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domingo, 18 de maio de 2025

"Plantar uma floresta" - Poema de Luísa Ducla Soares


Elizabeth Forbes (Canadian painter, 1859–1912), 'The Orchard', Unknown date.
 
 
Plantar uma floresta

 
Quem planta uma floresta
Planta uma festa.

Planta a música e os ninhos,
Faz saltar os coelhinhos.

Planta o verde vertical,
Verte o verde,
Vário verde vegetal.

Planta o perfume
Das seivas e flores,
Solta borboletas de todas as cores.

Planta abelhas, planta pinhões
E os piqueniques das excursões.

Planta a cama mais a mesa.
Planta o calor da lareira acesa.
Planta a folha de papel,
A girafa do carrossel.

Planta barcos para navegar,
E a floresta flutua no mar.
Planta carroças para rodar,
Muito a floresta vai transportar.
Planta bancos de avenida,
Descansa a floresta de tanta corrida.

Planta um pião
Na mão de uma criança:
A floresta ri, rodopia e avança.
 
 
"A Gata Tareca e Outros Poemas Levados da Breca"
(Poesia para a infância)
 

"A Gata Tareca e outros poemas levados da breca"
de Luísa Ducla Soares. Ilustrações de Fedra Santos.
Porto Editora 

 
 Sinopse
 
Esta obra apresenta as mais apelativas tendências da poesia de Luísa Ducla Soares. Nela está patente o seu humor, o gosto pela nonsense, pelos jogos de sons e palavras. Não desprezando a herança da tradição popular, das lengalengas, romances e trava-línguas oferece mais de uma vintena de poemas divertidos que despertam a imaginação das crianças.

quarta-feira, 24 de abril de 2024

"A Fábrica" - Poema de Ary dos Santos



Stanhope Forbes
(British artist, 1857–1947), 'The Munition Girls', 1918, Science Museum.


A Fábrica


Da alavanca ao tear da roda ao torno
da linha de montagem ao cadinho
do aço incandescente a entrar no forno
à agulha a trabalhar devagarinho.

Da prensa que se fez para esmagar
à tupia no corpo da madeira
do formão que nasceu a golpear
à força bruta duma britadeira.

Do ferro e do cimento até ao molde
que é quase um esgar de plástico sereno
do maçarico humano que nos solde
à luz da luta e não do acetileno

nasce este canto imenso e universal
sincopado enérgico fabril
sereia que soou em Portugal
à hora de pegarmos por Abril.

Transformar a matéria é transformar
a própria sociedade que nós fomos
ser operário é apenas saber dar
mais um pouco de nós ao que nós somos.

Um braço é muito mas por si só não chega
por trás da nossa mão há uma razão
que faz de cada gesto sempre a entrega
de um pouco mais de força. De mais pão.

Estamos todos num único universo
e não há uns abaixo outros acima
pois se um poema é uma obra em verso
um parafuso é uma obra-prima.

Operários das palavras ou do aço
da terra do minério do cimento
em cada um de nós há um pedaço
da força que só tem o sofrimento.

Vamos cavá-la com a pá das mãos
provar que em cada um nós somos mil
é tempo de alegria meus irmãos
é tempo de pegarmos por Abril.


Ary dos Santos
, in “Obra Poética”, 
Lisboa, Ed. Avante, 1994.
 
 
Portrait of  Stanhope Forbes by his wife, Elizabeth Adèla Forbes, 
née Armstrong (Canadian painter, 1859–1912). 
 
 
"O talento é amiúde um fator secundário no sucesso. Convencemos-nos deste facto ao ler a vida dos homens célebres. Todos, poetas, oradores, historiadores, filósofos, estadistas, foram sobretudo trabalhadores incansáveis, mais viris na labuta que os jornaleiros e operários; consumiam-se nos seus livros e afazeres como a lâmpada que presidia às suas vigílias. Foram vistos trabalhar doze, catorze, dezasseis horas por dia durante largos anos. Antes da aurora levantavam-se; no verão, madrugavam mais do que a cotovia e quando o ceifador ia colher paveias, já tinha amontoado tesouros."
 
Louis Riboulet (1871–1944), Rumo à Cultura, p. 28
 

domingo, 30 de julho de 2023

"O mundo, pião de Deus" - Poema de João Braz


 
Elizabeth Forbes (Canadian painter, 1859–1912), The half holiday, 
Alec home from school, 1909.


O mundo, pião de Deus


Outro dia, na escola,
O professor deu à gente
Uma bizarra lição:
Disse que o mundo é uma bola
E anda à roda, eternamente,
A girar como um pião…

- Nunca em tal tinha pensado!
E fiquei muito admirado
Com a lição que aprendi...
Roda o mundo, e o caso é
Que eu ando a rodar em pé
E ainda não entonteci!

Ora um dia, em pequenino,
disseram-me que o destino
e mares, terras, e céus
eram fruto de labor
insano do Criador
e o Criador era Deus...

Mas ponho o caso em estudo,
Reparo que nisto tudo
Reina grande confusão,
Pois, no céu, seria asneira
Deus andar, por brincadeira,
Sempre a jogar ao pião…

E nem o meu professor
Decifra sem aranzel
Este segredo profundo:
- Onde é que Nosso Senhor
Foi arranjar um cordel
Pra fazer rodar o mundo?
 em "Esta riqueza que o Senhor me deu", 1953
 


Elizabeth Forbes (Canadian painter, 1859–1912), School is Out, 1889.
Oil on canvas, 106 x 145 cm, Penlee House Gallery & Museum.


"Educar a mente sem educar o coração não é educação."
 
Aristóteles
[Filósofo e polímata da Grécia Antiga, 384 a.C – 322 a.C.]

 

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

"Desde a Aurora" - Poema de Eugénio de Andrade



Elizabeth Adela Forbes (Canadian painter, 1859–1912),
"The Leaf", 1897–1898, watercolour on paper. 



Desde a Aurora


Como um sol de polpa escura 
para levar à boca, 
eis as mãos: 
procuram-te desde o chão, 

entre os veios do sono 
e da memória procuram-te: 
à vertigem do ar 
abrem as portas: 

vai entrar o vento ou o violento 
aroma de uma candeia, 
e subitamente a ferida 
recomeça a sangrar: 

é tempo de colher: a noite 
iluminou-se bago a bago: vais surgir 
para beber de um trago 
como um grito contra o muro. 

Sou eu, desde a aurora, 
eu — a terra — que te procuro. 


Eugénio de Andrade
, in "Obscuro Domínio", 
Porto: Inova, 1971.


4 Non Blondes - What's Up

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

"Até Amanhã" - Poema de Eugénio de Andrade



Elizabeth Forbes (Canadian painter, 1859–1912), 'On a Fine Day', 1903,
 

Até Amanhã


Sei agora como nasceu a alegria, 
como nasce o vento entre barcos de papel, 
como nasce a água ou o amor 
quando a juventude não é uma lágrima. 

É primeiro só um rumor de espuma 
à roda do corpo que desperta, 
sílaba espessa, beijo acumulado, 
amanhecer de pássaros no sangue. 

É subitamente um grito, 
um grito apertado nos dentes, 
galope de cavalos num horizonte 
onde o mar é diurno e sem palavras. 

Falei de tudo quanto amei. 
De coisas que te dou 
para que tu as ames comigo: 
a juventude, o vento e as areias. 


Eugénio de Andrade
, in "Até Amanhã", 1956


Bruno Mars - 'Just The Way You Are'

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

"As Amoras" - Poema de Eugénio de Andrade



Elizabeth Forbes (Canadian painter, 1859–1912), "Blackberry Gathering", c. 1912,
Walker Art Gallery, Liverpool.


As Amoras


O meu país sabe às amoras bravas 
no verão. 
Ninguém ignora que não é grande, 
nem inteligente, nem elegante o meu país, 
mas tem esta voz doce 
de quem acorda cedo para cantar nas silvas. 
Raramente falei do meu país, talvez 
nem goste dele, mas quando um amigo 
me traz amoras bravas 
os seus muros parecem-me brancos, 
reparo que também no meu país o céu é azul.


Eugénio de Andrade, in "O Outro Nome da Terra"



Raphaelle Peale (American painter of still-life, 1774–1825),
"Blackberries", c. 1813, Fine Arts Museums of San Francisco.


"Sofremos muito com o pouco que nos falta e gozamos pouco o muito que temos."

(William Shakespeare)