso (daqui)
 

Sir Arthur Streeton, The Doge's Palace, Venice, 1908.


"Toda vez que eu descrever uma cidade, estou dizendo algo sobre Veneza."


Italo Calvino, em "As Cidades Invisíveis", 1972.

[Jornalista, contista e romancista italiano, Italo Calvino nasceu a 15 de outubro de 1923 em Santiago de Las Vegas, na ilha de Cuba. Ainda criança acompanhou os pais na sua mudança para São Remo, em Itália.
Em 1940, e em consequência da deflagração da Segunda Guerra Mundial, Calvino foi recrutado para a Mocidade Fascista, mas desertou pouco tempo depois, refugiando-se nas montanhas da Ligúria, onde se juntou à Resistência Comunista.
Pôde, no entanto, ingressar no curso de Literatura da Universidade Turim em 1941 mas, e com uma passagem pela Real Universidade de Florença, só conseguiu licenciar-se após a guerra, em 1947. Nesse mesmo ano publicou o seu primeiro romance, com o título Il sentiero dei nidi di ragno (1947). A obra remetia para as suas experiências enquanto ativo da resistência italiana e foi bem acolhida pela crítica, sobretudo devido aos trejeitos que Calvino dava à narrativa.

Em 1949 publicou uma coletânea de contos, também dedicados à problemática de guerra, que haviam já aparecido em publicações periódicas. A colaboração de Calvino com a imprensa havia começado em meados de 1945, no jornal comunista L'Unittá, prosseguindo em títulos como Il Garibaldino, voce della Democracia e La Republica.
Após a publicação de Il visconte dimezzato (1954), o autor abandonou o tema da guerra recente, preferindo o absurdo e o fantástico ao neorrealismo com que havia pautado o seu trabalho. A obra, que inaugurava uma trilogia também composta pelos volumes Il barone rampante (1957) e Il cavaliere inesistente (1959), e que causou fortes polémicas no seio do Partido Comunista Italiano, contava a história de um homem mutilado por uma bala de canhão durante a tomada de Constantinopla.
Calvino procurava assim demonstrar o seu desagrado perante o partido, que abandonou após os acontecimentos da primavera de Praga. Sentiu que o seu esforço literário era mais necessário na imprensa, pelo que se passou a concentrar mais na carreira como jornalista do que como romancista.
Em 1959 viajou pelos Estados Unidos da América, formulando um contraste com a sua visita à União Soviética em 1952. De regresso, começou a editar a revista Il Menabó Di Letteratura, em colaboração com Elio Vittorini. Mantendo sempre um olhar crítico sobre a sociedade, entrelaçada na consciência individual e na inércia dos eventos históricos, publicou Marcovalco (1963), uma coletânea de fábulas em que criticava o modo de vida das cidades, destrutivo e vazio. Marcovalco era apresentado como um homem de família sonhador que, permanecendo na sua cidade durante o mês de agosto, quando todos os outros habitantes partiram para férias, vê o seu descanso ser interrrompido por uma equipa de televisão que o quer entrevistar, precisamente por ter sido o único a renunciar às estâncias balneares.
Em 1972 publicou Le Cittá Invisibli, romance em que o lendário explorador Marco Polo se dedicava a contar histórias de cidades fictícias para o divertimento de Kublai Khan, e que valeu ao autor o conceituado Prémio Felrinelli. A sua obra mais conhecida, Se una notte d'inverno un viaggiatore (Se numa Noite de Inverno um Viajante) apareceu em 1979. Palomar (1983), descrevia as contemplações filosóficas de um homem aparentemente simples.
Italo Calvino faleceu a 19 de setembro de 1985, em Siena, vítima de uma hemorragia cerebral.]
(daqui)
 
 
Sir Arthur Streeton, Evening, Venice, 1908.
 

"A gôndola negra, magra, e o modo em que se move, leve, sem qualquer ruído. Há algo estranho, uma beleza de sonho, parte integrante da cidade da ociosidade, do amor e da música."


[Romancista e poeta alemão nascido em 1877, na pequena cidade de Calw, na orla da Floresta Negra e no estado de Wüttenberg, e falecido a 9 de agosto de 1962, durante o sono, vítima de uma hemorragia cerebral.
Filho de Johannes Hesse, cidadão russo nascido em Weissenstein, na Estónia e de Marie Gundert, nascida em Talatscheri, na Índia, e ela própria filha de um missionário Pietista perito em Indologia, Hermann Gundert, também editor religioso.
Como os pais depositavam esperanças no facto de Hermann Hesse poder vir a seguir a tradição familiar em teologia, já que eles mesmos haviam servido como missionários na Índia, enviaram-no para o seminário protestante de Maulbronn, em 1891, mas acabou por ser expulso. Passando a uma escola secular, o jovem Hermann tornou a revelar inadaptação, pelo que abandonou os seus estudos.
Hermann Hesse começou depois a trabalhar, primeiro como aprendiz de relojoeiro, como empregado de balcão numa livraria, como mecânico, e depois como livreiro em Tübingen, onde se teria juntado a uma tertúlia literária, "Le Petit Cénacle", que teria, não só grandemente fomentado a voracidade de leitura em Hesse, como também determinado a sua vocação para a escrita. Assim, em 1899, Hermann Hesse publicou os seus primeiros trabalhos, Romantischer Lieder e Eine Stunde Hinter Mitternacht, volumes de poesia de juventude.
Depois da aparição de Peter Camenzind, em 1904, Hesse tornou-se escritor a tempo inteiro. Na obra, refletindo o ideal de Jean-Jacques Rousseau do regresso à Natureza, o protagonista resolve abandonar a grande cidade para viver como São Francisco de Assis. O livro obteve grande aceitação por parte do público.
Em 1911, e durante quatro meses, Hermann Hesse visitou a Índia, que o teria desiludido mas, em contrapartida, constituído uma motivação no estudo das religiões orientais. No ano seguinte, o escritor e a sua família assentaram arraiais na Suíça. Nesse período, não só a sua esposa começou a dar sinais de instabilidade mental, como um dos seus filhos adoeceu gravemente. No romance Rosshalde (1914), o autor explora a questão do casamento ser ou não conveniente para os artistas, fazendo, no fundo, uma introspeção dos seus problemas pessoais.
Durante a Primeira Guerra Mundial, Hesse demonstrou ser desfavorável ao militarismo e ao nacionalismo que se faziam sentir na altura e, da sua residência na Suíça, procurou defender os interesses e a melhoria das condições dos prisioneiros de guerra, o que lhe valeu ser considerado pelos seus compatriotas como traidor.
Finda a guerra, Hesse publicou o seu primeiro grande romance de sucesso, Demian (1919). A obra, de carácter faustiano, refletia o crescente interesse do escritor pela psicanálise de Carl Jung, e foi louvada por Thomas Mann. Assinada nas primeiras edições com o nome do seu narrador, Emil Sinclair, Hesse acabaria por confessar a sua autoria.
Deixando a sua família em 1919, Hermann Hesse mudou-se para o Sul da Suíça, para Montagnola, onde se dedicou à escrita de Siddharta (1922), romance largamente influenciado pelas culturas hindu e chinesa e que, recriando a fase inicial da vida de Buda, nos conta a vida de um filho de um Bramane que se revolta contra os ensinamentos e tradições do seu pai, até poder eventualmente encontrar a iluminação espiritual. A obra, traduzida para a língua inglesa nos anos 50, marcou definitivamente a geração Beat norte-americana.
1919 foi também o ano em que Hesse travou conhecimento com Ruth Wenger, filha da escritora suíça Lisa Wenger e bastante mais nova que o autor. O escritor renunciou à cidadania alemã, em 1923, optando pela suíça. Divorciando-se da sua primeira esposa, Maria Bernoulli, casou com Ruth Wenger em 1924, tendo o casamento durado apenas alguns meses. Dessa experiência teria resultado uma das suas obras mais importantes, Der Steppenwolf (1927). No romance, o protagonista Harry Haller confronta a sua crise de meia-idade com a escolha entre a vida da ação ou da contemplação, numa dualidade que acaba por caracterizar toda a estrutura da obra.
Em 1931 voltou a casar, desta feita com Ninon Doldin, de origem judaica. Com apenas catorze anos, havia enviado, em 1909, uma carta a Hermann Hesse, e desde então a correspondência entre ambos não mais cessou. Conhecendo-se acidentalmente em 1926, foram viver juntos para a Casa Bodmer, estando Ninon separada do pintor B. F. Doldin, e a existência de Hesse ter-se-à tornado mais serena.
Durante o regime Nacional-Socialista, os livros de Hermann Hesse continuaram a ser publicados, tendo sido protegidos por uma circular secreta de Joseph Goebbels em 1937. Quando escreveu para o jornal pró-regime Frankfürter Zeitung, os refugiados judeus em França acusaram-no de apoiar os Nazis. Embora Hesse nunca se tivesse abertamente oposto ao regime Nacional-Socialista, procurou auxiliar os refugiados políticos. Em 1943 foi finalmente publicada a obra Das Glasperlernspiel, na qual Hesse tinha começado a trabalhar em 1931. Tendo enviado o manuscrito, em 1942, para Berlin, foi-lhe recusada a edição e o autor foi colocado na Lista Negra Nacional-Socialista. Não obstante, a obra valer-lhe-ia o prémio Nobel em 1946.
Após a atribuição do famoso galardão, Hesse não publicou mais nenhuma obra de calibre. Entre 1945 e 1962 escreveria cerca de meia centena de poemas e trinta e dois artigos para os jornais suíços.]
(daqui)
 

Sir Arthur StreetonCanal Scene, Venice, 1926. 


"Se eu tivesse que encontrar uma palavra que substituísse 'música', 
eu só conseguiria pensar em Veneza."

Friedrich Nietzsche


[Um dos filósofos mais emblemáticos dos finais do século XIX, nasceu em 1844, em Röcken, e morreu em 1900, atacado pela demência, em Weimar. As suas reflexões caracterizam-se por uma violenta crítica aos valores da cultura ocidental.
Com efeito, para Nietzsche, a decadência do Ocidente começou quando o discurso filosófico, depois de Sócrates, veio afastar a síntese que se realizara na tragédia grega, substituindo a harmonia apolíneo/dionisíaco (representando a ambivalência da essência humana, dividida entre a desmesura passional e a medida racional) por um discurso das aparências, enganador e ilusório, que transforma a realidade autêntica em metáforas ocas.
Esse processo de desvitalização encontrará o apogeu com a afirmação da moral judaico-cristã, «moral de escravos», reflexo de uma maquinação hipócrita de indivíduos débeis, ignóbeis e vis numa tentativa de enfraquecer e dominar pela astúcia os valorosos.
A crítica nietzschiana acaba mesmo por abranger os fundamentos da razão, considerando que o erro e o devaneio estão na base dos processos cognitivos e que a fé na ciência, como qualquer fé em verdades absolutas, não passa de uma quimera.
Não se limitando, porém, à denúncia de um estado de espírito dominado pela submissão a valores ancestrais, impotentes para criar algo de novo e propagando a obediência e a servidão como princípios supremos, ao proclamar a «morte de Deus» e a abolição de qualquer tutela, Nietzsche passa ao anúncio de uma nova era centrada na exaltação da vontade de poder, apanágio do homem verdadeiramente livre, o super-homem, que não conhece outros ditames além dos que ele próprio fixa. No entanto, o super-homem não é unicamente dominado pelo egoísmo, cabendo-lhe dirigir a «massa», anónima e ignorante, para um estádio superior em que os valores vitais, a alegria e a espontaneidade permitam a reafirmação do instinto criador da humanidade.
Pensador paradoxal, associa ao super-homem a consciência do eterno retorno, procurando, talvez, exprimir o aspeto cíclico dos movimentos históricos ou a impossibilidade de, alguma vez, ser atingido um grau supremo de perfeição no devir do Homem.
Expressando-se de forma aforística e mantendo todas as suas afirmações no limiar da inteligibilidade imediata, Nietzsche foi um filósofo ímpar, tão inovador como polémico: ao exaltar, em detrimento da razão, a faculdade da vontade como núcleo da essência humana e verdadeiro motor do devir e colocando-se numa posição de profundo ceticismo face aos fundamentos da ética e da moral, abalou profundamente os pilares do racionalismo, sendo por isso considerado como um dos «filósofos da suspeita» (ao lado de Marx e Freud), na esteira da «crise da razão» que marcou profundamente a filosofia no século XX.

Entre as suas obras são de destacar:

A Origem da Tragédia (1872), Humano, Demasiado Humano (1878), Aurora (1881), A Gaia Ciência (1882), Assim Falou Zaratustra (1883-85), Para além do Bem e do Mal (1886), A Vontade de Poder (1886, editado em 1906), A Genealogia da Moral (1887), Ecce Homo (1888), O Anticristo (1888).]
(daqui)
 

terça-feira, 24 de setembro de 2024

"É ela! É ela!" - Poema de Álvares de Azevedo

 

Berthe Morisot (French painter, 1841–1895), Peasant Hanging out the Washing, 1881.
 


É ela! É ela! 

 
 É ela! é ela! — murmurei tremendo,
e o eco ao longe murmurou — é ela!
Eu a vi... minha fada aérea e pura —
a minha lavadeira na janela.

Dessas águas furtadas onde eu moro
eu a vejo estendendo no telhado
os vestidos de chita, as saias brancas;
eu a vejo e suspiro enamorado!

Esta noite eu ousei mais atrevido,
nas telhas que estalavam nos meus passos,
ir espiar seu venturoso sono,
vê-la mais bela de Morfeu nos braços!

Como dormia! que profundo sono!...
Tinha na mão o ferro do engomado...
Como roncava maviosa e pura!...
Quase caí na rua desmaiado!

Afastei a janela, entrei medroso...
Palpitava-lhe o seio adormecido...
Fui beijá-la... roubei do seio dela
um bilhete que estava ali metido...

Oh! decerto... (pensei) é doce página
onde a alma derramou gentis amores;
são versos dela... que amanhã decerto
ela me enviará cheios de flores...

Tremi de febre! Venturosa folha!
Quem pousasse contigo neste seio!
Como Otelo beijando a sua esposa,
eu beijei-a a tremer de devaneio...

É ela! é ela! — repeti tremendo;
mas cantou nesse instante uma coruja...
Abri cioso a página secreta...
Oh! meu Deus! era um rol de roupa suja!

Mas se Werther morreu por ver Carlota
Dando pão com manteiga às criancinhas,
Se achou-a assim tão bela... eu mais te adoro
Sonhando-te a lavar as camisinhas!

É ela! é ela, meu amor, minh'alma,
A Laura, a Beatriz que o céu revela...
É ela! é ela! — murmurei tremendo,
E o eco ao longe suspirou — é ela!
(Antologia poética, 1853), 2ª Parte.
 

sexta-feira, 26 de julho de 2024

"Evocação feminina" - Poema de Virgínia Schall



Claude Monet
 (French painter and founder of impressionist painting, 1840–1926).
Women in the Garden (Femmes au jardin), 1866, Musée d'Orsay.



Evocação feminina 
 
(Dedico este poema às poetas Bárbara Heliodora, Cecília Meireles, Henriqueta Lisboa (in memoria)
 e especialmente à poeta e amiga Stella Leonardos, através das quais evoco todas as mulheres poetas
 de todos os tempos, cujas vozes estiveram caladas por tantos séculos.)

 
Minha voz
rasga véus
cortinas
de dentro
de sempre
desfaz penumbras
e acorda
Bárbaras, Cecílias, Stellas
Henriquetas, Heliodoras.

E suas vozes
em minhas palavras
alteiam
celebram encontros
de amores tantos
salpicam sândalos
no ar.

Sagas passadas
chagas em sangue
vertem
e vibram
amantes perenes
somos todas
onipresentes.

Minhas mãos
tão femininas
mãos de mulher
madura, menina
sonham
acariciam ternas
lúcidas lembranças
pedaços de dias
franjas de ausências
melancolias.

Em suas palmas
conchas
de lágrimas oceânicas
verdejam prantos
horas molhadas
de sofrimento,
surdas, caladas.

O silêncio da solidão
é memória
reverbera
fantasias, ilusões,
onde desaguar
como abraçar
tamanha paixão?

Mãos entrelaçadas
tecem séculos
em teia
de fios farpados
prisão de anjos
eternizados.
Somos etéreas
flores fugazes
pirilampos da vida
pela vida
alinhavadas.

Assim evoco
Bárbara, Cecília, Stella
Henriqueta, Heliodora
cantemos juntas
à nossa felicidade
brindemos uníssonas
à nossa liberdade!
[Escritora, cientista, educadora e poetisa brasileira, 1954 - 2015]


Claude Monet, Le Parc Monceau, 1878, Metropolitan Museum of Art.


"Arte não é pureza; é purificação, não é liberdade; é libertação."

Clarice Lispector
(1920-1977), em crónica "O artista perfeito", 1969
e posteriormente publicada no livro "A Descoberta do Mundo", 1984.

segunda-feira, 8 de abril de 2024

"Escritor, escritório" - Poemas de Armando Freitas Filho


Pierre-Auguste Renoir (French artist, 1841–1919), The Reader: Portrait of  Edmond Maître 
 (French writer, musician, and art collector, 1840–1898), 1871, Private Collection.
 


Escritor, escritório


Não transponho Camões, mas me empenho.
Não atravesso seu mar manuscrito
porque me afogo na incompreensão
no enfado, no palavreado castiço
na análise sintática dos seus versos
onde erro na prova urgente, aflita
sem ouvi-los soar na página a pleno
de difícil lida, da ilimitada luta
na travessia da linha, da estrofe
empolgante, empolada, que arrebata
a vastidão do céu desconhecido
que vai se descobrindo, nuvem por nuvem
até o sol nomear a praia do primeiro passo.


Armando Freitas Filho, in 'Rol', 2016, p. 11
 


Armando Freitas Filho, 'Rol', 144 páginas.
Companhia das Letras, 2016 
 
 
RESUMO
"ROL"

Trazendo a morte como pano de fundo, a poética corajosa, madura e sensível de um dos maiores autores em atividade do Brasil.
 
Na obra de Armando Freitas Filho, diversificada ao longo de mais de cinquenta anos de trabalho poético, "Lar", (2009), "Dever" (2013) e este "Rol" formam uma trilogia involuntária. O clima dos três livros é o mesmo. Temas são tratados com minúcia e relevância, e questões de ordem quotidiana, filosófica, memorial, erótica e lírica vão sendo retomadas, revistas por ângulos diferentes ou repisadas na tentativa de conquistar maior densidade e conhecimento na nova elaboração. À diferença dos livros anteriores, este se estrutura através de dez séries de poemas e três longos: "Canetas emprestadas", "Suíte para o Rio" e "De roldão". Sob os títulos gerais, cada uma das séries vai analogicamente abrindo o leque do assunto motivador das correlações, dispostas no desenvolvimento da composição. Algumas delas incorporaram subtítulos que se impuseram no curso da escrita. E o livro se encerra com "Numeral", que vem sendo realizado desde 1999. A poesia dos numerais não acaba, ela continuará no próximo ou nos próximos livros, sem prazo de fechamento, na linha virtual do horizonte. A sequência dos capítulos trata, como diz o "Poema-prefácio", "de tudo um pouco", tendo como pano de fundo a morte vista de perto pelo poeta. A obra, por isso mesmo, é austera: escrita com afinco e coragem. Não chega a ser um livro de despedida, uma vez que muito ficou de fora deste volume. O autor ainda terá o que dizer a seus leitores, pois o conjunto de poemas de Armando Freitas Filho que ficou na gaveta espera sua futura oportunidade, como ele diz em "Rol": "Mas há ainda uma 'melodia trémula'/ que vale a pena ouvir, registar como/ acompanhamento do meu tempo particular/ o que seria pouco, mas que desse ao menos/ uma pala do tempo de todo mundo". (daqui)
 

Poema-prefácio

 
O rol desenrolado aqui
acolhe de tudo um pouco.
Coisas de cama, mesa, banho
um trivial variado, familiar
estranho, com uma pitada de déjà-vu
e o apanhado na rua, andando:
às vezes tão urgente e passageiro
que sem “nada no bolso ou nas mãos”
pedia canetas emprestadas
e um papel qualquer, onde
escrevia calcando, com letra
garranchosa, de dentro, imediata
e torta, mas que se aplicava
exata, naquilo que corria
por fora do escritório da cabeça
no vento livre de véu, a céu aberto
ou quando não, no nó apertado
cego, difícil de desmanchar
o que apressava o ponto final.
 

Armando Freitas Filho, in 'Rol', 2016, p. 5
 
 
Pierre-Auguste Renoir, Conversation in Rose Garden, 1876. Private Collection.

 

"A vida é um viajante que deixa a sua capa arrastar atrás de si, para que lhe apague o sinal dos passos".
 
"La vie est un voyageur qui laisse traîner son manteau derrière lui, pour effacer ses traces." 
 
 Publicado por Gallimard, 1947 - 630 páginas. 
 
 

Louis Aragon
(Poète, romancier et journaliste français, 1897–1982),
 1936. Photo d'Henri Manuel (Photographe français, 1874–1947). (daqui)


Escritor e homem de letras francês, Louis Aragon nasceu com o nome de Louis Andrieux a 3 de outubro de 1897, em Paris. 
Filho dos proprietários de uma pensão situada num bairro abastado da cidade, terminou o ensino secundário no Liceu Carnot em 1916, pelo que se pôde matricular no curso de Medicina da Universidade de Paris. Como decorria na altura a Primeira Grande Guerra, Aragon teve que interromper os seus estudos, ao ser convocado para o serviço militar, que cumpriu na qualidade de médico auxiliar.
Terminada a guerra, e enquanto retomava o seu curso, conheceu André Breton, que o pôs em contacto com as andanças do Dadaísmo e do Surrealismo. Em consequência, co-fundou com este e com Philippe Soupault, uma revista caracterizada por uma crítica social cáustica e astuta, dirigida essencialmente aos valores da burguesia, e que levava o nome de Littérature.
Louis Aragon estreou-se como poeta em 1920, ao publicar a sua primeira coletânea Feu de Joie, obra que demonstrava a ferocidade do Dadaísmo em relação ao comodismo da sociedade francesa da época. Seguiram-se Anicet; ou, Le Panorama (1921), romance que procurava parodiar a figura do pintor espanhol Pablo Picasso e, entre outras obras, Le Libertinage (1924), uma compilação de contos que apontavam uma transição para o Surrealismo, Le Mouvement Perpétuel (1925), uma sátira ao pedantismo dos poetas, e Le Paysan de Paris (1926), narrativa irónica em que Aragon estudava a mentalidade do parisiense.
No ano de 1928 conheceu Elsa Triolet, uma escritora russa, cunhada do poeta Vladimir Mayakovsky, e que não só teve uma influência importante no trabalho de Aragon, como veio também a tornar-se sua esposa. Afiliando-se no Partido Comunista, o escritor decidiu empreender, em 1930, uma viagem à então União Soviética. Regressando a Paris, distanciou-se dos surrealistas e, sob a alçada de Mayakovsky, publicou Le Front Rouge (1930), poema que incitava à Revolução, e que valeu ao seu autor uma pena suspensa de cinco anos.
Louis Aragon prosseguiu o seu esforço literário dentro de moldes comunistas, publicando não só ensaios, romances e coletâneas de poemas, como também exercendo jornalismo. Com a deflagração da Guerra Civil Espanhola, combateu ao lado dos Republicanos e, após a ocupação de parte do território francês pelas tropas Nacional-Socialistas, juntou-se à Resistência, publicando também artigos na imprensa clandestina. Com Paul Éluard, tornou-se um dos poetas da Resistência (Le Crève-cöur, 1941) e celebrou o amor absoluto em Les Yeux d'Elsa (1942) e, mais tarde, em Le Fou d'Elsa (1963).
Finda a guerra desempenhou um papel de importância em várias publicações, nomeadamente no jornal Ce Soir e na revista literária Les Lettres Françaises. Retomou uma forma clássica com os romances La Mise à mort (1965) e Blanche ou l'oubli (1967), que correspondem à sua última fase.
Manteve-se um estalinista convicto até 1968, altura em que os blindados soviéticos invadiram a Checoslováquia, depois da chamada primavera de Praga. Descontente com as notícias do massacre, mitigou as suas opiniões políticas.
Tido como um dos fundadores do Surrealismo, Louis Aragon faleceu em Paris, na véspera de Natal de 1982. (daqui)
 

terça-feira, 13 de fevereiro de 2024

"As pequenas gavetas do amor" - Poema de Ana Luísa Amaral


 
Claude Monet (French painter and founder of impressionist painting, 1840–1926),
The Red Cape (Portrait of Madame Monet, Camille Doncieux), c. 1868-73,
Cleveland Museum of Art.

[This painting depicts Monet's first wife, Camille, outside on a snowy day passing by the French doors of their home at Argenteuil. Her face is rendered in a radically bold Impressionist technique of mere daubs of paint quickly applied, just as the snow and trees are defined by broad, broken strokes of pure white and green.
In its early stages, this composition contained two figures seated inside the room on either side of the window. Monet radically altered the composition by painting over the figures. They were replaced by an image of the artist's favorite model – his wife Camille, who passes outside the window in a red cape. Intense light – reflected from the snow-covered landscape – floods the room, obliterating details along the walls and floor. The off-center window frame and the blurriness achieved through sketchy brushstrokes suggest the scanning movement of the artist's eye as he viewed this scene. Contrasted with cold blues and silver whites, Camille's red cape draws the viewer's attention through the glass and into a swift exchange of glances, registering a brief moment in time. This painting evidently held special meaning for Monet, for he kept it with him until his death in 1926]
.
(daqui)
 
 
 
As pequenas gavetas do amor


Se for preciso, irei buscar um sol
para falar de nós:
ao ponto mais longínquo
do verso mais remoto que te fiz

Devagar, meu amor, se for preciso,
cobrirei este chão
de estrelas mais brilhantes
que a mais constelação,
para que as mãos depois sejam tão
brandas
como as desta tarde

Na memória mais funda guardarei
em pequenas gavetas
palavras e olhares, se for preciso:
tão minúsculos centros
de cheiros e sabores

Só não trarei o resto
da ternura em resto desta tarde,
que nem nos foi preciso:
no fundo do amor, tenho-a comigo:
quando a quiseres -


Ana Luísa Amaral (1956– 2022),
in Imagias, Gótica, 2002, pág. 21
 
 
[Imagias, o sétimo livro de Ana Luísa Amaral (Lisboa: Gótica, 2002), reúne poemas sobre “coisas exatas”, como anuncia o poema inaugural que serve de portal ao livro e se intitula “O exato curso do rio”. Cuidadosamente organizados em quatro partes, estes novos poemas de Ana Luísa Amaral retomam ou reinventam algumas das formas e temas mais recorrentes desta poeta portuguesa contemporânea: o modo vocativo, os versos de orações elípticas, as repetições com diferença, a sintaxe equívoca, as assonâncias, as aliterações, o uso do raciocínio lógico, o humor; e o tempo, a memória, a infância, a poesia, a perda, a dor, o amor. Sobretudo o amor, e sobretudo amor/eros, por vezes com saudade de amor/agapé. 
Neste livro escreve Ana Luísa Amaral os seus poemas como se a poesia lírica fosse o rigor de ser no caótico estar que é a nossa vida. Por isso, absurdamente, Imagias, o título exato do inexato certeiro que desafiadoramente é a poesia na poética de Ana Luísa Amaral.] (daqui)
 
 
Carolus-Duran (French painter, 1837–1917), Portrait of Madame Alice Hoschedé,
second wife of 
Claude Monet and mother of Blanche Hoschedé Monet, 1878.

 
[This painting, of Madame Hoschedé, was dedicated to the artist'’s friend Ernest Hoschedé, by all accounts, an eccentric character. Hoschedé was the director of a Parisian department store, an occasional art critic and avid collector. He frequented the Café Guerbois, where he kept the company of painters. Although his fortunes fluctuated, he compulsively bought paintings by Pissaro, Sisley, Degas and Monet, among others. Sisley, Manet and Monet were all guest for a time of the Hoschedé household and spent months painting at the Hoschedé mansion. It was during one of these stays, in the spring of 1878, that, it is suggested, Alice Hoschedé and Monet began a love affair. After Ernest Hoschedé was forced, due to utter financial ruin, to sell his extensive art collection (Monet bought back several paintings for significantly less than Hoschedé himself had originally paid Monet), his wife left him, and with complete disregard for social propriety, moving-in with Monet, nursing for a time his dying wife Susanne. Alice married the artist in 1891 upon her husband Earnest’s death.] (daqui)

terça-feira, 3 de outubro de 2023

"Quando fecho a porta" - Poema de Lya Luft

 

Richard Edward Miller (American Impressionist painter, 1875 –1943)



Quando fecho a porta

Na parede atrás de minha mesa,
ombro a ombro,
a menina e seu pai, em dois retratos,
conversam sobre o que há no escuro
da noite, como entender o mundo,
e por que as montanhas eram tão azuis.
Quando apago a luz e fecho a porta,
eles riem baixinho desta que hoje sou:
ainda tão distraída e desassossegada,
cheia de encantamento, susto e assombro.

(E devem dizer, meneando as cabeças:
Parece que ela nunca vai mudar.)

Lya Luft, em "Para não dizer adeus", 2005.
 
 
Richard Edward Miller (American Impressionist painter, 1875 –1943)


"O amor é o sentimento dos seres imperfeitos, posto que a função do amor é levar o ser humano à perfeição."

Aristóteles, citado por Maria Eugênia de Castro em "O Livro dos Signos", página 99
. (daqui)
 
 

domingo, 13 de agosto de 2023

"Nada tão silencioso como o tempo" - Poema de Fiama Hasse Pais Brandão



Eva Gonzalès (French Impressionist painter, 1849 –1883), Le petit lever, 1875
 


Nada tão silencioso como o tempo


Nada tão silencioso como o tempo
no interior do corpo. Porque ele passa
com um rumor nas pedras que nos cobrem,
e pelo sonoro desalinho de algumas árvores
que são os nossos cabelos imaginários.
Até nas íris dos olhos o tempo
faz estalar faíscas de luz breve. 

Só no interior sem nome do nosso corpo
ou esfera húmida de algum astro
ignoto, numa órbita apartada,
o tempo caladamente persegue
o sangue que se esvai sem som.
Entre o princípio e o fim vem corroer
as vísceras, que ocultamos como a Terra.

Trilam os lábios nossos, à semelhança
das musicais manhãs dos pássaros.
Mesmo os ouvidos cantam até à noite
ouvindo o amor de cada dia.
A pele escorre pelo corpo, com o seu correr
de água, e as lágrimas da angústia
são estridentes quando buscam o eco.

Mas nós sentimos dentro do coração que somos
filhos diletos do tempo e que, se hoje amamos,
foi depois de termos amado ontem.
O tempo é silencioso e enigmático
imerso no denso calor do ventre.
Guardado no silêncio mais espesso,
o tempo faz e desfaz a vida. 
 
 

 Eva Gonzalès, L'Indolence, 1871–72


"O segredo para ser infeliz é ter tempo livre para se preocupar se se é feliz ou não."

George Bernard Shaw
, em "Misalliance", 1910.
(Nobel de Literatura em 1925)
 
 

quinta-feira, 15 de junho de 2023

"Beleza" - Poema de Almeida Garrett


Claude Monet (French painter and founder of impressionist painting, 1840–1926), In the Woods
at Giverny, Blanche Hoschedé Monet at Her Easel with Suzanne Hoschedé Reading, 1887
,
oil on canvas, 91.4 x 97.7 cm, Los Angeles County Museum of Art
 


Beleza

 
Vem do amor a Beleza,
Como a luz vem da chama.
É lei da Natureza:
Queres ser bela? – ama.

Formas de encantar,
Na tela o pincel
As pode pintar;
No bronze o buril
As sabe gravar;
E estátua gentil
Fazer o cinzel
Da pedra mais dura...
Mas Beleza é isso? – Não; só formosura.

Sorrindo entre dores
Ao filho que adora
Inda antes de o ver,
– Qual sorri a aurora
Chorando nas flores
Que estão por nascer –
A mãe é a mais bela das obras de Deus.
Se ela ama! – O mais puro do fogo dos céus
Lhe ateia essa chama de luz cristalina:

É a luz divina
Que nunca mudou,
É luz... é a Beleza
Em toda a pureza
Que Deus a criou.


Almeida Garrett, in 'Folhas Caídas', 1853

 
"Folhas Caídas" de Almeida Garrett
Edições Vercial; 1ª edição, 2010
 
 
Folhas Caídas
 
Coletânea de poesias líricas de Almeida Garrett (Porto, 4 de fevereiro de 1799 — Lisboa, 9 de dezembro de 1854), é a última e a mais importante obra do autor. Foi publicada apenas um ano antes da sua morte, em 1853, e sob anonimato, talvez pelo receio do escândalo, dadas as relações amorosas com a Viscondessa da Luz, de que em grande parte este livro é a expressão literária. 
A obra teve grande sucesso devido sobretudo à atmosfera erotizante de algumas das suas composições e também à invulgar expressão de conflito psicológico e amoroso vivido pelo autor. Esta obra revela grandes aspetos inovadores, desde as imagens até à organização estrófica, passando pelo tom coloquial, quase confessional, de muitas das poesias - fazendo dela a melhor obra de poesia romântica portuguesa. Saliente-se ainda a inclusão, na segunda parte, de poesias de inspiração popular, bem como algumas traduções. 
Na "Advertência" à obra, Garrett apresenta o poeta como ser incompreendido, marginalizado, condenado à busca incessante do ideal: "Mas sei que as presentes Folhas Caídas representam o estado de alma do poeta nas variadas, incertas e vacilantes oscilações do espírito, que, tendendo ao seu fim único, a posse do Ideal, ora pensa tê-lo alcançado, ora estar a ponto de chegar a ele, ora ri amargamente porque reconhece o seu engano, ora se desespera de raiva impotente por sua credulidade vã." Assim se compreende a dedicatória ao "Ignoto deo", o Deus aos pés de quem o poeta deposita a sua "combatida/existência", misto de "luz" e "treva". 
Ao qualificar o seu livro como uma "confissão sincera", Garrett sugeriu a identificação do sujeito poético com o autor real, favorecendo ele próprio a leitura dos poemas amorosos das Folhas Caídas como episódios da sua ligação com Rosa Montufar, viscondessa da Luz. Os poemas exprimem os sentimentos amorosos contraditórios que caracterizam a paixão amorosa, nas suas diferentes etapas ("Gozo e dor", "Este inferno de amar", "Adeus"); exploram a ambivalência da figura feminina, ora anjo, ora demónio ("Anjo és", "Não és tu"); percorrem a euforia erótica ("Aquela noite", "Os cinco sentidos", "Flor de ventura"), o ciúme ("Perfume da rosa", "A coroa"), a saudade da felicidade que não voltará ("Cascais", "Estes sítios"). 
Do ponto de vista métrico, o volume assinala o abandono definitivo das formas e dos géneros clássicos em favor do uso da tradicional redondilha em estrofes regulares. (daqui)
 

sexta-feira, 9 de junho de 2023

"Pescador" - Poema de Vinicius de Moraes



Joaquín Sorolla (Pintor espanhol, 1863-1923), "Y aún dicen que el pescado es caro", 1894, 
Óleo sobre lienzo, 151.5 cm × 204 cm. Museo del Prado, Madrid. (Realismo social)
 
 

Pescador

 
 Pescador, onde vais pescar esta noitada:
Nas Pedras Brancas ou na ponte da praia do Barão?
Está tão perto que eu não te vejo pescador, apenas
Ouço a água ponteando no peito da tua canoa...

Vai em silêncio, pescador, para não chamar as almas
Se ouvires o grito da procelária, volta, pescador!
Se ouvires o sino do farol das Feiticeiras, volta, pescador!
Se ouvires o choro da suicida da usina, volta, pescador!

Traz uma tainha gorda para Maria Mulata
Vai com Deus! daqui a instante a sardinha sobe
Mas toma cuidado com o cação e com o boto nadador
E com o polvo que te enrola feito a palavra, pescador!

Por que vais sozinho, pescador, que fizeste do teu remorso
Não foste tu que navalhaste Juca Diabo na cal da caieira?
Me contaram, pescador, que ele tinha sangue tão grosso
Que foi preciso derramar cachaça na tua mão vermelha, pescador.

Pescador, tu és homem, hem, pescador? que é de Palmira?
Ficou dormindo? eu gosto de tua mulher Palmira, pescador!
Ela tem ruga mas é bonita, ela carrega lata d'água
E ninguém sabe por que ela não quer ser portuguesa, pescador...

Ouve, eu não peço nada do mundo, eu só queria a estrela-d'alva
Porque ela sorri mesmo antes de nascer, na madrugada
Oh, vai no horizonte, pescador, com tua vela tu vais depressa
E quando ela vier à tona, pesca ela para mim depressa, pescador?

Ah, que tua canoa é leve, pescador; na água
Ela até me lembra meu corpo no corpo de Cora Marina
Tão grande era Cora Marina que eu até dormi nela
E ela também dormindo nem me sentia o peso, pescador...

Ah, que tu és poderoso, pescador! caranguejo não te morde
Marisco não te corta o pé, ouriço-do-mar não te pica
Ficas minuto e meio mergulhado em grota de mar adentro
E quando sobes tens peixe na mão esganado, pescador!

É verdade que viste alma na ponta da Amendoeira
E que ela atravessou a praça e entrou nas obras da igreja velha?
Ah, que tua vida tem caso, pescador, tem caso
E tu nem dás caso da tua vida, pescador...

Tu vês no escuro, pescador, tu sabes o nome dos ventos?
Por que ficas tanto tempo olhando no céu sem lua?
Quando eu olho no céu fico tonto de tanta estrela
E vejo uma mulher nua que vem caindo na minha vertigem, pescador.

Tu já viste mulher nua, pescador: um dia eu vi Negra nua
Negra dormindo na rede, dourada como a soalheira
Tinha duas roxuras nos peitos e um vasto negrume no sexo
E a boca molhada e uma perna calçada de meia, pescador...

Não achas que a mulher parece com a água, pescador?
Que os peitos dela parecem ondas sem espuma?
Que o ventre parece a areia mole do fundo?
Que o sexo parece a concha marinha entreaberta pescador?

Esquece a minha voz, pescador, que eu nunca fui inocente!
Teu remo fende a água redonda com um tremor de carícia
Ah, pescador, que as vagas são peitos de mulheres boiando à tona
Vai devagar, pescador, a água te dá carinhos indizíveis, pescador!

És tu que acendes teu cigarro de palha no isqueiro de corda
Ou é a luz da boia boiando na entrada do recife, pescador?
Meu desejo era apenas ser segundo no leme da tua canoa
Trazer peixe fresco e manga-rosa da Ilha Verde, pescador!

Ah, pescador, que milagre maior que a tua pescaria!
Quando lanças tua rede lanças teu coração com ela pescador!
Teu anzol é brinco irresistível para o peixinho
Teu arpão é mastro firme no casco do pescado, pescador!

Toma castanha de caju torrada, toma aguardente de cana
Que sonho de matar peixe te rouba assim a fome, pescador?
Toma farinha torrada para a tua sardinha, toma, pescador
Senão ficas fraco do peito que nem teu pai Zé Pescada, pescador...

Se estás triste eu vou buscar Joaquim, o poeta português
Que te diz o verso da mãe que morreu três vezes por causa do filho na guerra
Na terceira vez ele sempre chora, pescador, é engraçado
E arranca os cabelos e senta na areia e espreme a bicheira do pé.

Não fiques triste, pescador, que mágoa não pega peixe.
Deixa a mágoa para o Sandoval que é soldado e brigou com a noiva
Que pegou brasa do fogo só para esquecer a dor da ingrata
E tatuou o peito com a cobra do nome dela, pescador.

Tua mulher Palmira é santa, a voz dela parece reza
O olhar dela é mais grave que a hora depois da tarde
Um dia, cansada de trabalhar, ela vai se estirar na enxerga
Vai cruzar as mãos no peito, vai chamar a morte e descansar...

Deus te leve, Deus te leve perdido por essa vida...
Ah, pescador, tu pescas a morte, pescador
Mas toma cuidado que de tanto pescares a morte
Um dia a morte também te pesca, pescador!

Tens um branco de luz nos teus cabelos, pescador:
É a aurora? oh, leva-me na aurora, pescador!
Quero banhar meu coração na aurora, pescador!
Meu coração negro de noite sem aurora, pescador!

Não vás ainda, escuta! eu te dou o bentinho de São Cristóvão
Eu te dou o escapulário da Ajuda, eu te dou ripa da barca santa
Quando Vênus sair das sombras não quero ficar sozinho
Não quero ficar cego, não quero morrer apaixonado, pescador!

Ouve o canto misterioso das águas no firmamento...
É a alvorada, pescador, a inefável alvorada
A noite se desincorpora, pescador, em sombra
E a sombra em névoa e madrugada, pescador!

Vai, vai, pescador, filho do vento, irmão da aurora
És tão belo que nem sei se existes, pescador!
Teu rosto tem rugas para o mar onde deságua
O pranto com que matas a sede de amor do mar!

Apenas te vejo na treva que se desfaz em brisa
Vais seguindo serenamente pelas águas, pescador
Levas na mão a bandeira branca da vela enfunada
E chicoteias com o anzol a face invisível do céu.


Vinicius de Moraes
, in Poemas, sonetos e baladas,
São Paulo, Edições Gavetas, 1946.  
 
 
Vinicius de Moraes
Vinicius de Moraes (daqui)

Diplomata e poeta brasileiro, Marcos Vinicius da Cruz de Mello Moraes nasceu a 19 de outubro de 1913, na Gávea, no Rio de Janeiro, e morreu a 17 de abril de 1980, na mesma cidade. Em 1933, concluiu um Curso de Oficial de Reserva e formou-se em Direito, passando pelos bancos da Universidade de Oxford. Ao seguir a carreira diplomática, estabeleceu-se nomeadamente em Los Angeles, Montevideu e Paris.

Nas Letras, as suas preferências iam para Katherine Mansfield, Georges Bernanos e François Mauriac. Convivia habitualmente com intelectuais como Carlos Drummond de Andrade, João Cabral de Melo Neto e Rubem Braga. O livro O Caminho da Distância marcou a sua estreia literária, em 1933. Vinicius publicaria ainda Forma e Exegese (1935), Ariana, a Mulher (1936), Novos Poemas (1938), Cinco Elegias (1943), Poemas, Sonetos e Baladas (1946) e Pátria Minha (1949). Na sua poesia, a crítica encontrava reminiscências do verso livre e generoso de Walt Whitman e do transcendentalismo de um Charles Péguy ou de um Paul Claudel. O erotismo marca o seu percurso poético, refreado todavia pela reserva da sua educação religiosa.
 
A sua relação com a música popular estreitou-se com o encontro com António Carlos Jobim (Tom Jobim), em 1956, quando este musicou a peça Orfeu da Conceição. Nessa época, Vinicius tinha já publicado um dos seus mais belos poemas, O Operário em Construção. A parceria com Tom Jobim daria lugar aos grandes sucessos do movimento da  bossa nova e ao maior êxito internacional da dupla, Garota de Ipanema. A adaptação cinematográfica de Orfeu da Conceição fora entretanto premiada em Cannes e recebera o Óscar do Melhor Filme Estrangeiro.

Da coabitação com a música, a escrita poética de Vinicius surge assim mais comedida, mais segura e mais exata. Falava agora da vida de todos os dias, da felicidade, da saudade, do amor, da sensualidade, das mulheres. O convívio com Baden Powell questionou-o sobre as raízes africanas da negritude e o candomblé preencheu o seu imaginário e o seu quotidiano, povoando-o de ritos mágicos e de ancestralidade. Os afrossambas Apelo, Berimbau e Samba em Prelúdio datam desta colaboração.

Em 1960, publica a sua Antologia Poética e, dois anos depois, Para Viver um Grande Amor, renovando a sua poesia através da colaboração com a nova geração de artistas brasileiros, entre os quais Edu Lobo, Francis Hime e mais tarde Toquinho. Além de autor, tornou-se o seu próprio intérprete, participando em inúmeros espetáculos. Vinicius de Moraes veio a falecer em 1980 na sua famosa banheira, legando-nos a imagem de um espírito irreverente e eternamente apaixonado.

Da sua discografia como intérprete merece uma referência o disco Vinicius - 90 Anos, uma edição especial lançada em 2003, em formato duplo, reunindo os temas principais do cantor, quer como letrista quer como cantor/músico. Do alinhamento do disco fazem parte alguns dos grandes clássicos da bossa nova brasileira, canções verdadeiramente inesquecíveis como "Onde Anda Você", "Marcha de Quarta-Feira de Cinzas", "Tarde em Itapoã", com voz de Vinicius e guitarra de Toquinho. Além destes, uma nota ainda para outras canções, com letras de Vinicius, autênticos hinos da MPB, como "Garota de Ipanema" (Tom Jobim), "Água de Beber" (Maysa), entre outros.

Deste poeta brasileiro se disse que foi um homem sem limites, múltiplo. Nunca foi avaro das suas emoções, dos seus sentimentos, da sua amizade. Vinicius cruzou o caminho de grandes músicos. Trabalhou com os maiores nomes da música popular brasileira: Pixinguinha, Tom Jobim, Baden Powell, Carlos Lyra, Chico Buarque e Toquinho entre outros. Mas este poeta das boémias e do "anti-establishment" (de tal maneira que dele Drummond de Andrade afirmou um dia: "Vinicius é o único poeta brasileiro que viveu como um poeta") começou por receber uma educação sofisticada, entre jesuítas, poetas latinos e interrogações metafísicas.

A influência indelével de Vinicius nas letras musicais do Brasil foi de tal forma abrangente que existe um "antes" e um "depois" de Vinicius. Vinicius de Moraes é e será sempre uma referência eterna, flutuando nas palavras doces que deixou, marcas impetuosas da sua personalidade e do sentimento romântico, melancólico e deliciosamente temperado e festivo da cultura popular brasileira. (daqui)