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quinta-feira, 27 de julho de 2023

"Misticismo humano" - Poema de António Gomes Leal


Ayres Ferreira (Pintor naturalista português, 1908-1997), Trecho do Vouga, 1960


Misticismo humano


A alma é como a noite escura, imensa e azul,
Tem o vago, o sinistro, e os cânticos do sul,
Como os cantos d’amor serenos das ceifeiras
Que cantam ao luar, à noite pelas eiras…
Às vezes vem a névoa à alma satisfeita,
E cai sombria, vaga, e miúda e desfeita…
E como a folha morta em lagos sonolentos
As nossas ilusões vão-se nos desalentos!

Tem um poder imenso as coisas na tristeza!
Homem! conheces tu o que é a natureza?…
– É tudo o que nos cerca – é o azul, o escuro,
É o cipreste esguio, a planta, o cedro duro,
A folha, o tronco, a flor, os ramos friorentos,
É a floresta espessa esguedelhada aos ventos;
Não entra o vício aqui com beijos dissolutos,
Nem as lendas do mal, nem os choros dos lutos!…

– E os que viram passar serenos os seus dias…
E curvados se vão, às longas ventanias,
Cheio o peito de sol, através das florestas,
À calma do meio-dia… e dormiam as sestas,
Tranquilos sobre a eira, entre as ervas nas leivas…
Vão cansados depois, entre os ramos e as seivas,
Outra vez sob o Sol – a sua eterna crença! –
Em frutos ressurgir à natureza imensa,
E, aos beijos do luar, descansarem felizes,
Da bem-amada ao pé, no meio das raízes!

Morrer é livramento! oh deve saber bem
Sentir-se dilatar na Natureza mãe!
Ser tronco, ramo ou flor, nuvem, erva ou alfombra,
A rosa que perfuma, a árvore que dá sombra!
Estremecer na encosta às noturnas geadas,
E recortar o azul das noites consteladas!

Oh pelo claro azul dessas noites serenas,
Que o segador trigueiro entoa as cantilenas,
Tristes como a lua e o espinho dos martírios,
E que através do azul parecem cair lírios!…
Quando a brisa levanta as folhas indiscretas,
Noivam os rouxinóis e se abrem as violetas…
E a Natureza tem como um sabor de beijos,
Que obriga a soluçar a alma de desejos!…

Que segredos dirão nas brisas mensageiras,
À doçura da lua, a flor das laranjeiras,
O lírio, a madressilva, os jasmins vacilantes,
Que foram já, talvez, seios fortes e amantes,
E que hoje à branca luz dos mirtos siderais,
Conversam sobre o amor e os gozos ideais
Do tempo, que a falar corriam breve as horas,
Que seus olhos leais tinham a cor d’amoras,
E debaixo do Céu teciam longas danças,
Ao pé da amante meiga e de compridas tranças!…

No lago sonolento a flor do nenúfar
Talvez é um coração que abre para chorar!
O lírio um seio bom, – e as violetas curvadas
São os olhos talvez das doces bem-amadas!…

Feliz o semeador que vive entre os arados,
O campo, os lentos bois, longe dos povoados,
Entre os rijos irmãos humildes e trigueiros,
Que vivem sob o sol, à chuva, aos nevoeiros,
E quando à noite finda os suarentos trabalhos,
Vem a doce mulher buscá-lo nos atalhos,
Cujo olhar como a lua é tranquilo e consola,
E descanta chorando à noite na viola!…

E os que andam pelo mar, alegres e contentes,
Entre as ondas e o Céu, saudosos, negligentes,
Entre os cantos do vento, olhos fitos nos céus,
Entre o azul, o escuro, e os frios escarcéus,
Ombro a ombro o abismo, – abismo sempre aos pés,
Que dormem à poesia, à lua das marés,
E morrem uma noite, ó mar, aos teus embalos,
Deixando uns olhos bons e meigos a chorá-los!

Eu por mim não terei um astro bom nos Céus,
Nem uns olhos leais que chorem pelos meus,
E que inda a fronte mal me obscureça a mágoa,
Como espelhos d’amor já sejam rasos d’água!…
Sozinho passarei, e não irei jamais,
Pelas murtas com ela às tardes outonais;
De inverno não terei os consolos do lar,
Nem do estio a doçura imensa do luar;
Meus filhos não irão jamais colher os ninhos;
Ninguém virá à tarde esperar-me nos caminhos!


António Gomes Leal, in Claridades do sul, 1875

 


Gomes Leal
(Album Republicano, 1908)


António Duarte Gomes Leal nasce em Lisboa em 1848. Filho ilegítimo de um funcionário público, vive com a mãe e a irmã, a sua principal fonte de inspiração. No ano da morte de sua irmã, em 1875, publica Claridades do Sul, a sua primeira obra poética. Quando a mãe morre, converte-se ao catolicismo, o que tem influência na sua obra. Poeta e jornalista, é escrevente de um notário e publica inúmeros textos panfletários de denúncia político-social. 

A sua poesia oscila entre os três grandes paradigmas literários do final do século XIX: romantismo, parnasianismo e simbolismo. De 1899 a 1910, compõe e publica quase diariamente. Termina os seus dias na miséria, primeiramente vivendo da caridade alheia, na rua, e depois sustentando-se com uma pensão anual do Estado português que lhe foi conseguida por um grupo de amigos, dos quais se destaca Teixeira de Pascoaes. Morre em 1921.

Gomes Leal é considerado um precursor do Modernismo Português, tendo sido referido por Fernando Pessoa como um dos seus mestres. Este dedica-lhe o soneto Gomes Leal, publicado pela Ática na edição das Obras Completas de Fernando Pessoa, em 1967. 

Apesar de se mover literária e pessoalmente nos círculos próximos da Geração de 70, não integra o grupo dos “Vencidos da Vida”, referindo, porém, o apreço que Eça de Queirós e Antero de Quental lhe dedicam, num comentário feito pelo próprio Gomes Leal na obra “A Morte do Rei Humberto” (1900), citado por Gomes Monteiro, em O Drama de Gomes Leal. Com inéditos do Poeta. Gomes Leal tem aliás o cuidado de se distanciar das correntes estéticas da altura, fazendo-o nomeadamente na Nota a Claridades do Sul, acrescentada e publicada na segunda edição, em 1901. Na Nota a “A Morte do Rei Humberto”, Gomes Leal afirma ter publicado antes de Fradique Mendes na Revolução de Setembro e assevera ter sido contactado por Antero de Quental para assinar textos daquele pseudónimo, o que recusou. Na referida Nota, menciona que Cesário Verde tece encómios à poesia de Claridades do Sul. 

Gomes Leal estreou-se aos dezoito anos, em 1866, publicando a poesia “Aquela Morta”, na Gazeta de Portugal. Em 1869, publica o folhetim "Trevas" na Revolução de Setembro.
O cariz interventivo da sua obra é marcado não só pelos folhetins publicados nos jornais, mas também pela fundação do jornal satírico O Espectro Juvenal, em 1872, em parceria com Magalhães Lima, Silva Pinto, Luciano Cordeiro e Guilherme de Azevedo. É também um dos fundadores do jornal O Século (1881). Aí publica, por exemplo, “A banalidade nacional irritada” (30 de janeiro de 1881). 

Poeta joco-satírico, são deste autor vários textos que vieram a lume na Revolução de Setembro, dos quais destacamos “A batalha dos astros” (20 de abril de 1870); “Descrença” (31 de agosto de 1870); “Flor de perdição” (2 de outubro de 1870); “No Calvário” (outubro de 1870). Em 1873, publica “O Tributo de Sangue” e “A Canalha”. Em 1874, um ano antes da primeira edição de Claridades do Sul, escreve para o Diário de Notícias (19 de maio) “Duas palavras sobre a poesia moderna”, onde reflete sobre a utilidade que a poesia deve ter face às atribulações morais do final do século. 

Em 1875 sai a primeira edição de Claridades do Sul, cuja segunda edição é de 1901. Para celebrar Camões e Bocage, publica “A Fome de Camões” (1880) e “A Morte de Bocage” (1881). Datam igualmente de 1881 os panfletos poéticos “A Traição” e “O Herege”, pondo em causa o trono na pessoa do rei D. Luís, as Instituições burguesas e a Igreja, o que gerou um verdadeiro escândalo literário e político. Aliás, o primeiro texto leva-o à prisão do Limoeiro, onde escreve uma carta publicada no número comemorativo da Tomada da Bastilha de O Século (14/7/1881). A edição do almanaque O António Maria de 7 de julho de 1881 é dedicada por Bordalo Pinheiro a Gomes Leal. 

Outros poemas da sua autoria são “O Renegado” (1881), "A Orgia" (1882), “História de Jesus para as criancinhas lerem” (1883), “O Anti-Cristo” (1884 e 1886), “Fim de Um Mundo” (1899), “Serenadas de Hilário no Céu” (1900), “A Mulher de Luto” (1902), "Mefistófeles em Lisboa" (1907) “A Senhora da Melancolia” (1910). Publica até tarde. Data de março de 1915 o poema “A Dama Branca” que vem a lume na Águia. 

Na sua obra poética e panfletária, este poeta finissecular manifesta apego a entidades históricas e religiosas, numa atitude por vezes pessimista e acusadora. Todavia, é através desse apelo à História que procura um sentido para a vida. Este tipo de poesia enquadra-se na estética parnasiana cujas preocupações, além das de ordem formal e plástica, se inscrevem na procura da pureza original dos tempos, da História. Como exemplo, surgem as poesias de Claridades do Sul “Os Santos”; “D. Quixote”; “O Publicano”; “A Lira de Nero”; “Caim”; “A Lenda das Rosas”; “O Triste Monge” e “A Senhora de Brabante”. Ainda em Claridades do Sul, muitos dos seus poemas refletem sentimentos de desalento e aflição relacionados com a temática da miséria e da pobreza, num tom neorromântico do poema “As Aldeias”, “Misticismo Humano” e “De Noite”; outros refletem sobre a imagética feminina romântica, como em “Romantismo”; “Idílio Triste” e “Senhora dos olhos verdes”. 

Por outro lado, a dimensão decadentista-simbolista dessa obra de Gomes Leal leva a que se considere este poeta como o “verdadeiro precursor do Decadentismo em Portugal”, nas palavras de Seabra Pereira. “Licantropia” e “Aquela Orgia” são dois poemas que se inscrevem nessa tendência marcadamente simbolista que assumem algumas composições deste autor. 

A filiação de Gomes Leal em Baudelaire é um dos tópicos mais tratados, porque o poeta português se inspirou no mestre das correspondências. De facto, Gomes Leal trabalha com mestria a ideia das “correspondances” do romântico francês nos quatro sonetos de Claridades do Sul intitulados “O Visionário ou Som e Cor”. 
 
A perspetiva do poeta enquanto ser incompreendido e infeliz surge em vários textos de Gomes Leal, composições poéticas em que o sujeito lírico se assume como alguém singularmente distante do comum dos mortais. Não se distanciando da visão romântica do poeta, Gomes Leal define-se como um génio inadaptado à sociedade, num misticismo visionário. Inúmeros são os exemplos desta perspetiva do “poeta proscrito e infeliz”, como “Soneto dum poeta morto”, “Aquele Sábio”, “El Desdichado” e “Noites de Chuva” de Claridades do Sul. 

Outra característica deste poeta finissecular prende-se com a preocupação que manifesta em relação aos seus leitores, nomeadamente na Nota à primeira edição e acrescentada na segunda edição de Claridades do Sul (1901). Aí debruça-se sobre a tarefa do escritor explicitando que a este compete “trabalhar a sua ideia, lapidá-la, poli-la, desenvolvê-la, facetá-la, de maneira que ela seja como um grande elo em que se vão encatenar um rosário luminoso doutras novas, e que ela saia transformada desse vasto laboratório intelectual, por um processo misterioso semelhante ao que dá a Natureza, transformando da lagarta a borboleta, do carvão o diamante, e da ostra doente a pérola.” 

Na poesia de Gomes Leal confluem o Ultra-Romantismo, o satanismo byroniano, as correspondências baudeleirianas, o Parnasianismo e o Simbolismo. Há ainda alguns elementos que deixam já adivinhar o Surrealismo. 

Respondendo ao Inquérito Literário organizado por Boavida Portugal (realizado entre setembro e dezembro de 1912 e publicado em 1915), Gomes Leal afirma: “Em mim há três coisas: o poeta popular e de combate, nas sátiras e panfletos; o poeta do sonho e do mistério, na Nevrose Nocturna, nas Claridades do Sul, na Lua morta e na Mulher de Luto; e o poeta místico, na História de Jesus, na Senhora da Melancolia e no segundo Anti-Cristo.” 

No número 2 da ABC – Revista portuguesa (22 de julho de 1920), sob o título “O grande poeta Gomes Leal faz a sua biografia ao A B C, publica o Soneto autobiográfico”, que transcrevemos, antecedido do seguinte texto:

Gomes Leal, o poeta ilustre, que é uma glória nacional, quis dar ao A B C uma impressão da sua vida, da sua ação, das suas lutas. Em vez duma entrevista foram aos seus versos lapidares que chegaram a explicar como se passou uma infância, uma velhice e como a velhice chegou com as suas dores a focar essa cabeça coroada de louros. Só Gomes Leal poderia definir o que A B C desejava saber: a vida do primeiro poeta português.

Outrora, outrora, em épocas passadas,
Tive uma santa Mãe de ideias maneiras,
Um reto Pai de barbas prateadas,
Tive prédios, jardins, fontes, roseiras.

Nos colégios, nas aulas, nas bancadas,
Não quebrei bancos, não parti carteiras;
Fiz bons exames, contas, tabuadas,
Mais tarde amei patrícias feiticeiras.

Fui amigo do Eça e do Ramalho,
João de Deus, mais do excêntrico Fialho,
E tive que emigrar para o estrangeiro.

Chorei, gemi! Qual Dante nas estradas!
E ao regressar, por causas avanças,
- fui por três vezes parar ao Limoeiro.

(daqui)


Luiz Costa
- 3 Peças p/ Piano, Op. 1
Bruno Belthoise
, piano 
[Imagem: "Trecho do Vouga" pintura de Ayres Ferreira]


Ayres Ferreira (1908?-1997) estudou desenho, pintura e gravura na Escola de Belas-Artes onde conheceu o grande mestre impressionista António Saúde (1875-1958) que exerceu nele profunda influência. O mestre tinha, de facto, regressado empolgado de Paris onde tinha observado as mais recentes criações impressionistas francesas. Esse entusiasmo passou-o ele a Ayres Ferreira. Grande amante da Natureza, António Saúde tinha no seu estudante, de quem ele se tornara amigo, uma espontânea e verdadeira aceitação das suas propostas. De conhecida intolerância, António Saúde foi o mais severo crítico do seu aluno e obrigava-o a destruir qualquer trabalho com um mínimo erro. Entretanto, Ayres Ferreira, decidiu dedicar-se à gravura na qual trabalhava há muitos anos. Contudo, nunca deixou de pintar sob as orientações do grande mestre. Só em 1952 realizou a sua primeira exposição. Desde então a carreira de Ayres Ferreira foi marcada por uma grande atividade nos círculos artísticos portugueses.
Foi durante vários anos membro dirigente da Sociedade Nacional de Belas-Artes. De 1957 a 1959 fez parte do júri dos Salões da Sociedade Nacional de Belas-Artes. Em 1958 foi presidente do júri de admissão e classificação do Salão de Inverno da Sociedade Nacional de Belas-Artes. De 1959 a 1969 foi diretor do Grupo dos Artistas Portugueses. Em 1960 foi membro do júri da Exposição de Pintura Contemporânea, em Lamego, patrocinada pela Fundação Calouste Gulbenkian. (daqui)
 
 
Luiz Costa
 

Luiz Costa (Barcelos, Monte de Fralães, 25 de setembro 1879 — Porto, 7 de janeiro de 1960) foi um dos mais proeminentes pianistas e compositores portugueses do seu tempo. Faz parte da primeira geração de professores de piano do Conservatório de Música do Porto e exerceu o cargo de diretor entre 1933 e 1934.
A sua intensa atividade pedagógica repartia-se pelo cargo que exerceu como professor de piano do Conservatório de Música do Porto desde a sua fundação (1917) até 1949 e pelas inúmeras aulas particulares que fornecia em sua casa, deixando uma marca indelével na formação de toda uma geração de pianistas portugueses com destaque para Berta Alves de Souza, Hélia Soveral e Helena Sá e Costa.
Formado na Alemanha entre 1905 e 1907, onde estudou com Vianna da Mota, Bernhard Stavenhagen, Conrad Ansorge e Ferrucio Busoni, representantes da Nova Escola Alemã de Piano, fundada por Franz Liszt, desenvolveu uma intensa carreira a solo e de música de câmara tendo-se apresentado ao lado de músicos como Casals, Guilhermina Suggia, Cortot, Enesco ou Friedman.
Salienta-se também a atividade como presidente da Sociedade de Concertos Orpheon Portuense, promovendo na cidade do Porto concertos com alguns dos maiores nomes da música como Ravel, Arrau, Backhaus, Landowska, Fischer, entre tantos outros. 
Luiz Costa é também um dos compositores mais representativos do modernismo português, colhendo influências múltiplas para as suas criações, como a poesia de Corrêa de Oliveira e de Teixeira de Pascoaes, a escultura de Teixeira Lopes, assim como a atmosfera campesina do Minho sua terra natal. (daqui)
 
 

 
Bruno Belthoise (Paris, n. 1964), pianista e improvisador,  foi distinguido pela Fundação Laurent-Vibert e recebeu o Prémio da Fondation de France em 1988. Obteve o “Diplôme Supérieur d’Exécution“ em Piano na École Normale de Musique de Paris em 1989 e foi “Révélation Classique ADAMI” em 1997. Aperfeiçoou a sua formação em França com Françoise Buffet-Arsenijevic, Bruno Rigutto e François-René Duchâble, em Portugal com Helena Sá e Costa. 
Solista e membro do Trio Pangea, estreou várias obras de compositores como Emmanuel Hieaux, Alexandre Delgado, Bernard de Vienne ou Sérgio Azevedo. A sua discografia inclui uma vintena de CDs que acompanham a sua carreira, tem sido também convidado a participar em numerosos recitais e formações de música de câmara pelo mundo. Na radiodifusão, participou em programações da France-Musique, da Saarländischer Rundfunk, e da Antena 2. 
Bruno Belthoise é também contador de histórias associadas, produziu para o público jovem diversos concertos narrados e gravou vários álbums. Descobridor de partituras, tem dado a conhecer a música de compositores portugueses através de recitais e conferências. Na sua carreira tem sido apoiado por instituições como a Fundação Calouste Gulbenkian, o Instituto Camões, a RDP-Antena 2 e a Fundação GDA. (daqui)
 

quinta-feira, 13 de agosto de 2020

"Ode à Alegria" - Poema de Friedrich Schiller


Jan Steen (Dutch Golden Age painter, c. 1626 -1679), The Merry Family (1668),
 huile sur toile de 110,5 × 141 cm, Rijksmuseum, Amsterdam. 



Ode à Alegria
Versão: Arthur Nestrovski 


Oh, Glória!, me diz que nos move.
Outro tom, outro segredo
Glorioso caminho além!
[L. van Beethoven]


Glória! Glória!
Alegria, alegria
Filha do divino em nós
Abre as portas do destino
E entre a humanidade, após!
Teu apelo vê reunido
O que era dividido em vão,
Homens e mulheres, todos
São agora irmã e irmão.
Quem já foi amigo de um amigo
Sabe o bem que faz,
Quem já foi o amor de um ser amado
Encontr’uma outra paz.

Quem já teve um’alma no mundo,
A calma no fundo do esplendor;
Quem não teve, chora agora
A dor da vida sem amor.

Alegria vem do céu, do chão,
Do sol, do mar, de um som;
Quem do bem e quem do mal
Igual recolhe o mesmo dom.
Vêm de quem os beijos e o vinho
E ao fim do caminho um par só seu?
Mesmo o verme vive a vida
E o Querubim que está com Deus.

Vou, vou, como teus sóis
Girando no firmamento;
Vão, amigos, contra o vento
Com a alegria de um herói.

Num abraço, multidões!
Mundo inteiro, um beijo só!
Amigos! Muito além do céu
Vive sempre um Pai de todos.
Não te ajoelhas, multidão?
Mundo: vês teu Criador?
Busca muito além do céu!
Sobre o Sol, p’ra sempre, vive.


O Hino à Alegria, ou Ode à Alegria (em alemão Ode an die Freude), é o nome do poema escrito por Friedrich Schiller em 1785 e tocado no quarto movimento da 9.ª sinfonia de Ludwig van Beethoven.
Neste poema Schiller expressa uma visão idealista da raça humana como irmandade, uma visão que tanto este como Beethoven partilhavam.


 
Jan Steen, The Dancing Couple, c. 1663


Ode à Alegria 
(Tradução desconhecida)

Ó, amigos, mudemos de tom!
Entoemos algo mais prazeroso
E mais alegre!

Alegria, formosa centelha divina,
Filha do Elíseo,
Ébrios de fogo entramos
Em teu santuário celeste!
Tua magia volta a unir
O que o costume rigorosamente dividiu.
Todos os homens se irmanam
Ali onde teu doce vôo se detém.

Quem já conseguiu o maior tesouro
De ser o amigo de um amigo,
Quem já conquistou uma mulher amável
Rejubile-se conosco!
Sim, mesmo se alguém conquistar apenas uma alma,
Uma única em todo o mundo.
Mas aquele que falhou nisso
Que fique chorando sozinho!

Alegria bebem todos os seres
No seio da Natureza:
Todos os bons, todos os maus,
Seguem seu rastro de rosas.
Ela nos deu beijos e vinho e
Um amigo leal até a morte;
Deu força para a vida aos mais humildes
E ao querubim que se ergue diante de Deus!

Alegremente, como seus sóis voem
Através do esplêndido espaço celeste
Se expressem, irmãos, em seus caminhos,
Alegremente como o herói diante da vitória.

Abracem-se milhões!
Enviem este beijo para todo o mundo!
Irmãos, além do céu estrelado
Mora um Pai Amado.
Milhões, vocês estão ajoelhados diante Dele?
Mundo, você percebe seu Criador?
Procure-o mais acima do Céu estrelado!
Sobre as estrelas onde Ele mora!

Friedrich Schiller (1759-1805)
Tradução desconhecida




Jan Steen, Comme les vieux chantent, les enfants piaillent, 1662, Musée Fabre


Ode an die Freude
(Original em alemão)

O Freunde, nicht diese Töne!
Sondern laßt uns angenehmere
anstimmen und freudenvollere.
Freude! Freude!

Freude, schöner Götterfunken
Tochter aus Elysium,
Wir betreten feuertrunken,
Himmlische, dein Heiligtum!

Deine Zauber binden wieder
Was die Mode streng geteilt;
Alle Menschen werden Brüder,
Wo dein sanfter Flügel weilt.
Wem der große Wurf gelungen,
Eines Freundes Freund zu sein;
Wer ein holdes Weib errungen,
Mische seinen Jubel ein!
Ja, wer auch nur eine Seele
Sein nennt auf dem Erdenrund!
Und wer’s nie gekonnt, der stehle
Weinend sich aus diesem Bund!

Freude trinken alle Wesen
An den Brüsten der Natur;
Alle Guten, alle Bösen
Folgen ihrer Rosenspur.
Küsse gab sie uns und Reben,
Einen Freund, geprüft im Tod;
Wollust ward dem Wurm gegeben,
Und der Cherub steht vor Gott.

Froh, wie seine Sonnen fliegen
Durch des Himmels prächt’gen Plan,
Laufet, Brüder, eure Bahn,
Freudig, wie ein Held zum Siegen.

Seid umschlungen, Millionen!
Diesen Kuß der ganzen Welt!
Brüder, über’m Sternenzelt
Muß ein lieber Vater wohnen.
Ihr stürzt nieder, Millionen?
Ahnest du den Schöpfer, Welt?
Such’ ihn über’m Sternenzelt!
Über Sternen muß er wohnen. 


Friedrich Schiller
(1759-1805)


Sinfonia n.º 9 (Beethoven) - Chicago Symphony Orchestra - Riccardo Muti


1:51 Allegro ma non troppo, un poco maestoso 19:52 Molto vivace - Presto 35:50 Adagio molto e cantabile - Andante moderato - Andante Timestamps for Finale: "Movement" 1 52:14 Presto 55:26 Ode to Joy [Orchestral] 59:13 Presto 1:00:19 Ode to Joy (Freude, schöner Götterfunken) [Choral 1] "Movement" 2 1:03:14 Allegro molto assai (Froh, wie seine Sonnen fliegen) [Turkish March] 1:06:49 Ode to Joy (Freude, schöner Götterfunken) [Choral 2] "Movement" 3 1:07:47 Andante maestoso (Seid umschlungen, Millionen!) 1:09:34 Adagio ma non troppo (Ihr stürzt nieder, Millionen?) "Movement" 4 1:11:37 Allegro energico (Fugue on "Freude" and "Seid umschlungen" themes) 1:14:10 Allegro ma non tanto (Freude, Tochter aus Elysium) 1:15:50 Poco adagio (Alle Menschen werden Brüder) 1:16:48 Poco Allegro — Prestissimo (Seid umschlungen, Millionen!)

domingo, 9 de agosto de 2020

"Mahler" (A Canção de Deus e Morte) - Poema de José Emílio-Nelson


 
Hugues Merle (French painter, 1823–1881), L'Abandonnée, 1872 


Mahler


(A Canção de Deus e Morte)


No jardim das almas
A fala caída.
Como se fosse a canção de
Deus e Morte.
A canção do cadáver
Sombrosa e rente.
Uivo. Brechas.
Ululante.
Compassadamente
O coração solto
Rasgado contra o céu maciço.
E de abismo ou de crateras
Um ardil. Incessante
Profundidade e permanência interminável
Na terra ímpia.
O relâmpago rasteja Deus.
Abre-se a solidão
Nos ombros do Inferno.

Quem vislumbra pérfido
No alçapão da sombra?
E o ricochete da luz?
Que castigo inexpiável?
Haverá uma música da fatalidade?
E quem lhe deve obedecer?
Sou miserável e perturbante.
Dou-me à paisagem destituída.
À árvore devastadora. À borboleta esmagada.
(O restolho enovelando.
Um bestiário precipitando-se.
Sacudindo-me.
Que aurora imprevista
Impulsivamente no mundo?)
Cantava a impaciência
Melancólica.
A dor radiante.
A vastidão.


José Emílio-Nelson,
in A Palidez do Pensamento

José Emílio-Nelson nasceu em 1948 em Espinho. Obras: Polifonia (1979), Polifemo e Outros Poemas (1983), Extrema Paixão (1984), Nu Inclinado (1985), Queda do Homem (1989), Vida Quotidiana e Arte Menor (1990), A Palidez do Pensamento (1990), Claro Escuro ou a Nefasta Aurora (1992), Sodoma Sacrílega e Poesia Vária (1991), Mosaico (1996), A Alegria do Mal - Obra Poética 1979-2004 (Quasi, 2004).


Nota crítica sobre a poesia de José Emílio-Nelson, por Luís Adriano Carlos

José Emílio-Nelson, editor dos seus próprios livros, é um daqueles poetas que a crítica insiste em não reconhecer como uma das vozes mais originais da poesia portuguesa das últimas duas décadas.
Situando as suas referências numa genealogia heteróclita e maldita que passa principalmente por Sade, Lautréamont, Rimbaud, Nietzsche, Jarry, Ângelo de Lima, Artaud e Bataille, associa com ostensivo sentido derrisório uma altivez aristocrática da expressão a um hieratismo litúrgico em que o simbolismo sacral da linguagem é atravessado por intensos odores de profanação escatológica. Poesia que cinicamente recusa a ética da virtude e dos bons sentimentos, encontra na reinvenção de uma inconfundível estética do vício e da crueldade o melhor caminho para separar a estética da moral e exercer sem contemplações uma crítica ética da natureza infra-humana ou demasiado humana que a Moderna poesia virtuosa e benquista acaba por camuflar sob o manto da beleza, do bom gosto, da razão ou mesmo do prestígio cultural. Dionisíaca e satânica, dissolvendo as imagens da tentação em cenários que evocam o mundo-cão boschiano e enfatizando a violência transgressora do erotismo, liberta das palavras as suas pulsões mais negras com vista a uma teatralização da escrita plena de descrições que perfuram perversamente os objetos nomeados. Tudo isto implica uma desarmante consciência da escrita como gozo sensual e libidinoso, apesar de contida e despojada, ou como voluptuosa deglutição de fragmentos citacionais, oriundos de toda uma rede de textos literários e artísticos, que atuam reativamente no metabolismo do discurso para proporem um pacto de leitura assente no mais excessivo dos desconfortos críticos. (daqui)


Gustav Mahler - Symphony No. 3 (Lucerne Festival Orcherstra, Claudio Abbado)

Claudio Abbado, maestro italiano


Gustav Mahler, compositor e maestro austríaco nasceu em 1860, na Boémia, na Áustria, e morreu em 1911, em Viena. Foi um dos compositores mais marcantes da música do século XX, acabando por exercer uma enorme influência em Arnold Schoenberg, Dimitri Shostakovich e Benjamin Britten.

O seu talento musical revelou-se muito cedo. Com apenas quatro anos, fascinado pela música militar e pela música popular, começou a compor pequenas peças de piano e, aos quinze anos, ingressou no Conservatório de Viena. Os anos seguintes foram marcados pela sua ascensão como maestro e, aos trinta e sete anos, foi nomeado diretor da Ópera de Viena.

Influenciada pela escola de Richard Wagner e de Franz Liszt, a expressão musical de Mahler não era mais do que uma visão pessoal do mundo. A própria tensão, o estilo retórico, as orquestrações vivas e o uso irónico da música popular encontram-se bem presentes em várias sinfonias -- de fortes contrastes, mas unidas pela sua personalidade inequívoca.

O programa da orquestração da Symphony N.º 1 in D Major (1888) é uma autobiografia da sua juventude; o prazer da vida foi perturbado pela obsessão da morte na macabra Funeral March in the Manner of Callot. Os cinco andamentos da Symphony N.º 2 (1894) abrem, também, com a obsessão da morte. A Symphony N.º 3 in D Major (1896) representa, em seis andamentos, a visão dionisíaca de uma enorme sequência de pessoas, que se movem da natureza inanimada para a consciência de Deus.

Os elementos religiosos, presentes nos seus trabalhos, são extremamente significativos, uma vez que a sua infância e juventude foram marcadas pelas tensões raciais (ele era judeu) e pelos conflitos entre os seus pais.

Depois de dirigir espetáculos no Metropolitan Opera e de ser maestro da Philharmonic Society of New York, regressou definitivamente a Viena, onde morreu em 1911. Embora a sua música fosse ignorada durante os cinquenta anos que se seguiram à sua morte, Mahler passou a ser olhado como um dos precursores das técnicas de composição do século XX, sendo celebrizado pelas dez sinfonias que compôs. (daqui)


domingo, 26 de novembro de 2017

"Prognóstico" - Poema de Ada Ciocci Curado



August Macke (German Expressionist painter, 1887–1914),
'Saint George and the Dragon', 1912


Prognóstico


Poeta,
creia,
nem tudo está perdido,
porque,
felizmente,
sobretudo o mais,
o seu ideal,
a muitos outros ainda comove,
demove
e
predomina.


Ada Ciocci Curado, in 'Acalanto'


August Macke

(Suor Angelica - 'Senza mamma', de Giacomo Puccini, na voz de Maria Callas)


"É através dos outros que nos tornamos nós mesmos."

(Lev Vygotsky)

segunda-feira, 12 de junho de 2017

"Dá-me a festa mágica" - Poema de Pablo Neruda



 
Dá-me a festa mágica


DEUS - e de onde é que tiras para acender o céu
este maravilhoso entardecer de cobre?
Por ele soube encontrar de novo a alegria,
e a má visão eu soube torná-la mais nobre.

Nas chamas coloridas de amarelo e verde
iluminou-se a lâmpada de um outro sol
que fez rachar azuis as planícies do Oeste
e verteu nas montanhas suas fontes e rios.

Deus, dá-me a festa mágica na minha vida,
dá-me os teus fogos para iluminar a terra,
deixa em meu coração tua lâmpada acendida
para que eu seja o óleo de tua luz suprema.

E eu irei pelos campos na noite estrelada
com os braços abertos e a face desnuda,
cantando árias ingénuas com as mesmas palavras
com que na noite falam os campos e a lua.


Tradução de José Eduardo Degrazia



Antonio Vivald, 'The four seasons - Winter', Julia Fischer



“Quando eu morrer voltarei para buscar os instantes que não vivi junto do mar.”

(Sophia de Mello Breyner Andresen)
 

sexta-feira, 31 de março de 2017

"A Música" - Poema de Charles Baudelaire




A Música


A música p'ra mim tem seduções de oceano! 
Quantas vezes procuro navegar, 
Sobre um dorso brumoso, a vela a todo o pano, 
Minha pálida estrela a demandar! 

O peito saliente, os pulmões distendidos 
Como o rijo velame d'um navio, 
Intento desvendar os reinos escondidos 
Sob o manto da noite escuro e frio; 

Sinto vibrar em mim todas as comoções 
D'um navio que sulca o vasto mar; 
Chuvas temporais, ciclones, convulsões 

Conseguem a minh'alma acalentar. 
— Mas quando reina a paz, quando a bonança impera, 
Que desespero horrível me exaspera! 


Tradução de Delfim Guimarães


 Saint Petersburg (Hermitage version)


"A música é o vínculo que une a vida do espírito à vida dos sentidos. A melodia é a vida sensível da poesia." 
 
(Beethoven)


Johann Sebastian Bach (1685-1750) - Adagio
(Τhis version is made by Elise Robineau)


sábado, 1 de outubro de 2016

"Com os Mortos" - Poema de Antero de Quental


Arnold Böcklin (1827-1901), Isle of the Dead ("Die Toteninsel"), 1883, 3ª versão 



Com os Mortos


Os que amei, onde estão? Idos, dispersos, 
arrastados no giro dos tufões, 
Levados, como em sonho, entre visões, 
Na fuga, no ruir dos universos... 

E eu mesmo, com os pés também imersos 
Na corrente e à mercê dos turbilhões, 
Só vejo espuma lívida, em cachões, 
E entre ela, aqui e ali, vultos submersos... 

Mas se paro um momento, se consigo 
Fechar os olhos, sinto-os a meu lado 
De novo, esses que amei vivem comigo, 

Vejo-os, ouço-os e ouvem-me também, 
Juntos no antigo amor, no amor sagrado, 
Na comunhão ideal do eterno Bem. 


in "Sonetos"



"The Isle of the Dead, Symphonic poem Op. 29" 
Sergei Rachmaninoff (composer) - Sir Andrew Davis (conductor)


Isle of the Dead, Op. 29, is a symphonic poem composed by Sergei Rachmaninoff, written in the key of A minor. He concluded the composition while staying in Dresden in 1908. It is considered a classic example of Russian late-Romanticism of the beginning of the 20th century.
The piece was inspired by a black and white reproduction of Arnold Böcklin's painting, Isle of the Dead, which Rachmaninoff saw in Paris in 1907. Rachmaninoff was disappointed by the original painting when he later saw it, saying, "If I had seen first the original, I, probably, would have not written my Isle of the Dead. I like it in black and white."
The music begins by suggesting the sound of the oars as they meet the waters on the way to the Isle of the Dead. The slowly heaving and sinking music could also be interpreted as waves. Rachmaninoff uses a recurring figure in 5/8 time to depict what may be the rowing of the oarsman or the movement of the water, and as in several other of his works, quotes the Dies Irae plainchant, an allusion to death. In contrast to the theme of death, the 5/8 time also depicts breathing, creating a holistic reflection on how life and death are intertwined. (Daqui)

terça-feira, 29 de março de 2016

"Amizade" - Poema de Pedro Homem de Mello


Jozef Israëls (Dutch painter, 1824–1911), Langs Moeders Graf , 1856
("Passing Mother's Grave", also known as "Passing the Churchyard"),
Stedelijk Museum Amsterdam.
 
 
 
Amizade


Ser-se amigo é ser-se pai
( — Ou mais do que pai talvez...)
É pôr-se a boca onde cai
A nódoa que nos desfez.

É dar sem receber nada,
Consciente da prisão,
Onde os nossos passos vão
Em linha por nós traçada...

É saber que nos consome
A sede, e sentirmos bem
O Céu, por na Terra, alguém
Rir, cantar e não ter fome.

É aceitar a mentira
E achá-la formosa e humana
Só porque a gente respira
O ar de quem nos engana.


Pedro Homem de Mello, in "Miserere"


Mozart - Requiem in D minor 

domingo, 1 de março de 2015

"A mente livre está em perigo" - Texto de John Steinbeck, in 'A Leste do Paraíso'





A mente livre está em perigo


A nossa espécie é a única espécie criativa, e tem apenas um único instrumento criativo, a mente e espírito únicos de cada homem. Nunca nada foi criado por dois homens. Não existem boas colaborações, quer em arte, na música, na poesia, na matemática, na filosofia. De cada vez que o milagre da criação acontece, um grupo de pessoas pode construir com base nela e aumentá-la, mas o grupo em si nunca inventa nada. A preciosidade reside na mente solitária de cada homem. 

E agora existem forças que enaltecem o conceito de grupo e que declararam uma guerra de exterminação a essa preciosidade, a mente do homem. Através das mais variadas formas de pressão, repressão, culto, e outros métodos violentos de condicionamento, a mente livre tem sido perseguida, roubada, drogada, exterminada. E este é um rumo de suicídio coletivo que a nossa espécie parece ter tomado. 

E é nisto que eu acredito: que a mente livre e criativa do homem individual é a coisa mais valiosa no mundo. E é por isto que eu estou disposto a lutar: pela liberdade da mente tomar qualquer direção que queira, sem direção. E é contra isto que eu vou lutar com todas as minhas forças: qualquer religião, qualquer governo que limite ou destrua o indivíduo. É isto que eu sou e é esta a minha causa. Posso até compreender que um sistema baseado num padrão tenha que destruir a mente livre, pois esta é a única coisa que pode inspecionar e destruir um sistema deste tipo. Concerteza que compreendo, mas lutarei contra isso por forma a preservar a única coisa que nos separa das restantes espécies. Pois se a mente livre for morta, estaremos perdidos. 

 
 
SINOPSE


Os solos férteis do vale de Salinas, na Califórnia, são o cenário deste grande fresco histórico que acompanha os destinos de duas famílias, os Trask e os Hamilton, desde os dias da Guerra Civil Americana ao pós-Primeira Guerra Mundial.

A inexplicabilidade do amor e as consequências criminosas da sua ausência estão no centro deste romance, publicado originalmente em 1952, onde John Steinbeck apresenta algumas das suas personagens mais cativantes. Enfrentando um percurso pejado de luta e de sofrimento que atravessa gerações, nas suas histórias ouve-se ecoar irremediavelmente a tragédia das palavras bíblicas e assiste-se a uma reencenação da queda de Adão e Eva e da rivalidade destrutiva entre Caim e Abel.

A Leste do Paraíso é uma obra de maturidade e de grande fôlego, uma história brutal e apaixonante, sobre a qual escreveu o próprio autor: «O assunto é o mesmo que cada homem tem utilizado como tema: a existência, o equilíbrio, a batalha e a vitória, na eterna guerra entre a sabedoria e a ignorância, a luz e a treva, o bem e o mal. (daqui)


Four Seasons - Vivaldi

domingo, 16 de novembro de 2014

"Sempre amei por palavras muito mais do que devia" - Poema de Alice Vieira


Foto de Rui Videira - Vila Nova de Gaia, Porto, Portugal



Sempre amei por palavras muito mais do que devia


sempre amei por palavras muito mais
do que devia

são um perigo
as palavras

quando as soltamos já não há
regresso possível
ninguém pode não dizer o que já disse
apenas esquecer e o esquecimento acredita
é a mais lenta das feridas mortais
espalha-se insidiosamente pelo nosso corpo
e vai cortando a pele como se um barco
nos atravessasse de madrugada

e de repente acordamos um dia
desprevenidos e completamente
indefesos

um perigo
as palavras

mesmo agora
aparentemente tão tranquilas
neste claro momento em que as deixo em desalinho
sacudindo o pó dos velhos dias
sobre a cama em que te espero
 
 in O QUE DOI AS AVES
(Caminho, 2009)


Foto de Rui Videira - Porto & Vila Nova de Gaia, Portugal
 
 
"A arte é o espelho da pátria. O país que não preserva os seus valores culturais jamais verá a imagem de sua própria alma."



Chopin Nocturne E Flat Major Op.9 No.2