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domingo, 4 de agosto de 2024

"Deus e o domingo" - Poema de Eunice Arruda


Leonard Campbell Taylor (British painter, 1874 –1969), Priscilla, s.d.



Deus e o domingo


Eu ia ser feliz
domingo
naquele tempo bastava pouco

Não sabia que no
domingo
é fácil chover
e muito difícil viver

Ah, eu ia ser feliz!...
Mas
domingo Deus descansa
e a gente sofre mais


Eunice Arruda
, in "O Chão Batido", 1963

domingo, 26 de maio de 2024

"O Jogo" - Poema de Nuno Júdice


Leonard Campbell Taylor (British painter, 1874 – 1969), Patience, 1906.
 


O Jogo


Eu, sabendo que te amo,
e como as coisas de amor são difíceis,
preparo em silêncio a mesa
do jogo, estendo as peças
sobre o tabuleiro, disponho os lugares
necessários para que tudo
comece: as cadeiras
uma em frente da outra, embora saiba
que as mãos não se podem tocar,
e que para além das dificuldades,
hesitações, recuos
ou avanços possíveis, só os olhos
transportam, talvez, uma hipótese
de entendimento. É então que chegas,
e como se um vento do norte
entrasse por uma janela aberta,
o jogo inteiro voa pelos ares,
o frio enche-te os olhos de lágrimas,
e empurras-me para dentro, onde
o fogo consome o que resta
do nosso quebra-cabeças.


Nuno Júdice
, in "A Fonte da Vida", 1997
 

sexta-feira, 17 de maio de 2013

"Foi um Momento" - Poema de Fernando Pessoa



Leonard Campbell Taylor (British painter, 1874–1969), Persuasion, 1914


Foi um Momento


Foi um momento
O em que pousaste
Sobre o meu braço,
Num movimento
Mais de cansaço
Que pensamento,
A tua mão
E a retiraste.
Senti ou não?

Não sei. Mas lembro
E sinto ainda
Qualquer memória
Fixa e corpórea
Onde pousaste
A mão que teve
Qualquer sentido
Incompreendido.
Mas tão de leve!...

Tudo isto é nada,
Mas numa estrada
Como é a vida
Há muita coisa
Incompreendida...

Sei eu se quando
A tua mão
Senti pousando
Sobre o meu braço,
E um pouco, um pouco,
No coração,
Não houve um ritmo
Novo no espaço?
Como se tu,
Sem o querer,
Em mim tocasses
Para dizer
Qualquer mistério,
Súbito e etéreo,
Que nem soubesses
Que tinha ser.

Assim a brisa
Nos ramos diz
Sem o saber
Uma imprecisa
Coisa feliz. 


Fernando Pessoa, in "Cancioneiro"


Leonard Campbell Taylor by Bassano Ltd, 1929
 

Leonard Campbell Taylor (Oxford, 12 de dezembro de 1874 – 1 de julho 1969) foi um pintor britânico. O artista foi educado no Colégio Cheltenham. Entre 1895 e 1900 estudou na Royal Academy School e foi eleito membro da Royal Academy em 1931. Especializou-se em retratos e interiores, pintado num estilo muito tradicional. Entre a sua lista de clientes de muito prestígio, estava a família fundadora da Courtaulds e, claro, The Courtauld Institute of Art. Sua arte pode ser encontrada numa série de museus, tanto no Reino Unido como no exterior.


Leonard Campbell Taylor, The rain, it raineth every day, 1906


Leonard Campbell Taylor, The Little Corridor


Leonard Campbell Taylor, The Hall, 1952 


Leonard Campbell Taylor, The Gallery, 1952


Leonard Campbell Taylor, The rehearsal, 1907 


Leonard Campbell Taylor, A Blue Dress


Leonard Campbell Taylor, Battledore


Leonard Campbell Taylor, Mother love


Leonard Campbell Taylor, Japanese Prints


"Não queiras conhecer tudo, deixa um espaço livre para te conheceres."


Vergílio Ferreira