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segunda-feira, 22 de dezembro de 2025

"Rosas de Inverno" - Poema de Camilo Pessanha



Aldo Parmigiani (Italian painter, 1935–2024), Rosas, s.d.



Rosas de Inverno


Corolas, que floristes
Ao sol do inverno, avaro,
Tão glácido e tão claro
Por estas manhãs tristes.

Gloriosa floração,
Surdida, por engano,
No agonizar do ano,
Tão fora da estação!

Sorrindo-vos amigas,
Nos ásperos caminhos,
Aos olhos dos velhinhos,
Às almas das mendigas!

Desse Natal de inválidos
Transmito-vos a bênção,
Com que vos recompensam
Os seus sorrisos pálidos.


Camilo Pessanha,
in "Clepsidra e outros poemas", 1962.




Aldo Parmigiani, "La rosa bianca", 2012.



"Você pode se queixar porque a rosa tem espinhos ou se alegrar porque os espinhos têm rosas."

Tom Wilson, citado in  Altered You!: Alter Your Style ... Your Stuff ... Your Space! - Página 79,
 Karin Buckingham - Kalmbach Books, 2013 - 96 páginas.
 

quarta-feira, 9 de abril de 2025

"Em pequena" - Poema de Adília Lopes

 

 
Aldo Parmigiani (Italian painter, 1935–2024)


Em pequena


Em pequena
queria ter muitos bebés
e um cão
ser cançonetista
como a Madalena Iglésias
e ser freira
como a irmã Maria Antonieta
minha professora
por isso vi
umas oito vezes
a Música no coração
e bebi com a Victoria
um cocktail chamado
Mary Poppins
no bar La Filmo
a Julie Andrews
era para mim
a mulher mais bonita
do mundo.


Adília Lopes
,
in "Sete rios entre campos", 1999.



Pinturas de Aldo Parmigiani

Aldo Parmigiani

 
"A natureza e os livros pertencem aos olhos que os veem."
 
 
 

Aldo Parmigiani
 
 
"O amor está em toda a parte da natureza, como emoção, mas também como recompensa."
 
Ralph Waldo Emerson, in "Essays"
 

 Aldo Parmigiani
 
 
 "O talento sozinho não consegue fazer um escritor. Deve existir um homem por trás do livro." 

Ralph Waldo Emerson, in Representative Men, 1850.
 
 

Aldo Parmigiani
 

"A recompensa de uma coisa bem feita é tê-la feito."

Ralph Waldo Emerson, in "Essays"
 
 
 
Aldo Parmigiani
 

"Faço com os meus amigos o que faço com os meus livros. Guardo-os onde os posso encontrar,
 mas raramente os utilizo."

Ralph Waldo Emerson, in "Essays"
 
 

 Aldo Parmigiani
 
 
"Podemos viajar por todo o mundo em busca do que é belo, mas se já não o trouxermos connosco,
 nunca o encontraremos."
 
 Ralph Waldo Emerson, in "Essays"
 
 

domingo, 31 de dezembro de 2023

"Os Girassóis" - Poema de José Tolentino Mendonça

 

Aldo Parmigiani (Pintor italiano, n. 1935), Girassóis


Os Girassóis


Às vezes ouves-me chorar
não é fácil deixar a tua mão

De quarto em quarto
quem espera
o terror de não haver ninguém

As paisagens alteram-se sem resolução
narrativas imortais desaparecem
e os girassóis assim
vulneráveis a desconhecidas ordens

Tu estás tão perto
mas sofro tanto
porque não vejo
como possa falar de ti
entre dois ou três séculos


José Tolentino de Mendonça
,
"De Igual para Igual", Assírio & Alvim, 2001.
 

 
José Tolentino de Mendonça, "De Igual para Igual", 
Assírio & Alvim, 2001 


Sinopse


“O tempo, a sua irreversibilidade, a sua pavorosa infinitude, é a matéria de que se faz a nova recolha poética de José Tolentino Mendonça, De Igual para Igual. Talvez não a matéria, talvez apenas (e é imenso) o argumento sobre que se constrói esta breve mas intensa declinação da memória, ou dos seus filamentos suspensos do tempo. São como os fios de cabelo de um rapaz, mas estes não se perdem, reencontram-se no exercício necessário, porém insuficiente, das palavras ("um verso é sempre tão pouco / em redor do que se pode observar").

O que diz então a poesia? Duas ou três coisas, a unanimidade do amor, a secreta imanência da verdade, a incomensurabilidade do tempo. E o lugar da poesia nisto tudo, e no mundo, forma frágil e célere (oposta a "essa forma de lentidão: a leitura"), ela própria prisioneira da desolada impotência do seu gesto ("Não uses palavras / se me segredas / aquilo que no fundo das nossas mentiras / se tornou uma verdade sublime"). Porque a poesia pode não ser mais que um exercício de nomeação, de convocação do que ficou, primeiro esquecido, depois recordado, da passagem do tempo, e nisso, ela é um instrumento da mesma contingência temporal que denuncia e combate.

A poesia de José Tolentino Mendonça diz-se insuficiente, mas também necessária, quanto mais não seja para rasgar a via do reconhecimento das meras evidências: "a vida por si mesma não se pode escutar demasiado / a vida é uma questão de tempo", "o tempo era maior / do que se dizia", "tão absolutamente só / o nosso coração bate". Ela é, assim, um resíduo de pureza, de simples reminiscência, de evocação de "coisas que não precisam de nome», porventura porque são realmente inomináveis, meras cintilações alojadas no coração ("de que vale um coração / se não aspira à verdade / soberano").

Há nesta poesia uma tal intensidade, um tal despojamento, que não poucas vezes ela se aventura pelos caminhos arriscados da inocência. Mas a sua força reside precisamente aí, nesse risco assumido de um dizer simples e sem artifício, sem sonoridade nem quase espessura, um grito disfarçado de murmúrio, a romper a noite em que se aventura o coração.

"A verdade que pertence aos gestos / ao menor dos nossos gestos / antes de chegarem palavras que nos socorram / às vezes é a verdade de um amor". Para o dizer, é preciso auscultar o mais fundo de nós mesmos, esse ponto, lá, a que só alguns chegam, por vezes em um só verso, outras vezes na sua obra inteira. É um privilégio, que é mais feito de sofrimento do que de glória – mas poucos o sabem. José Tolentino Mendonça pertence ao grupo dos que buscam, e quase sempre encontram, em cada um dos seus poemas, essa verdade secreta de si mesmo”.

António Mega Ferreira (daqui)