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quarta-feira, 22 de abril de 2026

"Repelente" - Poema de Ricardo da Cunha Lima


 
Lucas Higashi (Artista multimeios, compositor, músico, produtor musical, designer
gráfico, ilustrador, editor audiovisual e diretor criativo nipo-brasileiro, n. 2002.),
Ilustração para capa de máteria do Conexão Ciência.
(daqui)
 
 
Repelente


Quando a família de insetos
chegou à cidade grande,
levou um susto completo.
O mosquito-pai falou:
— Quanta gente! Que terror!
Só queremos passear,
mas esse monte de gente
não nos deixa nunca em paz!
Que criaturas mais chatas!
Isso incomoda demais!
Então, falou pros filhinhos:
— Olho nos seres humanos!
Eles causam muitos danos!
Cuidado com as raquetes,
raquetinhas, mãos, toalhas,
agasalhos, blusas, malhas,
travesseiros, almofadas,
panos, sprays em geral.
Chinelos são um flagelo!
Jornal é sempre fatal!
Mas o que é o principal,
isto, sim, é muito urgente:
não se esqueçam de passar
o repelente… de gente!


Ricardo da Cunha Lima, em 'De volta', 
Companhias das Letrinhas, 2022.
 


'De volta' de Ricardo da Cunha Lima,
Ilustrações de Rodrigo Fischer,
Companhias das Letrinhas, 2022.


SOBRE O LIVRO 


Esta é uma obra lúdica e cativante que celebra a volta de Ricardo da Cunha Lima à poesia para as crianças com cenários fantásticos e repletos de rimas divertidas.
 
Nas páginas deste livro, os leitores vão visitar um castelo feito de chantili e dos doces mais deliciosos que existem, conhecer um veloz ventilador que também sente calor e presenciar uma chuva de gotas coloridas. Além disso, com o premiado poema "Um par de lições do lápis", todos vão se encantar com a magia que uma boa história traz.
Este festival de rimas ao lado de personagens surpreendentes, aventuras divertidas e ilustrações de Rodrigo Fischer que brincam com elementos surreais e nonsense marca a volta de Ricardo da Cunha Lima à poesia dedicada aos leitores mais jovens. Indicado para leitores a partir de 6 anos.
 (daqui)
 

quinta-feira, 2 de abril de 2026

"Lindinha" - Poema de Affonso Romano de Sant'Anna


Salvador Dalí (Spanish surrealist artist, 1904–1989),
Untitled (Landscape with Butterflies), c. 1956.



Lindinha 


É linda, é vida, é mulher
essa pequenina mariposa
que, clarinha, pousou
na folha branca de papel.

É linda, é vida, é mulher.
Parece a cinderela,
alguém em traje de noiva,
tão quieta, embora
na cabeça uma coroa.
Com seu manto de rainha
mexe as anteninhas. Para mim?

Querida,
não és a bruxa preta do poeta,
o corvo escuro,
a mosca azul do poeta.
Que mensagem me trazes?

Escrevo entortando a frase, a letra
para não te machucar.
Não ser zoólogo
para entender-te,
saber tua espécie,
teus anseios, ó lindinha,
vai, voa, leva meu afeto
ou, então, fica tranquila
enquanto folheio coisas já escritas
ou em silêncio escrevo
para daqui não te apartar.

Me olhas, que te escrevo.
Adiante a lareira arde,
lá fora, cantam grilos.
Certo tens uma biografia
como qualquer ser desconhecido.

Paro de escrever. Te observo.
Se eu vivesse no campo
como São Francisco
que belos amigos faria!
Entre uma folha e outra,
entre um minuto e outro
um ser vivo pequenino, como eu,
se instalou defronte a mim.

Querida,
não és a bruxa preta do poeta,
o corvo escuro,
a mosca azul do poeta.
És pequenina,
és linda, és vida, és poesia
e, certamente, mulher.


Affonso Romano de Sant'Anna
,
Textamentos, 1999.

 

sábado, 28 de fevereiro de 2026

"Inseto" - Poema de Alice Gomes

 
 
Jan van Kessel, the Elder (Flemish painter, 1626
1679),
"Study of Butterfly and Insects", c. 1655. National Gallery of Art.
 
 

Inseto


A lagarta comia
comeu
comerá
a polpa doce de uma bela pera.

Já farta de comer, de digerir
Procurou uma fresta para dormir. 

E dorme
dormirá
dormiria
Tanto de noite como em pleno dia.

Durante o sono mudou forma e cor
Já não parece bicho mas flor.


Alice Gomes, em "Bichinho Poeta"


 
Jan van Kessel, the Elder, "Insects and Fruit", Rijksmuseum.


"A marca de sua ignorância é a profundidade da sua crença na injustiça e na tragédia. O que a lagarta chama de fim de mundo, o mestre chama de borboleta."


"The mark of your ignorance is the depth of your belief in injustice and tragedy. What the caterpillar calls the end of the world, the master calls a butterfly."

Richard Bach, "Illusions: The Adventures of a Reluctant Messiah" - Página 134;
Publicado por Delacorte Press, 1977. 
 

 
 Jan van Kessel, the Elder, "Insects"Fitzwilliam Museum  



"Se todos os insetos desaparecessem da Terra, em cinquenta anos toda a vida na Terra acabaria. Se todos os seres humanos desaparecessem da Terra, em cinquenta anos todas as formas de vida floresceriam."

Jonas Salk

(Médico, virologista e epidemiologista norte-americano (1914–1995), mais conhecido como o inventor da primeira vacina antipólio, que, em sua homenagem, ficou conhecida como Vacina Salk.)




Jan van Kessel, the Elder, "Insects" (A Sprig of redcurrants with an elephant hawk moth,
a ladybird, a millipede and other insects)
, 1657.



Artefato nipônico


A borboleta pousada
ou é Deus
ou é nada.


Adélia Prado, "A Faca no Peito", 1988;
"Poesia Reunida", 1991, p. 381,

São Paulo: editora Siciliano



Jan van Kessel, the Elder, "Butterflies, other insects and flowers", 1659, High Museum of Art.

domingo, 22 de junho de 2014

"Ser é Escolher-se" - Texto de Jean Paul Sartre




Ser é Escolher-se 


"Para a realidade humana, ser é escolher-se: nada lhe vem de fora, nem tão pouco de dentro, que possa receber ou aceitar. Está inteiramente abandonada, sem auxílio de nenhuma espécie, à insustentável necessidade de se fazer ser até ao mais ínfimo pormenor. Assim, a liberdade não é um ser: é o ser do homem, quer dizer, o seu nada de ser. (...) O homem não pode ser ora livre, ora escravo; ele é inteiramente e sempre livre, ou não é."

Jean-Paul Sartre, in 'O Ser e o Nada'


Jean-Paul Sartre 


Escritor e filósofo francês, Jean-Paul Charles Aymard Sartre nasceu a 21 de junho de 1905, na cidade de Paris. Filho de um oficial da marinha que morreu quando Sartre era ainda criança, mudou-se com a mãe, sobrinha-neta do famoso médico e escritor Albert Schweitzer, para junto do avô.
A família partiu para La Rochelle em 1917, por ocasião do casamento da mãe em segundas núpcias. Após ter frequentado o Lycée Louis-le-Grand, licenciou-se pela Ècole Normale Supérieure em 1929, onde conheceu Simone de Beauvoir, que se viria a tornar na sua companheira. A partir de 1931 trabalhou como professor, tendo a possibilidade de viajar pelo Egito, Grécia, Itália e Alemanha, onde estudou a filosofia de Edmund Husserl Martin Heidegger.
Em 1938 publicou o seu primeiro romance, La Nausée (A Náusea), em que exprimia de forma pessimista a sua constatação do absurdo da vida, e o consequente ateísmo. No ano seguinte, e com a deflagração da Segunda Guerra Mundial foi engajado para o serviço militar em 1939, mas foi capturado pelos alemães ao fim de um ano e libertado em 1941. Juntou-se então à Resistência, e contribuiu para publicações periódicas como Les Lettres Françaises e Combat. Em 1943 publicou a sua primeira peça de teatro, Les Mouches (As Moscas), escrita em moldes da tragédia grega e recorrendo à temática da sua mitologia, e em que procura afirmar a doutrina do existencialismo, de que a responsabilidade dos atos do indivíduo recai sempre sobre si mesmo, e constitui o melhor exercício da liberdade.
Com o armistício fundou uma revista, a Les Temps Modernes, de teor literário e político. Decidiu então dedicar-se inteiramente à escrita e às atividades políticas marxistas. Em 1946 apareceu o seu estudo, L'Existencialisme Est Un Humanisme, uma espécie de manifesto da filosofia existencialista, e La Putain Respectueuse. Les Mains Sâles (As Mãos Sujas) foi publicado em 1948.
Visitou a União Soviética após a morte de Estaline, ocorrida em 1953, mas a azáfama política esgotou-o ao ponto de ter de ser internado durante dez dias num hospital. Defendeu a causa da liberdade do povo húngaro em 1956 e da do checo em 1968.
Foi galardoado com o Prémio Nobel de Literatura em 1964, mas recusou a honra como forma de protesto contra os valores da sociedade burguesa. Uma organização terrorista contra a independência da Argélia colocou duas bombas no seu apartamento, uma em 1962 e outra no ano seguinte.
Foi presidente do tribunal criado por Bertrand Russell para julgar a conduta militar norte-americana na Indochina em 1967. Apoiou vivamente os acontecimentos do 'maio de 68'. Em 1970 foi detido pela polícia por vender propaganda maoista, na época proibida em França.
Um surto de glaucoma foi prejudicando gradualmente a sua visão, a partir de 1975, até o ter cegado quase completamente no fim da sua vida, que ocorreu a 15 de abril de 1980 em Paris, devido a problemas pulmonares.

Jean-Paul Sartre. In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2014. [Consult. 2014-06-22].


Achrioptera fallax


Bicho-pau-azul (Achrioptera fallax) nativo de Madagáscar. Os machos chegam a medir 13 cm, têm uma cor profunda azul, com espinhos da cor laranja e são braquípteros (possuem asas vestigiais que não servem para voar), enquanto as fêmeas são maiores, medindo cerca de 18 cm e são acastanhadas. Alimentam-se de folhas de algumas árvores, como eucalipto e carvalho.


Achrioptera fallax


"Nasci para satisfazer a grande necessidade que eu tinha de mim mesmo."

(Jean-Paul Sartre)

domingo, 30 de junho de 2013

"A formiga no carreiro" - Poema de Zeca Afonso




A formiga no carreiro 


A formiga no carreiro
Vinha em sentido contrário
Caiu ao Tejo
Ao pé dum septuagenário. 

Lerpou, trepou às tábuas
Que flutuavam nas águas
E de cima duma delas
Virou-se para o formigueiro
Mudem de rumo
Já lá vem outro carreiro.

A formiga no carreiro
Vinha em sentido diferente
Caiu à rua
No meio de toda a gente. 

Buliu, abriu as gâmbeas
Para trepar às varandas
E de cima duma delas
Virou-se para o formigueiro
Mudem de rumo 
Já lá vem outro carreiro. 

A formiga no carreiro 
Andava à roda da vida
Caiu em cima
Duma espinhela caída. 

Furou, furou à brava
Numa cova que ali estava
E de cima duma delas
Virou-se para o formigueiro
Mudem de rumo
Já lá vem outro carreiro. 


José Afonso (Zeca Afonso),
  Álbum «Venham mais cinco», 1973




"A política é uma pedra atada ao pescoço da literatura, e que em menos de seis meses a submerge. A política, no meio dos interesses da imaginação, é um tiro no meio de um concerto." - Stendhal
 

 

Henri-Marie Beyle, mais conhecido como Stendhal (Grenoble, 23 de janeiro de 1783 — Paris, 23 de março de 1842) foi um escritor francês reputado pela fineza na análise dos sentimentos de seus personagens e por seu estilo deliberadamente seco.


Zeca Afonso - "A formiga no carreiro"
José Afonso, Álbum: Venham Mais Cinco
(Gravado em Paris de 10 a 20 de Outubro de 1973)


Música de Intervenção
(Português europeu) ou música de protesto (Português brasileiro) é uma categoria que engloba canções de música popular compostas com o intuito de chamar a atenção do ouvinte a um determinado problema da atualidade, seja ele de origem social, política ou económica.
Era um tipo de música muito comum nos anos 60 e 70 do século XX, durante a ditadura militar brasileira ou nos últimos anos do Estado Novo português. As suas músicas e atuações eram proibidas, de modo que a sua voz fazia-se ouvir sorrateiramente. Os músicos e cantores de intervenção sofreram a perseguição do regime do Estado Novo. Muitos deles sofreram a prisão e exílio.
Nomes como os de  Adriano Correia de Oliveira,  Brigada Victor Jara,  ChullageFausto Bordalo DiasFernando TordoFrancisco Fanhais (ou Padre Fanhais),  Janita SaloméGACJosé Afonso (ou Zeca Afonso), José Mário Branco,  Luís Cília,  Manuel FreirePaulo de CarvalhoSérgio GodinhoValete (rapper), Vitorino Salomé, entre outros, foram sinónimo de contestação, oposição, luta pela liberdade.
A canção «A formiga no carreiro» de Zeca Afonso foi editada porque a fábula expressa nessa composição parece não ter sido interpretada pelos serviços de censura.
Procedendo à sua decifração, tendo em conta que é uma obra artística, verifica-se um forte empenhamento sociopolítico na sua letra.

sábado, 25 de agosto de 2012

"É preciso não esquecer nada" - Poema de Cecília Meireles



Fotografia de Jeevan Jose
 

É preciso não esquecer nada 


É preciso não esquecer nada: 
nem a torneira aberta nem o fogo aceso, 
nem o sorriso para os infelizes 
nem a oração de cada instante. 

É preciso não esquecer de ver a nova borboleta 
nem o céu de sempre. 

O que é preciso é esquecer o nosso rosto, 
o nosso nome, o som da nossa voz, o ritmo do nosso pulso. 

O que é preciso esquecer é o dia carregado de atos, 
a ideia de recompensa e de glória. 

O que é preciso é ser como se já não fossemos, 
vigiados pelos próprios olhos 
severos connosco, pois o resto não nos pertence.


























































quarta-feira, 28 de março de 2012

"A borboleta" - Poema de Olavo Bilac



 
A borboleta 


Trazendo uma borboleta, 
Volta Alfredo para casa. 
Como é linda! É toda preta, 
Com listas douradas na asa. 

Tonta, nas mãos da criança, 
Batendo as asas, num susto, 
Quer fugir, porfia, cansa, 
E treme, e respira a custo. 

Contente, o menino grita: 
“É a primeira que apanho, 
Mamãe vê como é bonita! 
Que cores e que tamanho! 

Como voava no mato! 
Vou sem demora pregá-la 
Por baixo do meu retrato, 
Numa parede da sala”. 

Mas a mamãe, com carinho, 
Lhe diz: “Que mal te fazia, 
“Meu filho, esse animalzinho, 
Que livre e alegre vivia? 

Solta essa pobre coitada! 
Larga-lhe as asas, Alfredo! 
Vê como treme assustada… 
Vê como treme de medo… 

Para sem pena espetá-la 
Numa parede, menino, 
É necessário matá-la: 
Queres ser um assassino?” 

Pensa Alfredo… E, de repente, 
Solta a borboleta… E ela 
Abre as asas livremente, 
E foge pela janela. 

“Assim, meu filho! Perdeste 
A borboleta dourada, 
Porém na estima cresceste 
De tua mãe adorada… 

Que cada um cumpra a sorte 
Das mãos de Deus recebida: 
Pois só pode dar a Morte 
Aquele que dá a Vida.” 


Olavo Bilac, in Poesias Infantis  


Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac (RJ 1865 — RJ 1918 ) Príncipe dos Poetas Brasileiros – Jornalista, cronista, poeta parnasiano, contista, conferencista, autor de livros didáticos. Escreveu também tanto na época do império como nos primeiros anos da República, textos humorísticos, satíricos que em muito já representavam a visão irreverente, carioca, do mundo. Sua colaboração foi assinada sob diversos pseudónimos, entre eles: Fantásio, Puck, Flamínio, Belial, Tartarin-Le Songeur, Otávio Vilar, etc., e muitas vezes sob seu próprio nome. Membro fundador da Academia Brasileira de Letras. Criou a cadeira 15, cujo patrono é Gonçalves Dias. Sem sombra de dúvidas, o maior poeta parnasiano brasileiro. 
Obras: Poesias (1888), Crónicas e novelas (1894), Crítica e fantasia (1904), Conferências literárias (1906), Dicionário de rimas (1913), Tratado de versificação (1910), Ironia e piedade, crónicas (1916), Tarde (1919); Poesia, org. de Alceu Amoroso Lima (1957), e obras didáticas.



Borboletas
 
 
Borboleta


O nome tem origem grega e refere-se à existência de escamas sobrepostas nas asas.
As borboletas são
insetos lepidópteros. Possuem dois pares de grandes asas, geralmente muito coloridas. No seu desenvolvimento passam por metamorfoses e a larva é uma lagarta. As adultas alimentam-se do néctar das flores e as lagartas alimentam-se em geral de plantas podendo originar pragas graves. (daqui)
 
 


















(Todas as imagens foram retiradas da internet)


“Borboleta é pétala que voa.”