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quarta-feira, 7 de abril de 2021

"Satélite" - Poema de Manuel Bandeira


 Paul Delvaux (Belgian painter, 1897-1994), Solitude (Loneliness), 1956


Satélite


Fim de tarde.
No céu plúmbeo
A Lua baça
Paira
Muito cosmograficamente
Satélite.

Desmetaforizada,
Desmitificada,
Despojada do velho segredo de melancolia,
Não é agora o golfão de cismas,
O astro dos loucos e dos enamorados.
Mas tão-somente
Satélite.

Ah Lua deste fim de tarde,
Demissionária de atribuições românticas,
Sem show para as disponibilidades sentimentais!

Fatigado de mais-valia,
Gosto de ti assim:
Coisa em si,
– Satélite.


Manuel Bandeira
,
in Estrela da Tarde, de 1960

[Estrela da tarde é livro da maturidade, obra crepuscular publicada em 1960, quando o poeta já superara a casa dos setenta anos, começava a meditar com mais profundidade na passagem desta vida para o outro lado do mistério e se mostrava convicto de ter cumprido bem a difícil missão de viver. Não é de se estranhar, pois, a presença mais ou menos obsessiva da morte, saudada com reverência, conformismo e curiosidade.]

 Paul Delvaux, Autorretrato, s/d

Paul Delvaux (1897–1994) foi um pintor belga ligado à corrente surrealista. Graduou-se pela Academia de Belas Artes de Bruxelas,  onde, mais tarde, seria professor durante os anos de 1950 a 1962. Iniciou pintando quase que exclusivamente paisagens e, posteriormente, dedicou-se a ensaiar uma espécie de realismo impressionista. Nos anos 30 conheceu o expressionismo flamengo, e sob a influência de Giorgio de Chirico e Magritte, uma década mais tarde, já participava de exposições surrealistas ao lado de mestres como Salvador Dali. Sua técnica, quase académica, contrasta com sua fixação por temas misteriosos e por uma materialização de um mundo onírico e pessoal, em que a mulher se transfigura num ser arcano, às vezes submetida em metamorfoses vegetais, numa atmosfera inquietante marcada por um certo erotismo.
Dentre suas obras podemos destacar: Esqueletos, Jardim Noturno, A tentação de Santo António e A Vénus Adormecida.
O Museu Paul Delvaux situado em St-Idesbald, aberto em 1982, possui uma grande coleção de pinturas do pintor surrealista belga.
Devido à perda progressiva da visão, Paul Delvaux deixou de pintar a partir de 1986, e sua última grande exposição aconteceu em Paris no ano de 1992. Faleceu em 20 de julho de 1994, aos 96 anos. (Daqui)

Paul Delvaux, Ecce homo, 1949
 

“O Surrealismo é destrutivo, mas ele destrói somente o que acha que limita nossa visão.”
 
 
[Salvador Dalí (1904–1989) foi um importante pintor espanhol, conhecido pelo seu trabalho surrealista. O trabalho de Dalí chama a atenção pela incrível combinação de imagens bizarras, oníricas, com excelente qualidade plástica.]
 

 Paul Delvaux, Les vestales, 1972


“A mente adora imagens cujo significado é desconhecido, uma vez que o próprio significado da mente é desconhecido.”   

René Magritte 

[René Magritte (1898 ―1967) foi um dos principais artistas surrealistas belgas, ao lado de Paul Delvaux.] 

Paul Delvaux, Le village des sirènes, 1942
 
 
 “Mais importante do que a obra de arte propriamente dita é o que ela vai gerar. A arte pode morrer; um quadro desaparecer. O que conta é a semente.”

Joan Miró


[Joan Miró (1893 — 1983) foi um escultor, pintor, gravurista e ceramista surrealista espanhol.]


Paul Delvaux, Les Vierges Sages, 1965 
 
 
“(…) hoje ninguém se escandaliza, a sociedade encontrou maneiras de anular o potencial provocativo de uma obra de arte, adotando em relação a ela uma atitude de prazer consumista”.
 
[André Breton (1896 - 1966) foi um escritor francês, poeta e teórico do surrealismo.]
 
 

Paul Delvaux, Les Ombres, 1965  
 

A rebelião e apenas a rebelião é criadora de luz, e essa luz só pode tomar três caminhos: a poesia, a liberdade e o amor”.

 
 
 
Paul Delvaux, La terraza, 1979
 
 
 “Os loucos são, em certa medida, vítimas de sua imaginação, no sentido que esta os induz a quebrar certas regras, regras cuja transgressão define a qualidade de louco”.
 

Paul Delvaux, Le sacrifice d'Iphigénie, 1968  
 
 
“O homem que não consegue visualizar um cavalo galopando sobre um tomate é um idiota.”
  
 

quarta-feira, 10 de março de 2021

"A Defesa do Poeta" - Poema de Natália Correia


 
 Paul Delvaux (Belgian painter, 1897-1994), Les phases de la Lune III, 1942


A Defesa do Poeta

 
Senhores jurados sou um poeta
um multipétalo uivo um defeito
e ando com uma camisa de vento
ao contrário do esqueleto

Sou um vestíbulo do impossível um lápis
de armazenado espanto e por fim
com a paciência dos versos
espero viver dentro de mim

Sou em código o azul de todos
(curtido couro de cicatrizes)
uma avaria cantante
na maquineta dos felizes

Senhores banqueiros sois a cidade
o vosso enfarte serei
não há cidade sem o parque
do sono que vos roubei

Senhores professores que pusestes
a prémio minha rara edição
de raptar-me em criança que salvo
do incêndio da vossa lição

Senhores tiranos que do baralho
de em pó volverdes sois os reis
sou um poeta jogo-me aos dados
ganho as paisagens que não vereis

Senhores heróis até aos dentes
puro exercício de ninguém
minha cobardia é esperar-vos
umas estrofes mais além

Senhores três quatro cinco e sete
que medo vos pôs por ordem?
que pavor fechou o leque
da vossa diferença enquanto homem?

Senhores juízes que não molhais
a pena na tinta da natureza
não apedrejeis meu pássaro
sem que ele cante minha defesa

Sou uma impudência a mesa posta
de um verso onde o possa escrever
ó subalimentados do sonho!
a poesia é para comer. 
(1923 – 1993)
In “Poemas a Rebate”
Publicações Dom Quixote 
 

 
Paul Delvaux (1897-1994), At the door

 
"Todos temos uma parte misteriosa e há quem pretenda resolver os seus mistérios na psicanálise.
 Eu prefiro dar-lhes voz na Poesia." 
 
Entrevista (1983)