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segunda-feira, 5 de junho de 2017

"Testamento do homem sensato" - Poema de Carlos Pena Filho



Testamento do homem sensato


Quando eu morrer, não faças disparates 
nem fiques a pensar: «Ele era assim...» 
mas senta-te num banco de jardim, 
calmamente comendo chocolates. 

Aceita o que te deixo, o quase nada 
destas palavras que te digo aqui: 
foi mais que longa a vida que eu vivi, 
para ser em lembranças prolongada. 

Porém, se, um dia, só, na tarde em queda, 
surgir uma lembrança desgarrada, 
ave que nasce e em voo se arremeda, 

deixa-a pousar em teu silêncio, leve 
como se apenas fosse imaginada, 
com uma luz, mais que distante, breve. 


Carlos Pena Filho, in 'Livro Geral', 1959

domingo, 4 de junho de 2017

"Matura Idade" - Poema de Lara de Lemos



Adélaïde Labille-Guiard (1749–1803), Self-Portrait with Two Pupils, 1785
(with Marie-Gabrielle Capet and Marie-Marguerite Carreaux de Rosemond)


Matura Idade


Já não receio 
meu avesso de medos. 

Distingo as coisas 
em sua proposta exata 
e sei — cada ser 
possui justa medida. 

Já não almejo 
o que me foi negado. 

Prossigo a caminhada 
colhendo o que 
me coube, consoante 
o chão lavrado. 


Lara de Lemos,
in 'Adaga Lavrada'