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sábado, 28 de fevereiro de 2026

"Inseto" - Poema de Alice Gomes

 
 
Jan van Kessel, the Elder (Flemish painter, 1626
–1679),
"Study of Butterfly and Insects", c. 1655. National Gallery of Art.
 
 

Inseto


A lagarta comia
comeu
comerá
a polpa doce de uma bela pera.

Já farta de comer, de digerir
Procurou uma fresta para dormir. 

E dorme
dormirá
dormiria
Tanto de noite como em pleno dia.

Durante o sono mudou forma e cor
Já não parece bicho mas flor.


Alice Gomes, em "Bichinho Poeta"


 
Jan van Kessel, the Elder, "Insects and Fruit", Rijksmuseum.


"A marca de sua ignorância é a profundidade da sua crença na injustiça e na tragédia. O que a lagarta chama de fim de mundo, o mestre chama de borboleta."


"The mark of your ignorance is the depth of your belief in injustice and tragedy. What the caterpillar calls the end of the world, the master calls a butterfly."

Richard Bach, "Illusions: The Adventures of a Reluctant Messiah" - Página 134;
Publicado por Delacorte Press, 1977. 
 

 
 Jan van Kessel, the Elder, "Insects", Fitzwilliam Museum  



"Se todos os insetos desaparecessem da Terra, em cinquenta anos toda a vida na Terra acabaria. Se todos os seres humanos desaparecessem da Terra, em cinquenta anos todas as formas de vida floresceriam."

Jonas Salk

(Médico, virologista e epidemiologista norte-americano (1914–1995), mais conhecido como o inventor da primeira vacina antipólio, que, em sua homenagem, ficou conhecida como Vacina Salk.)




Jan van Kessel, the Elder, "Insects" (A Sprig of redcurrants with an elephant hawk moth,
a ladybird, a millipede and other insects)
, 1657.



Artefato nipônico


A borboleta pousada
ou é Deus
ou é nada.


Adélia Prado, "A Faca no Peito", 1988;
"Poesia Reunida", 1991, p. 381,

São Paulo: editora Siciliano



Jan van Kessel, the Elder, "Butterflies, other insects and flowers", 1659, High Museum of Art.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

"Até ao sabugo" - Poema de José Saramago


 
Jan van Kessel, the Elder (Flemish painter, 1626–1679),
"Festoon, masks and rosettes made of shells"
(Festons, masques et rosettes de coquillages),

17th century, Fondation Custodia.



Até ao sabugo 


Dirão outros, em verso, outras razões,
Quem sabe se mais úteis, mais urgentes.
Deste, cá, não mudou a natureza,
Suspensa entre duas negações.
Agora, inventar arte e maneira
De juntar o acaso e a certeza,
Leve nisso, ou não leve, a vida inteira.

Assim como quem rói as unhas rentes.


José Saramago, Os poemas possíveis, 1966.


 

Jan van Kessel, the Elder, 'Garden and house spiders with grass snakes
and caterpillars contorted and entwined to spell the artist's name'
, 1657.


"A vida é breve, mas cabe nela muito mais do que somos capazes de viver."


José Saramago, in Deste Mundo e do Outro (Crónicas), 1971.




Hubertus Quellinus (Flemish printmaker, drawing artist and painter, 1619–1687), 
and
 Johannes Meyssens (Flemish Baroque painter, engraver, and print publisher, 1612–1670)
'Portrait of Jan van Kessel in the book Het Gulden Cabinet', by Cornelis de Bie.
 

Nascido em Antuérpia, Jan van Kessel, o Velho (1626–1679) pertencia a uma dinastia de pintores famosos. O seu avô era Jan Brueghel, o Velho (1568–1625), e David Teniers, o Jovem (1610–1690), era seu tio. 
Foi aluno do pintor Simon de Vos (1603–1676) e também recebeu instruções do seu tio Jan Brueghel, o Jovem (1601–1678). 
Jan van Kessel, o Velho ingressou na Guilda de São Lucas, em Antuérpia, em 1645, e especializou-se em naturezas-mortas de flores, estudos meticulosos de insetos e séries alegóricas representando os quatro elementos, os sentidos ou as partes do mundo. Tornou-se notório pelos fins didáticos e científicos de suas obras sobre a natureza.
Apesar de van Kessel ter sido capitão da Guarda Cívica em Antuérpia e de ter tido uma carreira produtiva, tinha inúmeras dívidas quando morreu, em 1679.
Jan van Kessel, o Velho foi pai dos pintores Jan van Kessel, o Jovem (1654–1708) e Ferdinand van Kessel (1648–1696).
 

sábado, 7 de setembro de 2024

"Ode ao Caldo de Congro" - Poema de Pablo Neruda


Jan van Kessel, the Elder (Flemish painter, 1626–1679), 'Still life of fish in a harbor landscape'
(possibly an allegory of the element of water), 1660.


Ode ao Caldo de Congro


No mar
tormentoso
do Chile
vive o rosado congro,
enguia gigante
de nevada carne.

E nas panelas
chilenas,
na costa,
nasceu o caldo
grávido e suculento,
proveitoso.

Levem para a cozinha
o congro esfolado,
a sua manchada pele cede
como uma luva
e a descoberto fica
então
a uva do mar
o congro tenro
reluz
já nu,
preparado
para o nosso apetite.

Agora
pegas em
alhos,
acaricia primeiro
esse marfim
precioso,
cheira
a sua fragrância iracunda,
então
deixa o alho picado
cair com a cebola
e o tomate
até que a cebola
tenha cor de ouro.

Entretanto
cozem-se ao vapor
os régios
camarões marinhos
e quando estiverem a chegar
ao seu ponto,
quando se consolidar o sabor
num molho
formado pelo suco
do oceano
e pela água clara
que soltou a luz da cebola,
então
que entre o congro
e mergulhe na glória,
que na panela
se azeite,
se contraia e se impregne.

Já só é necessário
deixar no manjar
cair o creme
como uma rosa espessa
e ao lume
lentamente
entregar o tesouro
até que no caldo se aqueçam
as essências do Chile,
e à mesa
cheguem recém-casados
os sabores
do mar e da terra
para que nesse prato
tu conheças o céu.


Pablo Neruda, in 'Odes Elementares' 
Tradução de Luis Pignatelli
Publicações Dom Quixote, Lisboa, 1977
 

 

Oda al Caldillo de Congrio
(Poema original)
 
 
En el mar
tormentoso
de Chile
vive el rosado congrio,
gigante anguila
de nevada carne.
Y en las ollas
chilenas,
en la costa,
nació el caldillo
grávido y suculento,
provechoso.
Lleven a la cocina
el congrio desollado,
su piel manchada cede
como un guante
y al descubierto queda
entonces
el racimo del mar,
el congrio tierno
reluce
ya desnudo,
preparado
para nuestro apetito.
Ahora
recoges
ajos,
acaricia primero
ese marfil
precioso,
huele
su fragancia iracunda,
entonces
deja el ajo picado
caer con la cebolla
y el tomate
hasta que la cebolla
tenga color de oro.
Mientras tanto
se cuecen
con el vapor
los regios
camarones marinos
y cuando ya llegaron
a su punto,
cuando cuajó el sabor
en una salsa
formada por el jugo
del océano
y por el agua clara
que desprendió la luz de la cebolla,
entonces
que entre el congrio
y se sumerja en gloria,
que en la olla
se aceite,
se contraiga y se impregne.
Ya sólo es necesario
dejar en el manjar
caer la crema
como una rosa espesa,
y al fuego
lentamente
entregar el tesoro
hasta que en el caldillo
se calienten
las esencias de Chile,
y a la mesa
lleguen recién casados
los sabores
del mar y de la tierra
para que en ese plato
tú conozcas el cielo. 


Pablo Neruda (1904–1973),
Oda al Caldillo de Congrio. 



Jan van Kessel, the Elder, 'Fish and marine landscape', c.1656, Museo del Prado.
 
 
PEIXES
 
       A raia, para ser boa, deve ser comida de caldeirada de pitau (Mira), menos em Maio, porque «raia em Maio, tumba à porta», e a faneca com três fff – fresca, fria e frita. Cada peixe tem a sua época: «a solha, no tempo do milho, come-a com o teu amigo», a sardinha antes da desova e o próprio caranguejo só lá para Agosto é que, assado na casca, atinge a perfeição. Mas todo o peixe regala quando sai da rede para o lume: tem um sabor único a mar, e até a reluzente savelha e o horrível cação, lavados e amanhados na maré, se tornam toleráveis. Quanto ao linguado, ao goraz, à corvina, à gordíssima sarda, à pescada e à saborosa sardinha, para não falar dos peixes hoje quase desaparecidos, do rodovalho, do peixe-rei, ignora-lhes o sabor e o delicado perfume quem os não trouxe do barco para casa, ainda a escorrer dentro do cabaz, sobre uma cama de algas e de limos. São então esplêndidos assados, fritos, de caldeirada, com um fio de azeite, ou preparados pelo próprio pescador sobre umas brasas. 
       Quando a maré vaza, os pescadores procuram a serrada para iscar os espinéis, e a praia fica a descoberto: as poças de água são joias cheias de reflexos entre o lodo, e cada penedo com a sua cabeleira escura de sargaço – verde húmido e translúcido – é um ser vivo. Em todas as poças faíscam as enguias que se metem nos aloques, o caranguejo traiçoeiro e voraz, que espera a presa na sua clausura de pedra, as mantas de pequenos peixes por criar, reluzindo quando, num movimento brusco, mostram ao mesmo tempo o ventre esbranquiçado, e um bicho mole como a lesma que se arrasta pelo limo. Há fragas enormes, roídas, veneráveis, cobertas de lapas aderentes, de mexilhões aos cachos que, sentindo gente, fecham logo a casa, e onde o azul empoça em buracos que refletem o universo: cabem lá dentro o céu, a luz e as estrelas.
 
       A toninha, que anda sempre atrás do banco da sardinha, afigura-se-me o ser mais feliz do mar. Tem a mesa sempre posta – e inesgotável. Folgam como um bando à solta de rapazes. Dão-me sempre uma impressão de liberdade e de vida deliciosa... Saltam, vê-se-lhes o dorso reluzente, mergulham e irrompem, com o costado azul a escorrer, quando menos se espera, lá ao fundo... Às vezes vêm pela barra dentro, na onda e na espuma, no jorro impetuoso, quando o mar, como um seio que cresce com volúpia e se dilata, se mete pela terra. Setembro – marés vivas.
       – As toninhas! – Alarido na Cantareira: os homens saltam nos barcos. Um à proa leva o arpão, espera o momento e joga-lho. Aquela morre, as outras fogem logo para o mar.
       Entre estes bichos e outros que conheço, pavorosos, há um salto enorme de pesadelo.
       Vi as tremelgas nos fundos espessos e lívidos entre os grandes penedos do Baleal, onde as águas têm a cor horrível das morgues. Pior que podridão – e lá para o fundo um remexer de vida misteriosa. Reparo, e de repente levanta-se de baixo uma revoada de pavor, panos vivos que arfam sacudidos, asas moles e disformes de morcegos que palpitam, dum verde indistinto e elétrico. São as tremelgas, que vêm aos milhares à superfície, não sei como nem para quê, vida que faz cismar e mete medo. Suponho o contacto com aquelas peles viscosas, com aquela vida obscura, nos subterrâneos esverdeados onde a luz não penetra – e fujo! fujo!...


Raul Brandão (1867–1930), em Os Pescadores, 1923.



Jan van Kessel, the Elder, 'Still Life with Fish and Marine Creatures in a Costal Landscape', 1661,
Städel Museum



"O primeiro homem que percebeu a analogia entre um grupo de sete peixes e um grupo de sete dias trouxe um notável avanço à história de pensamento."

Alfred North Whitehead
(1861–1947),
 in Alfred North Whitehead: An Anthology‎ - Página 381,
Filmer Stuart Cuckow Northrop - Macmillan, 1953 - 928 páginas.
 

Jan van Kessel, the Elder, 'Fighting dog and cat with a still life of marine animals and vegetables', c.1665.
 

"Contaram-me que os peixes não se importam de serem pescados, pois têm o sangue frio e não sentem dor. Mas não foi um peixe que me contou isso."


Heywood Broun
 (1888–1939), Sitting on the World‎ - Página 17,
Publicado por G. P. Putnam's sons, 1924 - 276 páginas.
 
 
Jan van Kessel, the Elder, 'Cats with a still life of marine animals, fruit and vegetables', c.1665.
 
 

domingo, 25 de agosto de 2024

"Ode ao Ar" - Poema de Pablo Neruda

 


Jan van Kessel, the Elder
(Flemish painter, 1626–1679), 'Allegory of air', c. 1661.



Ode ao Ar


Andando por um caminho
encontrei o ar
cumprimentei-o e disse
respeitosamente:
"me alegro
pois, uma vez, pelo menos,
abandonas tua transparência
conversemos, então".

Ele, incansável,
dançou, revolveu as folhas
espanou com o sorriso
o pó dos meus sapatos
e içando todo
o azul de seu mastro,
seu esqueleto de vidro,
suas pálpebras de brisa,
imóvel como um cão
ficou me ouvindo.
Eu beijei seu manto
de rei do céu,
me enrolei em sua bandeira
de seda celestial
e disse:
monarca ou camarada,
fio, corola ou pássaro
não sei quem és. Mas
uma coisa te peço,
não te vendas.
A água se vendeu
e nos encanamentos
do deserto
eu tinha visto
extinguirem-se as gotas
e o mundo pobre, o povo
andar sedento
cambaleando na areia.

Vi a luz da noite
racionada,
a luz fulgurante da casa
dos ricos.
Tudo é aurora nos
novos jardins suspensos,
tudo é escuridão
na terrível
sombra do beco.
Daí, a noite,
mãe madrasta,
sai
com um punhal entre
os olhos de coruja,
e um grito, um crime,
se erguem e se apagam
engolidos pela sombra.

Não, ar,
não te vendas,
que não te canalizem,
que não te entubem,
que não te encaixotem
nem te comprimam,
que não te estraçalhem,
que não te engarrafem.
Cuidado!
Me chama
quando precisares de mim,
eu sou o poeta, filho
de pobres, pai, tio,
primo, irmão de carne
e cunhado
dos pobres, de todos,
de meu país e dos outros,
dos pobres que vivem perto do rio,
e dos que nas alturas
da cordilheira vertical
quebram pedra,
pregam tábuas,
costuram roupas,
cortam lenha,
aram a terra,
e por isso
eu quero que eles respirem,
tu és o único que eles têm,
por isso és
transparente,
para que vejam
o que virá amanhã
por isso existes,
ar,
deixa-te respirar,
não te aprisiones,
não confies em ninguém
que venha de automóvel
para te investigar,
deixa-os,
ria deles,
faça os chapéus deles voarem,
não aceites
suas propostas,
vamos juntos
dançando pelo mundo,
arrancando as flores
da macieira
entrando pelas janelas,
assoviando juntos,
assoviando
melodias
de ontem, de amanhã.

Há de vir o dia
em que libertaremos
a luz e a água,
a terra, o homem,
e tudo para todos
será, como tu és.
Então, agora
Cuidado!
E vem comigo
ainda nos resta muito
a dançar e a cantar.
Vamos
ao longo do mar,
ao pico dos montes,
vamos
aonde veremos florescer
a nova primavera
e um sopro de vento
e de canto
compartilharemos as flores,
o aroma, os frutos,
o ar
de amanhã.
 

Pablo Neruda
,
in 'Odes Elementares', 1954
Tradução de Roberto Medina