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quarta-feira, 7 de agosto de 2019

"Menina Gorda" - Poema de Ribeiro Couto


Fernando Botero, Bather on the Beach, 2001


Menina Gorda


Esta menina gorda, gorda, gorda,
Tem um pequenino coração sentimental.
Seu rosto é redondo, redondo, redondo;
Toda ela é redonda, redonda, redonda,
E os olhinhos estão lá no fundo a brilhar.

É menina e moça. Terá quinze anos?
Umas velhas amigas de sua mamãe
Dizem sempre que a encontram, num êxtase longo:
“Como esta menina está gorda, bonita!”
“Como esta menina está gorda, bonita!”
E ela ri de prazer. Seu rosto redondo
Esconde os olhinhos no fundo, a brilhar.

Às vezes no quarto,
Diante do espelho;
Ao ver-se tão gorda, tão gorda, tão gorda,
Ela pensa nas velhas amigas de sua mamãe
E também num rapaz
Que a olha sorrindo,
Quando toda manhã ela vai para a escola:
“– Ele gosta de mim… Ele gosta de mim.
Eu sou gorda, bonita…”
E os dedos gordinhos pegando nas tranças
Têm carícias ingénuas
Diante do espelho.


Ribeiro Couto
(1898-1963)

Menina Gorda, de Ribeiro Couto, declamado por João Villaret.
(http://www.youtube)


Fernando Botero, Le sorelle (The Sisters), 1969 


"Os pequenos atos de cada dia fazem ou desfazem o caráter." 

(Oscar Wilde)


 Fernando Botero, Une famille, 2006 


"O matrimónio é uma experiência, e cada experiência tem o seu preço."

(Oscar Wilde)





HISTÓRIAS DA VIDA REAL 
“A Menina Gorda”


Era uma vez uma menina gorda que tinha tudo para ser feliz.
Chamava-se Laura e nascera, com quatro quilos e meio, na Maternidade Alfredo da Costa.
Quando as colegas da mãe a foram visitar à maternidade, ao ver a Laurinha exclamaram extasiadas: “que perfeitinha”, “ vai ser uma mulher e peras”.
A mãe, do tipo “cheiinha”, era funcionária de uma repartição. Na gravidez as análises tinham acusado um bocadinho de açúcar a mais. Mas o médico tinha garantido que não tinha importância, que passava depois do parto.
A Laurinha era um bebé que não dava trabalho a comer. Ao peito mamava quanto podia e, quando passou para as farinhas, era um gosto vê-la despejar o biberon. O médico dizia que o peso de Laurinha estava acima da média, mas que não fazia mal, porque a menina estava a crescer.
Eram todos gorditos naquela família. O pai começava a ter uma barriga avantajada, e a tensão um bocadinho alta.
“Menos sal e mais caminhadas” – dizia o médico. Mas ao ver a televisão depois de jantar, sentado no sofá lá ia uma embalagem de salgadinhos com um bagacinho a acompanhar.
Aos sábados era uma festa: iam todos ao supermercado fazer as compras da semana. A Laurinha sentava-se no carrinho e, tão inteligente, só com 3 anos já sabia onde era a prateleira das bolachas.
 E o carrinho enchia, enchia, enchia de chocolates, doces, batatas fritas, refrigerantes. Era raro uma alface ou molho de brócolos. “Estragam-se muito depressa”, explicava a mãe.
Aos 10 anos a Laurinha entrou no Liceu para o segundo ciclo. E de repente deixou de ser a Laurinha e passou a ser “a Gorda”.
Não conseguia fazer amigas e os rapazes faziam troça dela.
Refugiara-se no estudo. Tinha boas médias. Criou ainda mais invejas. Passou a ser a “a Gorda marrona”.
Aguentou 2 anos. Foi para um colégio, pago a custo pelos pais. Mas a alcunha seguia-a como um restilho. Nunca conseguiu arranjar namorado.
Aos 15 deixou de estudar. O pai teve um enfarte e acabara por se reformar. A mãe começou também com o colesterol e a tensão altos. Com a crise o dinheiro já não chegava até ao fim do mês.
Aos 16 anos a Laura teve de se empregar. Arranjou um lugar de caixa no supermercado onde desde criança ia fazer as compras.
Ao princípio gostou daquela nova vida agitada. Mas depois começaram outra vez as intrigas, os mexericos. Laura tornou-se cada vez mais seca, mais áspera, mais dura.
Andava agora acima dos 90kg e a altura não chegava 1,60m. Lia nas revistas da cabeleireira que tinha de perder à volta de 30kg. Mas como conseguir com aquele apetite devorador que trazia desde criança.
Começou a suprimir refeições e por vezes fazia só uma refeição por dia. Mas nessa desforrava-se, com uma boa pizza, ou um belo hambúrguer com um bom pacote de batatas fritas e meio litro de refrigerante.   
Aos 17 anos começou a notar que tinha sempre muita sede e que tinha de ir muitas vezes aos sanitários. A chefe chamou-lhe a atenção. Não podia estar sempre a abandonar a caixa – “Trata-te rapariga, podes ter aí algum problema”.
Com dificuldade lá conseguiu inscrever-se no médico da caixa. Depois teve de esperar 2 meses por uma consulta. Todas as horas estavam ocupadas pelos utentes do costume que iam todos os dias passar a tarde ao centro de saúde.
A consulta foi feita a correr e o médico limitou-se a pedir análises.
– “Vêm cá mostrar daqui a um mês. Adeusinho”.
As análises mostraram que o açúcar estava muito alto e o colesterol também, ia começar o calvário da Diabetes.
-“Vais ter que de tomar uns comprimidos e vamos ver se não temos que ir para a insulina”.
Era a “má sorte” que a perseguia desde que entrara no liceu, ou talvez mesmo antes disso.
Quando chegou aos 30, o pai já tinha falecido com um segundo enfarte e a mãe tinha tido um AVC.
“Foi da tensão alta”, disseram no hospital. Agora a mãe estava em casa, meio entrevada, e tinha de tratar dela depois do emprego.
A Laura via o seu futuro cada vez mais incerto, mais negro, mais fechado.
Com as picadas de insulina 3 vezes por dia, mais os controlos da glicémia, os remédios seus e da mãe e a higiene desta que tinha de fazer de manhã e à noite, a vida de Laura tornara-se num inferno.
Já tinha confessado a uma colega:
“Se não tivesse a minha mãe para cuidar já me tinha deitado debaixo de um comboio!”
Uma tarde, estava no caixa do supermercado, uma cliente viu-a a chorar. Ao indagar a causa de tanta tristeza, Laura contou-lhe a desgraça da sua vida, que já não aguentava mais!
A senhora era nutricionista e prometeu ajudá-la. Começou a fazer 6 refeições por dia, com fruta ou vegetais em todas elas. Deixou de comer todos os dias pizzas e hambúrgueres. Começou a ir a pé para casa para fazer exercício.
E a pouco, e pouco o peso foi baixando. No primeiro mês deste novo estilo de vida perdeu 10kg. Para perder os 10kg seguintes já foram precisos 6 meses. Mas Laura sentia-se renascer. Era mais fácil controlar a diabetes e mexia-se muito melhor. Agora com 35 anos e menos 30 kg, Laura tinha-se tornado mais bonita, mais afável, mais doce.
Numa das suas caminhadas encontrou um homem que também queria mudar de vida. Juntos construíram um novo lar.
A Laura gorda com os 90kg e uma depressão eram do passado.
Voltara a ser a Laurinha que alguém gostava de mimar.


Prof. Doutor Jacinto Gonçalves

Fernando Botero,“The Flying Eagles” 99 x 137 cm, 2008, oil on canvas.


"As sensações são os detalhes que constroem a história da nossa vida." 

sábado, 14 de abril de 2012

"Dobrada à moda do Porto" - Poema de Álvaro de Campos


Balthus, 'Still Life with a Figure', 1940


Dobrada à moda do Porto


Um dia, num restaurante, fora do espaço e do tempo, 
Serviram-me o amor como dobrada fria. 
Disse delicadamente ao missionário da cozinha 
Que a preferia quente, 
Que a dobrada (e era à moda do Porto) nunca se come fria. 

Impacientaram-se comigo. 
Nunca se pode ter razão, nem num restaurante. 
Não comi, não pedi outra coisa, paguei a conta, 
E vim passear para toda a rua. 

Quem sabe o que isto quer dizer? 
Eu não sei, e foi comigo... 

(Sei muito bem que na infância de toda a gente houve um jardim, 
Particular ou público, ou do vizinho. 
Sei muito bem que brincarmos era o dono dele. 
E que a tristeza é de hoje). 

Sei isso muitas vezes, 
Mas, se eu pedi amor, porque é que me trouxeram 
Dobrada à moda do Porto fria? 
Não é prato que se possa comer frio, 
Mas trouxeram-mo frio. 
Não me queixei, mas estava frio, 
Nunca se pode comer frio, mas veio frio.


Álvaro de Campos, in Poesias 
(Heterónimo de Fernando Pessoa)


Biodiversidade 



Biodiversidade ou diversidade biológica pode ser definida como a variedade de vida do planeta terra, abrangendo as variações genéticas dentro das populações e espécies, a flora, a fauna, os microrganismos e as diversas comunidades, habitats e ecossistemas formados pelos organismos.Sendo uma das propriedades fundamentais da natureza, é responsável pelo equilíbrio e estabilidade dos ecossistemas e suas funções ecológicas são fundamentais para modificar a biosfera, tornando-a apropriada e segura para a vida.




A diversidade biológica possui, além de seu valor intrínseco, valor ecológico, genético, social, económico, científico, educacional, cultural, recreativo e estético. Com tamanha importância, é preciso evitar a perda da biodiversidade e cada vez mais preservá-la.




A preservação da biodiversidade não é só responsabilidade dos governos. As organizações internacionais e não governamentais, o setor privado e todas as pessoas têm o dever de proteger o que é o nosso património comum.




Por que ser Vegetariano?


As três razões para não se comer peixes


Sopa Plástica: O Lixo do Oceano Pacífico


Pesquisadores mostram que animais têm se alimentado de plástico. Correntes marítimas levam lixo da costa para o mar aberto. No maior oceano do planeta, uma sopa intragável, mistura de plástico, plâncton, lixo e alimento bóia a 1,6 mil quilómetros da costa entre a Califórnia e o Havaí. Não se sabe exatamente seu tamanho, mas estimativas indicam que o lixo maritmo do Oceano Pacífico teria área maior que a soma dos estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Goiás.




A poluição alcança um ambiente em que seres humanos raramente estão presentes, pela pouca quantidade de ilhas. O lixo cria anomalias, como a tartaruga que cresceu com um anel de plástico em volta do casco e mata os moradores do mar.




.Descoberta por acaso, o capitão Charles Moore viajava pelo Pacífico, entre o Havaí e a Califórnia, quando resolveu arriscar um novo caminho. "Foi perturbador. Dia após dia não víamos uma única área onde não houvesse lixo. E tão distantes do continente", lembra o capitão. Como um descobridor nos tempos das navegações, Charles Moore foi o primeiro a detetar a massa de lixo. E batizou o lugar de Lixão do Pacífico. Primeiro, viu pedaços grandes de plástico, muitos deles transformados em casa para os mariscos. Depois, quando aprofundou a pesquisa, o capitão descobriu que as águas-vivas estavam se enrolando no nylon e engolindo pedaços de plástico. Ele percebeu que mesmo onde parecia limpo, havia dejetos microscópicos, que estariam sendo ingeridos por organismos marinhos minúsculos e até pelos maiores. Albatrozes, por exemplo, tinham um emaranhado de fios dentro do corpo. "Antes não havia plástico no mar, tudo era comida. Então os animais aprenderam a comer qualquer coisa que encontram pela frente. Você pode ver aqui que eles tentaram comer isso. Mas não conseguiram", diz o capitão. 
Com a peneira na popa, o capitão e sua equipe filtram a sopa de plástico e fazem medições. Já descobriram, por exemplo, que 26% do lixo vem de sacolas de supermercado. Numa análise feita com 670 peixes, encontraram quase 1,4 mil fragmentos de plástico. São informações valiosas, fonte de pesquisa e argumentos para a grande denúncia de Charles Moore: "Gostaria que o mundo inteiro percebesse que o tipo de vida que estamos levando, isso de jogar tudo fora, usar tantos produtos descartáveis, isso está nos matando. Temos que mudar se quisermos sobreviver." Da praia para as águas profundas - Um gesto despreocupado, uma simples garrafa de plástico esquecida numa praia da Califórnia. Muitas vezes ela é devolvida pelas ondas e recolhida pelos garis. Mas grande parte do lixo plástico que é produzido nessa região acaba embarcando numa longa e triste viagem pelo Oceano Pacifico. Pode ser também depois de uma tempestade. O plástico jogado nas ruas é varrido pela chuva, entra nas galerias fluviais das cidades e chega até o mar ou vem de rios poluídos que desembocam no oceano. No caminho, os dejetos do continente se juntam ao lixo das embarcações e viajam até uma região conhecida como o Giro do Pacífico Norte. Diversas correntes marítimas que passam às margens da Ásia e da América do Norte acabam formando um enorme redemoinho feito de água, vida marinha e plástico. Lixo encalhado - Em Kamilo Beach, uma praia linda e deserta de uma região quase desabitada do Havai, há tantos dejetos marítimos que o lugar acabou virando um lixão a céu aberto. Basta procurar um pouquinho para descobrir a origem de tudo o que chega até a praia. Em um pedaço de plástico, caracteres chineses. Uma bóia de pescadores, que provavelmente veio do Japão. Um pouco mais adiante, o pedaço de um tanque de plástico com ideogramas coreanos. O pior é que Kamilo Beach está mais de 1,5 mil quilómetros distante do Lixão do Pacífico, no extremo sudoeste da ilha de Hilo, no Havaí. A praia dificilmente vê um gari. E o plástico que chega lentamente pelo mar vai ficando esquecido no paraíso. Há dois anos, depois que se mudaram para cá, Dean e Suzzane Frazer resolveram fazer de Kamilo um alerta planetário. Suzanne se pergunta: "Será que o governo japonês, por exemplo, sabe quanto plástico o Japão esta mandando para o Havaí?" Dean vem trazendo um galão que, sem dúvida, chegou da Ásia. Tem também tubo de shampoo usado nos Estados Unidos e sacos de plástico sabe-se lá de onde. Agora, são só farrapos do mar. As mordidas impressas no plástico levaram os ambientalistas a mudar de alimentação. Eles afirmam que as toxinas estão se acumulando ao longo da cadeia alimentícia, fazendo com que os resíduos do plástico cheguem ao ser humano.
Fonte: Nova Consciência



O Capitão Charles Moore da Algalita Marine Research Foundation foi quem primeiro descobriu a grande mancha de lixo do Pacífico - uma infinita aglomeração flutuante de lixo plástico. Agora ele chama a atenção para o crescente, asfixiante problema dos resíduos de plástico nos nossos mares.