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terça-feira, 30 de julho de 2024

"Monólogo da Noite" - Poema de Ribeiro Couto



Jacob van Ruisdael (Dutch painter, draughtsman, and etcher, c. 1629 –1682),
Windmill at Wijk bij Duurstede, c. 1670. Rijksmuseum, Amsterdam.


Monólogo da Noite 


Esta noite estou triste e não sei a razão.
Vou, para espairecer minha melancolia,
Ouvir o mar, que o mar é uma consolação.
Paro junto do cais olhando a água sombria.
Intermitente, sob o véu da cerração,
Vejo uma luz vermelha a acenar-me... "Confia!"
Obrigado, farol que és como um coração...

A água negra, noturna, a bater contra o cais,
Ilude a minha dor fútil de vagabundo.
E o farol a acenar de longe... "Espera mais!"
Recordo... "António, que o paquete fosse ao fundo!"
Depois, fico a pensar nos que foram leais,
Nos que tiveram a coragem de ir do mundo
E numa noite assim se atiraram do cais.

Água eterna... água terrível... água imortal...
Apavora-me a sua aparência sombria.
Se eu pudesse acabar de uma vez o meu mal!
Mas tenho medo. "Não... A água está muito fria.
Além de fria é funda e tem gosto de sal."
E surpreendo-me, a chorar de covardia,
Dizendo ao vento esse monólogo banal.


Ribeiro Couto
, Poemetos de Ternura e de Melancolia, 1924.
  In Poesias reunidas, Rio de Janeiro: J. Olympio, 1960.


 
 
 "Não tenho medo das tempestades porque sei como guiar meu navio". 

Louisa May Alcott,  in "As Mulherzinhas" (Little Women), 1868. 



Jacob van Ruisdael, Stormy Sea with Sailing Vessels, 1668, Thyssen-Bornemisza Museum.
 

Provérbios sobre o Mar

 
"Quem é do Mar, não enjoa."

"Grande nau, grande tormenta."

"Quem vai ao Mar, perde o lugar."

"Gaivotas em terra, tempestade no Mar."

"Não se afoga no Mar, o que lá não entrar."

"Os Mares mais calmos, são os mais profundos."

"O Mar aproxima, as terras que ele separa."

"Antes o Mar por vizinho, do que, cavaleiro mesquinho."

"O Mar que, é Mar, nem sempre dá, hoje não dá, amanhã haverá."

"Quando o Mar bate na rocha, quem se lixa é o mexilhão."

"Alto Mar e não de vento, não promete seguro tempo."

"Sem razão se queixa do Mar, quem outra vez navega."

"Quem anda no Mar, não faz do vento o que quer."

"Não pude passar o Mar, sem de fortuna me queixar."

"Enquanto o Mar bonança, todos são bons pilotos."

"Quem não entrar no Mar, nele não se afogará."

"Nem com o Mar contar, nem a muitos fiar."

"Vista bela é ver o Mar e morar em terra."

"Quem o Mar gaba, não tem visto a praia."

"Nem muito ao Mar, nem muito à terra."

"Quem vai ao Mar, avia-se em terra."

"Não há Mar bravo, que não amanse."

"Repartiu-se o Mar e fez-se sal."

"No Mar bravo, às vezes há bonança."

"No Mar anda, para quem nós ganha."

"Jornada de Mar, não se pode taxar."

"Homem do Mar, cabeça no ar."

"Há Mar e Mar, há ir e voltar."

"Nau grande, pede Mar fundo."

"É inútil levar água ao Mar."
(daqui)
 
“O que sabemos é uma gota, o que ignoramos é um oceano.” — Isaac Newton físico e filósofo inglês 1643–1727 Em 1687, Explicando a sua Terceira Lei de Newton - Ação e Reação

Fonte: https://citacoes.in/topicos/mar/
“O que sabemos é uma gota, o que ignoramos é um oceano.” — Isaac Newton físico e filósofo inglês 1643–1727 Em 1687, Explicando a sua Terceira Lei de Newton - Ação e Reação

Fonte: https://citacoes.in/topicos/mar/
“O que sabemos é uma gota, o que ignoramos é um oceano.” — Isaac Newton físico e filósofo inglês 1643–1727 Em 1687, Explicando a sua Terceira Lei de Newton - Ação e Reação

Fonte: https://citacoes.in/topicos/mar/
 
 
 
“O que sabemos é uma gota, o que ignoramos é um oceano.” — Isaac Newton físico e filósofo inglês 1643–1727 Em 1687, Explicando a sua Terceira Lei de Newton - Ação e Reação

Fonte: https://citacoes.in/topicos/mar/
“O que sabemos é uma gota, o que ignoramos é um oceano.” — Isaac Newton físico e filósofo inglês 1643–1727 Em 1687, Explicando a sua Terceira Lei de Newton - Ação e Reação

Fonte: https://citacoes.in/topicos/mar/

sexta-feira, 17 de março de 2023

"O Banho" - Poema de Ribeiro Couto


Venny Soldan-Brofeldt (Finnish, 1863–1945), Boy Playing with a Puddle, 1914
 
 

O Banho


Junto à ponte do ribeirão
Meninos brincam nus dentro da água faiscante.
O sol brilha nos corpos molhados,
Cobertos de escamas líquidas.

Da igreja velha, no alto do morro,
O sino manda lentamente um dobre fúnebre.

Na esquina da cadeia desemboca o enterro.
O caixão negro, listado de amarelo,
Pende dos braços de quatro homens de preto.
Vêm a passo cadenciado os amigos, seguindo,
O chapéu na mão, a cabeça baixa.
As botas rústicas, no completo silêncio,
Fazem na areia do chão o áspero rumor de vidro moído.

O sino dobra vagaroso: dobre triste
Na tarde clara que dá pena de morrer.

Cheios do inexplicável respeito pela morte
Os meninos correram para baixo da ponte,
Como se a sua nudez pura pudesse ofender a morte.

Vai agora subindo o morro do cemitério
O caixão negro listado de ouro.
Já não se vê mais, desapareceu atrás do mato.

E na água fugitiva do ribeirão
Os corpos nus cambalhoteiam de novo
Com o sentimento espontâneo e invencível da vida.
 
 
Ribeiro Couto (1898-1963),  
"Dia longo: poesias escolhidas 1916-43"
Publicado em 1944
 
 
Venny Soldan-Brofeldt, Boys Gathering a Fishing Net, 1915–19
 

"Felizes dos que, relembrando a juventude, não se lembram de factos vergonhosos."
 

quarta-feira, 7 de agosto de 2019

"Menina Gorda" - Poema de Ribeiro Couto


Fernando Botero, Bather on the Beach, 2001


Menina Gorda


Esta menina gorda, gorda, gorda,
Tem um pequenino coração sentimental.
Seu rosto é redondo, redondo, redondo;
Toda ela é redonda, redonda, redonda,
E os olhinhos estão lá no fundo a brilhar.

É menina e moça. Terá quinze anos?
Umas velhas amigas de sua mamãe
Dizem sempre que a encontram, num êxtase longo:
“Como esta menina está gorda, bonita!”
“Como esta menina está gorda, bonita!”
E ela ri de prazer. Seu rosto redondo
Esconde os olhinhos no fundo, a brilhar.

Às vezes no quarto,
Diante do espelho;
Ao ver-se tão gorda, tão gorda, tão gorda,
Ela pensa nas velhas amigas de sua mamãe
E também num rapaz
Que a olha sorrindo,
Quando toda manhã ela vai para a escola:
“– Ele gosta de mim… Ele gosta de mim.
Eu sou gorda, bonita…”
E os dedos gordinhos pegando nas tranças
Têm carícias ingénuas
Diante do espelho.


Ribeiro Couto
(1898-1963)

Menina Gorda, de Ribeiro Couto, declamado por João Villaret.
(http://www.youtube)


Fernando Botero, Le sorelle (The Sisters), 1969 


"Os pequenos atos de cada dia fazem ou desfazem o caráter." 

(Oscar Wilde)


 Fernando Botero, Une famille, 2006 


"O matrimónio é uma experiência, e cada experiência tem o seu preço."

(Oscar Wilde)





HISTÓRIAS DA VIDA REAL 
“A Menina Gorda”


Era uma vez uma menina gorda que tinha tudo para ser feliz.
Chamava-se Laura e nascera, com quatro quilos e meio, na Maternidade Alfredo da Costa.
Quando as colegas da mãe a foram visitar à maternidade, ao ver a Laurinha exclamaram extasiadas: “que perfeitinha”, “ vai ser uma mulher e peras”.
A mãe, do tipo “cheiinha”, era funcionária de uma repartição. Na gravidez as análises tinham acusado um bocadinho de açúcar a mais. Mas o médico tinha garantido que não tinha importância, que passava depois do parto.
A Laurinha era um bebé que não dava trabalho a comer. Ao peito mamava quanto podia e, quando passou para as farinhas, era um gosto vê-la despejar o biberon. O médico dizia que o peso de Laurinha estava acima da média, mas que não fazia mal, porque a menina estava a crescer.
Eram todos gorditos naquela família. O pai começava a ter uma barriga avantajada, e a tensão um bocadinho alta.
“Menos sal e mais caminhadas” – dizia o médico. Mas ao ver a televisão depois de jantar, sentado no sofá lá ia uma embalagem de salgadinhos com um bagacinho a acompanhar.
Aos sábados era uma festa: iam todos ao supermercado fazer as compras da semana. A Laurinha sentava-se no carrinho e, tão inteligente, só com 3 anos já sabia onde era a prateleira das bolachas.
 E o carrinho enchia, enchia, enchia de chocolates, doces, batatas fritas, refrigerantes. Era raro uma alface ou molho de brócolos. “Estragam-se muito depressa”, explicava a mãe.
Aos 10 anos a Laurinha entrou no Liceu para o segundo ciclo. E de repente deixou de ser a Laurinha e passou a ser “a Gorda”.
Não conseguia fazer amigas e os rapazes faziam troça dela.
Refugiara-se no estudo. Tinha boas médias. Criou ainda mais invejas. Passou a ser a “a Gorda marrona”.
Aguentou 2 anos. Foi para um colégio, pago a custo pelos pais. Mas a alcunha seguia-a como um restilho. Nunca conseguiu arranjar namorado.
Aos 15 deixou de estudar. O pai teve um enfarte e acabara por se reformar. A mãe começou também com o colesterol e a tensão altos. Com a crise o dinheiro já não chegava até ao fim do mês.
Aos 16 anos a Laura teve de se empregar. Arranjou um lugar de caixa no supermercado onde desde criança ia fazer as compras.
Ao princípio gostou daquela nova vida agitada. Mas depois começaram outra vez as intrigas, os mexericos. Laura tornou-se cada vez mais seca, mais áspera, mais dura.
Andava agora acima dos 90kg e a altura não chegava 1,60m. Lia nas revistas da cabeleireira que tinha de perder à volta de 30kg. Mas como conseguir com aquele apetite devorador que trazia desde criança.
Começou a suprimir refeições e por vezes fazia só uma refeição por dia. Mas nessa desforrava-se, com uma boa pizza, ou um belo hambúrguer com um bom pacote de batatas fritas e meio litro de refrigerante.   
Aos 17 anos começou a notar que tinha sempre muita sede e que tinha de ir muitas vezes aos sanitários. A chefe chamou-lhe a atenção. Não podia estar sempre a abandonar a caixa – “Trata-te rapariga, podes ter aí algum problema”.
Com dificuldade lá conseguiu inscrever-se no médico da caixa. Depois teve de esperar 2 meses por uma consulta. Todas as horas estavam ocupadas pelos utentes do costume que iam todos os dias passar a tarde ao centro de saúde.
A consulta foi feita a correr e o médico limitou-se a pedir análises.
– “Vêm cá mostrar daqui a um mês. Adeusinho”.
As análises mostraram que o açúcar estava muito alto e o colesterol também, ia começar o calvário da Diabetes.
-“Vais ter que de tomar uns comprimidos e vamos ver se não temos que ir para a insulina”.
Era a “má sorte” que a perseguia desde que entrara no liceu, ou talvez mesmo antes disso.
Quando chegou aos 30, o pai já tinha falecido com um segundo enfarte e a mãe tinha tido um AVC.
“Foi da tensão alta”, disseram no hospital. Agora a mãe estava em casa, meio entrevada, e tinha de tratar dela depois do emprego.
A Laura via o seu futuro cada vez mais incerto, mais negro, mais fechado.
Com as picadas de insulina 3 vezes por dia, mais os controlos da glicémia, os remédios seus e da mãe e a higiene desta que tinha de fazer de manhã e à noite, a vida de Laura tornara-se num inferno.
Já tinha confessado a uma colega:
“Se não tivesse a minha mãe para cuidar já me tinha deitado debaixo de um comboio!”
Uma tarde, estava no caixa do supermercado, uma cliente viu-a a chorar. Ao indagar a causa de tanta tristeza, Laura contou-lhe a desgraça da sua vida, que já não aguentava mais!
A senhora era nutricionista e prometeu ajudá-la. Começou a fazer 6 refeições por dia, com fruta ou vegetais em todas elas. Deixou de comer todos os dias pizzas e hambúrgueres. Começou a ir a pé para casa para fazer exercício.
E a pouco, e pouco o peso foi baixando. No primeiro mês deste novo estilo de vida perdeu 10kg. Para perder os 10kg seguintes já foram precisos 6 meses. Mas Laura sentia-se renascer. Era mais fácil controlar a diabetes e mexia-se muito melhor. Agora com 35 anos e menos 30 kg, Laura tinha-se tornado mais bonita, mais afável, mais doce.
Numa das suas caminhadas encontrou um homem que também queria mudar de vida. Juntos construíram um novo lar.
A Laura gorda com os 90kg e uma depressão eram do passado.
Voltara a ser a Laurinha que alguém gostava de mimar.


Prof. Doutor Jacinto Gonçalves

Fernando Botero,“The Flying Eagles” 99 x 137 cm, 2008, oil on canvas.


"As sensações são os detalhes que constroem a história da nossa vida." 

quarta-feira, 23 de janeiro de 2019

"Chuva" - Poema de Ribeiro Couto


Childe Hassam (1859-1935, American Impressionist Painter), A Rainy Day in Boston, 1885,
óleo sobre tela - 66.4 x 121.9 cm - Toledo Museum of Art



Chuva


A chuva fina molha a paisagem lá fora.
O dia está cinzento e longo... Um longo dia!
Tem-se a vaga impressão de que o dia demora...
E a chuva fina continua, fina e fria,
Continua a cair pela tarde, lá fora.

Da saleta fechada em que estamos os dois,
Vê-se, pela vidraça, a paisagem cinzenta:
A chuva fina continua, fina e lenta...
E nós dois em silêncio, um silêncio que aumenta
se um de nós vai falar e recua depois.

Dentro de nós existe uma tarde mais fria...

Ah! Para que falar? Como é suave, branda,
O tormento de adivinhar — quem o faria? —
As palavras que estão dentro de nós chorando...

Somos como os rosais que, sob a chuva fria,
Estão lá fora no jardim se desfolhando.

Chove dentro de nós... Chove melancolia...


Ribeiro Couto

(1898-1963)