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domingo, 13 de junho de 2021

"A meu favor" - Poema de Alexandre O’Neill


Heinrich Campendonk (German, 1889–1957), Young Couple, 1915



A meu favor

 
A meu favor
Tenho o verde secreto dos teus olhos
Algumas palavras de ódio algumas palavras de amor
O tapete que vai partir para o infinito
Esta noite ou uma noite qualquer

A meu favor
As paredes que insultam devagar
Certo refúgio acima do murmúrio
Que da vida corrente teime em vir
O barco escondido pela folhagem
O jardim onde a aventura recomeça.

A meu favor tenho uma rua em transe
Um alto incêndio em nome de nós todos.
No Reino da Dinamarca.
 Lisboa: Guimarães, 1958


 
Heinrich Campendonk, Bucolic Landscape, 1913


"Muito pouco da grande crueldade mostrada pelos homens pode ser atribuída realmente a um instinto cruel. A maior parte dela é resultado da falta de reflexão ou de hábitos herdados."

(Albert Schweitzer
 

Heinrich Campendonk, Mann, Pferd, Kuh, 1918
 
 
"Quanto mais o homem simplifica a sua alimentação e se afasta do regime carnívoro, mais sábia é a sua mente."
 

domingo, 28 de fevereiro de 2021

"Porquinho-da-Índia" - Poema de Manuel Bandeira



Alfred Richardson Barber (British, 1841-1925), Escaped: Two rabbits and a guinea pig, 1880



Porquinho-da-Índia

 
Quando eu tinha seis anos
Ganhei um porquinho-da-índia.
Que dor de coração eu tinha
Porque o bichinho só queria estar debaixo do fogão!
Levava ele pra sala
Pra os lugares mais bonitos, mais limpinhos,
Ele não se importava:
Queria era estar debaixo do fogão.
Não fazia caso nenhum das minhas ternurinhas…

– O meu porquinho-da-índia foi a minha primeira namorada.
 
 
‘Three unknown Elizabethan children’ by unknown Anglo-Netherlandish artist, c.1580.
 Privately owned. Image courtesy of National Portrait Gallery. London. (Daqui)


Adotar um animal, seja de que espécie for, implica um compromisso do tutor, no sentido de lhe disponibilizar todos os recursos necessários para o seu bem estar físico e psicológico. O primeiro passo será o de se informar sobre a espécie escolhida, as suas necessidades alimentares, o seu comportamento social e reprodutivo, as suas características físicas e psicológicas. 
 
Os  porquinhos-da-índia são dos roedores mais populares como animais de companhia. São dóceis com os humanos, o seu tamanho permite serem facilmente manipulados, mesmo por crianças e não são trepadores ou escavadores, o que facilita a manutenção em ambiente doméstico. A sua domesticação tem aproximadamente 3000 anos, muito provavelmente porque começaram a aproximar-se dos aglomerados habitacionais para, oportunisticamente, inspecionarem as lixeiras humanas. Foram, inicialmente, criados para alimentação e mais tarde como animais de laboratório, tendo sido, durante anos, um dos animais mais utilizados em experimentação. 
 
São originários da América do Sul, onde vivem em grandes grupos, à superfície, apesar de se esconderam em buracos nas rochas ou em tocas abandonadas por outros animais, porque não as escavam eles próprios. São presas fáceis de carnívoros de maior tamanho, sendo, devido a este facto, animais tímidos e facilmente assustáveis. As crias nascem em zonas abertas, sem a proteção de um abrigo e estão por sua conta desde logo. Ao contrário da maioria das espécies, são, ao nascimento, pequenas cópias dos adultos, com a pelagem completa e os olhos abertos, depois de longas gestações de cerca de 63 dias (31 dias nos coelhos, 21 dias nos ratos, 16 dias nos hámster). Com dois dias de vida estão a comer o mesmo que os pais. 
 
Foram trazidos para a Europa pelos marinheiros espanhóis, que foram os primeiros a manter esta espécie como animais de estimação. Antes disso eram criados simplesmente para alimentação humana, pelos Incas e ainda hoje, algumas raças o são, mesmo no Reino Unido.

Permanece um mistério o nome dado à espécie, no nosso português, uma vez que a sua origem nada tem a haver com a Índia.

Os porquinhos-da-índia são animais de prado, muito fáceis de manter, quando corretamente acomodados. Precisam simplesmente de um local quente e seco, uma boa dieta herbívora, acesso regular a ervas frescas e espaço para se exercitarem regularmente. As raças de pelo longo, de aspeto mais exótico, exigem mais cuidados na manutenção de uma pelagem sã. Como animais sociais vivem em colónias familiares e esta característica deve ser respeitada quando os mantemos como animais de estimação. (Daqui)
 
 
Algumas raças de porquinhos-da-índia
(Daqui)
 Inglês
 
 
 Teddy
 
 
Abissínio


 Coroado Inglês
 
 
 Ridgeback
 
 
 Peruano
 
 
 Rex
 
 
 Alpaca
 
 
 Coronet
 
 
 Skinny
 
 
 Selvagem

[O porquinho-da-índia selvagem tem hábitos noturnos. Seu corpo é alongado assim como o nariz, que ao contrário do porquinho-da-índia doméstico é arredondado. A coloração  é sempre cinza, enquanto que os  domésticos são de variadas cores.]
 
 
Alfred Richardson Barber, A family of rabbits, c. 1890 
 
 
"Eu não tenho dúvidas que é parte do destino da raça humana, na sua evolução gradual, parar de comer animais." 
 
 
Henry David Thoreau foi um ensaísta e poeta norte-americano, nascido em 1817 e falecido em 1862. Viveu de acordo com as doutrinas existenciais do Transcendentalismo, em larga medida definidas por Ralph Waldo Emerson. Colaborou regularmente com a revista The Dial, onde publicou ensaios e poemas. O relato Walden (1854) expõe a sua experiência de ter vivido só e em contacto com a natureza entre 1845 e 1847 nas margens do lago que dá o nome ao livro. O ensaio Civil Disobedience (Desobediência Civil, 1849) mostra o seu apego e a sua defesa das liberdades civis. (Daqui)

 
ovolactovegetariano

"ovolactovegetariano", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2021, https://dicionario.priberam.org/ovolactovegetariano [consultado em 27-02-2021].
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"ovolactovegetariano", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2021, https://dicionario.priberam.org/ovolactovegetariano [consultado em 27-02-2021].
Alfred Richardson Barber, A rabbit family with carrots and cabbages, 1886 


"Os animais são meus amigos...e eu não como meus amigos." (Daqui)
 


George Bernard Shaw foi um escritor e crítico literário irlandês, nascido a 26 de julho de 1856, em Dublin, e falecido a 2 de novembro de 1950. Foi galardoado com o Prémio Nobel da Literatura em 1925. Oriundo de uma família de poucas posses, nunca frequentou a universidade. Em 1876 mudou-se para Londres e trabalhou como jornalista, embora o seu sonho fosse ser escritor. Nunca deixou de escrever apesar do insucesso dos seus primeiros trabalhos. Tornou-se crítico de teatro, de arte e de música em várias publicações como Saturday Review, Our Corner, The Pall Mall Gazette, The Wordl e The Star.
Como membro da Social Democratic Federation, teve a oportunidade de conhecer a obra de Karl Marx. Desde então tornou-se socialista ativo, membro do Fabian Society, deu palestras e distribuiu panfletos, alguns da sua autoria como The Fabian Manifesto (1884) e Socialism for Millionaires (1901). Participou em várias ações que mais tarde levaram ao aparecimento do Partido Trabalhista (Labour Party). Entretanto escreveu várias peças de carácter político como Arms and the Man (1894), Devil's Disciple (1897), Man and Superman (1902), Major Barbara (1905) e Pygmalion (Pigmalião, 1913). Como socialista convicto, foi um dos opositores à Primeira Guerra Mundial. Após a guerra, escreveu diversas peças de sucesso, como Heartbreak House (1919), Back to Methuselah (1921), St. Joan (1923), The Apple Cart (1929) e Too True to be Good (1932), que lhe proporcionaram o prémio Nobel. (Daqui)  

 
 Edgar Hunt (British, 1876–1953), In the farmyard, 1924 
 

"O que não concebo é degolar um cabrito, asfixiar uma pomba, cortar a nuca de uma galinha ou dar punhaladas num porco para que eu coma seus restos. Não é por uma questão de química biológica o motivo de eu me ter passado para as fileiras do ovolactovegetarianismo, mas pelo imperativo moral de que minha vida não seja mantida às custas da vida de outros seres."

Eduardo Alfonso (1894-1991), médico naturista espanhol 
 
 
 Edgar Hunt, Goats in a Farmyard
 
 
  "O princípio da moral humana começa pelo respeito a toda criatura vivente."
 
 
Albert Schweitzer foi um teólogo, filósofo, músico, organista e médico missionário alemão nascido em 1875, em Kaysersberg (atualmente parte da França), e falecido em 1965, no Gabão, na África. Estudou nas universidades de Estrasburgo, Paris e Berlim. Como médico missionário fundou o seu próprio hospital no Gabão. Recebeu o Prémio Nobel da Paz em 1952, pelo esforço a favor da Irmandade das Nações. Escreveu algumas obras sobre os Livros do Novo Testamento. (Daqui)
 
 
ovolactovegetariano

"ovolactovegetariano", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2021, https://dicionario.priberam.org/ovolactovegetariano [consultado em 27-02-2021

quarta-feira, 22 de julho de 2020

22 de Abril - Dia Internacional da Terra


Fotografia "The Blue Marble" (A Bolinha Azul)
obtida durante a missão Apollo 17, em 1972.


(Legenda original: Vista da Terra, assim como foi avistada pela tripulação da Apollo 17 viajando em direção à Lua. Esta fotografia translunar da costa estende-se desde a região do Mar Mediterrâneo até à calota polar da Antártica, no Polo Sul. Esta é a primeira vez que a trajetória da Apollo possibilitou a fotografia da calota polar sul. Nota-se as pesadas nuvens cobrindo o Hemisfério Sul. Quase toda a costa da África é claramente visível. A península arábica pode ser vista na borda nordeste de África. A grande ilha a leste da costa da África é Madagascar. O continente asiático está no horizonte a nordeste.)


Jacinto-dos-campos florescem em abril tornando a floresta pintada de tons de azul, em Hallerbos,
conhecido como a "Floresta Azul", na Bélgica.


Dia Internacional da Mãe Terra


Em 12 de abril de 1961, o jovem cosmonauta russo Iuri Gagarin (1934-1968), a bordo da nave Vostok-1, foi o primeiro humano a viajar pelo Espaço. A missão, uma volta em torno da Terra numa órbita a 315 km de altitude, durou 1 hora e 48 minutos. Comentou, fascinado: "A Terra é azul!".
A partir desta primeira missão espacial, muitas outras se têm sucedido.

Em 1990, a pedido do astrofísico e escritor Carl Sagan, a sonda Voyager 1 foi programada para obter várias fotografias do Sistema Solar. Uma delas mostra a Terra vista à distância de 6 mil milhões de km.


Pálido Ponto Azul(14 de fevereiro de 1990) - Fotografia de Image by NASA/JPL - Caltech


No dia 14 de fevereiro de 1990, a sonda Voyager 1 viu a Terra a uma distância de quase 6 mil milhões de quilómetros, captando uma visão do nosso planeta que foi mais tarde descrita pelo cientista Carl Sagan, por “Pálido Ponto Azul. (Daqui)

A propósito da referida foto Carl Sagan escreveu:

"A Terra é um palco muito pequeno em uma imensa arena cósmica. (...) é um espécime solitário na grande e envolvente escuridão cósmica (...) um pálido ponto azul. (...) Gostemos ou não, por enquanto, a Terra é o único lugar onde podemos viver (...)."


Pôr do sol em Honeymoon Bay, na Tasmânia, na Austrália


"Para além de ser o nosso lar, o nosso planeta é extremamente belo.
Quem nunca se extasiou perante a beleza de um pôr do sol? Gosto muito do pôr do sol. Vamos ver um... Um dia eu vi o pôr do sol quarenta e três vezes!"
- Antoine de Saint-Exupéry, O Principezinho


A Pirâmide de Ball é uma agulha vulcânica e roca que forma um ilhéu desabitado no mar de Tasman,
no sudoeste do oceano Pacífico


Para além da beleza do pôr do sol, dos glaciares, do céu, do arco-íris, temos uma natureza pródiga na sua diversidade animal, vegetal e mineral, em montes e planícies, em rios e mares... Somos uns privilegiados.
Daí a nossa grande responsabilidade de preservar e estimar o único lar que conhecemos, este pálido ponto azul.
No dia 22 de abril de 1970, foi criado, pelo senador norte-americano Gaylord Nelson o Dia da Terra.


Os recifes de coral têm uma grande biodiversidade.


A data foi criada em 1970, pelo senador norte-americano Gaylord Nelson que resolveu realizar um protesto contra a Poluição da Terra, depois de verificar as consequências do desastre petrolífero de Santa Barbara, na Califórnia, ocorrido em 1969.

Inspirado pelos protestos dos jovens norte-americanos que contestavam a guerra, Gaylord Nelson, desenvolveu esforços para conseguir colocar o tema da preservação da Terra na agenda política norte-americana.
A população aderiu em força à manifestação e mais de 20 milhões de americanos manifestaram-se a favor da preservação da terra e do meio ambiente.

Foi reconhecido pela ONU em 2009 que instituiu o referido Dia da Terra como o Dia Internacional da Mãe Terra.


Chaminés de fada no Parque Nacional do Cânion Bryce, no Utah (2007)


Desde essa data, no dia 22 de abril milhões de cidadãos em todo o mundo manifestam o seu compromisso na preservação do ambiente e da sustentabilidade da Terra.


Monte Everest, na fronteira China-Nepal, o ponto mais alto do planeta


O objetivo principal deste dia é consciencializar todos os povos sobre a importância e a necessidade de conservar os recursos naturais do planeta e defender a harmonia entre todos os seres vivos. Só assim será possível assegurar às gerações presentes e futuras qualidade de vida ambiental, social, económica, cultural, estética. (Daqui)

Acúmulo de lixo plástico (detritos marinhos) flutuando na costa norte de Honduras
(Caroline Power Photography)


"O mundo tornou-se perigoso porque os Homens aprenderam a dominar a Natureza antes de se dominarem a si mesmos."

(Albert Schweitzer)


Albert Schweitzer, 1955, por Rolf Unterberg


Albert Schweitzer foi um teólogo, filósofo, músico, organista e médico missionário alemão nascido em 1875, em Kaysersberg (atualmente parte da França), e falecido em 1965, em Lambaréné no Gabão, na África. Estudou nas universidades de Estrasburgo (1893–1899), Paris e Berlim. Como médico missionário fundou o seu próprio hospital no Gabão. Recebeu o Prémio Nobel da Paz em 1952, pelo esforço a favor da Irmandade das Nações. Escreveu algumas obras sobre os Livros do Novo Testamento.




O Silo Global de Sementes de Svalbard foi criado em 2008, próximo da localidade de Longyearbyen, no arquipélago Ártico de Svalbard, a cerca de 1300 km ao sul do Polo Norte.
É um gigantesco silo, com uma estrutura inteiramente subterrânea, para conservar ex-situ sementes (banco de sementes) de plantas cultiváveis de todo o mundo.

domingo, 19 de julho de 2020

"Irremediável" - Poema de Mário Dionísio


Vasily Perov, Old Man, 1874


Irremediável


Quando eu continuar na minha marcha eterna,
direito no caixão, sereno e branco,
tu ficarás sozinha.
E talvez só entendas claramente
que, além de ti, eu era a única pessoa.
As mãos que se estenderem para ti
ser-te-ão irreais, como de fumo.
E todas as bocas serão gélidas e mortas,
e todas as palavras gélidas e mortas,
tudo gélido e morto para ti.
Terás os cabelos singelamente escorridos
e os olhos molhados
e as mãos abandonadas.
E só então (tão tarde) tu verás,
com a lucidez que vem depois das coisas consumadas,
a verdade total.
Tuas olheiras roxas
e os ombros caídos ao peso dos braços
serão a medida exata desta palavra: angústia.
Um manto de inutilidade e do vazio cairá sobre as coisas.
Ah mas então será tarde, imensamente tarde!
Porque eu estarei direito no caixão, sereno e branco,
sem poder repetir-me nunca mais. 


Mário Dionísio, in "Poesia Incompleta: 1936-1965",
Lisboa: Europa-América, 1966.


 
Vasily Perov, An old, 1874


"A quem o sofrimento pessoal é poupado, deve sentir-se chamado a diminuir o sofrimento dos outros." 


Vasily Perov, Grandfather and grandson, 1871


"Os anos enrugam a pele, mas renunciar ao entusiasmo faz enrugar a alma."

(Albert Schweitzer)



Vasily Perov, The old man on the bench, 1880


"Só são verdadeiramente felizes aqueles que procuram ser úteis aos outros." 

domingo, 21 de fevereiro de 2016

"Cantiga Felina" - Poema de José Fanha



Arthur Hacker (English classicist painter, 1858–1919), 'Fire Fancies', c. 1890.
 

Cantiga Felina


Eu sou uma gata gatona gatinha
pequena ladina
feroz e feliz e felina.
Eu sou uma gata que come
fanecas e figos
Feijão e favona e favinha
e…
comigo ninguém faz farinha!

Eu sou uma gata gatona gatinha
faceira furtiva
fadista fiel e festiva.
Eu sou uma gata que foge
da fúria do fogo
fanhosa felpuda fininha
e…
comigo ninguém faz farinha!

Eu sou uma gata gatona gatinha
uma bela figura
que fala que funga e que fura.
Eu sou uma gata que veste
um fatinho forrado
com fita fivela e fitinha
e…
comigo ninguém faz farinha!


José Fanha
(Arquiteto, poeta e escritor de literatura infantojuvenil português, n. 1951) 



Lotte Laserstein
(German-Swedish painter, 1898–1993),
'Girl with Cat', c. 1932-33, Private collection.


"Observe um gato quando entra num quarto pela primeira vez. Procura cheiros, não fica quieto um momento, não confia em nada até que examinou e travou conhecimento com tudo." 



Lotte Laserstein (German-Swedish painter, 1898–1993),
'Provençal Girl with Cat', 1951.


"A veneração dos egípcios pelos gatos não era nem tola nem infantil. Por meio do gato, 
o Egito definiu e refinou sua complexa estética."




Nancy Guzik
(American painter, b. 1954), 'Zorro and the painter'



"Existem duas maneiras de nos refugiarmos das misérias da vida: música e gatos."

 

quarta-feira, 11 de julho de 2012

"Lisbon revisited" - Poema de Álvaro de Campos



Lisboa, Portugal, pintura de Yasuhiro Rengeji (Pintor japonês contemporâneo).



Lisbon revisited 
(1923)


Não: não quero nada
Já disse que não quero nada.

Não me venham com conclusões!
A única conclusão é morrer.

Não me tragam estéticas!
Não me falem em moral!
Tirem-me daqui a metafísica!
Não me apregoem sistemas completos, não me enfileirem conquistas
Das ciências (das ciências, Deus meu, das ciências!) —
Das ciências, das artes, da civilização moderna!

Que mal fiz eu aos deuses todos?

Se têm a verdade, guardem-na!

Sou um técnico, mas tenho técnica só dentro da técnica.
Fora disso sou doido, com todo o direito a sê-lo.
Com todo o direito a sê-lo, ouviram?

Não me macem, por amor de Deus!

Queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável?
Queriam-me o contrário disto, o contrário de qualquer coisa?
Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a vontade.
Assim, como sou, tenham paciência!
Vão para o diabo sem mim,
Ou deixem-me ir sozinho para o diabo!
Para que havemos de ir juntos?

Não me peguem no braço!
Não gosto que me peguem no braço. Quero ser sozinho.
Já disse que sou sozinho!
Ah, que maçada quererem que eu seja de companhia!

Ó céu azul — o mesmo da minha infância —
Eterna verdade vazia e perfeita!
Ó macio Tejo ancestral e mudo,
Pequena verdade onde o céu se reflete!
Ó mágoa revisitada, Lisboa de outrora de hoje!
Nada me dais, nada me tirais, nada sois que eu me sinta.

Deixem-me em paz! Não tardo, que eu nunca tardo...
E enquanto tarda o Abismo e o Silêncio quero estar sozinho!


Álvaro de Campos, in Poesias
Heterónimo de Fernando Pessoa, 
(1888-1935)


Lisboa, Portugal, de Yasuhiro Rengeji
 

Lisboa, Portugal, de Yasuhiro Rengeji


"Dar o exemplo não é a melhor maneira de influenciar os outros. - É a única."

(Albert Schweitzer
 

Terreiro do Paço, Lisboa em 1650, por Dirk Stoop.


"Não podes ensinar nada a um homem; 
podes apenas ajudá-lo a encontrar a resposta dentro dele mesmo."

(Galileu Galilei)


sábado, 25 de fevereiro de 2012

"Cão" - Poema de Alexandre O'Neill


Clifton Tomson (1775–1828), Lord Byron's Dog 'Boatswain' (1803–1808)


Cão


Cão passageiro, cão estrito, 
cão rasteiro cor de luva amarela, 
apara-lápis, fraldiqueiro, 
cão liquefeito, cão estafado, 
cão de gravata pendente, 
cão de orelhas engomadas, 
de remexido rabo ausente, 
cão ululante, cão coruscante, 
cão magro, tétrico, maldito, 
a desfazer-se num ganido, 
a refazer-se num latido, 
cão disparado: cão aqui, 
cão além, e sempre cão. 
Cão marrado, preso a um fio de cheiro, 
cão a esburgar o osso 
essencial do dia a dia, 
cão estouvado de alegria, 
cão formal da poesia, 
cão-soneto de ão-ão bem martelado, 
cão moído de pancada 
e condoído do dono, 
cão: esfera do sono, 
cão de pura invenção, cão pré-fabricado, 
cão-espelho, cão-cinzeiro, cão-botija, 
cão de olhos que afligem, 
cão-problema...
Sai depressa, ó cão, deste poema!


Poesias Completas. 1951-1986
Lisboa, INCM, 1990 (3ª ed.)


Clifton Tomson, Lord Byron's Dog 'Lyon', 1808



Sobre a poesia de ALEXANDRE O’NEILL

«O’Neill usa com frequência imagens de animais como referência dum destino ou duma situação infra-humanos ou para-humanos. A mosca entre a cortina e a vidraça é a imagem da nossa situação «entalada» no microcosmos do quotidiano e, dum modo mais geral, no macrocosmos do País e até da condição humana. Os ratos são a referência imagética que aparece por exemplo no «Poema pouco original do medo» para sugerir a existência degradante no silêncio e no medo. O poema «Cão» utiliza também a imagem animal, desta vez para mostrar o homem-cão na sua condição existencial («cão passageiro»), social («cão de gravata pendente»), civilizacional («cão pré-fabricado»), psicológia («cão: esfera do sono»), afectiva («cão estouvado de alegria»). O verso «cão rasteiro cor de luva amarela», que é uma citação de Rilke (Os Cadernos de Malte Laurids Brigge), dá ainda uma dimensão transtextual à descrição.» 


Clara Rocha, prefácio a Poesias Completas, 1951/1986 de Alexandre O'Neill.


Clifton Tomson, Two Springer Spaniels in a Landscape, 1811


- Frases sobre animais -
 
Clifton Tomson, A Saddled Grey Hunter with a Spaniel in a Wooded Landscape, 1824


"Como zeladores do planeta, é nossa responsabilidade lidar com todas as espécies com carinho, amor e compaixão. As crueldades que os animais sofrem pelas mãos dos homens está além do nossa compreensão. Por favor, ajude a parar com esta loucura." - Richard Gere


Clifton Tomson, Groom Holding a Bay Horse, c.1800


"Primeiro foi necessário civilizar o homem em relação ao próprio homem. Agora é necessário civilizar o homem em relação à natureza e aos animais." - Victor Hugo


Clifton Tomson, Horses and Dog in a Landscape, 1830


"Quando o homem aprender a respeitar até o menor ser da criação, seja animal ou vegetal, ninguém precisará ensiná-lo a amar seu semelhante." - Albert Schweitzer


Clifton Tomson, Horse and Greyhound


 "Virá o dia em que a matança de um animal será considerada crime tanto quanto o assassinato de um homem." - Leonardo da Vinci


 Madredeus - "Um raio de luz ardente"