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terça-feira, 24 de março de 2026

"O Gato" - Poema de Mário Quintana


 
Gertrude Abercrombie (American painter, 1909–1977), White Cat, c. 1938,
Smithsonian American Art Museum.


O Gato


O gato chega à porta do quarto onde escrevo.
Entrepara... hesita... avança...

Fita-me.
Fitamo-nos.

Olhos nos olhos...
Quase com terror!

Como duas criaturas incomunicáveis e solitárias
Que fossem feitas cada uma por um Deus diferente.


Mário Quintana (19061994),
in "Preparativos de Viagem", 1987.
 
 

Gertrude Abercrombie, Self-Reflection, 1953.

Gertrude Abercrombie (Austin, 17 de fevereiro de 1909 - Chicago, 3 de julho de 1977) foi uma pintora norte-americana radicada em Chicago. Chamada de "a rainha dos artistas boêmios", Abercrombie estava envolvida na cena jazzística de Chicago e era amiga de músicos como Dizzy Gillespie, Charlie Parker e Sarah Vaughan, cuja música inspirou seu próprio trabalho criativo. (daqui)
 


Gertrude Abercrombie, "Doors And Two Cats", 1956.
 

"Os escritores gostam de gatos porque são criaturas quietas, adoráveis e sábias, e os gatos gostam deles pelas mesmas razões". 

Robertson Davies
(Escritor e jornalista canadiano, 19131995) (daqui)
 
 

Gertrude Abercrombie, "Demolition Doors", 1964, Illinois State Museum.


"Os gatos conseguem sem fadiga aquilo que continua a ser negado ao homem: atravessar a vida silenciosamente."

Atribuída a Ernest Hemingway (Escritor norte-americano, 18991961)
 
 
 
Gertrude Abercrombie, Blue Screen, 1945.


«A filosofia, que se faz passar por cura, é sintoma da perturbação que finge solucionar. Os outros animais não precisam de se distrair da sua condição. Nos humanos a felicidade é um estado artificial, nos gatos é sua condição natural. Os gatos nunca se aborrecem, a não ser que estejam confinados em ambientes que não lhes sejam naturais. O tédio é o medo de ficarmos sozinhos connosco. Os gatos sentem‑se felizes a ser gatos, os humanos tentam ser felizes a fugir de si.»

John Gray, in Filosofia Felina – Os Gatos e o Sentido da Vida. (daqui)



"Filosofia Felina — Os Gatos e o Sentido da Vida" de John Gray
Tradução de Nuno Quintas. Revisão de Helder Guégués.
Edição da Editorial Presença, 2021



SINOPSE

«Os seres humanos não se podem transformar em gatos. Contudo, se puserem de lado uma qualquer ideia que tenham da sua superioridade enquanto seres humanos, talvez consigam entender como os gatos prosperam sem andarem com interrogações agitadas sobre como viver.»

Nada prova que nós, humanos, tenhamos domesticado os gatos. Na verdade, tudo aponta para que tenham sido os gatos a perceber, em dado momento, o valor que os seres humanos podiam ter para eles. No seu novo livro, John Gray, um dos nomes maiores da filosofia atual, convida-nos a embarcar numa viagem pela história - filosófica e moral - da nossa relação com estes magníficos animais. A partir dos mais variados exemplos ao longo dos séculos, de Montaigne a Schopenhauer, Filosofia Felina revela-nos o fascínio e a complexidade por detrás dos nossos comportamentos e reações perante este inesperado animal de companhia.

É aos gatos, diz-nos John Gray, que devemos estar agradecidos, pois são talvez - e mais do que qualquer outra - a espécie que melhor traduz a nossa própria natureza animal. (daqui)
 
 

quarta-feira, 10 de dezembro de 2025

"Inquietude" - Poema de Mário Quintana

 

 
Vittorio Matteo Corcos (Italian painter, 1859–1933),
Young lady with puppy dog, c. 1895




Inquietude

 
Esse olhar inquisitivo que me dirige às vezes nosso próprio cão…
Que quer ele saber que eu não sei responder?
Sou desse jeito… Vivo cercado de interrogações.
Dinheiro que eu tenha, como vou gastá-lo?
E como fazer para que não me esqueças?
(ou eu não te esqueça…)
Sinto-me assim, sem motivo algum,
Como alguém que estivesse comendo uma empada de camarão sem
camarões
Num velório sem defunto…
 
 
Mário Quintana, in "Velório sem defunto", 1990.
 

terça-feira, 2 de dezembro de 2025

"A um Violinista" - Poema de Olavo Bilac

 


Anne Vallayer-Coster (French painter, 1744–1818), Portrait of a Violinist, 1773,
Nationalmuseum, Stockholm.


A um Violinista

I

Quando do teu violino, as asas entreabrindo
Mansamente no espaço, iam-se as notas quérulas,
Anjos de olhos azuis, às duas mãos partindo
Os seus cofres de pérolas,

- Minhas crenças de amor, esquecidas em calma
No fundo da memória, ouvindo-as recebiam
Novo alento, e outra vez do oceano de minh'alma,
Arquipélago verde, à tona apareciam.

E eu via rutilar o meu amor perdido,
Belo, de nova luz e novo encanto cheio,
E um corpo, que supunha há muito consumido,
Agitar-se de novo e oferecer-me o seio.

Tudo ressuscitava ao teu influxo, artista!
E minh'alma revia, alucinada e louca,
Olhos, cujo fulgor me entontecia a vista,
Lábios, cujo sabor me entontecia a boca.

Oh milagre! E, feliz, ajoelhava-me, em pranto,
Como quem, por acaso, um dia, entrando as portas
De um cemitério, vai achar vivas a um canto
As suas ilusões que acreditava mortas,

E ficava a pensar... como se não partia
Essa fraca madeira ao teu toque violento,
Quando com tanta febre a paixão se estorcia
Dentro do pequenino e frágil instrumento!

Porque, nesse instrumento, unidos num só peito,
Todos os corações da terra palpitavam;
E havia dentro dele, em lágrimas desfeito,
O amor universal de todos os que amavam,

Rio largo de sons, tapetado de flores,
A harmonia do céu jorrava ampla e sonora;
E, boiando e cantando, alegrias e dores
Iam corrente em fora...

A Primavera rindo esfolhava as capelas,
E entornava no chão as ânforas cheirosas:
E a canção acordava as rosas e as estrelas,
E enchia de desejo as estrelas e as rosas.

E a água verde do mar, e a água fresca dos rios,
E as ilhas de esmeralda, e o céu resplandecente,
E a cordilheira, e o vale, e os matagais sombrios,
Crespos, e a rocha bruta exposta ao sol ardente:

- Tudo, ouvindo essa voz, tudo cantava e amava!
O amor, caudal de fogo atropelada e acesa,
Entrava pelo sangue e pela seiva entrava,
E ia de corpo em corpo enchendo a Natureza!

E ei-lo triste, no chão, inanimado e frio,
O teu pobre violino, o teu amor primeiro:
E inda nas cordas há, como um leve arrepio,
A última vibração do arpejo derradeiro...

Como, ígneas e imortais, num redemoinho insano,
Longe, a torvelinhar em céus inacessíveis,
Pairam constelações virgens do olhar humano,
Nebulosas sem fim de mundos invisíveis:

- Assim no teu violino, artista! adormecido
À espera do teu arco, em grupos vaporosos,
Dorme, como num céu que não alcança o ouvido,
Um mundo interior de sons misteriosos...

Suspendam-me ao ar livre esse doce instrumento!
Deixem-no ao sol, em glória, em delirante festa!
E ele se embeberá dos perfumes que o vento
Traz dos frescos desvãos do vale e da floresta.

Os pássaros virão tecer nele os seus ninhos!
As rosas se abrirão em suas cordas rotas!
E ele derramará sobre os verdes caminhos
Da antiga melodia as esquecidas notas!

Hão de as aves cantar, hão de cantar as flores...
Os astros sorrirão de amor na imensa esfera...
E a terra acordará para os novos amores
De nova primavera!

II

Porque, como Terpandro acrescentou à lira,
Para a tornar mais doce, uma corda mais pura,
Que é a corda onde a paixão desprezada suspira,
E, em lágrimas, a arder, suspira a desventura;

Também desse instrumento às quatro cordas de ouro,
O Desespero, o Amor, a Cólera, a Piedade,
- Tu, nobre alma, chorando acrescentaste o choro
Eterno e a eterna dor da corda da Saudade

É saudade o que sinto, e me enche de ais a boca,
E me arrebata o sonho, e os nervos me fustiga,
Quando te ouço tocar: saudade ansiosa e louca
Do primitivo amor e da beleza antiga...

Para trás! para trás! Basta um simples arpejo,
Basta uma nota só... Todo o espaço estremece:
E, dando aos pés do amado o derradeiro beijo
Quase morta de dor, Madalena aparece...

Ao luar de Verona, a amorosa cabeça
De Julieta desmaia entre os braços do amante:
Não tarda que a alvorada em fogo resplandeça,
E na devesa em flor a cotovia cante...

Viúva triste, que à paz do claustro pede alivio,
Para a sua viuvez, para o seu luto imenso,
Branca, sob o livor do escapulário níveo,
Heloísa ergue as mãos, numa nuvem de incenso...

E na suave espiral das melodias puras,
Vão fugindo, fugindo os vultos infelizes,
Mostrando ao meu amor as suas amarguras,
Mostrando ao meu olhar as suas cicatrizes.

Canta! o rio de sons que do seio te brota
E, entre os parcéis da dor, corre, cascateando,
E vai, de vaga em vaga, e vai, de nota em nota,
Ao sabor da corrente os sonhos arrastando;

Que pelo vale espalha a cabeleira inquieta,
Refrescando os rosais, e, em leve burburinho,
Um gracejo segreda a cada borboleta,
E segreda um queixume a cada passarinho;

Que a todo o desconforto e a todo o sofrimento
Abre maternalmente o regaço das águas,
- É o rio perfumado e azul do Esquecimento,
Onde se vão banhar todas as minhas mágoas.


Olavo Bilac
, in Alma Inquieta 
 
 
 
Anne Vallayer-CosterA Lady Writing and her Daughter, 1775


"Há uma cor que não vem nos dicionários. É essa indefinível cor que têm todos os retratos, os figurinos da última estação, a voz das velhas damas, os primeiros sapatos, certas tabuletas, certas ruazinhas laterais: - a cor do tempo..."
 
Mário Quintana, in Sapato Florido, 1948.

domingo, 23 de novembro de 2025

"Teu corpo" - Poema de Ferreira Gullar

  

Albert Edelfelt (Finnish-Swedish painter, 1854-1905), The Old Fisherman
("Kalastava ukko"), 1896.



Teu corpo
 

O teu corpo muda
independente de ti.
Não te pergunta
se deve engordar.

É um ser estranho
que tem teu rosto
ri em teu riso
e goza com teu sexo.
Lhe dás de comer
e ele fica quieto.
Penteias-lhe os cabelos
como se fossem teus.

Num relance, achas
que apenas estás
nesse corpo.
Mas como, se nele
nasceste e sem ele
não és?
Ao que tudo indica
tu és esse corpo
– que a cada dia
mais difere de ti.

E até já tens medo
de olhar no espelho:
lento como nuvem
o rosto que eras
vai virando outro.

E a erupção
que te surge no queixo?
Vai sumir? alastrar-se
feito impingem, câncer?
Poderás detê-la
com Dermobenzol?
ou terás que chamar
o corpo de bombeiros?

Tocas o joelho:
tu és esse osso.
Olhas a mão:
tu és essa mão.
A forma sentada
de bruços na mesa
és tu.
Quem se senta és tu,
quem se move (leva
o cigarro à boca,
traga, bate a cinza)
és tu.

Mas quem morre?
Quem diz ao teu corpo – morre –
quem diz a ele – envelhece –
se não o desejas,
se queres continuar vivo e jovem
por infinitas manhãs?


Ferreira Gullar
, Barulhos, 1997.


 
Albert Edelfelt, Old Woman with a Splint Basket, 1882.
Finnish National Gallery
 

"Nascer é uma possibilidade, viver é um risco, envelhecer é um privilégio!"
 
 


Albert Edelfelt (Finnish-Swedish painter, 1854-1905), Self-Portrait, 1889. 
(Self-Portrait in Dress of the 17th Century), 
Finnish National Gallery. 
 

"Não quero ter razão, quero ser feliz. E, para ser feliz, há que ser justo."
 
 

sábado, 5 de julho de 2025

"Surpresas" - Poema de Mário Quintana



Ary Scheffer (Dutch-French Romantic painter, 1795–1858), The Death of Géricault
(French painter and lithographer, 1791–1824), 1824,
Louvre Museum.


Surpresas


Sabes? Os cabelos da morte são entrelaçados de flores,
Não de flores mortas como essas inertes sempre-vivas,
Mas inquietas e misteriosas como os não desfolhados malmequeres.
Ou bravias como as pequenas rosas-silvestres.

As mãos da morte, as suas mãos não têm anéis,
Sua virgem nudez não comporta o peso de uma joia,
Os seus olhos não são, não são uns covis de treva,
Mas cheios de luz como os olhos do primeiro amor.

Porque a morte não faz esquecer, mas faz tudo lembrar,
Porque a morte não é, não é um sono eterno:
Tu vais adormecer como num berço, pouco a pouco,
E acordarás de súbito num vasto leito de noivado! 


Mário Quintana, in Esconderijos do Tempo,
Porto Alegre, L&PM, 1980.
 

quinta-feira, 20 de março de 2025

"Na minha rua há um menininho doente" - Poema de Mário Quintana

 


Joseph Clark (English painter, 1834-1926),The Sick Boy 
[The Doctor's Visit], c. 1857.
 
 
Menininho doente

 
Na minha rua há um menininho doente.
Enquanto os outros partem para a escola,
Junto à janela, sonhadoramente,
Ele ouve o sapateiro bater sola.

Ouve também o carpinteiro, em frente,
Que uma canção napolitana engrola.
E pouco a pouco, gradativamente,
O sofrimento que ele tem se evola…

Mas nesta rua há um operário triste:
Não canta nada na manhã sonora
E o menino nem sonha que ele existe.

Ele trabalha silenciosamente…
E está compondo este soneto agora,
Pra alminha boa do menino doente…


Mário Quintana
in A Rua dos Cataventos, 1940.



Joseph Clark, Home from the War, 1901.


 Pai
 
 
Pai,
vens com os olhos cansados,
os dedos gretados,
os pés doridos,
os sonhos moídos.
Onde colheste o sorriso
que me dás
como uma flor?
 
in Poemas da Mentira e da Verdade.
Livros Horizonte
 

sexta-feira, 14 de março de 2025

"Para escrever o poema" - Nuno Júdice

 


Júlio Resende
(Pintor português, 1917–2011), As Pombas, 2010.
 

Para escrever o poema


O poeta quer escrever sobre um pássaro:
e o pássaro foge-lhe do verso.

O poeta quer escrever sobre a maçã:
e a maçã cai-lhe do ramo onde a pousou.

O poeta quer escrever sobre uma flor:
e a flor murcha no jarro da estrofe.

Então, o poeta faz uma gaiola de palavras
para o pássaro não fugir.

Então, o poeta chama pela serpente
para que ela convença Eva a morder a maçã.

Então, o poeta põe água na estrofe
para que a flor não murche.

Mas um pássaro não canta
quando o fecham na gaiola.

A serpente não sai da terra
porque Eva tem medo de serpentes.

E a água que devia manter viva a flor
escorre por entre os versos.

E quando o poeta pousou a caneta,
o pássaro começou a voar,
Eva correu por entre as macieiras
e todas as flores nasceram da terra.

O poeta voltou a pegar na caneta,
escreveu o que tinha visto,
e o poema ficou feito.


Nuno Júdice
, "A Matéria do Poema",
Publicações Dom Quixote, 2008.


Júlio Resende, Pássaro, s.d.


"Mas, afinal, para que interpretar um poema? Um poema já é uma interpretação."

Mário Quintana
(Intérpretes, p. 63), 
in "A vaca e o hipogrifo." 

 
Júlio Resende, Olhar de Pássaro, 1996.


"Porque na verdade esta vida só tem dois encantos: o previsto e o imprevisto."
 
Mário Quintana (Esperas e surpresas, p. 211),
in "A vaca e o hipogrifo". 

quinta-feira, 16 de janeiro de 2025

"Chuva e Sol" - Poema de Raimundo Correia



Norman Garstin
(Irish artist, teacher, art critic and journalist associated with the Newlyn School 
 of painters, 1847–1926), The Rain It Raineth Every Day, 1889, Penlee House.
 
 
 
Chuva e Sol 

 
Agrada à vista e à fantasia agrada
Ver-te, através do prisma de diamantes
Da chuva, assim ferida e atravessada
Do sol pelos venábulos radiantes...

Vais e molhas-te, embora os pés levantes:
– Par de pombos, que a ponta delicada
Dos bicos metem nágua e, doidejantes,
Bebem nos regos cheios da calçada...

Vais, e, apesar do guarda-chuva aberto,
Borrifando-te colmam-te as goteiras
De pérolas o manto mal coberto;

E estrelas mil cravejam-te, fagueiras,
Estrelas falsas, mas que assim de perto,
Rutilam tanto, como as verdadeiras...


Raimundo Correia, Versos e Versões, 1887.
In "Poesias completas". Org. pref. e notas Múcio Leão. 
São Paulo: Ed. Nacional, 1948.

 

Norman Garstin, A Steady Drizzle, Unknown date. Oil on canvas.


"... e eu imagino uma velhinha por trás da vidraça, jogando paciência com esta chuva tão sem pressa..." 


Mário Quintana
, in Poemas para a Infância.
Poesia Completa, RJ: Editora Nova Aguilar, 2005 
 

sexta-feira, 29 de novembro de 2024

"A Grande Enchente" - Poema de Mário Quintana


Abbey Altson (British artist, 1866–1948), Flood Sufferings, 1890, oil on canvas.



A Grande Enchente


Cadáveres de Ofélias e cadelas mortas
virão parar por um instante às nossas portas.

Porém – sempre à mercê dos redemoinhos –
prosseguirão depois seus incertos caminhos...

Quando a água alcançar as mais altas janelas
eu pintarei rosas de fogo em nossas faces amarelas.

Que importa o que há de vir? Tudo é poupado aos loucos
e os loucos tudo se permitem. Vamos!

Espíritos de deuses, sobre as águas pairamos.
Alguns de nós dizem que apenas somos nuvens...
Outros, uns poucos,
dizem que somos nada mais que mortos...

Mas não avisto, lá em baixo, os nossos próprios
defuntos... E em vão, também, olho em redor...

Onde é que estão vocês,
amigos, amigas, dos primeiros e dos últimos dias?

É preciso, é preciso, é preciso continuarmos juntos!

E, então, num último, e diluído, e triste pensamento
eu sinto que o meu grito é só a voz do vento...
 
 
Mário Quintana,
"Apontamentos de História Sobrenatural", 1976.
 
 ★★★

[Entre 13 de abril e 6 de maio de 1941, o Rio Grande do Sul, sofreu uma catástrofe climática. Segundo registos da época, Porto Alegre recebeu chuva por 24 dias seguidos, vitimando dezenas de pessoas e desabrigando cerca de 70 mil famílias nas regiões do Estado. 
Mário Quintana, dos mais importantes poetas gaúchos, impressionado com os acontecimentos, escreveu um de seus mais comoventes poemas sobre a tragédia, intitulado "A Grande Enchente".]

sexta-feira, 22 de novembro de 2024

"A árvore dos poemas" - Poema de Mario Quintana

 

Leopoldo Gotuzzo (Pintor brasileiro, 1887–1983), Paisagem do Rio de Janeiro, 1938.
 
 

A árvore dos poemas

 
Quando a árvore dos poemas não dá poemas,
Seus galhos se contorcem todos como mãos de enterrados vivos,
Os galhos desnudos, ressecos, sem o perdão de Deus!
E, depois, meu Deus, essa lenta procissão de almas retirantes…

De vez em quando uma tomba, exausta à beira do caminho,
Porque ninguém lhe chega ao lábio o frescor de cântaro,
A doçura de fruto que poderia haver num poema.
Maldita a geração sem poetas que deixa as almas seguirem

Seguirem como animais em estúpida migração!
Quando a árvore dos poemas não dá poemas,
Qual será o destino das almas? 


Mário Quintana, in "Baú de Espantos"
Porto Alegre - Editora do Globo, 1986.

sexta-feira, 25 de outubro de 2024

"Estranhas aventuras da infância" - Poema de Mário Quintana

 


José Antônio Moreto
 (Pintor brasileiro, n. 1938), Casa da Fazenda, s.d.


Estranhas aventuras da infância


Era um caminho tão pequenino
Que nem sabia aonde ia,
Por entre uns morros se perdia
Que ele pensava que eram montanhas…

Enquanto a tarde, lenta, caía,
Aflitamente o procuramos.
Sozinho assim, aonde iria?
Porém, deixamos para um outro dia…

Perdido e só, nós o deixamos!

E quando, enfim, ali voltamos
Já nada havia, só ervas más…
Tão vasto e triste sentiste o mundo
Que te achegaste, desamparada…

E foi bem juntos que regressamos,
Ombro com ombro, a mão na mão,
Enquanto, lenta, caía a tarde
E nos espiava a bruxa negra…

E nos seguia a bruxa negra
Que hoje se chama Solidão!


Mário Quintana, in "Baú de espantos", 1986.

 

segunda-feira, 7 de outubro de 2024

"O Vento e Eu" - Poema de Mário Quintana

 


Antônio Parreiras (Pintor, ilustrador, escritor e professor brasileiro, 1860–1937),
Ventania, 1888, Pinacoteca do Estado de São Paulo.



O vento e eu


O vento morria de tédio
Porque apenas gostava de cantar
Mas não tinha letra alguma para a sua própria voz,
Cada vez mais vazia…

Tentei então compor-lhe uma canção
Tão comprida como a minha vida
E com aventuras espantosas que eu inventava de súbito,
Como aquela em que menino eu fui roubado pelos ciganos
E fiquei vagando sem pátria, sem família, sem nada neste vasto mundo…
Mas o vento, por isso
Me julga agora como ele…
E me dedica um amor solidário, profundo!


Mário Quintana, in "Velório sem defunto", 1990.

 

sábado, 14 de setembro de 2024

"A Canção da Vida" - Poema de Mário Quintana


Leopoldo Gotuzzo (Pintor brasileiro, 1887–1983), Paisagem, 1965.
 


A Canção da Vida

 
A vida é louca
a vida é uma sarabanda
é um corrupio...
A vida múltipla dá-se as mãos como um bando
de raparigas em flor
e está cantando
em torno a ti:
Como eu sou bela
amor!
Entra em mim, como em uma tela
de Renoir
enquanto é primavera,
enquanto o mundo
não poluir
o azul do ar!
Não vás ficar
não vás ficar
aí...
como um salso chorando
na beira do rio...
(Como a vida é bela! como a vida é louca!) 


Mário Quintana
, in 'Esconderijos do Tempo'
 

Leopoldo Gotuzzo (Pintor brasileiro, 1887–1983), Paisagem,s.d.
 
 
Fundo de quintal...
Silêncio. No velho muro,
uns cacos de sol...


Jorge Fonseca Jr. (1912-1985)
Haicais em "Brasa Dormida" [inédito]

terça-feira, 14 de novembro de 2023

"Soneto Azul" - Poema de Mário Quintana


Akseli Gallen-Kallela (Finnish painter, 18651931), 
'Mary Sewing on the Veranda of Kalela', 1897.
 

Soneto Azul 

 
Quando desperto mansamente agora
é toda um sonho azul minha janela
e nela ficam presos estes olhos,
amando-te no céu que faz lá fora.

Tu me sorris em tudo, misteriosa...
e a rua que – tal como outrora – desço,
a velha rua, eu mal a reconheço
em sua graça de menina-moça...

Riso na boca e vento no cabelo,
delas vem vindo um bando... E ao vê-lo
por um acaso olha-me a mais bela.

Sabes, eu amo-te a perder de vista...
e bebo, então, com uma saudade louca,
teu grande olhar azul nos olhos dela!


Mário Quintana,
"Baú de Espantos" – Editora Globo, RJ, 1988
 
 
Akseli Gallen-Kallela, 'Black Woodpecker', 1894.


"Não esquecer que as nuvens estão improvisando sempre, mas a culpa é do vento."

Mário Quintana, in "Sapato Florido"

domingo, 12 de novembro de 2023

"Balada do país que dói" - Poema de Ana Hatherly


Guilherme Filipe (Pintor português, 1897 - 1971), Nazaré (Portugal), 1954



Balada do país que dói


O barco vai
o barco vem

português vai
português vem

o corpo cai
o corpo dói

português vai
português cai

o barco vai
o barco vem

português vai
português vem

o país cai
o país dói

o tempo vai
o tempo dói

português cai
português vai
português sai
português dói


Ana Hatherly
,
Antologia da poesia experimental portuguesa:
Anos 60 - Anos 80
 
 
"Antologia da poesia experimental portuguesa:
Anos 60 - Anos 80
", organizada por
Carlos Mendes de Sousa e Eunice Ribeiro
Editor: Angelus Novus, abril de 2005
 
[Autores representados: Abílio-José Santos, Alexandre O’Neill, Álvaro Neto, Ana Hatherly, António Aragão, E. M. de Melo e Castro, José-Alberto Marques, Luiza Neto Jorge, Salette Tavares, Silvestre Pestana, António Barros, Fernando Aguiar, Antero de Alda, António Dantas, António Nelos, Armando Macatrão, César Figueiredo, Emerenciano, Gabriel Rui Silva.]

 
SINOPSE 

A partir de meados do séc. XX, assiste-se por todo o mundo — da Europa à América e ao Japão — a um surto ininterrupto de experimentalismos. Configurando-se genericamente como poéticas do significante, as poéticas experimentais maximizam as qualidades sensíveis do material sígnico, com especial ênfase para a sua dimensão visual e plástica.

Em Portugal, a publicação dos cadernos de Poesia Experimental 1 e 2 (em 1964 e 1966) constitui historicamente o marco desencadeador das práticas poéticas experimentais. Esta primeira fase do experimentalismo português, em que se destacam ainda as revistas Operação e Hidra, período áureo que coincide praticamente com toda a década de 60, em pleno regime ditatorial, instigou um tipo de postura esteticamente tolerante e "aberta" que por si funcionava já como um gesto urgente de rutura.

A década de 70, e muito em especial o período pós-revolucionário da grande "explosão de visualismo" popular, distingue-se por um intenso movimento editorial e por uma rápida evolução das práticas experimentais em direção a novas poéticas tridimensionais e a uma poesia de ação que pressupunha a dinamização de suportes e materiais muito mais vastos do que os exigidos pelo poema circunscrito ao espaço da página: instalações e intervenções poéticas, criação de filmes experimentais e primeiras incursões no domínio da poesia cibernética.

Uma decisiva expansão e diversificação das práticas experimentalistas portuguesas, com destaque para a crescente intervenção da tecnologia e para a multiplicação de ações poéticas, ocorre nos anos 80. Apresentam-se agora propostas muito diversificadas no domínio da poesia visual, da poesia sonora, da poesia-objeto, da poesia holográfica, da videopoesia e da poesia de computador, da instalação poética, em simultâneo com várias intervenções e performances. (daqui)
 
 
Guilherme Filipe (Pintor português, 1897 - 1971), Nazaré, 1943
 
 
Epígrafe
 
 
"As únicas coisas eternas são as nuvens."

Mário Quintana
, in "Sapato Florido"

sábado, 9 de setembro de 2023

"Obsessão do Mar Oceano" - Poema de Mário Quintana



Jurrien Marinus Beek or Juriaen Marinus Van Beek (Dutch, 1879-1965),
Vista do Funchal, Ilha da Madeira, s.d.
 


Obsessão do Mar Oceano


Vou andando feliz pelas ruas sem nome…
Que vento bom sopra do Mar Oceano!
Meu amor eu nem sei como se chama,
Nem sei se é muito longe o Mar Oceano…
Mas há vasos cobertos de conchinhas
Sobre as mesas… e moças nas janelas
Com brincos e pulseiras de coral…
Búzios calçando portas… caravelas
Sonhando imóveis sobre velhos pianos…
Nisto,
Na vitrina do bric o teu sorriso, Antínous,
E eu me lembrei do pobre imperador Adriano,
De su’alma perdida e vaga na neblina…
Mas como sopra o vento sobre o Mar Oceano!
Se eu morresse amanhã, só deixaria, só,
Uma caixa de música
Uma bússola
Um mapa figurado
Uns poemas cheios de beleza única
De estarem inconclusos…
Mas como sopra o vento nestas ruas de outono!
E eu nem sei, eu nem sei como te chamas…
Mas nos encontramos sobre o Mar Oceano,
Quando eu também já não tiver mais nome.


Mário Quintana
, em "O Aprendiz de Feiticeiro",
Editora Nova Fronteira, Porto Alegre, 1950.
 

sábado, 12 de agosto de 2023

"Do amoroso esquecimento" - Poema de Mário Quintana


Alfred Stevens (Belgian painter, 1823–1906), Looking out to sea, ca. 1890 
  
 
Do amoroso esquecimento

 
Eu agora - que desfecho!
Já nem penso mais em ti...
Mas será que nunca deixo
De lembrar que te esqueci?


Mário Quintana
, Espelho mágico.
Porto Alegre: Editora do Globo, 1951.
 
 
Mário Quintana (1906-1994), "Espelho mágico", 1951.
 Coleção de quartetos com comentário de Monteiro Lobato,
Editora Globo
 

Resumo

"Espelho Mágico" é formado por 111 quadras de grande variação métrica, escritas em 1945, conforme indica Mário Quintana. Cada uma delas, distintamente numerada, tem seu próprio título que, além de anunciar, muitas vezes também trata de explicar o significado dos poemas. O tom de humor - marcante na personalidade do poeta - faz-se claro nesta obra, em versos de fina ironia que também dão espaço à preocupação acerca do fazer poético. (daqui)
  

Alfred Stevens (Belgian painter, 1823–1906), La parisienne japonaise, 1872.
Musée d'Art moderne et d'Art contemporain (Liège)



Do estilo


Fere de leve a frase... E esquece... Nada
Convém que se repita...
Só em linguagem amorosa agrada
A mesma coisa cem mil vezes dita.


Mário Quintana
, Espelho mágico.
Porto Alegre: Editora do Globo, 1951.