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domingo, 14 de junho de 2026

"A palavra o açoite" - Poema de Emanuel Félix Borges da Silva

A palavra o açoite


Todo o santo nevoeiro esta manhã de glória
pátria filha
um rugir absoluto
de botas um secreto
martelar de silêncio
filho
medo

Todo o santo silêncio este espanto este espesso
sangue suor e água e mar e mágoa
e o amor e o amor e o amor em reserva
o trigo inteiro e digo amor o dia
inteiro por ceifar

E toda a santa esperança este dia esta noite
este vago vagar de sulcos rodas rosas
rasas
a relva a alva
o alvo
corpo inteiro da esperança

Todo o santo nevoeiro esta pressa este instante
este loiro este negro este infante fantasma
e distante e distante
uma légua de mágoa

E toda a santa mágoa este dia esta noite
o discurso o nevoeiro a palavra o açoite
a glória pátria
filho
um rugir absoluto um rugir obsoleto
um secreto
martelar de silêncio

E toda a santa guerra esta manhã de mágoa
de silêncio de névoa este loiro este espesso
instante de ternura filho camuflada
de rodas sulcos rasas
rosas de fogo e afago

Toda a santa manhã esta espera este amargo
absoluto obsoleto medo filho por vir
o loiro infante o instante
todo alcácer-quibir


Emanuel Félix Borges da Silva,
in 'A palavra, o açoite: poemas', 1977.

[Emanuel Félix Borges da Silva (Angra do Heroísmo, 24 de Outubro de 1936 — Angra do Heroísmo, 14 de Fevereiro de 2004), mais conhecido por Emanuel Félix, foi um poeta, professor, ensaísta e técnico de restauro artístico, que se afirmou como um dos mais notáveis poetas e escritores da segunda metade do século XX. Foi o primeiro introdutor em Portugal do concretismo poético, inspirado pelos brasileiros Augusto e Haroldo de Campos, porém cedo passou a uma experiência surrealista.] (daqui)

 
Angra do Heroísmo: uma das principais cidades açorianas e sede da Diocese de Angra, 
na ilha Terceira; ao fundo, o Monte Brasil.
 (daqui)


Angra do Heroísmo, resistência insular

Angra tem Heroísmo no nome e na história. Defendeu-se de piratas, resistiu a aceitar o domínio dos Filipes, foi palco das lutas liberais, reergueu-se após um violento terramoto. Cidade da ilha Terceira, nos Açores, é Património da Humanidade desde 1983. 

Protegida dos ventos dominantes e com localização atlântica privilegiada, Angra foi escolhida pelos navegadores portugueses para ser porto de abrigo nas grandes viagens dos Descobrimentos. As naus de Vasco da Gama e Pedro Álvares Cabral, por exemplo, fizeram escala nas suas baías naturais.

Ouro, prata, especiarias, todas as riquezas das Índias Orientais e Ocidentais eram cobiça de piratas. Duas grandes fortalezas, São Sebastião e São Filipe, foram construídas para defender a cidade que, desde a Idade Média, vinha crescendo à volta do Castelo. Durante três séculos, Angra está no centro das rotas comerciais e faz a ligação entre quatro continentes: Europa, Ásia, África e América. Ali foi estabelecida a Provedoria das Armadas e Naus da Índia.

No século XV, Angra prospera, a malha urbana cresce, adaptando-se às colinas e às condições climatéricas. No século XVI, em 1534, é elevada a cidade por D. João III e, no mesmo ano, fica sede do Arcebispado dos Açores. São desta fase algumas das suas mais importantes construções: a Catedral do Santíssimo Salvador, num gótico tardio com traços do maneirismo; o Convento e a Igreja de S. Francisco, com as suas fachadas sóbrias e os interiores enriquecidos em azulejaria, talha dourada e pintura; as Igrejas da Misericórdia e do Santo Espírito, o Palácio dos Capitães-Generais. A lista é grande e monumental.

O terramoto de 1980 destruiu oitenta por cento deste património, mas o trabalho de reconstrução foi exemplar e, apenas três anos depois, o comité da UNESCO reconheceu a importância do centro de Angra do Heroísmo para a Humanidade. (daqui)

 

"Valeu a pena? Tudo vale a pena quando a alma não é pequena!"

Fernando Pessoa (1888–1935),
Trecho do poema "Mar Português", que integra a sua obra "Mensagem", 1934.




"Mensagem" de Fernando Pessoa.
Editor: 11 X 17; Edição: 05-2010.


"Mensagem", a profecia de Fernando Pessoa

A visão pessoana de um Quinto Império nasce nos versos desta obra, épica, metafórica e profética. A "Mensagem" é como se fosse um sonho de Portugal por realizar. «Sou um nacionalista místico, um sebastianista racional», escreveu o poeta sobre o único livro de poemas em português que conseguiu publicar em vida. A 1 de dezembro de 1934, um ano antes de morrer.

Nos 44 poemas da "Mensagem" contam-se séculos de história, das glórias e não glórias que Portugal viveu. Fernando Pessoa contempla o passado dos heróis e dos mitos, de Ulisses, de Viriato, do Infante D. Henrique, de Nuno Álvares Pereira e do desejado D. Sebastião. 

O poeta encontra no «pequeno povo» das Descobertas, «a grande Raça que partirá em busca de uma Índia nova», não para conquistar apenas um Império terreno mas para cumprir o desígnio divino de um Império da Cristandade, o Quinto Império.

Tal como Camões fizera quatrocentos anos antes, o poeta olha para a grandeza das viagens marítimas como um incitamento para o sonho: "É a Hora!", escreve no último verso. 

Coletânea de poesias escritas em épocas diferentes, a "Mensagem" de Pessoa divide-se em três partes: "Brasão", "Mar português" e "O encoberto".

A primeira parte, "Brasão", divide-se em "Os campos", "Os castelos", "As quinas", "A coroa" e "O timbre". Cada uma dessas partes está ligada ao brasão do país.
"Brasão" aborda o período histórico inicial português, desde os processos de formação da nação portuguesa até o momento da expansão marítima, representado sua dificuldade e esperança. 

"Mar português" fala sobre a época de ouro portuguesa, a da expansão marítima, reveladora da coragem e do heroísmo português.

"O encoberto" concentra-se no mito do Sebastianismo e do Quinto Império, que retirariam Portugal da decadência experimentada a partir do século XVIIII até o momento da enunciação, o século XX.
(daqui)

 

quarta-feira, 19 de novembro de 2025

"Um Reino Maravilhoso (Trás-os-Montes)" - Texto de Miguel Torga



Ernesto Condeixa (Pintor português, 1858–1933), A caminho da fonte, 1894.
Museu Nacional de Arte Contemporânea do Chiado



Um Reino Maravilhoso 
(Trás-os-Montes)


Vou falar-lhes dum Reino Maravilhoso. Embora muitas pessoas digam que não, sempre houve e haverá reinos maravilhosos neste mundo. O que é preciso, para os ver, é que os olhos não percam a virgindade original diante da realidade, e o coração, depois, não hesite. Ora, o que pretendo mostrar, meu e de todos os que queiram merecê-lo, não só existe, como é dos mais belos que se possam imaginar. Começa logo porque fica no cimo de Portugal, como os ninhos ficam no cimo das árvores para que a distância os torne mais impossíveis e apetecidos. E quem namora ninhos cá de baixo, se realmente é rapaz e não tem medo das alturas, depois de trepar e atingir a crista do sonho, contempla a própria bem-aventurança.
Vê-se primeiro um mar de pedras. Vagas e vagas sideradas, hirtas e hostis, contidas na sua força desmedida pela mão inexorável dum Deus criador e dominador. Tudo parado e mudo. Apenas se move e se faz ouvir o coração no peito, inquieto, a anunciar o começo duma grande hora. De repente, rasga a crosta do silêncio uma voz de franqueza desembainhada:
- Para cá do Marão, mandam os que cá estão!...
Sente-se um calafrio. A vista alarga-se de ânsia e de assombro. Que penedo falou? Que terror respeitoso se apodera de nós?
Mas de nada vale interrogar o grande oceano megalítico, porque o nume invisível ordena:
- Entre!
A gente entra, e já está no Reino Maravilhoso. 
A autoridade emana da força interior que cada qual traz do berço. Dum berço que oficialmente vai de Vila Real a Chaves, de Chaves a Bragança, de Bragança a Miranda, de Miranda a Régua.
Um mundo! Um nunca acabar de terra grossa, fragosa, bravia, que tanto se levanta a pino num ímpeto de subir ao céu, como se afunda nuns abismos de angústia, não se sabe por que telúrica contrição.
Terra-Quente e Terra-Fria. Léguas e léguas de chão raivoso, contorcido, queimado por um sol de fogo ou por um frio de neve. Serras sobrepostas a serras. Montanhas paralelas a montanhas. Nos intervalos, apertados entre os rios de água cristalina, cantantes, a matar a sede de tanta angústia. E de quando em quando, oásis da inquietação que fez tais rugas geológicas, um vale imenso, dum húmus puro, onde a vista descansa da agressão das penedias. Mas novamente o granito protesta. Novamente nos acorda para a força medular de tudo. E são outra vez serras, até perder de vista.
Não se vê por que maneira este solo é capaz de dar pão e vinho. Mas dá. Nas margens de um rio de oiro, crucificado entre o calor do céu que de cima o bebe e a sede do leito que de baixo o seca, erguem-se os muros do milagre. Em íngremes socalcos, varandins que nenhum palácio aveza, crescem as cepas como os manjericos às janelas. No Setembro, os homens deixam as eiras da Terra-Fria e descem, em rogas, a escadaria do lagar de xisto. Cantam, dançam e trabalham. Depois sobem. E daí a pouco há sol engarrafado a embebedar os quatro cantos do mundo.
A terra é a própria generosidade ao natural. Como num paraíso, basta estender a mão.
Bata-se a uma porta, rica ou pobre, e sempre a mesma voz confiada nos responde:
- Entre quem é! Sem ninguém perguntar mais nada, sem ninguém vir à janela espreitar, escancara-se a intimidade duma família inteira. O que é preciso agora é merecer a magnificência da dádiva.
Nos códigos e no catecismo o pecado de orgulho é dos piores. Talvez que os códigos e o catecismo tenham razão. Resta saber se haverá coisa mais bela nesta vida do que o puro dom de se olhar um estranho como se ele fosse um irmão bem-vindo, embora o preço da desilusão seja às vezes uma facada.
Dentro ou fora do seu dólmen (maneira que eu tenho de chamar aos buracos onde vive a maioria) estes homens não têm medo senão da pequenez. Medo de ficarem aquém do estalão por onde, desde que o mundo é mundo, se mede à hora da morte o tamanho de uma criatura.
Acossados pela necessidade e pelo amor da aventura emigram. Metem toda a quimera numa saca de retalhos, e lá vão eles. Os que ficam, cavam a vida inteira. E, quando se cansam, deitam-se no caixão com a serenidade de quem chega honradamente ao fim dum longo e trabalhoso dia. 

O nome de Trasmontano, que quer dizer filho de Trás-os-Montes, pois assim se chama o Reino Maravilhoso de que vos falei.

Miguel Torga, Excerto do livro "Portugal", 1950.
 
Trás-os-Montes e Alto Douro

Uma das onze províncias tradicionais portuguesas criadas em 1936, mas formalmente extintas em 1976, a região de Trás-os-Montes e Alto Douro situa-se no Nordeste de Portugal continental, correspondendo aos distritos de Vila Real e Bragança, bem como a quatro concelhos do distrito de Viseu e a um concelho do distrito da Guarda.

Faz fronteira com a Espanha, a norte e a leste, e confina com as províncias da Beira Alta, a sul, e do Douro Litoral e do Minho, a oeste.

O relevo desta região é formado por um conjunto de altas plataformas onduladas cortadas por vales e bacias muito profundas. O seu clima é mediterrânico com influência continental, mais agreste e frio nas áreas planálticas, mais quente nas áreas profundas encaixadas do Douro.

Além da vinha - em especial a vinha da Região Demarcada do vinho do Porto, onde a paisagem se individualiza com as suas imensas encostas e quintas -, produz culturas como o centeio, a cevada e a batata.

Esta região apresenta, nos seus principais pratos típicos, o pão e as bolas; bacalhau, alheiras, presunto, cabrito e vitela, com destaque para a posta mirandesa; peixes de rio, como a truta; grelos, feijão, cogumelos e castanhas; folares, queijadas e bolos de mel, entre outros.

Trás-os-Montes e Alto Douro foi desde muito cedo objeto de explorações mineiras. O ouro foi o primeiro metal a ser explorado, depois o estanho e o chumbo. Deficientemente servida por vias de comunicação, esta zona não tem sido um polo atrativo para a implantação de indústrias.

A região de Trás-os-Montes é uma das mais ricas em achados arqueológicos de toda a ordem e de todas as épocas. São de assinalar as estações do paleolítico da serra do Brunheiró e Bóbeda, bem como dólmenes e povoados do período Neoeneolítico. A famosa ponte de Trajano, por seu turno, é um dos melhores exemplares da arquitetura romana em Portugal.

Esta região possui um folclore muito rico, patente, por exemplo, nos seus dialetos (sendinês, mirandês, guadramilês e riodonorês). A música tradicional é uma das mais relevantes do país. São de um lirismo extremamente sóbrio e penetrante, quer os hinos sagrados e cânticos de trabalho, quer os poemas de amor e de morte em que se expande a alma do povo duriense e transmontano.

Trás-os-Montes e Alto Douro tem sido cenário e temática, berço e musa inspiradora de algumas individualidades notáveis, como, por exemplo, Guerra Junqueiro (1850–1923), Miguel Torga (1907–1995), Trindade Coelho (1861–1908) e Camilo Castelo Branco (1825–1890), entre outros. (daqui)

 
Miguel Torga (daqui)
 

Miguel Torga  
[S. Martinho de Anta/Vila Real, 1907 - Coimbra, 1995]  

Miguel Torga é o nome literário do médico Adolfo Rocha. Poeta, ensaísta, dramaturgo, romancista e contista.

Cultivou a escrita autobiográfica num extenso Diário (escrito entre 1932 e 1994) e nos seis Dias de A Criação do Mundo (publicados em 1937, 1938, 1939, 1974 e 1981), obra que o autor viria a definir como «crónica, romance, memorial e testamento». Nela narra-se a luta do menino orgulhoso contra a pobreza de um Trás-os-Montes rural que o quer escravizado, a recusa em ser criado de burgueses (Porto, 1917) e a rápida desistência de candidato a seminarista (Lamego, 1918), aspiração logo abandonada por quem já na altura manifestava relutância por qualquer género de gregarismo.

A fase crucial da sua puberdade, com a descoberta da humilhação pessoal e do instinto sexual, decorre no Brasil (1920-1925), a capinar, laçar cavalos e apanhar café na Fazenda de Santa Cruz, Minas Gerais, propriedade de um tio paterno.

Completou o Liceu em Coimbra, em apenas três épocas, e graças às mesadas que o tio ia enviando do Brasil, compensação pelo duro trabalho já realizado para ele, completou o curso de Medicina nesta cidade (1928-1933), com vinte e seis anos. Aparecem também descritos nesta obra os seus primeiros contactos com o mundo literário, nomeadamente representado pelo grupo coimbrão da revista Presença (1927-1940), de cujo grupo fundador fez parte e que se traduziram na aparição do seu primeiro livro poético, Ansiedade (1928) – expurgado, como boa parte da sua poesia da juventude, na Antologia de 1981 –, e na afirmação de uma personalidade humana marcada por um «individualismo feroz» que o levaria à polémica dissidência na revista, provocando também a cisão do grupo fundador, e à criação da revista Sinal em 1930, ano da publicação de Rampa, o seu segundo poemário.

O Diário inicia-se em 1932 precisamente com uma nota da sua passagem pela Universidade («Passo por esta Universidade como cão por vinha vindimada. Nem eu reparo nela nem ela repara em mim»), indício do desprezo por uma instituição elitista envelhecida e politicamente servil. É nesta altura que lança novos livros poéticos (Tributo, 1931 e Abismo, 1932), época marcada, aliás, pela sua participação em movimentos sediciosos e pelo relacionamento com intelectuais de notória filiação antiditatorial. Em 1934, após breves períodos de exercício da medicina em S. Martinho de Anta e em Vila Nova de Miranda do Corvo (Coimbra), Adolfo Rocha irá perfilhar o pseudónimo Miguel Torga (A Terceira Voz), identificando-se com aquele arbusto espontâneo, resistente e florido em chão agreste e com uma tradição combativa e heterodoxa espanhola (Miguel de Molinos, Miguel de Cervantes, Miguel de Unamuno).

A Guerra Civil de Espanha (1936-1939) – cujos avatares e desenlace foram seguidos neste lado da fronteira com angustiada aflição pelos intelectuais partidários da República – constituiu sem dúvida um abalo afetivo e um reativo para a revolta e a definitiva conformação do ideário democrático do poeta, assim como um motivo inspirador de boa parte dos seus Poemas Ibéricos (1952, 1965), essa lição de amor peninsular, e do conto «Requiem» (Pedras Lavradas, 1951), da mesma maneira que a subsequente repressão exercida pelo regime de Franco seria denunciada nas páginas de intervenção cívica de Fogo Preso (escritas entre 1945 e 1976 e publicadas nesta última data por óbvios motivos de censura), e a indeterminação submissa de parte do povo peninsular no relato «O Covarde» (Pedras Lavradas).

Entretanto, a sua atividade literária não decresceu: a coletânea poética O Outro Livro de Job e a fundação da revista Manifesto são anteriores à primeira viagem à Europa, em 1937. É durante este percurso que constatará a degradação da Espanha em guerra, esmagada já sob um regime de terror que glorifica Franco em retratos e dísticos estampados nos muros das cidades.

De novo em Portugal, cursa em 1938, com trinta e um anos, a especialidade de otorrinolaringologia, com Ferreira da Costa. Estabelecido em Leiria, publica a denúncia dos horrores presenciados na Europa das Ditaduras em O Quarto Dia. O volume é logo apreendido (1939) e o autor detido pela PIDE, sob uma vaga acusação de comunismo que incluía a suspeita de receção de dinheiro de Moscovo para a compra de instrumental cirúrgico. Transferido para o Limoeiro e para o Aljube de Lisboa e libertado, sem julgamento, poucos meses depois, publicou o célebre Bichos (1940), livro que integra contos parcelarmente concebidos na cadeia.

Os magistrais Contos da Montanha – que o autor deu a lume um ano antes da saída das narrativas que conformam Rua (1942) –, interpretados pelos órgãos de repressão cultural como denúncia local das penosas condições de vida do nordeste, foram igualmente apreendidos em Coimbra – o médico tinha aberto o consultório que viria a ser centro de conspiração contra o regime no Largo da Portagem – por ordem do censor Salvação Barreto. O escritor iludiu a proibição enviando um maço de provas tipográficas para o Rio de Janeiro, de modo que o livro regressou ao país e circulou clandestinamente até 1969. O poema dramático Sinfonia (1947) – publicado após os dramas naturalistas Terra Firme e Mar (1941) e a parábola dramática O Paraíso (1949) – sofreu idêntica punição.

A esposa, a lusista belga Andrée Crabbé Rocha, com quem casara civilmente em 1940, foi expulsa, devido às suas atitudes democráticas, da Faculdade de Letras de Lisboa, onde era assistente, em Junho de 1947. O médico, por sua vez, era demitido, sem qualquer justificação, do Serviço de Saúde da Casa dos Pescadores da Figueira da Foz.

As dificuldades financeiras, contudo, não vergaram a exemplar combatividade do autor: entre 1943 e 1950 publicou várias coletâneas poéticas (Lamentação, 1943; Libertação, 1944; Odes, 1946; Nihil Sibi, 1948). Estamos perante a época da mais fecunda criação: nela editaram-se os romances O Senhor Ventura (relato das aventuras de um emigrante português na China, 1943) e Vindima (denúncia da exploração do vindimador no Douro, 1945), a sua obra prima, Novos Contos da Montanha (1944), a peça O Paraíso e o livro de ensaios Portugal (1950), em paralelo com a publicação dos sucessivos volumes do Diário.

Em 1950 foi levantada ao escritor a proibição de saída do país, reiniciando assim as suas viagens a Espanha e a outros países da Europa, coroadas pelo regresso ao Brasil da sua meninice em 1954 (data da aparição da coletânea poética Penas do Purgatório), um ano antes do nascimento de Clara, a sua única filha, e da publicação de Traço de União, volume ensaístico sobre as relações culturais luso-brasileiras. Na altura desta deslocação como convidado ao Congresso de Escritores de São Paulo, a sua obra gozava já do reconhecimento internacional patenteado nas traduções em castelhano, francês, inglês, romeno...

O ano de 1950 marca também a publicação de Cântico do Homem, o poemário de maior empenhamento social do autor e uma das referências culturais do povo português, que começava a ver em Torga um símbolo cívico de oposição ao salazarismo. Oito anos mais tarde foi publicado o livro considerado cimeiro da poética torguiana: Orfeu Rebelde.

Em 1960 foi proposto pela Universidade de Montpellier para Nobel da Literatura. Novamente candidato ao Nobel em 1978, foi objeto nesta data de uma homenagem nacional, comemoração do cinquentenário da sua estreia nas letras.

A escrita do Diário seria continuada até poucos meses antes da sua morte. Nele, e juntamente com a expressão do processo de auto-conhecimento pautado pela constatação da contingência humana e a obsidiante sombra da morte, insere-se a crónica político-social da intra-história da nação e a análise do papel de Portugal na Europa contemporânea. A fase histórica mais notavelmente referenciada é a relativa ao Portugal submerso durante o regime do Estado Novo, com o qual Torga manteve o seu teimoso e continuado braço de ferro como franco-atirador espiritual em prol dos direitos humanos, e à revelação dos seus nefastos efeitos de asfixia e alienação no povo.

Encontram-se referências à participação do escritor em comícios de apoio à candidatura pessoal de Humberto Delgado (Coimbra, Maio, 1968); à assinatura de manifestos coletivos de protesto que caíram indefetivelmente nas mãos da PIDE (Coimbra, Novembro, 1965); à reação de sereno alívio perante a morte do tirano – cuja tipologia psicológica é interpretada com implacável acerto – e à nomeação de Américo Tomás como Presidente da República (Setembro, 1968); à constatação das contradições internas do regime, manifestas numa guerra colonial «fantasma» ao mesmo tempo que não hesita em convocar caricatas eleições legislativas (Outubro, 1969); à consciência do perigoso nacionalismo insurgente verificado nas suas visitas a Angola e Moçambique em 1968; à desconfiança que lhe inspira a Revolução do 25 de Abril mercê do seu antimilitarismo; à inquietação pela perda das marcas da lusitanidade em Macau e Goa, verificada na sua viagem de 1987; à satisfação evidenciada na data da dissolução do Conselho da Revolução, cuja presença tutelar se manteve até Outubro de 1982.

Nas suas páginas, o escritor, encarnação do velho anarquista, manifesta a sua oposição franca a qualquer instituição que prive o indivíduo da liberdade. É esta atitude que explica a sua indignação perante os falhanços sócio-económicos dos sucessivos governos do após 25 de Abril ou a crítica à inconsciência e à corrupção instaladas na classe política, a sua firme oposição à precipitada adesão à Comunidade Europeia, emoldurada pelos lúcidos avisos premonitórios da irresponsabilidade oficial na assinatura do tratado de Maastricht – verdadeiro atentado contra a independência da nação e o último combate que enfrentou a sua rebeldia. Em paralelo manifesta-se o ensaísmo literário e o artista que, cumprindo o preceito socrático, empreende um caminho de autognose expressado em prosa e versos.

Depois de 1981, em que lhe é atribuído o «Prémio Montaigne» da Fundação Alemã F.V.S., recebe o «Camões» (1989, na primeira convocatória), o «Vida Literária» da A.P.E. (também na sua primeira convocatória, 1992). Nesta mesma data é designado Personalidade do Ano 1991 pela Associação de Imprensa Estrangeira em Portugal e é-lhe outorgado o «Prémio de Literatura Écureuil», do Salão do Livro de Bordéus.

A partir de 1986, em que foi detetada uma doença incurável num corpo já combalido e foi submetido a mais outra intervenção cirúrgica, passou períodos internado no Hospital da Universidade e no I.P.O. de Coimbra, onde acabaria por entregar, impoluto, o seu «branco penacho de poeta» numa manhã invernal, a de 17 de Janeiro de 1995, com 87 anos. Foi nestes locais que redigiu, em parte, o vol. XVI do Diário, corajoso livro viril de adeus e exaltação do ato de viver, pautado por uma ironia sadia e sempre iluminado pela esperança no Homem, valores que levaram a Associação Internacional de Críticos Literários a laureá-lo em 1994.

O seu multitudinário funeral – de Coimbra ao cemitério da sua terra natal – foi clara expressão da dor do povo, enquanto a imprensa nacional e estrangeira, consciente da importância histórica da perda, divulgou a notícia da morte, acompanhada de depoimentos e comentários bibliográficos.

A publicação do Cântico em Honra de Miguel Torga, em 1996, supõe a continuidade da admiração, agora expressa por 85 poetas contemporâneos portugueses. Está traduzido em alemão, castelhano, chinês, francês, inglês, japonês, norueguês, polaco, romeno, servo-croata e sueco. 

 
in Dicionário Cronológico de Autores Portugueses, Vol. IV, Lisboa, 1997.
  

quarta-feira, 13 de agosto de 2025

"A minha terra é Viana" - Poema de Pedro Homem de Mello

 

 
Mota Urgeiro (Pintor português, n. 1946), Santuário de Santa Luzia, Viana do Castelo, s.d.



A minha terra é Viana


A minha terra é Viana
Sou do monte e sou do mar
Só dou o nome de terra
Onde o da minha chegar; 
Ó minha terra vestida
Da cor da folha da rosa
Ó brancos saios de Perre
Vermelhinhos de Areosa.

Virei costas à Galiza
Voltei-me antes para o mar
Santa Marta, saias negras
Tem vidrilhos de luar.

Dancei a Gota em Carreço
O Verde Gaio em Afife
Dancei-o devagarinho
Como a lei manda bailar; 
Como a lei manda bailar
Dancei em Vile a Tirana
E dancei em todo o Minho
E quem diz Minho diz Viana.

Virei costas à Galiza
Voltei-me então para o Sul
Santa Marta, saias verdes
Deram-lhe o nome de azul.

A minha terra é Viana
São estas ruas estreitas
São os navios que partem
E são as pedras que ficam;
É este sol que me abrasa
Este amor que não engana
Estas sombras que me assustam
A minha terra é Viana.

Virei costas à Galiza
Pus-me a remar contra o vento
Santa Marta, saias rubras
Da cor do meu pensamento.


Pedro Homem de Melo
, in Segredo, 1953.
Lello & Irmão - Editores, Porto.

["A minha terra é Viana" e "Havemos de ir a Viana" são dois poemas de Pedro Homem de Mello (1904-1984), notáveis por terem sido imortalizados na voz de Amália Rodrigues. Amália, com sua interpretação única, deu voz e alma a esses versos, tornando-os símbolos da ligação entre o poeta e a cidade de Viana do Castelo.]



Alfredo de Morais
(Ilustrador português, 1872 - 1971), "Feira d'Agonia", s.d.
(Romaria de Nossa Senhora da Agonia) - Viana do Castelo
Portugal.


Viana do Castelo
  • Aspetos geográficos 
 
Cidade, sede de concelho e capital de distrito, localiza-se na Região Norte (NUT II), no Minho-Lima (NUT III). Fica na margem direita do rio Lima, junto à sua foz, a uma altitude média de cinco metros.

O concelho tem uma área de 319,02 km2, distribuída por 27 freguesias: Afife, Alvarães, Amonde, Anha, Areosa, Barroselas e Carvoeiro, Cardielos e Serreleis, Carreço, Castelo do Neiva, Chafé, Darque, Freixieiro de Soutelo, Geraz do Lima (Santa Maria, Santa Leocádia e Moreira) e Deão, Lanheses, Mazarefes e Vila Fria, Montaria, Mujães, Nogueira, Meixedo e Vilar de Murteda, Outeiro, Perre, Santa Marta de Portuzelo, São Romão de Neiva, Subportela, Deocriste e Portela Susã, Torre e Vila Mou, Viana do Castelo (Santa Maria Maior e Monserrate) e Meadela, Vila de Punhe e Vila Franca. Dista cerca de 70 km do Porto e 390 km de Lisboa.

Em 2021, o município contava com 85 784 habitantes. O natural ou habitante de Viana do Castelo denomina-se vianense ou vianês.

O distrito, situado no extremo Norte do território continental português, no Minho, entre os rios Minho e Neiva, é limitado a norte e leste pela Espanha, a sul pelo distrito de Braga e a oeste pelo oceano Atlântico. Bastante montanhoso, atinge a altitude máxima na serra da Peneda, a 1416 m.

É banhado pelos rios Minho, Âncora, Lima, Neiva e seus afluentes, Coura e Vez. Nas serranias, a vegetação mais significativa é constituída por matas de carvalhos, pinheiros bravos e eucaliptos.

O clima varia conforme a proximidade do mar e a altitude, tornando-se cada vez mais rigoroso à medida que nos afastamos do oceano e que a altitude aumenta. São frequentes os fenómenos de condensação que originam nevoeiros e nebulosidade.

O distrito é marcado pela proximidade de Espanha, pela riqueza dos seus rios e solos e pela sua costa, banhada pelo oceano Atlântico. Fatores físicos que determinam uma forte ligação das gentes à terra, ao rio e também ao mar.

Compreende dez concelhos: Arcos de Valdevez, Caminha, Melgaço, Monção, Paredes de Coura, Ponte da Barca, Ponte de Lima, Valença, Viana do Castelo e Vila Nova de Cerveira.

O distrito abrange parte do Parque Nacional da Peneda-Gerês, nos concelhos de Ponte da Barca, Melgaço e Arcos de Valdevez.

  • História e Monumentos
 
Povoada desde o Paleolítico, a cidade de Viana do Castelo detém um vasto património histórico. São vários os achados que comprovam a presença da cultura castreja, com destaque para a "cidade velha" de Santa Luzia. A civilização romana também se instalou neste território. Recebeu foral em 1258, outorgado por D. Afonso III, que lhe concedeu categoria de vila, chamando-lhe Viana da Foz do Lima.

Esteve envolvida na dinâmica dos Descobrimentos, assistindo-se a uma intensificação da atividade comercial. Tornou-se cidade em 1848, por decreto de D. Maria II, a qual lhe atribuiu o nome de Viana do Castelo em homenagem à resistência que a guarnição do seu castelo manteve durante o cerco que lhe fez a Junta do Porto, aquando do movimento revolucionário chamado Maria da Fonte. Atualmente, o castelo de Viana não passa de uma relíquia histórica.

Do seu vasto património edificado salienta-se: a Sé, a Igreja Matriz, Igreja de Santa Cruz, a Igreja da Caridade do Convento de Sant'Ana, o portal manuelino de Sant'Ana, as igrejas de S. Bento, de S. Domingos, do Carmo, do Convento de Santo António, da Senhora da Agonia, a capela-mor de S. Domingos, a Capela dos Malheiro Reimão, a fonte alegórica Viana e os quatro continentes, o chafariz da Praça (datado do século XVI), o Hospital da Misericórdia de Viana, os Paços do Concelho, a roqueta (uma das primeiras fortalezas abaluartadas da nossa costa), o Museu Municipal-Casa Barbosa Maciel, a estação do caminho de ferro, as casas da Carreira (com a sua fachada manuelina), dos Sá Sotomaior, dos Malheiro Reimão, dos Costa Barros e dos Melo Alvim.

Nos vários concelhos que compõem o distrito, encontram-se monumentos valiosos, quer pela sua arquitetura, quer pelo papel que desempenharam na defesa das nossas fronteiras. São exemplos: a ponte gótica, de Ponte de Barca; o centro histórico de Caminha, onde se salienta a Igreja Matriz e o forte da Ínsua, no estuário do rio Minho; a fortaleza de Valença; a fortaleza de Monção e o castelo e Igreja Matriz de Melgaço, entre outros.

  • Tradições, Lendas e Curiosidades
O feriado municipal da sede de distrito é a 20 de agosto.

Um pouco por todo o distrito realizam-se festas e romarias como sejam: a Festa da Senhora da Cabeça, na terça-feira de Páscoa; a Festa da Senhora das Dores e a Festa da Coca no dia do Corpo de Deus, em Monção; em agosto, as festas do concelho de Arcos de Valdevez, Santa Rita de Cássia em Caminha, a romaria de São João de Arga, a Festa da Cultura em Melgaço, a Senhora do Faro, a Bienal de Arte e festas concelhias em Vila Nova de Cerveira; em setembro, as Feiras Novas em Ponte de Lima e a Festa dos Homens do Mar em Vila Praia de Âncora.

Da tradição do concelho de Monção, faz parte a referida Festa da Coca, consistindo na recriação da lenda popular do combate entre S. Jorge e o dragão (a coca). Em Melgaço, o destaque vai para a lenda da Inês Negra. A cultura popular integra também várias lendas de mouras encantadas.

O artesanato apresenta uma produção importante a nível do distrito. A latoaria é uma das produções artesanais, com o fabrico de candeias e vasilhame. Uma das especialidades deste concelho são as artes do calçado - manufatura de chancas e socos. A confeção de adornos com flores, bordados, tapetes para procissões, arcos de romarias e palmitos está também bem patente nas artes desta região.

São também conhecidos os linhos e a cestaria, nomeadamente em Arcos de Valdevez, os trabalhos em cobre e estanho de Caminha, a olaria, os artigos feitos em palha, os jugos de Monção, as mantas e trapos de Melgaço, a fiação de lã, a talha, o fabrico de redes e barcos de pesca e a pirotecnia.

  • Economia
 
A tradicional agricultura minhota, praticada em pequenos campos, seguindo técnicas por vezes ainda muito artesanais, com o domínio da policultura, assume uma importância considerável nos vários concelhos que compõem o distrito.

Nos vales cultiva-se milho, legumes e vinha - o famoso vinho verde, de características únicas, é um dos produtos da região mais apreciados e exportados. À prática agrícola encontra-se normalmente associada à criação de gado, sobretudo bovino, salientando-se as raças galega e barrosã.

O setor secundário demonstra uma dinâmica assinalável. No distrito existem indústrias de laticínios, de transformação de madeiras, cerâmica, produtos alimentares e pirotecnia.

A construção civil contribui também para o desenvolvimento económico. A atividade piscatória é outra das suas riquezas, assente na riqueza piscícola dos seus rios, na sua maior parte ainda libertos do flagelo da poluição, onde ainda se pescam sáveis, salmões, lampreias e outras espécies cada vez mais raras.

O estado de conservação do seu património ambiental, a sua riqueza faunística e florística e a diversidade biogeográfica têm sido fatores determinantes para a afirmação do turismo rural, de montanha, de veraneio à beira-mar e até mesmo termal, no caso de Monção.

Paralelamente, assiste-se um pouco por todos os concelhos à expansão do setor terciário, com o crescimento do comércio e criação de serviços essenciais ao bem-estar da população. (daqui)
 

terça-feira, 5 de agosto de 2025

"Retrato do povo de Lisboa" - Poema de Ary dos Santos

 
 
Inês Dourado (Pintora portuguesa, n. 1958), "Lisboa de Luz e Cor" (Lisboa, Portugal), 2021. 
Aguarela e guache sobre papel, 39,5 x 57 cm.



Retrato do povo de Lisboa


É da torre mais alta do meu pranto
que eu canto este meu sangue este meu povo.
Dessa torre maior em que apenas sou grande
por me cantar de novo.

Cantar como quem despe a ganga da tristeza
e põe a nu a espádua da saudade
chama que nasce e cresce e morre acesa
em plena liberdade.

É da voz do meu povo uma criança
seminua nas docas de Lisboa
que eu ganho a minha voz
caldo verde sem esperança
laranja de humildade
amarga lança
até que a voz me doa.

Mas nunca se dói só quem a cantar magoa
dói-me o Tejo vazio dói-me a miséria
apunhalada na garganta.

Dói-me o sangue vencido a nódoa negra
punhada no meu canto.


Ary dos Santos, in "Fotos-grafias", 1970.



Inês Dourado, "Lisboa Luminosa e Colorida", 2022. Óleo em tela, 50x60 cm.
 

"Lisboa [...] onde todos os que bebem água, não tem mais de um estreito chafariz para tanta gente [...] e deve de trazer a Lisboa 'Água Livre' que de duas léguas dela trouxeram os Romanos, por condutas debaixo da terra, subterrâneos furando muitos montes e com muito gasto e trabalho." 

 
 

Aqueduto das Águas Livres em Campolide Lisboa em 1905.
Postal Ilustrado - Fototipia Animada, Edições Martins
 (daqui)


Aqueduto das Águas Livres

A condução da água em canais remonta já à Antiguidade. Os Fenícios foram mestres nas construções subterrâneas. Por outro lado, os canais à superfície, apoiados em arcadas, são invenção dos Romanos.

Em Portugal, a influência romana faz-se sentir tanto pelas ruínas arqueológicas, por exemplo, o Aqueduto de Conímbriga, como também pelo fascínio dos governantes da Idade Moderna pela Antiguidade. Assim, aparece-nos o aqueduto como paradigma das obras públicas.

Em 1571, no tratado "Da fábrica que falece a cidade de Lisboa", de Francisco de Holanda, aparece a primeira referência ao aqueduto, numa tentativa de fazer chegar a Lisboa a água das fontes das águas livres, no Vale do Carenque. As obras, essas só viriam a ter início século e meio mais tarde, por alvará régio de D. João V.
Em agosto de 1732, o arquiteto italiano António Canevari dirige o projeto, tendo sido posteriormente afastado e substituído, em 1733, por José da Silva PaisManuel da Maia e Custódio Vieira. Coube a Manuel da Maia o comando dos trabalhos até 1736; a partir daí foi Custódio Vieira a dirigir a obra.

O Aqueduto das Águas Livres tem uma extensão - incluindo todos os ramais - de 58 135 metros, possuindo 137 claraboias - que serviam para ventilar os canais -, 35 arcos (14 em ogiva e os restantes de volta perfeita), tendo o central um vão de 29 metros de largura por 65 de altura, o que o torna o maior arco em pedra construído em todo o mundo. O Aqueduto abastecia 34 chafarizes.
Mãe de Água das Amoreiras é o nome dado ao reservatório que recebia e distribuía as águas canalizadas pelo aqueduto aos chafarizes. Este edifício, que servia de término ao Aqueduto, foi da responsabilidade do arquiteto Carlos Mardel (bem como o Arco das Amoreiras) e só foi concluído em 1834.

É sob a direção de Carlos Mardel que, em 1748, corre água pela primeira vez em Lisboa. Esta monumental e notável obra de engenharia hidráulica, que levou mais de um século a ser erguida, só foi retirada do sistema de abastecimento da águas à cidade de Lisboa em 1967. (daqui)
 


 Francisco de Holanda, Autorretrato, ca. 1573,
 o artista apresentando o seu "Livro das Imagens".


Francisco de Holanda

Ensaísta, artista plástico, arquiteto, historiador e crítico de arte português, nascido provavelmente em 1517, em Lisboa, e falecido em 1584. Estudou em Itália, entre 1538 e 1547. Ali teve acesso ao círculo de Vitória Colonna, figura notável do renascimento italiano, facto que lhe proporcionou o convívio com grandes artistas da sua época, como Parmigianino, Giambologna e, em especial Michelangelo Buonarroti, que nele despertou o fervor pelo classicismo.
Regressou, mais tarde, a Portugal, onde obteve várias ajudas da parte do infante D. Henrique, do cardeal-arcebispo de Évora e dos reis D. João III (a mando deste monarca, pintou os livros do coro do Convento de Cristo) e D. Sebastião.

O ideal estético renascentista exprime-se acentuadamente neste autor, que afirma que o dever primordial do artista é cultivar a sua íntima originalidade, "imitar-se a si mesmo"; depois, seguir a lição da natureza (puro espelho do Criador) e a lição dos antigos, mestres imortais de grandeza, simetria, perfeição e decoro.
Dotado de uma grande versatilidade intelectual, o autor distinguiu-se pelos seus desenhos da série "Antiguidades de Itália" (1540-1547), pelo seu contributo como instrumento de estudo na reconstituição do património arqueológico romano e da arte italiana da primeira metade do século XVI. Foi ainda autor do projeto da fachada da igreja de Nossa Senhora da Graça, em Évora.

A sua paixão pelo classicismo refletiu-se no seu tratado Da Pintura Antiga, que divulga o essencial da obra de Michelangelo e do movimento artístico de Roma no segundo quartel do século XVI. Escreveu ainda o primeiro ensaio sobre urbanismo na Península Ibérica, como o título Da Fábrica que Falece à Cidade de Lisboa, e alguns livros de desenhos como De Aetibus Mundi Imagines e Antigualhas(daqui)
 

sexta-feira, 23 de junho de 2023

"Porto" - Poema de Vítor Cintra


Luciano dos Santos (Pintor e professor português, 1911 - 2006),
Porto - Ribeira e Ponte de D. Luíz I, s.d.


Porto

 
Antiga, quer na História, quer na gente,
Jamais o teu passado será morto;
E, seja no futuro ou no presente,
Serás sempre a Invicta, nobre Porto.

Há muitos, muitos anos, junto ao Douro,
Fundaram-te, subindo encosta acima;
Com o rio fez-se eterno o teu namoro,
É ele que, banhando-te, te mima.

Chamaram-te cidade do trabalho
Por ser tão empenhada no labor
A gente, que em ti vive, e ao redor;

As cepas, fecundadas pelo orvalho,
Das margens do teu rio, são penhor,
De quanto há no teu pão pago em suor.
 Editora: Temas Originais, 2011
 
 
Mota Urgeiro (Pintor português, n. 1946), Ribeira do Porto, s.d.


“Se nessa cidade há muito quem troque o B pelo V, há muito pouco quem troque a honra pela infâmia
 e a liberdade pela servidão.”
 

Almeida Garrett (1799 - 1854)
[Sobre a cidade do Porto, local onde nasceu.]


Mota UrgeiroPortoRibeira, s.d.


"O Porto não é um lugar. É um sentimento.” 

segunda-feira, 29 de maio de 2023

"O Portugal futuro" - Poema de Ruy Belo



Adolfo Rodrigues (Pintor português, 1867–1908), 'Esperando o peixe - Praia da Nazaré', 1893,
Museu do Solar do Aposento, Ponta Delgada, ilha da Madeira.

O Portugal futuro

O Portugal futuro é um país
aonde o puro pássaro é possível
e sobre o leito negro do asfalto da estrada
as profundas crianças desenharão a giz
esse peixe da infância que vem na enxurrada
e me parece que se chama sável
Mas desenhem elas o que desenharem
é essa a forma do meu país
e chamem elas o que lhe chamarem
Portugal será e lá serei feliz
Poderá ser pequeno como este
ter a oeste o mar e a Espanha a leste
tudo nele será novo desde os ramos à raiz
À sombra dos plátanos as crianças dançarão
e na avenida que houver à beira-mar
pode o tempo mudar será verão
Gostaria de ouvir as horas do relógio da matriz
mas isso era o passado e podia ser duro
edificar sobre ele o Portugal futuro 


Ruy Belo, in 'Homem de Palavra[s]', 1969
 
 
 Óleo sobre tela colada em cartão. Coleção particular.


Adolfo de Sousa Rodrigues (Funchal, 13 jan. 1867; Lisboa, 9 mar. 1908). Tirou o curso da Academia de Belas Artes, com altas classificações, tendo-se dedicado à pintura histórica, sob orientação de José Ferreira Chaves (1838-1899) e conseguindo bolsa para se especializar em Paris, trabalhando nos ateliers de Jean Paul Laurens (1838-1921) e Benjamin Constant (1845-1902). No 2.º ano do curso em Lisboa já tinha alcançado o prémio Anunciação, vindo a ser depois distinguido, em Lisboa, no Grémio Artístico, em 1895, com a terceira medalha. Pintou Agostinho de Ornelas e Vasconcelos (1836-1901), hoje na coleção dos descendentes, em Paris e o rei D. Carlos (1863-1908), nas coleções da Câmara Municipal do Funchal, uma alegoria à História no teto da entrada do Museu Militar de Lisboa, etc., tendo as palmas da Academia de França e a ordem de Isabel, a Católica, de Espanha. (daqui)

sábado, 1 de janeiro de 2022

"Trompe l’œil" - Poema de Alexandre O'Neill

 


[O Santuário de Santa Luzia, também referido como Santuário do Monte de Santa Luzia, Basílica de Santa Luzia, Templo de Santa Luzia e Templo do Sagrado Coração de Jesus, localiza-se no alto do monte de Santa Luzia, na freguesia de Santa Maria Maior, na cidade, concelho e distrito de Viana do Castelo, em Portugal
Um dos "ex libris"" da cidade, do seu sítio descortina-se uma vista ímpar da região, que concilia o mar, o  rio Lima com o seu vale, e todo o complexo montanhoso envolvente, panorama considerado um dos melhores do mundo segundo a National Geographic.
A Basílica no alto do monte de Santa Luzia foi principiada em 1903, por iniciativa do padre António Martins Carneiro, com projeto do arquiteto
Miguel Ventura Terra (1898). A última etapa da sua construção, sob a direção do arquiteto Miguel Nogueira Júnior a partir de 1925, é considerada como inspirada na Basílica de Sacré Cœur, em Paris. 
Os trabalhos de cantaria em granito são de responsabilidade do mestre canteiro, Emídio Pereira Lima. Aberto ao culto em 1926, os trabalhos estenderam-se até 1943. Desde 1923 o santuário é servido pelo Elevador de Santa Luzia.
O santuário compreende ainda o "Núcleo Museológico do Templo-Monumento de Santa Luzia", constituído por uma sala na parte inferior da basílica. O acervo é constituído por talha, imagens, azulejos, e outros.]
(Daqui)
 
 
 
 

Trompe l’œil


Lembras-te jóia, daquele bacalhau
que comemos em Viana do Castelo?
Parece que foi ontem, mas já lá vão dez anos!
Ainda tinhas tu muito cabelo…

Chovia nesse dia, bem me lembro.
Deixaste no comboio o guarda-chuva.
Quem te mandou levar toda a viagem
a fazer olhinhos à viúva?

Contos largos… Mas quando o bacalhau,
como tu disseste: deu à costa,
esqueceste o guarda-chuva e a viúva
e perguntaste a mim: góta não góta?

Ó jóia! E o azeitinho! Aquilo sim!
P’ra comer só no Norte, só no Norte!
E depois… Na pensão… Os pés juntinhos…
Foi mais forte que nós, muito mais forte! 
 
 
 
 
 Monte de Santa Luzia, Santuário e estuário do rio Lima, Viana do Castelo, Portugal
 (Fotografia de Arménio Belo)
 
 
 
Viana do Castelo

 
Viana do Castelo, conhecida como a “Princesa do Lima” e pelas suas festas da  Senhora da Agonia, é uma das mais bonitas cidades do Norte de Portugal. A sua participação nos Descobrimentos portugueses e, mais tarde, na pesca do bacalhau mostram a sua tradicional ligação ao mar.

A Viana do Castelo depressa se acede a partir da cidade do Porto, ou de Valença para quem vem de Espanha. Do monte de Santa Luzia pode observar-se a situação geográfica privilegiada da cidade, junto ao mar e à foz do rio Lima. Esta vista deslumbrante e o Templo do Sagrado Coração de Jesus, edifício revivalista de Ventura Terra, de 1898, podem ser o ponto de partida para visitar a cidade.

Viana enriqueceu-se com palácios brasonados, igrejas e conventos, chafarizes e fontanários que constituem uma herança patrimonial digna de visita. No Posto de Turismo pode-se pedir uma brochura e fazer percursos de inspiração manuelina, renascença, barroca, art deco ou do azulejo. Percorrendo algumas das ruas do centro histórico sempre se chega à Praça da República, o coração da cidade. É onde ficam o edifício da Misericórdia e o chafariz, quinhentistas, assim como os antigos
Paços do Concelho. Não longe fica a românica ou Igreja Matriz.

Virada para o mar que fez a história de Viana, uma igreja barroca guarda a imagem da Senhora da Agonia, da devoção dos pescadores. Sai todos os anos a 20 de agosto para abençoar o mar numa das festas mais coloridas de Portugal, onde são de referir a beleza e riqueza dos trajes típicos que desfilam nas festas.

É que Viana - conhecida também pela filigrana em ouro - tem sabido manter as suas tradições, como se pode ver no Museu do Traje (traje e ouro), no Museu Municipal (especial relevo para a típica louça de Viana que aqui se expõe) ou no navio Gil Eannes. Construído nos Estaleiros Navais de Viana do Castelo para apoiar a pesca do bacalhau, o navio aqui está de novo ancorado para memória das tradições marítima e de construção naval da cidade.

Mas Viana do Castelo é também considerada uma “Meca da Arquitetura” graças aos muitos e importantes nomes da arquitetura portuguesa contemporânea que assinam equipamentos e espaços da cidade. É o caso da Praça da Liberdade de Fernando Távora, da Biblioteca de Álvaro Siza Vieira, da Pousada da Juventude de Carrilho da Graça, do Hotel Axis de Jorge Albuquerque ou ainda do Centro Cultural de Viana do Castelo de  Souto de Moura, entre muitos outros.

Nas redondezas da cidade podemos fazer um passeio pela ciclovia litoral ou fluvial ou por um dos muitos trilhos assinalados, assim como praticar surf, windsurf ou kitesurf e bodyboard em praias de areia fina e dourada. E ainda fazer jet-ski, vela, remo ou canoagem no rio Lima.

  • Viana é mar
 
Viana do Castelo, ao longo dos seus 24 quilómetros de costa litoral, tem vindo a ver reconhecido o valor patrimonial, natural e paisagístico das suas praias que, por seu lado, têm sido alvo de diversas intervenções de qualificação e valorização. Esta especial atenção reflecte-se nos vultuosos investimentos que vão da requalificação das praias à defesa dos cordões dunares e da respectiva flora e à organização de campanhas de educação que visam estimular a conservação, valorização e defesa do litoral vianense.

Por isso, Viana do Castelo tem vindo a ser galardoada com a Bandeira Azul, símbolo máximo da qualidade das praias e, agora, o litoral de Viana do Castelo pretende tornar-se um “Território de Excelência” com a implementação do denominado Polis do Litoral Norte – Operações de Requalificação e Valorização da Orla Costeira. Este ambicioso plano reconhece a importância estratégica da zona costeira e considera que as intervenções no litoral devem prosseguir objetivos concretos de modernidade e inovação, tais como a valorização dos aglomerados populacionais, a beneficiação das vias de acesso e reordenamento das áreas de estacionamento, a proteção costeira, para além de uma ciclovia, da criação de apoios de prática balnear e de apoio à prática desportiva náutica.
 
  • Viana é cor
 
O concelho é rico em tradições e o traje tradicional de Viana do Castelo é mesmo um símbolo do país, reconhecido como marca em Portugal e no estrangeiro pelo colorido e originalidade das suas peças. De destaque é também a ourivesaria de Viana, enquanto retrato fiel das suas tradições. As arrecadas, as custódias, os brincos à rainha, as laças, os trancelins e os fios em filigrana elaborada são parte integrante do nome da cidade, intimamente ligado ao traje à vianesa e à imagem da cidade.

A música faz parte da vida da comunidade Vianense, assumindo um simbolismo especial no acolhimento dos seus visitantes. A diversidade dos grupos etnográficos é igualmente acompanhada pelas escolas de música que florescem no concelho, formando tocadores de concertina, cavaquinhos, gaitas de fole e acordeão, que integram orquestras, bandas e conjuntos musicais responsáveis pela variada animação cultural.

  • Viana é monumental
 
As origens de Viana do Castelo remontam à Idade do Ferro, como confirma a Citânia erguida nessa altura no Monte de Santa Luzia. Mas a sua História, sempre ligada aos mares, relata um conjunto de acontecimentos que fizeram de Viana um dos principais portos comerciais do país. Em 1258, D. Afonso III concedeu-lhe o primeiro Foral, chamando-lhe Viana da Foz do Lima, antevendo assim a sua vocação marítima. Mais tarde, a 20 de Janeiro de 1848 e por decreto de D. Maria II, Viana é elevada a cidade e adopta o nome pelo qual é conhecida hoje: Viana do Castelo.

Plena de História, a cidade conta com inúmeros pontos de interesse cultural e turístico, aos quais se juntam o mar, o rio e a montanha, os três ecossistemas intimamente ligados à cidade e à sua História.

  • Viana é turística
 
Num cenário natural de indescritível beleza, a cidade de Viana do Castelo está destinada ao turismo, com um conjunto de espaços dedicados à recepção e acolhimento de quem visita Viana do Castelo e quer conhecer a sua cultura, a sua arte e as suas tradições. De destaque são os museus e o seu riquíssimo acervo e ainda os núcleos museológicos espalhados pelas freguesias e dedicados às tradições.

O Museu de Arte e Arqueologia está instalado numa distinta mansão senhorial do século XVIII e possui uma das mais importantes e valiosas colecções de faiança antiga portuguesa dos séculos XVII a XIX, que inclui diversas peças da famosa fábrica de louça de Viana. Para além de um importante acerco de pintura, desenho e peças de arte sacra, destaca-se a bela coleção de mobiliário indo-português do século XVIII. Neste espaço, é possível ainda descobrir o espólio da azulejaria portuguesa e hispano-árabe, único na sua variedade e riqueza, a que se junta a parte arqueológica da Igreja das Almas e da Casa dos Nichos.

Situado num espaço nobre da cidade - a Praça da República - está o Museu do Traje, instalado num edifício Estado Novo recuperado e que alberga um excelente espólio de trajes e de ourivesaria tradicional, promovendo, valorizando e recuperando um valioso património concelhio. Com esse mesmo objetivo, foi criado um conjunto de núcleos museológicos, nomeadamente as Azenhas de D. Prior, onde está situado o Centro de Monitorização e Interpretação Ambiental de Viana do Castelo (que integra a Rede Portuguesa de Moinhos) ou o Museu do Pão de Outeiro, situado na antiga escola primária e que mostra todas as alfaias agrícolas do ciclo do milho e do pão e que integra também um moinho de água.

Viana do Castelo é ainda a descoberta de uma rota de galerias e museus, festas e tradições, artesanato, ourivesaria e, claro, gastronomia.
 
  • Romaria de Nossa Senhora da Agonia
 
Se é verdade que é em Maio, com a Festa das Rosas ou dos Cestos Floridos de Vila Franca do Lima, que começa o ciclo das Festas Vianenses é, sem dúvida, em Agosto, na incomparável e magnífica Romaria de Nossa Senhora d'Agonia, que a tradição atinge o seu maior expoente. A procissão ao mar e as ruas da Ribeira, enfeitadas com os tapetes floridos, são testemunhos da profunda devoção religiosa. A etnografia tem o seu espaço nos desfiles do Cortejo Etnográfico e na Festa do Traje, onde se pode admirar os belos trajes de noiva, mordoma e lavradeira, vestidos por lindas minhotas que ostentam peitos repletos de autênticas obras de arte em ouro. A festa continua... tocam as concertinas e os bombos, dançam as lavradeiras... A grandiosa serenata de fogo de artifício ilumina toda a cidade, começando pela ponte de Gustave Eiffel, passando pelo Castelo de Santiago da Barra, até ao Templo - Monumento de Santa Luzia... É um abraço dos Vianenses a todos que nos visitam no mês de Agosto.

A Romaria d’Agonia junta-se à história da igreja d’Agonia. Data de 1674 a história da igreja em honra da padroeira dos pescadores. Na altura, foi edificada uma capela em invocação ao Bom Jesus do Santo Sepulcro do Calvário e, um pouco acima, uma capelinha devota a Nossa Senhora da Conceiçã
o.
Informações e Fotos: CM Viana do Castelo (daqui)