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terça-feira, 22 de setembro de 2015

"O Poema Original" - Ary dos Santos





O Poema Original


Original é o poeta 
que se origina a si mesmo 
que numa sílaba é seta 
noutra pasmo ou cataclismo 
o que se atira ao poema 
como se fosse ao abismo 
e faz um filho às palavras 
na cama do romantismo. 
Original é o poeta 
capaz de escrever em sismo. 

Original é o poeta 
de origem clara e comum 
que sendo de toda a parte 
não é de lugar algum. 
O que gera a própria arte 
na força de ser só um 
por todos a quem a sorte 
faz devorar em jejum. 
Original é o poeta 
que de todos for só um. 

Original é o poeta 
expulso do paraíso 
por saber compreender 
o que é o choro e o riso; 
aquele que desce à rua 
bebe copos quebra nozes 
e ferra em quem tem juízo 
versos brancos e ferozes. 
Original é o poeta 
que é gato de sete vozes. 

Original é o poeta 
que chega ao despudor 
de escrever todos os dias 
como se fizesse amor. 

Esse que despe a poesia 
como se fosse mulher 
e nela emprenha a alegria 
de ser um homem qualquer. 


Ary dos Santos, in 'Resumo' 


terça-feira, 10 de abril de 2012

"Se Tenho Medo" - Poema de John Keats



Vladimir Kush (Russian-born American painter, jewelry designer
and sculptor, b. 1965), 'Always Together'


Se Tenho Medo 


Se tenho medo de meus dias terminar
antes de a pena me aliviar o espírito, antes
de muito livro, em alta pilha, me encerrar
os grãos maduros como em silos transbordantes;
se vejo, nas feições da noite constelar,
enormes símbolos nublados de um romance
e penso que não viverei para copiar
as suas sombras com a mão maga de um relance;
quando sinto que nunca mais hei de te ver,
formosa criatura de um momento ideal!
Nem hei de saborear o mítico poder
do amor irrefletido! - então no litoral
do vasto mundo eu fico só, a meditar,
até ir Fama e Amor no nada naufragar. 


John Keats  (1795
1821)
Tradução de Péricles Eugênio da Silva Ramos



Retrato de John Keats por William Hilton,
National Portrait Gallery, Londres



"Oh, se eu ao menos pudesse ter uma vida de sensações em vez de uma vida de pensamentos."


John Keats, in 'Carta a Benjamin Bailey' 




 
Vladimir Kush, 'Fiery Dance'


"No mesmo templo do deleite
A velada Melancolia tem o seu santuário."



John Keats, in 'Ode on Melancholy'



Retrato de John Keats por Joseph Severn, 1819


"O prazer visita-nos muitas vezes; mas a mágoa agarra-se cruelmente a nós."

John Keats, in 'Endymion'