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quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

"À minha musa" - Poema de Teixeira de Pascoaes


Gustav Klimt, 'Portrait of Friederike Maria Beer', 1916
 

À minha musa 


Senhora da manhã vitoriosa
E também do crepúsculo vencido.
Ó senhora da noite misteriosa,
Por quem ando, nas trevas, confundido. 

Perfil de luz! Imagem religiosa!
Ó dor e amor! Ó sol e luar dorido!
Corpo, que é alma escrava e dolorosa,
Alma, que é corpo livre e redimido.

Mulher perfeita em sonho e realidade.
Aparição Divina da Saudade...
Ó Eva, toda em flor e deslumbrada!

Casamento da lágrima e do riso;
O céu e a terra, o inferno e o paraíso,
Beijo rezado e oração beijada.


Teixeira de Pascoaes, 
in 'Senhora da Noite', 1909 


Retrato de Teixeira de Pascoaes, 1927 
por Columbano Bordalo Pinheiro


Teixeira de Pascoaes, poeta e ensaísta, concluiu os estudos liceais em Coimbra, onde viria a frequentar o curso de Direito. Exerceu a carreira de advogado, no Porto e em Amarante, até 1908. Integrado no movimento cívico e cultural portuense "Renascença Portuguesa", e cofundador de A Águia, em 1911, Teixeira de Pascoaes foi um dos principais teorizadores do Saudosismo, movimento literário, religioso e filosófico de autoconhecimento e reconstrução nacional, desencadeado pela convulsão política e social de 1910, e que, nas páginas daquela publicação, congregará, num vasto plano programa de revitalização social e cultural, a colaboração de Teixeira de Pascoaes, Mário Beirão, Leonardo Coimbra, Jaime Cortesão, Afonso Duarte, António Carneiro, Sant'Anna Dionísio, Hernâni Cidade, Adolfo Casais Monteiro, Augusto Casimiro, Augusto Gil, Afonso Lopes Vieira, Raul Proença, António Sérgio, António Correia de Oliveira, Manuel Laranjeira, Sampaio Bruno, entre outros.

Arreigadamente nacionalista, profetizador de um ressurgimento nacional, Pascoaes encontrará na "Saudade" o carácter definidor da especificidade do ser português: para o autor de Marânus, "quem surpreender a alma portuguesa, nas suas manifestações sentimentais mais íntimas e delicadas, vê que existe nela, embora sob uma forma difusa e caótica, a matéria de uma nova religião, tomando-se a palavra religião como querendo significar a ansiedade poética das almas para a perfeição moral, para a beleza eterna, para o mistério da Vida... Ora a alma portuguesa sente esta ansiedade duma maneira própria e original, o que se nota facilmente analisando os cantos populares, as lendas, a linguagem do povo, a obra de alguns poetas e artistas e, sobretudo, a suprema criação sentimental da Raça - a Saudade!" (manifesto da "Renascença Portuguesa", publicado em fevereiro de 1914, em A Vida Portuguesa, citado por GUIMARÃES, Fernando in Poética do Saudosismo, Lisboa, 1988, p. 62). "Verbo do novo mundo português" a Saudade é definida por Pascoaes como "o próprio sangue espiritual da Raça, o seu estigma divino, o seu perfil eterno" e seria através da revelação desta "saudade no seu sentido profundo, verdadeiro, essencial, isto é, o sentimento-ideia, a emoção-refletida, onde tudo o que existe, corpo e alma, dor e alegria, amor e desejo, terra e céu, atinge a sua unidade divina", da "Saudade vista na sua essência religiosa" que surtiria a "grandeza do momento atual da Raça Portuguesa" (Pascoaes, in A Águia, n.º 1, 2.ª série, p. 1), representada maximamente pelos seus poetas, em quem a saudade se revelou.

Simultaneamente movimento literário de cariz neorromântico e propensão metafísica, e doutrina religiosa, política e filosófica, o saudosismo de Pascoaes concorre para o adensar, nas primeiras décadas do século, de um clima profético, de expectativa sebastianista e messiânica, que não deixaria de eivar o espírito do modernismo e, muito particularmente, a reflexão e criação poética de Fernando Pessoa. A tarefa de "divinização da substância espiritual e mítica da Pátria, resumida na figura da Saudade, ambígua senhora-da-noite e aurora do futuro" (cf. LOURENÇO, Eduardo in O Canto do Signo, Lisboa, Presença, 1994, p. 139), será prosseguida, na ensaística de Pascoaes, e mau grado a crítica formulada por António Sérgio, em 1913, nas páginas de A Águia ("Duas Epístolas aos Saudosistas"), contra o carácter nebuloso e passadista da doutrina saudosista, em volumes como O Espírito Lusitano e o Saudosismo (1912); O Génio Português na sua Expressão Filosófica, Poética e Religiosa (1913) ou A Era Lusíada (1914).

Retirado, desde 1913, no solar de Pascoaes, em Gatão, para se dedicar exclusivamente à meditação e à criação poética, o conjunto dos seus volumes poéticos apresentam-se como modelares relativamente a alguns traços de uma estética literária saudosista utilizando "alegorias referidas à Pátria-Saudade ou uma transfiguração messiânica, as correspondências e a realização verbal do inefável, os símbolos de natureza patriótica ou relacionados com a especiosa emergência duma alma portuguesa." (cf. GUIMARÃES, Fernando, op. cit., p. 9); e manifestando uma tendência para a fusão entre contemplação e paisagem, para sugerir um clima profético e visionário, para o culto da tradição, do misticismo, do panteísmo, do génio da Raça e, finalmente, para a valorização da "fisionomia das palavras" (id. ibi., p. 15), isto é, do valor expressivo das próprias formas gráficas.

A sua obra e a sua aura exerceram, no entanto, uma influência que extravasou os limites cronológicos do movimento Saudosista, enquanto paradigma (em autores como Eugénio de Andrade ou Agustina Bessa-Luís, entre outros) de uma postura de humildade do homem diante da criação; de compreensão da poesia enquanto forma de revelação e intuição extasiada do desconhecido; da importância concedida à palavra que, de "elemento regional-nacional conduzindo à transcendência", importa como "objeto de prospeção do lugar onde o Verbo se individualizou" (MARGARIDO, Alfredo, Teixeira de Pascoaes - A Obra e o Homem, Lisboa, Arcádia, 1961, p. 134); ou da vivência da poesia enquanto epicentro "de uma tensão própria ao homem e resultante de tendências contraditórias que o dividem e fazem oscilar entre o informe e o pensamento-forma, entre o mal e o bem, entre o tempo e a eternidade" (cf. LOPES, Silvina Rodrigues, Poesia de Teixeira de Pascoaes, Lisboa, ed. Comunicação, 1987, p. 24). 

Teixeira de Pascoaes. In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2012. [Consult. 2012-02-14]. 


Whitney Houston - One Moment in Time (1988) 



"Filho é um ser que nos emprestaram para um curso intensivo de como amar alguém além de nós mesmos, de como mudar nossos piores defeitos para darmos os melhores exemplos e de aprendermos a ter coragem. Isto mesmo! Ser pai ou mãe é o maior ato de coragem que alguém pode ter, porque é expor-se a todo tipo de dor, principalmente da incerteza de estar agindo corretamente e do medo de perder algo tão amado. Perder? Como? Não é nosso, recordam-se? Foi apenas um empréstimo". - José Saramago


terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

"Elegia do amor" - Poema de Teixeira de Pascoaes



Théodore Ralli (Greek painter, 1852–1909), 'The Kiss', 1887


Elegia do amor
 
I

Lembras-te, meu amor,
Das tardes outonais,
Em que íamos os dois,
Sozinhos, passear,
Para fora do povo
Alegre e dos casais,
Onde só Deus pudesse
Ouvir-nos conversar?
Tu levavas, na mão,
Um lírio enamorado,
E davas-me o teu braço;
E eu triste, meditava
Na vida, em Deus, em ti...
E, além, o sol doirado
Morria, conhecendo
A noite que deixava.
Harmonias astrais
Beijavam teus ouvidos;
Um crepúsculo terno
E doce diluía,
Na sombra, o teu perfil
E os montes doloridos...
Erravam, pelo Azul,
Canções do fim do dia.
Canções que, de tão longe,
O vento vagabundo
Trazia, na memória...
Assim o que partiu
Em frágil caravela,
E andou por todo o mundo,
Traz, no seu coração,
A imagem do que viu.
Olhavas para mim,
Às vezes, distraída,
Como quem olha o mar,
À tarde, dos rochedos...
E eu ficava a sonhar,
Qual névoa adormecida,
Quando o vento também
Dorme nos arvoredos.
Olhavas para mim...
Meu corpo rude e bruto
Vibrava, como a onda
A alar-se em nevoeiro.
Olhavas, descuidada
E triste... Ainda hoje te escuto
A música ideal
Do teu olhar primeiro!
Ouço bem a tua voz,
Vejo melhor teu rosto
No silêncio sem fim,
Na escuridão completa!
Ouço-te em minha dor,
Ouço-te em meu desgosto
E na minha esperança
Eterna de poeta!
O sol morria, ao longe;
E a sombra da tristeza
Velava, com amor,
Nossas doridas frontes.
Hora em que a flor medita
E a pedra chora e reza,
E desmaiam de mágoa
As cristalinas fontes.
Hora santa e perfeita,
Em que íamos, sozinhos,
Felizes, através
Da aldeia muda e calma,
Mãos dadas, a sonhar,
Ao longo dos caminhos...
Tudo, em volta de nós,
Tinha um aspeto de alma.
Tudo era sentimento,
Amor e piedade.
A folha que tombava
Era alma que subia...
E, sob os nossos pés,
A terra era saudade,
A pedra comoção
E o pó melancolia.
Falavas duma estrela
E deste bosque em flor;
Dos ceguinhos sem pão,
Dos pobres sem um manto.
Em cada tua palavra,
Havia etérea dor;
Por isso, a tua voz
Me impressionava tanto!
E punha-me a cismar
Que eras tão boa e pura,
Que, muito em breve – sim! -,
Te chamaria o céu!
E soluçava, ao ver-te
Alguma sombra escura,
Na fronte, que o luar
Cobria, como um véu.
A tua palidez
Que medo me causava!
Teu corpo fino
E leve (oh meu desgosto!)
Que eu tremia, ao sentir
O vento que passava!
Caía-me, na alma,
A neve do teu rosto.
Como eu ficava mudo
E triste, sobre a terra!
E uma vez, quando a noite
Amortalhava a aldeia,
Tu gritaste, de susto,
Olhando para a serra:
- Que incêndio! – E eu, a rir,
Disse-te: - É a lua cheia!...
E sorriste também
Do teu engano. A lua
Ergueu a branca fronte,
Acima dos pinhais,
Tão ébria de esplendor,
Tão casta e irmã da tua,
Que eu beijei, sem querer,
Seus raios virginais.
E a lua, para nós,
Os braços estendeu.
Uniu-nos num abraço,
Espiritual, profundo;
E levou-nos assim,
Com ela, até ao céu...
Mas, ai, tu não voltaste
E eu regressei ao mundo. 

II

Um raio de luar,
Entrando, de improviso,
No meu quarto sombrio,
Onde medito, a sós,
Deixa, a tremer, no ar,
Um pálido sorriso,
Um murmúrio de luz
Que lembra a tua voz...
O Outono, que derrama
Ideal melancolia
Nas almas sem amor,
Nos troncos sem folhagem,
Deixa a vibrar, em mim,
Saudosa melodia,
Dolorida canção,
Que lembra a tua imagem.
A noite, que escurece
Os vales e os outeiros,
E que acende, num bosque,
A voz do rouxinol
E a estrela que protege
E guia os pegureiros;
A lágrima do céu
Ao ver morrer o sol,
Acorda, no meu peito,
Infinda e etérea dor,
Que à memória me traz
A luz do teu olhar...
Tudo de ti me fala,
Ó meu longínquo amor:
As árvores, a névoa,
Os rouxinóis e o mar.
Se passo por um lírio,
Às vezes, distraído,
Chama por mim, dizendo:
"Oh! Não te esqueças dela!"
Diz-mo também, chorando
O vento dolorido.
Diz-mo a fonte, a cantar,
Diz-mo, a brilhar, a estrela.
E vejo, em toda a luz,
Teus olhos a fulgir.
Como adivinho, em tudo,
A alma que perdi!
Não encontro uma flor,
Sem o teu nome ouvir.
Não posso olhar o céu,
Sem me lembrar de ti!
Por isso, eu amo o pobre,
O triste e a Natureza,
A mãe da humana dor,
Da dor de Deus a filha.
Meu coração, ao pé
Dum pobrezinho, reza;
Canta, ao lado dum ninho,
Ao pé da estrela, brilha.
O meu amor por ti,
Meu bem, minha saudade,
Ampliou-se até Deus,
Os astros alcançou.
Beijo o rochedo e a flor,
A noite e a claridade.
São estes, sobre o mundo,
Os beijos que te dou.
Hás-de senti-los, sim,
Doce mulher de outrora.
Ó roxo lírio de hoje,
Ó nuvem atual!
Como dantes teu rosto,
A rosa ainda hoje cora;
Beijo-te, sim, beijando
A rosa virginal.
Teu espectro divaga,
Ao longo dos espaços.
Teu amor, feito luz,
Desce do Firmamento.
Se abraço um verde tronco,
Eu sinto, entre os meus braços,
Teu corpo estremecer,
Como uma flor, ao vento.
Soluça a tua dor
Nas infinitas mágoas,
Que, no fumo da tarde,
Eu vejo, além, subir...
E paira a tua voz
No marulhar das águas,
No murmúrio que sai
Das pétalas a abrir.
Se os lábios vou molhar
Nas ondas duma fonte,
Queimam meu coração
Tuas lágrimas salgadas.
E, quando acaricia
O vento a minha fronte,
Eu bem sinto, sobre ela,
As tuas mãos sagradas.
Quando a lua, no outono,
Envolta em luz funérea,
Morta, vai a boiar
Nas águas do Infinito,
Doira meu frio rosto
A palidez etérea,
Que dantes emanava
O teu perfil bendito.
Quando, em manhãs d'Abril,
Acordo, de repente,
E vejo, no meu quarto,
O sol entrar, sorrindo,
Julgo ver, ante mim,
Teu corpo resplendente,
Tua trança de luz,
Teu gesto suave e lindo.
Descubro-te, mulher,
Na Natureza inteira,
Porque entendo a floresta,
A névoa, o céu doirado,
A estrela a arder, no Azul,
A lenha, na lareira
E o lírio que, na cruz
Do outono, está pregado.
Falas comigo, sim,
Da dor, do bem, de Deus...
Repartes o meu pão,
Amor, pelos ceguinhos...
E pelas solidões
Os pobres versos meus,
Como os pobres que vão,
A orar, pelos caminhos.
És a minha ternura,
A minha piedade,
Pois tudo me comove!
O zéfiro mais leve
Acende, no meu peito,
Infinda claridade;
E a brancura do lírio
Enche meu ser de neve.
Todo eu fico a cismar
Na louca voz do vento,
Na atitude serena
E estranha duma serra;
No delírio do mar,
Na paz do Firmamento
E na nuvem, que estende
As asas, sobre a terra.
Todo eu fico a cismar,
Assim como que esquecido,
Ante a flor virginal
E o sol enamorado.
Ante o luar que nasce,
Ao longe, dolorido,
Dando às coisas um ar
Tão triste e macerado.
Todo eu medito e cismo...
Um vago e etéreo laço
Prende-me ao teu imenso
E livre coração,
Que abrange o mundo inteiro
E ocupa todo o espaço,
E que vai povoar
A minha solidão.
Por isso, eu vivo sempre,
Em doce companhia,
Com o pobre que pede
E a estrela que fulgura;
E, assim, a minha alma,
Igual à luz do dia
Derrama-se, no céu,
Em ondas de ternura.
Sou como a chuva e o vento
E a sombra duma cruz!
Lira, que a mais suave
Aragem faz vibrar...
Água que, ao luar brando,
Em nuvens se traduz;
Fruto que amadurece,
À luz dum claro olhar...
Pedra que um beijo funde
E místico vapor,
Que um hálito condensa
Em pura gota de água...
Sou aroma que um ai
Encarna em triste flor;
Riso que muda em choro
A mais pequena mágoa.
Vivo a vida infinita,
Eterna, esplendorosa.
Sou neblina, sou ave,
Estrela, Azul sem fim,
Só porque, um dia, tu,
Mulher misteriosa,
Por acaso, talvez,
Olhaste para mim.


Teixeira de Pascoaes (1877–1952),
in 'Prosa e Poesia'



Whitney Houston - I Will Always Love You


"Eternamente" - Conto de Miguel Sousa Tavares



Albert Chevallier Tayler (English artist, 1862–1925), The Upper Thames, 1913


Eternamente 


"E escrevi o teu nome e o teu número de telefone numa página da agenda do mês de Fevereiro. E, ao escrevê-lo, sabia que era uma despedida, mas todo o mês de Março nos arrastamos na despedida, como caranguejos na maré vazia. Sem ti, lancei outras raízes, construí pátios e terraços, fontes cujo som deveria apagar todos os silêncios, plantei um pomar com cheiro a damasco, mandei fazer um banco de cal à roda de uma árvore para olhar as estrelas do céu, um caminho no meio do olival por onde o luar pousaria à noite, abóbadas de tijolo imaginadas pelo mais sábio dos arquitetos e até teias de aranha suspensas no teto, como se vigiassem a passagem do tempo. Nada disso tu viste, nada te contei, nada é teu. Sozinhos, eu e a aranha pendurada na sua teia, contemplamos-nos longamente, como quem se descobre, como quem se recolhe, como quem se esconde. Foi assim que vi desfilar os anos, as paredes escurecendo, um pó de tijolo pousando entre as páginas dos mesmos livros que fui lendo, repetidamente. Heathcliff e Catarina Linton destroçados outra vez pela minúcia do tempo.
Como explicar-te como tudo isto se te tornou alheio, como tudo te pareceria agora estranho, como nada do que foi teu vigia o teu hipotético regresso? Ulisses não voltará a Ítaca e Penélope alguma desfará de noite a teia que te teceste.
E arranquei a página da agenda com o teu nome e o teu número de telefone. Veio a seguir Abril e depois o Verão. Vi nascer a flor da tremocilha e das buganvílias adormecidas, vi rebentar o azul dos jacarandás em Junho, vi noites de lua cheia em que todos os animais noturnos se chamavam rãs, corujas e grilos, e um espesso calor sobre a devassidão da cidade. E já nada disto, juro, era teu.
E foi assim que descobri que todas as coisas continuam para sempre, como um rio que corre ininterruptamente para o mar, por mais que façam para o deter.
Sabes, quem não acredita em Deus, acredita nestas coisas, que tem como evidentes. Acredita na eternidade das pedras e não na dos sentimentos; acredita na integridade da água, do vento, das estrelas. Eu acredito na continuidade das coisas que amamos, acredito que para sempre ouviremos o som da água no rio onde tantas vezes mergulhamos a cara, para sempre passaremos pela sombra da árvore onde tantas vezes paramos, para sempre seremos a brisa que entra e passeia pela casa, para sempre deslizaremos através do silêncio das noites quietas em que tantas vezes olhamos o céu e interrogamos o seu sentido. Nisto eu acredito: na veemência destas coisas sem princípio nem fim, na verdade dos sentimentos nunca traídos.
E a tua voz ouço-a agora, vinda de longe, como o som do mar imaginado dentro de um búzio. Vejo-te através da espuma quebrada na areia das praias, num mar de Setembro, com cheiro a algas e a iodo. E de novo acredito que nada do que é importante se perde verdadeiramente. Apenas nos iludimos, julgando ser donos das coisas, dos instantes e dos outros. Comigo caminham todos os mortos que amei, todos os amigos que se afastaram, todos os dias felizes que se apagaram. Não perdi nada, apenas ilusões de que tudo podia ser meu para sempre." 
 

Miguel Sousa Tavares, Conto extraído do livro “Não te deixarei morrer, David Crocket” 
 


Whitney Houston - Greatest Love of All



"O que somos hoje e o que seremos amanhã depende de nossos pensamentos. Se procedo mal, 
sofro as consequência; se procedo bem, eu mesmo me purifico."

Sidarta Gautama


Whitney Houston - Run to You

Whitney Houston (9 de agosto de 1963 - 11 de fevereiro de 2012)