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domingo, 12 de abril de 2026

"Mãe, eu quero ir-me embora" - Poema de Maria do Rosário Pedreira



Rodolfo Amoedo (Pintor, desenhista, professor e decorador brasileiro, 1857-1941),
"Más Notícias", 1895, Museu Nacional de Belas Artes.


Mãe, eu quero ir-me embora


Mãe, eu quero ir-me embora – a vida não é nada
daquilo que disseste quando os meus seios começaram
a crescer. O amor foi tão parco, a solidão tão grande,
murcharam tão depressa as rosas que me deram –
se é que me deram flores, já não tenho a certeza, mas tu
deves lembrar-te porque disseste que isso ia acontecer.

Mãe, eu quero ir-me embora – os meus sonhos estão
cheios de pedras e de terra; e, quando fecho os olhos,
só vejo uns olhos parados no meu rosto e nada mais
que a escuridão por cima. Ainda por cima, matei todos
os sonhos que tiveste para mim – tenho a casa vazia,
deitei-me com mais homens do que aqueles que amei
e o que amei de verdade nunca acordou comigo.

Mãe, eu quero ir-me embora – nenhum sorriso abre
caminho no meu rosto e os beijos azedam na minha boca.
Tu sabes que não gosto de deixar-te sozinha, mas desta vez
não chames pelo meu nome, não me peças que fique –
as lágrimas impedem-me de caminhar e eu tenho de ir-me
embora, tu sabes, a tinta com que escrevo é o sangue
de uma ferida que se foi encostando ao meu peito como
uma cama se afeiçoa a um corpo que vai vendo crescer.

Mãe, eu vou-me embora – esperei a vida inteira por quem
nunca me amou e perdi tudo, até o medo de morrer. A esta
hora as ruas estão desertas e as janelas convidam à viagem.
Para ficar, bastava-me uma voz que me chamasse, mas
essa voz, tu sabes, não é a tua – a última canção sobre
o meu corpo já foi há muito tempo e desde então os dias
foram sempre tão compridos, e o amor tão parco, e a solidão
tão grande, e as rosas que disseste um dia que chegariam
virão já amanhã, mas desta vez, tu sabes, não as verei murchar.


Maria do Rosário Pedreira
,
in "O Canto do Vento nos Ciprestes",
Lisboa: Gótica, 2001.


sábado, 21 de fevereiro de 2026

"Lê, são estes os nomes das coisas que deixaste" - Poema de Maria do Rosário Pedreira



Georg Schrimpf
(German painter and graphic artist, 1889–1938),
"Martha", 1925, Pinakothek der Moderne, Munique.



Lê, são estes os nomes das coisas


Lê, são estes os nomes das coisas que
deixaste – eu, livros, o teu perfume
espalhado pelo quarto; sonhos pela
metade e dor em dobro, beijos por
todo o corpo como cortes profundos
que nunca vão sarar; e livros, saudade,
a chave de uma casa que nunca foi a
nossa, um roupão de flanela azul que
tenho vestido enquanto faço esta lista:

livros, risos que não consigo arrumar,
e raiva – um vaso de orquídeas que
amavas tanto sem eu saber porquê e
que talvez por isso não voltei a regar; e
livros, a cama desfeita por tantos dias,

uma carta sobre a tua almofada e tanto
desgosto, tanta solidão; e numa gaveta
dois bilhetes para um filme de amor que
não viste comigo, e mais livros, e também
uma camisa desbotada com que durmo
de noite para estar mais perto de ti; e, por

todo o lado, livros, tantos livros, tantas
palavras que nunca me disseste antes da
carta que escreveste nessa manhã, e eu,

eu que ainda acredito que vais voltar, que
voltas, mesmo que seja só pelos teus livros.


Maria do Rosário Pedreira,
in "Nenhum Nome Depois", Gótica, 2004;

in "Poesia Reunida", Quetzal, 2012.
 


Georg Schrimpf, Girl with mirror, 1930. Watercolor, 29 x 25 cm,
Private collection.
 

"O rosto é o espelho da alma." 

Cícero
(106 – 43 a.C.), in "De Oratore"

 

sábado, 28 de junho de 2025

"Depois de tudo, fica a lembrança dos lugares" - Poema de Maria do Rosário Pedreira

 


Karl Harald Alfred Broge (Danish painter, 1870–1955),
 Woman in the Light of a Candle, s.d.
 

 Depois de tudo, fica a lembrança dos lugares


Depois de tudo, fica a lembrança dos lugares e
dos seus nomes; dos quartos virados a poente
onde as imagens do rio nunca se repetem nas janelas
e todos os enredos são consentidos sobre as camas.

Ao fundo, havia um armário de madeira com espelho
onde as nossas roupas trocavam de perfume
para que os dias se vestissem sempre melhor.
E, sobre a cómoda, num espelho mais antigo,
a tarde refletia algumas das alegrias da infância.

Não era o quarto de nenhum de nós,
mas a ele regressávamos sempre com a pressa
de quem anseia os cheiros quentes e antigos
da casa conhecida; como quem espera ser aguardado.

Pressenti, porém, que não era eu quem aguardavas:
uma noite, pedi-te mais um cobertor em vez de um abraço.


Maria do Rosário Pedreira, in A Casa e o Cheiro dos Livros,
2ª. Ed. Lisboa: Gótica, 2007
 

 
Karl Harald Alfred Broge (Danish painter, 1870–1955),
Interior with Sunlight from an Open Window, 1907.



"Uma casa morre, se não é habitada com amor." 


Mia Couto
, em O Outro Pé da Sereia
(1ª ed. da Caminho em 2006)
 

segunda-feira, 18 de março de 2024

"Vieste como um barco carregado de vento" - Poema de Maria do Rosário Pedreira



Manuel Tavares (Pintor e aguarelista português, 1911-1974), Nazaré (Portugal), 1965.



Vieste como um barco carregado de vento



Vieste como um barco carregado de vento, abrindo
feridas de espuma pelas ondas. Chegaste tão depressa
que nem pude aguardar-te ou prevenir-me; e só ficaste
o tempo de iludires a arquitetura fria do estaleiro
onde hoje me sentei a perguntar como foi que partiste,
se partiste,
que dentro de mim se acanham as certezas e
tu vais sempre ardendo, embora como um lume
de cera, lento e brando, que já não derrama calor.

Tenho os olhos azuis de tanto os ter lançado ao mar
o dia inteiro, como os pescadores fazem com as redes;
e não existe no mundo cegueira pior do que a minha:
o fio do horizonte começou ainda agora a oscilar,
exausto de me ver entre as mulheres que se passeiam
no cais como se transportassem no corpo o vaivém
dos barcos. Dizem-me os seus passos
que vale a pena esperar, porque as ondas acabam
sempre por quebrar-se junto das margens. Mas eu sei
que o meu mar está cercado de litorais, que é tarde
para quase tudo. Por isso, vou para casa

e aguardo os sonhos, pontuais como a noite.



Maria do Rosário Pedreira,
in 'O Canto do Vento nos Ciprestes',
Gótica Ed., 2001.

 

 Manuel Tavares, "O arranjo das redes - Nazaré", 1965, Aguarela sobre papel.
 

Pores do sol


Se eu fosse pintor, passava a minha vida a pintar o pôr do Sol à beira-mar. Fazia cem telas, todas variadas, com tintas novas e imprevistas. É um espetáculo extraordinário. 
 
Há-os em farfalhos, com largas pinceladas verdes. Há-os trágicos, quando as nuvens tomam todo o horizonte mm um ar de ameaça, e outros doirados e verdes, com o crescente fino da Lua no alto e do lado oposto a montanha enegrecida e compacta. Tardes violetas, oeste ar tão carregado de salitre que toma a boca pegajosa e amarga, e o mar violeta e doirado a molhar a areia e os alicerces dos velhos fortes abandonados ...
 
Um poente desgrenhado, com nuvens negras lá no fundo, e uma luz sinistra. Ventania. Estratos monstruosos correm do forte. Sobre o mar fica um laivo esquecido que bóia nas águas – e não quer morrer... 

Há na areia uns charcos onde se reflete o universo – o céu, a luz, o poente. Não bolem e a luz demora-se aí até ao anoitecer. E como o poente é oiro fundido sobre o mar inteiramente verde, que a noite vai empolgar não tarda, os charcos, entre a areia húmida e escura, teimam em guardar a luz concentrada e esquecida. 

Em todo o dia, o mar não se viu nitidamente. Névoa esbranquiçada, grandes rolos de poeira e sol misturados, água de que se exala um hálito verde envolvido nas ondas. Por fim, o Sol desceu e um nevoeiro imprevisto entranhou poalha de oiro no mar esverdeado, fantasmagoria e sonho nesta frescura extraordinária. 

Agora este, teatral, com largas gambiarradas, franjadas a oiro, acabado de pintar pelo cenógrafo para uma apoteose, e outro que não sei descrever, feito com muito pouco: quase desmaiado, um nada de luz no mar efémero, um nada de luz no céu efémero e a montanha roxa ao fundo prestes a desvanecer-se... 

Agora é prata, daqui a pouco é oiro, e quando o Sol desaparecer de todo, ainda o horizonte fica por muito tempo iluminado. Oiro desvanecido e pó de água que ascende do mar. Um pouco de névoa e dois jatos projetados no céu – verde e oiro, oiro e verde. 

Esta tarde, o Sol põe-se sobre uma barra e aparece deformado, entre grandes manchas de nuvens acobreadas. Some-se, e ressurge por fim como um grande balão de fogo num oceano revolto, até que entra numa grande nuvem espessa com interstícios de fogo e explode, iluminando o espaço e a água cor de chumbo. 

Este faz sobressaltar e sonhar. Três horas da tarde. Céu limpo, mar manso, e sobre o mar uma chapada de prata, sobre o verde, mil escamas a cintilar, que brilham, luzem e tornam a reluzir. O Sol desce pouco e pouco, majestoso e sereno, no céu todo doirado e a luz forma uma estrada que liga o areal ao infinito, uma estrada larga, de oiro vivo, que começa a meus pés, na espuma ensanguentada, e chega ao Sol. Ó meu amor, não acredites na vida mesquinha, não duvides: dá-me a tua mão e vamos partir por essa estrada fora direitos ao céu! 

 

segunda-feira, 13 de junho de 2022

"O meu amor não cabe num poema" - Poema de Maria do Rosário Pedreira


 
Albert Henry Collings (English, 1868-1947), The studio mirror
 
 

O meu amor não cabe num poema 


O meu amor não cabe num poema – há coisas assim,
que não se rendem à geometria deste mundo;
são como corpos desencontrados da sua arquitetura
ou quartos que os gestos não preenchem. 

O meu amor é maior que as palavras, e daí inútil
a agitação dos dedos na intimidade do texto
– a página não ilustra o zelo do farol que agasalha as baías
nem a candura da mão que protege a chama que estremece. 

O meu amor não se deixa dizer – é um formigueiro
que acode aos lábios como a urgência de um beijo
ou a matéria efervescente dos segredos; a combustão
laboriosa que evoca, à flor da pele, vestígios
de uma explosão exemplar: a cratera que um corpo,
ao levantar-se, deixa para sempre na vizinhança de outro corpo. 

O meu amor anda por dentro do silêncio a formular loucuras
com a nudez do teu nome – é um fantasma que estrebucha
no dédalo das veias e sangra quando o encerram em metáforas.
Um verso que o vestisse definharia sob a roupa
como o esqueleto de uma palavra morta. Nenhum poema
podia ser o chão da sua casa. 
 
in O Canto do Vento nos Ciprestes, editor: Gótica
 

sábado, 26 de junho de 2021

"Arte poética" - Poema de Maria do Rosário Pedreira


Pierre-Auguste Renoir, Dance at Le Moulin de la Galette (Bal du moulin de la Galette), 1876. 



Arte poética


Num romance, uma chávena é apenas
uma chávena – que pode derramar
café sobre um poema, se o poeta,
bem entendido, for a personagem.

Num poema, mesmo manchado
de café, a chávena é certamente a
concha de uma mão – por onde eu
bebo o mundo, em maravilha, se tu,
bem entendido, fores o poeta.

No nosso romance, não sou sempre
eu quem leva as chávenas para a mesa
aonde nos sentamos à noite, de mãos
dadas, a dizer que a lata do café chegou
ao fim, mas a pensar que a vida é
que já vai bastante adiantada para os
livros todos que ainda pensamos ler.

No meu poema, não precisamos de café
para nos mantermos acordados: a minha
boca está sempre na concha da tua mão,
todos os dias há páginas nos teus olhos,
escreve-se a vida sem nunca envelhecermos. 
 in Revista Relâmpago nº 22
 

quarta-feira, 26 de maio de 2021

"Devagar" - Poema de Maria do Rosário Pedreira


Helen Frankenthaler (1928 - 2011, American abstract expressionist painter),
Summer Picture, 1959. Oil, crayon and collage on paper.
 
 
 
Devagar


Nada entre nós tem o nome da pressa.
Conhecemo-nos assim, devagar, o cuidado
traçou os seus próprios labirintos. Sobre a pele
é sempre a primeira vez que os gestos acontecem. Porém,

se se abrir uma porta para o verão, vemos as mesmas coisas –
o que fica para além da planície e da falésia; a ilha,
um rebanho, um barco à espera de partir, uma palavra
que nunca escreveremos. Entre nós

o tempo desenha-se assim, devagar.
Daríamos sempre pelo mais pequeno engano. 
 
 
Helen Frankenthaler, Cool Summer, 1962, Oil on canvas


“Vivemos tempos sem empatia, pela falta de leitura e excesso de digitalização, o que nos torna menos humanos.” 

(Maria do Rosário Pedreira)


domingo, 7 de fevereiro de 2021

"Não tenhas medo do amor" - Poema de Maria do Rosário Pedreira



William-Adolphe Bouguereau (French painter, 1825–1905),
Invadindo o reino de Cupido, 1893


Não tenhas medo do amor


Não tenhas medo do amor. Pousa a tua mão
devagar sobre o peito da terra e sente respirar
no seu seio os nomes das coisas que ali estão a
crescer: o linho e genciana; as ervilhas-de-cheiro
e as campainhas azuis; a menta perfumada para
as infusões do verão e a teia de raízes de um
pequeno loureiro que se organiza como uma rede
de veias na confusão de um corpo. A vida nunca
foi só Inverno, nunca foi só bruma e desamparo.
Se bem que chova ainda, não te importes: pousa a
tua mão devagar sobre o teu peito e ouve o clamor
da tempestade que faz ruir os muros: explode no
teu coração um amor-perfeito, será doce o seu
pólen na corola de um beijo, não tenhas medo,
hão de pedir-to quando chegar a primavera.


Maria do Rosário Pedreira

Do livro «O Canto do Vento nos Ciprestes» 
 Gótica, 2001 
 
 

quinta-feira, 28 de janeiro de 2021

"Dorme, meu amor" - Poema de Maria do Rosário Pedreira

 
Philip Wilson Steer (British, 1860-1942), The Muslin Dress, 1910



Dorme, meu amor


Dorme, meu amor, que o mundo já viu morrer mais
este dia e eu estou aqui, de guarda aos pesadelos.
Fecha os olhos agora e sossega – o pior já passou
há muito tempo; e o vento amaciou; e a minha mão
desvia os passos do medo. Dorme, meu amor –
a morte está deitada sob o lençol da terra onde nasceste
e pode levantar-se como um pássaro assim que
adormeceres. Mas nada temas: as suas asas de sombra
não hão de derrubar-me – eu já morri muitas vezes
e é ainda da vida que tenho mais medo. Fecha os olhos
agora e sossega – a porta está trancada; e os fantasmas
da casa que o jardim devorou andam perdidos
nas brumas que lancei ao caminho. Por isso, dorme,
meu amor, larga a tristeza à porta do meu corpo e
nada temas: eu já ouvi o silêncio, já vi a escuridão, já
olhei a morte debruçada nos espelhos e estou aqui,
de guarda aos pesadelos – a noite é um poema
que conheço de cor e vou cantar-to até adormeceres.


Maria do Rosário Pedreira
,
Do livro «O Canto do Vento nos Ciprestes»,  Gótica, 2001 
 
 

quinta-feira, 13 de agosto de 2020

"As raparigas amam muito" - Poema de Maria do Rosário Pedreira


Harold Knight (English painter, 1874-1961), Sewing, c. 1924


As raparigas amam muito


As raparigas amam muito. Riem
atrás das mãos uma manhã inteira
para esconder o vermelho dos
beijos que alguém lhes roubou e
um nome que vão deixar escapar
entre as primeiras palavras que
disserem. Vestem do avesso os

aventais de chita e fazem o leite
sobrar do fervedor e o caldo ser
mais salgado do que o mar. Mas

é bonito vê-las caminhar descalças
ao longo do corredor, como se
pedissem um par para dançar. As

raparigas amam tanto. Sentam-se
em rodas de segredos uma tarde
inteira e esquecem no tanque os
colarinhos sujos das camisas, e os
cueiros, e uma barra de sabão a
derreter-se como o seu coração.

Mas é bonito vê-las beijar a boca
ao espelho no quarto das traseiras
e também a outra boca no retrato
que a seguir escondem amordaçado
na algibeira, não lhes cobice alguém
o que não tem. As raparigas amam

de mais. Deixam-se ficar sem dizer
nada uma noite inteira, bordando
no linho dos enxovais letras secretas
ao calor do fogão. E picam os dedos

distraídos nas agulhas que usaram
para descobrir o sexo de cada filho
que terão num jogo que jogaram
entre elas à tardinha. Mas é bonito

vê-las ao serão, quando o vento as
chama atrevido da cozinha e dão
um pulo seco na cadeira, e largam o

bordado e a lareira, e correm até à
porta a colher beijos que lhes deixam
risos nos lábios tão vermelhos como
as mais doces cerejas deste verão.


Maria do Rosário Pedreira,

Nenhum Nome Depois
gótica, 2004



 
Harold Knight, A young seamstress, 1907


No mundo da lua

Não ando na rua.
Ando no mundo da lua,
falando às estrelas.

Helena Kolody
(Haicai) 


quarta-feira, 8 de julho de 2020

"Pai, dizem-me que ainda te chamo" - Poema de Maria do Rosário Pedreira


Stephen Gjertson (American artist, b. 1949), Tyler and dad, storytime, 1990.


Pai, dizem-me que ainda te chamo



Pai, dizem-me que ainda te chamo, às vezes, durante
o sono - a ausência não te apaga como a bruma
sossega, ao entardecer, o gume das esquinas. Há nos
meus sonhos um território suspenso de toda a dor,
um país de verão aonde não chegam as guinadas
da morte e todas as conchas da praia trazem pérola. Aí

nos encontramos, para dizermos um ao outro aquilo
que pensámos ter, afinal, a vida toda para dizer; aí te
chamo, quando a luz me cega na lâmina do mar, com
lábios que se movem como serpentes, mas sem nenhum
ruído que envenene as palavras: pai, pai. Contam-me

depois que é deste lado da noite que me ouvem gritar
e que por isso me libertam bruscamente do cativeiro
escuro desse sonho. Não sabem

que o pesadelo é a vida onde já não posso dizer o teu
nome - porque a memória é uma fogueira dentro
das mãos e tu onde estás também não me respondes.


Maria do Rosário Pedreira,
 in 'Nenhum Nome Depois'
 


Stephen Gjertson, A Delightful Afternoon. Oil on canvas, 50 x 60.
Private collection.



"As mãos que ajudam são mais sagradas que os lábios que rezam."

(Madre Teresa de Calcutá)
 
 

terça-feira, 2 de julho de 2019

"Mãe, agora que guardaste na arca" - Poema de Maria do Rosário Pedreira



Seymour Joseph Guy (American painter, 1824–1910), "The Contest for the Bouquet", 1866
 (also known as "The Family of Robert Gordon in Their New York Dining-Room")


Mãe, agora que guardaste na arca


Mãe, agora que guardaste na arca
as blusas pretas e os teus olhos
voltaram a ser azuis; que os meus
irmãos dormem no seu quarto um
sono de poderem ser felizes, que

já conseguimos dizer uma à outra
o nome dele no meio de um sorriso
porque a morte, afinal, é uma coisa
tão longe – deixa-me perguntar-te

porque não há retratos do meu pai
comigo ao colo, como os dos meus
irmãos que ele trazia sempre junto
ao peito e tu depois dividiste pela
casa para ele poder saber que ainda

te lembravas; ou então debruçado
no meu berço – que tu escondeste
no sótão ainda eu era pequena e te
sentavas a embalar vazio quando ele
não entendia porque estavas tão
triste. Mãe, eram tão azuis os olhos

do meu pai no dia em que levou os
meus irmãos à escola e tinham tanto
medo do que pudesse acontecer-lhes;
são tão azuis também os olhos deles
debaixo do seu sono, e os meus tão

negros de dúvidas – porque foste
sempre tu que me levaste sozinha
para as coisas difíceis da minha vida,
que o meu pai nem nunca quis saber
que coisas eram. Mãe, estão hoje tão

azuis os teus olhos com essas roupas
claras, e eu ainda tenho o nome do
meu pai entre as minhas lágrimas, mas
agora, que os meus irmãos descansam

no seu quarto, que já todos podemos
dizer o nome dele sem nos cortar os
lábios, diz-me a verdade: esse homem
que chorámos era mesmo meu pai?


Maria do Rosário Pedreira


quarta-feira, 26 de junho de 2019

"Mãe, os meninos andam distraídos" - Poema de Maria do Rosário Pedreira



Jules Breton (French naturalist painter, 1827–1906), Woman with a Taper
(Femme avec une bougie fine)
, 1873, Museum of Fine Arts Boston


Mãe, os meninos andam distraídos


Mãe, os meninos andam distraídos junto
ao rio e tu não queres saber de os perder.
Sentaste-te a pensar nesse homem que
apareceu e a desfolhar os malmequeres
da tua bata nova — e não viste que te
largaram a mão nem para onde fugiram
com a pressa do vento. Mãe, os meninos

saíram da tua beira para a beira do rio
e tu não queres saber de os chamar. Eles
estendem agora os braços pequeninos
para o sol que brilha sobre as águas
como um punhado de moedas que nunca

hão de ter — mas tu hoje só conheces
um nome nos teus lábios e nem sequer te
lembras que esse nome não é o que puseste
a nenhum deles. Mãe, os meninos

são tão pequenos e já vão tão longe que
a luz pode cegá-los para sempre. Andam
perdidos no rio há tanto tempo que será
tarde de mais quando gritarem por ti —
porque a ideia do amor é hoje muito maior
do que a voz deles. Mãe, se tu quiseres, eu

posso tomar conta dos meninos, sento-me
com eles na margem a desenhar o sol e
havemos de fazer horas para o teu sonho:
depois de tanta dor e tanto luto, eu não
vou deixar que percas os teus meninos
nem pedir-te que sejas viúva para sempre. 


Maria do Rosário Pedreira,
in 'Antologia Poética'



terça-feira, 23 de janeiro de 2018

"O gato lembra-se de ti nos intervalos" - Poema de Maria do Rosário Pedreira




O gato lembra-se de ti nos intervalos


O gato lembra-se de ti nos intervalos. Espera
de olhos acesos as histórias que nos contas.
Passeia-se inquieto sobre o meu parapeito e eriça
o pelo, cúmplice, quando pressente que regressas.

Chegas sempre de noite. Sei quem és e ao que vens
e ofereço-te o silêncio de um pequeno quarto recuado,
as sombras das traseiras na minha pele, o tempo
de repetir um gesto inevitável. Ouço-te contar
a mesma lenda com lábios sempre novos. Aprendo-a
e esqueço-a. Nunca a saberemos de cor, o gato ou eu.

Depois partes. Levas contigo a tua voz, mas a música
fica. Eu fecho as portadas devagar. O gato mia baixo
à janela. Ninguém acena: guardamos com os outros
o segredo das tuas visitas. Ambos. O gato e eu.




segunda-feira, 24 de junho de 2013

"Do verão diria uma planície lenta quase amarela" - Poema de Maria do Rosário Pedreira



Alfred Sisley (French-Born British Impressionist landscape painter,
 1839–1899), 'Meadow', 1875


Do verão


Do verão, diria uma planície lenta, quase amarela: o trigo
a enrolar-se nos pés, o oiro do sol, os cabelos
mais loiros. Um vento quente e ondulante sibilando
nas frestas de um celeiro. O fumo sonolento do calor
tornando informe o fio do horizonte. Do verão

diria também um tempo espesso onde todos
os acasos são sofríveis: duas papoilas, vermelho-sangue,
agitam a paisagem. Tu chegas e a minha pele chama-te
sete nomes em surdina. É a luz da tarde que faz o fulgor
dos fenos e aquece a roupa que abandonou o corpo
sem perguntas. As mãos podem então dar-se
todos os recados. E amanhã ninguém sabe. Fica

apenas um punhado de espigas quebradas sobre a planície
lenta; amarela, digo: as papoilas, entretanto, voaram.


Maria do Rosário Pedreira,
'Poesia reunida', Quetzal, Lisboa, 2012
 

Alfred Sisley, 'A path at Les Sablons', 1883


"Adote o ritmo da natureza. O segredo dela é a paciência."

Ralph Waldo Emerson


Alfred Sisley, 'Bridge at Hampton Court', 1874


"A natureza está constantemente a misturar-se com a arte."

Ralph Waldo Emerson



Alfred Sisley, 'Bridge at Villeneuve-la-Garenne', 1872



"A Natureza é uma nuvem mutável, sempre e nunca a mesma."

Ralph Waldo Emerson


 
Ralph Waldo Emerson

Ralph Waldo Emerson (Boston, 25 de maio de 1803 – Concord, 27 de abril de 1882) foi um escritor, ensaísta, filósofo e poeta estadunidense. Conhecido por ter sido o criador da escola de filosofia "transcendentalista" norte-americana.
 

quinta-feira, 20 de junho de 2013

"O verão deixa-me os olhos mais lentos sobre os livros" - Poema de Maria do Rosário Pedreira



Anne Bascove
 (American artist, born 1946), 'Reading in Bed', 1994,
Private Collection



O verão deixa-me os olhos mais lentos sobre os livros


O verão deixa-me os olhos mais lentos sobre os livros.
As tardes vão-se repetindo no terraço, onde as palavras
são pequenos lugares de memória. Estou divorciada dos
outros pelo tempo destas entrelinhas – longe de casa,
tenho sonhos que não conto a ninguém, viro devagar
a primeira página: em fevereiro, eles ainda faziam amor
à sexta-feira. De manhã, ela torrava pão e espremia
laranjas numa cozinha fria. Havia mais toalhas para lavar
ao domingo, cabelos curtos colados teimosamente ao espelho.
Às vezes, chovia e ambos liam o jornal, dentro do carro,
antes de se despedirem. As vezes, repartiam sofregamente
a infância, postais antigos, o silêncio – nada
aconteceu entretanto. Regresso, pois, à primeira linha,
à verdade que remexe entre as minhas mãos. Talvez os olhos
estivessem apenas desatentos sobre o livro; talvez as histórias
se repitam mesmo, como as tardes passadas no terraço, longe
de casa. Aqui tenho sonhos que não conto a ninguém.


Maria do Rosário Pedreira,
de 'A Casa e o Cheiro dos Livros',
in 'Poesia Reunida', Quetzal, 2012


***

Galeria de Anne Bascove

Anne Bascove, 'Where books fall open'


Anne Bascove, 'The common reader'


Anne Bascove, 'La lune en hiver', 1992


Anne Bascove, 'Bibliophile', 1999



Anne Bascove, 'James at 12', 1999


Anne Bascove, 'Bylona's view', 2000



Anne Bascove, 'Elyzabeth and Emme', 2000 


  Anne Bascove, 'Library', 2000


Anne Bascove, 'Library', 2001


 Anne Bascove, 'Paris', 2003


Anne Bascove, 'Chris and John', 2006

segunda-feira, 25 de março de 2013

"Chegam cedo de mais" - Poema de Maria do Rosário Pedreira


'You Blew Me Away', Sculpture by Penny Hardy


Chegam cedo de mais


Chegam cedo de mais, quando ainda não podem escolher
nem decidir. Vêm carregados de espectros, de memórias
e de feridas que não souberam sarar; mas trazem a confiança
da cura nas palavras. Convencem-se de que amam outra vez

quando nos tocam os pequenos lugares, esquecendo-se do rumo
incerto dos seus passos nas estradas tortuosas que os
trouxeram. Abafam-se num cobertor de mentiras sem saber e
falam de injustiça quando tentamos chamá-los à verdade.

Dormem de vez em quando nas nossas camas e protegemo-los
da dor como aos filhos que não iremos ter nunca
porque não nos resignamos a perdê-los. E, um dia, partem, vão

culpados, não chegam a explicar o que os arrasta. Escrevem
cartas mais tarde – uma ou duas palavras para se aliviarem dessa espada.
E nós ficamos, eternamente, sem vergonha, à espera que regressem.


Maria do Rosário Pedreira



Sculpture by Penny Hardy


Grandes momentos irreversíveis

«Os instantes de grande dor ou de grande agitação, mesmo na história universal, têm uma necessidade que convence; desencadeiam um sentido da atualidade e um sentimento de tensão que nos oprimem. Essa agitação pode provocar seguidamente a vinda da beleza e da luz, assim como da loucura e das trevas; o que se produz reveste, em todo o caso, as aparências da grandeza, da necessidade, da importância; distingue-se e destaca-se dos acontecimentos quotidianos.» 

Hermann Hesse, in 'O Jogo das Contas de Vidro'


 
Hermann Hesse (Escritor alemão, 1877-1962)


A sabedoria da velhice

«Aquele que envelhece e que segue atentamente esse processo poderá observar como, apesar de as forças falharem e as potencialidades deixarem de ser as que eram, a vida pode, até bastante tarde, ano após ano e até ao fim, ainda ser capaz de aumentar e multiplicar a interminável rede das suas relações e interdependências e como, desde que a memória se mantenha desperta, nada daquilo que é transitório e já se passou se perde.»
 
Hermann Hesse, in 'Elogio da Velhice'


Sculpture by Penny Hardy


Sculpture by Penny Hardy

domingo, 21 de outubro de 2012

"Vem ver-me antes que eu morra de amor" - Poema de Maria do Rosário Pedreira


Frédéric Bazille (French Impressionist painter, 1841–1870), The Pink Dress
(View of Castelnau-le-Lez, Hérault), 1864, oil on canvas, Musée d'Orsay, Paris
 

Vem ver-me antes que eu morra de amor 


Vem ver-me antes que eu morra de amor - o sangue
arrefece dentro do meu corpo e as rosas desbotam
nas minhas mãos. Da minha cama ouço a tempestade
nos continentes; e já quis partir, deixar que o vento
levasse a minha mala por aí; fiz planos de correr mundo
para te esquecer - mas nunca abria a porta.

Vem ver-me enquanto não morro, mas vem de noite -
a luz sublinha a agonia de um rosto e quero que me recordes
como eu podia ter sido. Da minha cama vejo o sol
tatuar as costas do meu país; e já sonhei que o perseguia,
que desenhava o teu nome no veludo da areia e sentia
a vida a pulsar nessa palavra como um músculo tenso
escondido sob a pele - mas depois acordava e não ia.

Vem ver-me antes que morra, mas vem depressa -
os livros resvalam-me do colo e o bolor avança
sobre a roupa. Da minha cama sinto o perfume das folhas
tombadas nos caminhos. O outono chegou. E o quarto
ficou tão frio de repente. E tu sem vires. Agora
quero deitar-me no tapete de musgo do jardim e ouvir
bater o coração da terra no meu peito. Os vermes
alimentam-se dos sonhos de quem morre. E tu não vens.


Maria do Rosário Pedreira


Maria do Rosário Pedreira 


Maria do Rosário Pedreira (Lisboa, 1959) é editora e escritora. Desempenha actualmente funções no grupo Leya, depois de ter passado pela editora QuidNovi, pela Temas & Debates e pela Gradiva. Licenciada em Línguas e Literaturas Modernas, na variante de Estudos Franceses e Ingleses, pela Universidade de Lisboa em 1981, foi professora de Português e Francês (durante cinco anos), actividade que a influenciou decisivamente a escrever para um público jovem. Foi ainda directora de publicações da Sociedade Portugal-Frankurt 97 e editora dos catálogos oficiais temáticos da Expo'98, tal como redactora das brochuras inerentes aos Festivais dos Cem Dias e Mergulho no Futuro, promovidos durante a Expo'98. 
Como escritora, tem já publicados vários trabalhos de ficção, poesia, crónicas e literatura juvenil, procurando neste último género a transmissão de valores humanos e culturais. 
Para a Autora – já distinguida com alguns prémios literários –, a casa pode ser considerada como um mundo onde se encerra tudo aquilo que vai perdurando, mesmo que sob a forma da memória, nostalgicamente. 

Obras:
Alguns Homens, Duas Mulheres e Eu, 1993
A Casa e o Cheiro dos Livros, 1996
O Canto do Vento nos Ciprestes, 2001
Nenhum Nome Depois, 2004
O Clube das Chaves, (co-autora) 21 volumes, 1989-1998
Detective Maravilhas, 19 volumes, 1997 até hoje
A Ilha do Paraíso, 2000
A Biblioteca do Avô, 2005

http://horasextraordinarias.blogs.sapo.pt/


Jean Frédéric Bazille, Auto-portrait (1865-1866)


Jean Frédéric Bazille (Montpellier, 6 de dezembro de 1841 - Beaune-la-Rolande, 28 de novembro de 1870) foi um pintor francês. Nasceu de uma família protestante de classe média.
Teve interesse pela pintura depois de conhecer alguns trabalhos de Eugene Delacroix. Sua família deixou que estudasse pintura, mas com a condição que, também, estudasse medicina. 
Bazille iniciou seus estudos de medicina em 1859 e mudou-se para Paris em 1862 para que pudesse continuar seus estudos.
Lá ele conheceu Pierre-Auguste Renoir, que era adepto da pintura Impressionista, e começou a ter aulas no estúdio-escola "Gleyre". Após falhar em seu exame de medicina, em 1864, passou a pintar em tempo integral. 
Bazille era amigo de Claude Monet, Alfred Sisley e Édouard Manet, ajudou alguns desses artistas dando a eles espaço em seu estúdio e materiais para usar. Com apenas 23 anos pintou vários trabalhos famosos, incluindo 'O Vestido Cor-de-Rosa'. Sua melhor pintura conhecida é 'Reunião de Família'.
Frédéric Bazille morreu em 28 de novembro de 1870 em Beaune-la-Rolande, na Guerra Franco-Prussia.


Frédéric Bazille, La Toilette, 1869-70, Oil on canvas, Musée Fabre, Montpelier
 

  Frédéric Bazille, Réunion de famille, c.1867/1868, Musée d'Orsay


  Frédéric Bazille, Portrait of  Pierre-Auguste Renoir, 1867, Musée d'Orsay



Guns N'Roses - Patience



“Eu não sou o palhaço! Mas em sua inocência, esta sociedade, monstruosamente cínica, 
não vê aquele que faz papel de sério, a fim de esconder a própria loucura.“

Salvador Dalí