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sexta-feira, 7 de outubro de 2016

"Solitário" - Poema de Augusto dos Anjos



Frederik Sødring (Danish landscape painter, 1809–1862), 
 'Hohenschwangau Castle', 1843.


Solitário


Como um fantasma que se refugia
Na solidão da natureza morta,
Por trás dos ermos túmulos, um dia,
Eu fui refugiar-me à tua porta!

Fazia frio e o frio que fazia
Não era esse que a carne nos conforta…
Cortava assim como em carniçaria
O aço das facas incisivas corta!

Mas tu não vieste ver minha Desgraça!
E eu saí, como quem tudo repele,
-Velho caixão a carregar destroços

Levando apenas na tumbal carcaça
O pergaminho singular da pele
E o chocalho fatídico dos ossos!


Augusto dos Anjos
in 'Eu e outras poesias', 1912.

sábado, 12 de outubro de 2013

"Barco Negro" - Poema de David Mourão-Ferreira



Frederik Sødring (Danish landscape painter, 1809–1862), 'The Chalk Cliffs at Møn', 1831. 



Barco Negro


De manhã temendo que me achasses feia,
acordei tremendo deitada na areia,
mas logo os teus olhos disseram que não
e o sol penetrou no meu coração.

Vi depois, numa rocha, uma cruz,
e o teu barco negro dançava na luz;
vi teu braço acenando, entre as velas já soltas.
Dizem as velhas da praia que não voltas:

São loucas! São loucas!

Eu sei, meu amor,
que nem chegaste a partir,
pois tudo em meu redor
me diz que estás sempre comigo. 

No vento que lança areia nos vidros;
na água que canta, no fogo mortiço;
no calor do leito, nos bancos vazios;
dentro do meu peito estás sempre comigo.


David Mourão-Ferreira


Barco Negro - Mariza (Concerto em Lisboa)


domingo, 25 de setembro de 2011

"Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades" - Soneto de Luís de Camões


  
Frederik Sødring (Danish landscape painter, 1809–1862), The "Summer Spire"
on the Chalk Cliffs of the Island Møn. Moonlight
, 1831.
Statens Museum for Kunst
 

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades 


Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.

Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança;
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem, se algum houve, as saudades.

O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já coberto foi de neve fria,
E enfim converte em choro o doce canto.

E, afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto:
Que não se muda já como soía.


Luís de Camões, in "Sonetos"



Frederik Sødring, Rønneby Waterfall at Blekinge, Sweden, 1836


"Perde-se a vida quando a pretendemos resgatar à custa de demasiadas preocupações."

(William Shakespeare)