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sexta-feira, 19 de dezembro de 2025

"Despedida do Outono" - Poema de Eugénio de Andrade



Armando Anjos (Pintor português, 1931-2017), Paisagem com lavadeiras, s.d.


Despedida do Outono


Eu já ouvira o apelo do tordo
junto às águas velhas
do rio, ou na luz vidrada
das lentas oliveiras do sul.

Pensava então que não podia morrer
quem tanto amou o claro timbre
das vogais trazidas pelo mar 

- o outono, esse morria nas chamas
altas dos castanheiros,
na sonâmbula ondulação
dos rebanhos,
nos olhos das mulheres
de coração fatigado,
semelhantes a ramos partidos
- elas, que foram irmãs do orvalho.
 
 
 

Armando Anjos (Pintor português, 1931-2017), Paisagem, s.d.


Outono –
Empoleirado num ramo seco
um corvo
in "O Gosto Solitário do orvalho"  

 

Matsuo Bashō, "O Gosto Solitário do orvalho"
 e "O Caminho Estreito". Editora: Assírio e Alvim.
  Edição/reimpressão: 04-2003. 
 

SINOPSE 
 
Matsuo Bashō (Japão, 1644-1694), "o eterno vagabundo" - assim lhe chama Jorge de Sousa Braga, autor destas versões portuguesas de "O Gosto Solitário do Orvalho", um volume de haikus, e "O Caminho Estreito", um diário de viagem.
Como diz Eugénio de Andrade ("Rosto Precário"), Bashô, "com um cânone de apenas dezassete sílabas, fez uma das mais esplêndidas poesias de que há memória." 
O haiku (JSB) é "um momento único na eternidade: não se repete, nem se desvanece nunca". Bashô é um dos seus maiores executores. Vejam-se dois, de entre muitos:

Uma rã mergulha
no velho tanque...
o ruído da água

Preso na cascata
um instante:
o verão
 
 
 Matsuo Bashō
 
Poeta e viajante, Matsuo Bashô nasceu em 1644, na pequena aldeia de Ueno, e morreu a 28 de novembro de 1694. De acordo com a sua última vontade, foi sepultado nos terrenos do mosteiro de Gichu-Ji, nas margens do Lago Biwa, perto de Zeze. Sobre a sua sepultura foi plantada uma bananeira. É considerado o poeta nacional do Japão. (daqui)
 

quinta-feira, 26 de junho de 2025

"Irmã cotovia" - Poema de A. M. Pires Cabral

 
 
Pál Szinyei Merse (Hungarian painter and art educator, 1845–1920), Skylark, 1882.
Hungarian National Gallery
 

Irmã cotovia


Vive rente ao solo e é no solo
que faz ninho e sacia a fome
com as coisas do chão e em silêncio.

Porém, quando precisa de cantar,
muda de elemento: deixa a terra,
sobe altíssimo, até onde
nenhum outro pássaro se arrisca.

Dir-se-ia
que precisa de um palco.

Então dos limites do voo, quase imóvel,
vai derramando breves, repetidos
jorros de júbilo, assim como quem diz:
vejam como estou alto, sustentada
por tão frágeis asas.

Depois que desafogou o peito
das inadiáveis premências da voz,
apeia-se, torna ao solo,
dissimula-se na cor parda da terra,

como se nunca tivesse voado. 


A. M. Pires Cabral, in Arado, 2009


 
[A laverca, laverca-eurasiática ou laverca-comum (Alauda arvensis) é uma ave passeriforme da família dos Alaudídeos, presente em Portugal, assumindo-se como o tipo de cotovia mais comum na Europa.]
 

Cotovia
 
Na floresta fria,
Sem apego a nada,
Canta a cotovia.


Haicai de Matsuo Bashō
Tradução livre de R. D. Diéguez e Bernardo Souto.
(daqui)

quarta-feira, 5 de junho de 2024

"Chuva Oblíqua" - Poema de Fernando Pessoa




Edward Cucuel
 (German-american Impressionist painter, 1875–1954), By the Hawthorne.



Chuva Oblíqua
 
I

Atravessa esta paisagem o meu sonho dum porto infinito
E a cor das flores é transparente de as velas de grandes navios
Que largam do cais arrastando nas águas por sombra
Os vultos ao sol daquelas árvores antigas...

O porto que sonho é sombrio e pálido
E esta paisagem é cheia de sol deste lado...
Mas no meu espírito o sol deste dia é porto sombrio
E os navios que saem do porto são estas árvores ao sol...

Liberto em duplo, abandonei-me da paisagem abaixo...
O vulto do cais é a estrada nítida e calma
Que se levanta e se ergue como um muro,
E os navios passam por dentro dos troncos das árvores
Com uma horizontalidade vertical,
E deixam cair amarras na água pelas folhas uma a uma dentro...

Não sei quem me sonho...
Súbito toda a água do mar do porto é transparente
E vejo no fundo, como uma estampa enorme que lá estivesse desdobrada,
Esta paisagem toda, renque de árvore, estrada a arder em aquele porto,
E a sombra duma nau mais antiga que o porto que passa
Entre o meu sonho do porto e o meu ver esta paisagem
E chega ao pé de mim, e entra por mim dentro,
E passa para o outro lado da minha alma...

II

Ilumina-se a igreja por dentro da chuva deste dia,
E cada vela que se acende é mais chuva a bater na vidraça...

Alegra-me ouvir a chuva porque ela é o templo estar aceso,
E as vidraças da igreja vistas de fora são o som da chuva ouvido por dentro...

O esplendor do altar-mor é o eu não poder quase ver os montes
Através da chuva que é ouro tão solene na toalha do altar...
Soa o canto do coro, latino e vento a sacudir-me a vidraça
E sente-se chiar a água no fato de haver coro...

A missa é um automóvel que passa
Através dos fiéis que se ajoelham em hoje ser um dia triste...
Súbito vento sacode em esplendor maior
A festa da catedral e o ruído da chuva absorve tudo
Até só se ouvir a voz do padre água perder-se ao longe
Com o som de rodas de automóvel...

E apagam-se as luzes da igreja
Na chuva que cessa...

III

A Grande Esfinge do Egito sonha pôr este papel dentro...
Escrevo - e ela aparece-me através da minha mão transparente
E ao canto do papel erguem-se as pirâmides...

Escrevo - perturbo-me de ver o bico da minha pena
Ser o perfil do rei Quéops...
De repente paro...
Escureceu tudo...

Caio por um abismo feito de tempo...
Estou soterrado sob as pirâmides a escrever versos à luz clara deste candeeiro
E todo o Egito me esmaga de alto através dos traços que faço com a pena...

Ouço a Esfinge rir por dentro
O som da minha pena a correr no papel...
Atravessa o eu não poder vê-la uma mão enorme,
Varre tudo para o canto do teto que fica por detrás de mim,
E sobre o papel onde escrevo, entre ele e a pena que escreve
Jaz o cadáver do rei Queóps, olhando-me com olhos muito abertos,
E entre os nossos olhares que se cruzam corre o Nilo
E uma alegria de barcos embandeirados erra
Numa diagonal difusa
Entre mim e o que eu penso...

Funerais do rei Queóps em ouro velho e Mim!...

IV

Que pandeiretas o silêncio deste quarto!...
As paredes estão na Andaluzia...
Há danças sensuais no brilho fixo da luz...

De repente todo o espaço para...,
Para, escorrega, desembrulha-se...,
E num canto do teto, muito mais longe do que ele está,
Abrem mãos brancas janelas secretas
E há ramos de violetas caindo
De haver uma noite de Primavera lá fora
Sobre o eu estar de olhos fechados...

V

Lá fora vai um redemoinho de sol os cavalos do carrossel...
Árvores, pedras, montes, bailam parados dentro de mim...
Noite absoluta na feira iluminada, luar no dia de sol lá fora,
E as luzes todas da feira fazem ruídos dos muros do quintal...
Ranchos de raparigas de bilha à cabeça
Que passam lá fora, cheias de estar sob o sol,
Cruzam-se com grandes grupos peganhentos de gente que anda na feira,
Gente toda misturada com as luzes das barracas, com a noite e com o luar,

E os dois grupos encontram-se e penetram-se
Até formarem só um que é os dois...
A feira e as luzes das feiras e a gente que anda na feira,
E a noite que pega na feira e a levanta no ar,
Andam por cima das copas das árvores cheias de sol,
Andam visivelmente por baixo dos penedos que luzem ao sol,
Aparecem do outro lado das bilhas que as raparigas levam à cabeça,
E toda esta paisagem de primavera é a lua sobre a feira,
E toda a feira com ruídos e luzes é o chão deste dia de sol...

De repente alguém sacode esta hora dupla como numa peneira
E, misturado, o pó das duas realidades cai
Sobre as minhas mãos cheias de desenhos de portos
Com grandes naus que se vão e não pensam em voltar...
Pó de oiro branco e negro sobre os meus dedos...
As minhas mãos são os passos daquela rapariga que abandona a feira,
Sozinha e contente como o dia de hoje..

VI

O maestro sacode a batuta,
E lânguida e triste a música rompe... Lembra-me a minha infância, aquele dia
Em que eu brincava ao pé de um muro de quintal
Atirando-lhe com uma bola que tinha dum lado
O deslizar dum cão verde, e do outro lado
Um cavalo azul a correr com um jockey amarelo...

Prossegue a música, e eis na minha infância
De repente entre mim e o maestro, muro branco,
Vai e vem a bola, ora um cão verde,
Ora um cavalo azul com um jockey amarelo...

Todo o teatro é o meu quintal, a minha infância
Está em todos os lugares, e a bola vem a tocar música,
Uma música triste e vaga que passeia no meu quintal
Vestida de cão tornando-se jockey amarelo...
(Tão rápida gira a bola entre mim e os músicos...)

Atiro-a de encontro à minha infância e ela
Atravessa o teatro todo que está aos meus pés
A brincar com um jockey amarelo e um cão verde
E um cavalo azul que aparece por cima do muro
Do meu quintal... E a música atira com bolas
À minha infância... E o muro do quintal é feito de gestos
De batuta e rotações confusas de cães verdes
E cavalos azuis e jockeys amarelos...

Todo o teatro é um muro branco de música
Por onde um cão verde corre atrás de minha saudade
Da minha infância, cavalo azul com um jockey amarelo...

E dum lado para o outro, da direita para a esquerda,
Donde há árvores e entre os ramos ao pé da copa
Com orquestras a tocar música,
Para onde há filas de bolas na loja onde comprei
E o homem da loja sorri entre as memórias da minha infância...

E a música cessa como um muro que desaba,
A bola rola pelo despenhadeiro dos meus sonhos interrompidos,
E do alto dum cavalo azul, o maestro, jockey amarelo tornando-se preto,
Agradece, pousando a batuta em cima da fuga dum muro,
E curva-se, sorrindo, com uma bola branca em cima da cabeça,
Bola branca que lhe desaparece pelas costas abaixo...

8-3-1914

Fernando Pessoa, "Chuva Oblíqua". Poesias. 
 
(Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) 
Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995). - 27.
1ª publ. in Orpheu, nº 2. Lisboa: Abr.-Jun. 1915.
 
 
 Obras de Edward Cucuel
Edward Cucuel, Village Church, Sorrentine Coast, Capri.
 

Edward Cucuel, The artist's garden on lake Starnberg.



Edward Cucuel, Summer on Lake Starnberg.
 
 
Edward Cucuel, A quiet hour.


Edward Cucuel, The Sierra Madre Mountains, California.


Edward Cucuel, Boats at the Pier.
 

Purificar, gotas de orvalho
em vossa tão breve água
estas mãos escuras e vivas!

 
 Matsuo Bashō, Poemas Orientais
  Tradução de Casimiro de Brito

quinta-feira, 11 de maio de 2023

"Extravio" - Poema de Ferreira Gullar

Extravio 
 
 
Onde começo, onde acabo,
se o que está fora está dentro
como num círculo cuja
periferia é o centro?

Estou disperso nas coisas,
nas pessoas, nas gavetas:
de repente encontro ali
partes de mim: risos, vértebras.

Estou desfeito nas nuvens:
vejo do alto a cidade
e em cada esquina um menino,
que sou eu mesmo, a chamar-me.

Extraviei-me no tempo.
Onde estarão meus pedaços?
Muito se foi com os amigos
que já não ouvem nem falam.

Estou disperso nos vivos,
em seu corpo, em seu olfato,
onde durmo feito aroma
ou voz que também não fala.

Ah, ser somente o presente:
esta manhã, esta sala. 


Ferreira Gullar, in Muitas vozes: poemas,
José Olympio Editora – 2ª edição, 1999
 

Arnold Böcklin, Self-portrait with the wine glass, 1885,  
 
 
Fecho a minha porta.
Silencioso vou deitar-me.
Prazer de estar só... 


Matsuo Bashō (1644-1694)
Tradução de
Manuel Bandeira

quinta-feira, 20 de abril de 2023

"Soneto da Poesia Narrativa" - Poema de Vasco Graça Moura


Heinrich Campendonk (German, 1889–1957), Composition with 2 Figures, c. 1912


 Soneto da Poesia Narrativa


foi assim que cheguei à poesia narrativa:
nos poemas moviam-se figuras
e a essas figuras aconteciam coisas
e essas coisas tinham um sentido deslizante,
era uma espécie de hipálage do mundo:

com precisão a seta era dirigida
à maça equilibrada na cabeça da criança,
mas devolvia-se ao arco, depois
de varar o coração dos circunstantes
e era a vibração do arco a derrubar o fruto,

num zunido do ar que a flecha deslocava
na sua trajectória. foi assim que cheguei
à poesia narrativa: havia flores nos alpes
e a corda em vibração levava à música.

Vasco Graça Moura, Poemas com Pessoas
Lisboa: Quetzal Editores
 
 
Heinrich Campendonk, 20 Minuten vor 1 Uhr (20 minutes to 1 o'clock), 1922 
 


SEM ESTAÇÃO

月花もなくて酒のむ独りかな
tsuki hana mo / nakute sake nomu / hitori kana

(1689)

Que lua, que flor
nada, bebo umas doses
aqui sozinho.



Matsuo Bashō
,
in FRADE, Gustavo. Dez poemas de Matsuo Bashô.
Em Tese, Belo Horizonte, v. 20 n. 2 maio-ago. 2014, p. 137-146.
(aqui)
(Tradução Gustavo Frade) 
 

Heinrich Campendonk, 1916


Heinrich Campendonk (Krefeld, 3 de novembro de 1889—Amesterdão, 9 de maio de 1957) foi um pintor, gravador e vitralista alemão enquadrado no expressionismo, membro entre 1911 e 1912 do movimento artístico Der Blaue Reiter em Munique.
Quando o regime nazista chegou ao poder em 1933 foi um de artistas modernistas considerados como artistas degenerados a quem foi proibido expor. Mudou-se então para os Países Baixos onde passou o resto da sua vida trabalhando na Rijksakademie de Amesterdão, primeiro como professor de Arte Decorativa, depois de gravura e de pintura de vitrais e, finalmente, como diretor da Academia. Nunca regressou à Alemanha.
Entre os seus discípulos contam-se Willem Hofhuizen (1915–1986), Jaap Min (1914–1987) e Anton Rovers (1921-2003). (Daqui)
 

segunda-feira, 12 de setembro de 2022

"Madrugada Camponesa" - Poema de Thiago de Mello


 
Jules Breton (French naturalist painter, 1827-1906), Les amies (Friends), 1873



Madrugada Camponesa



Madrugada camponesa,
faz escuro ainda no chão,
mas é preciso plantar.
A noite já foi mais noite,
a manhã já vai chegar.

Não vale mais a canção
feita de medo e arremedo
para enganar solidão.
Agora vale a verdade
cantada simples e sempre,
agora vale a alegria
que se constrói dia a dia
feita de canto e de pão.

Breve há de ser (sinto no ar)
tempo de trigo maduro.
Vai ser tempo de ceifar.
Já se levantam prodígios,
chuva azul no milharal,
estala em flor o feijão,
um leite novo minando
no meu longe seringal.

Madrugada da esperança
já é quase tempo de amor.
Colho um sol que arde no chão,
lavro a luz dentro da cana
minha alma no seu pendão.

Madrugada camponesa.
Faz escuro (já nem tanto),
vale a pena trabalhar.
Faz escuro, mas eu canto,
porque a manhã vai chegar.


Thiago de Mello,
in 'Faz escuro mas eu canto', 1966 



Jules Breton, Young woman in a field, 1889


Silêncio profundo!
Até o cantar dos grilos
está escondido nas rochas…


Matsuo Bashō
(Haicai / Haikai / Haiku)
Tradução de Casimiro de Brito

 

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2022

"Baladas Românticas" - Poema de Olavo Bilac




Hans Zatzka (Austrian, 1859–1945), Blumenreigen,
Dancing Amongst the Flowers, ca. 1900 



Baladas Românticas


Como era verde este caminho!
Que calmo o céu! que verde o mar!
E, entre festões, de ninho em ninho,
A Primavera a gorjear!...
Inda me exalta, como um vinho,
Esta fatal recordação!
Secou a flor, ficou o espinho...
Como me pesa a solidão!

Órfão de amor e de carinho,
Órfão da luz do teu olhar,
- Verde também, verde-marinho,
Que eu nunca mais hei de olvidar!
Sob a camisa, alva de linho,
Te palpitava o coração...
Ai! coração! peno e definho,
Longe de ti, na solidão!

Oh! tu, mais branca do que o arminho,
Mais pálida do que o luar!
- Da sepultura me avizinho,
Sempre que volto a este lugar...
E digo a cada passarinho:
"Não cantes mais! que essa canção
Vem me lembrar que estou sozinho,
No exílio desta solidão!"

No teu jardim, que desalinho!
Que falta faz a tua mão!
Como inda é verde este caminho...
Mas como o afeia a solidão!
 
 
Olavo Bilac, in “Poesias”
 
 
 
Joseph Bernard (French, 1864-1933), Allegory of Spring
 


Primavera 


As flores abrindo
no vento da primavera
como gargalhadas
 
 
É primavera –
sobre a montanha sem nome
névoa da manhã.
 
 
Vai-se a primavera –
choram as aves e há lágrimas 
nos olhos dos peixes. 
 

Matsuo Bashō
(Haicai / Haikai / Haiku)

terça-feira, 11 de janeiro de 2022

"Amar você é coisa de minutos" - Poema de Paulo Leminski


 
Albert Henry Collings (English, 1868-1947), The Proposal (Danae, Daylight and Lamplight)
 


Amar você é coisa de minutos

 
Amar você é coisa de minutos
A morte é menos que teu beijo
Tão bom ser teu que sou
Eu a teus pés derramado
Pouco resta do que fui
De ti depende ser bom ou ruim
Serei o que achares conveniente
Serei para ti mais que um cão
Uma sombra que te aquece
Um deus que não esquece
Um servo que não diz não
Morto teu pai serei teu irmão
Direi os versos que quiseres
Esquecerei todas as mulheres
Serei tanto e tudo e todos
Vais ter nojo de eu ser isso
E estarei a teu serviço
Enquanto durar meu corpo
Enquanto me correr nas veias
O rio vermelho que se inflama
Ao ver teu rosto feito tocha
Serei teu rei teu pão tua coisa tua rocha
Sim, eu estarei aqui.
in Toda Poesia
 
 
Albert Henry Collings, Portrait of a Lady


Amei em cheio
meio amei-o
meio não amei-o. 
 
  
 
 Albert Henry Collings, Woman with hat and veil
 
 
Que belo que é
não pensar ao ver um raio:
'A vida é fugaz'.
 (1644- 1694) 
(Haikai) 
 


Albert Henry Collings, Portrait of the actress and singer Marjorie Villis


"Admirável aquele
cuja vida é um contínuo
relâmpago." 
  

segunda-feira, 2 de agosto de 2021

"Sophia de Mello Breyner Andresen" - Poema de Adelina Barradas de Oliveira


 
Charles Conder (1868-1909, Australian), A holiday at Mentone, 1888


Sophia de Mello Breyner Andresen


Há mulheres que trazem o mar nos olhos
Não pela cor
Mas pela vastidão da alma
E trazem a poesia nos dedos e nos sorrisos
Ficam para além do tempo
Como se a maré nunca as levasse
Da praia onde foram felizes

Há mulheres que trazem o mar nos olhos
pela grandeza da imensidão da alma
pelo infinito modo como abarcam as coisas e os Homens...
Há mulheres que são maré em noites de tardes...
e calma
 
2009 
 (Juíza Desembargadora)
 
[Este poema, que se tornou viral, foi falsamente atribuído a Sophia de Mello Breyner Andresen com o título "O mar dos meus olhos". O texto original foi publicado no blogue Cleopatra Moon, onde a juíza Adelina Barradas de Oliveira costuma partilhar os seus escritos.]
 
 
Charles Conder, The hot sands, Mustapha, Algiers, 1891
 

Amar é um elo
entre o azul
e o amarelo.
 
 
 
Charles Conder, The Beach at Ambleteuse, c. 1900

 
Na ressaca da maré
pequenas conchas brilhantes
matizadas com pétalas de trevo.
 
Matsuo Bashō (1644-1694) 
Tradução de Casimiro de Brito
 

sexta-feira, 9 de abril de 2021

"Desencanto" - Poema de Manuel Bandeira



Charles James Mccall (Scottish, 1907 - 1989), A Winter's stroll, 1962 
 
 
Desencanto 

Eu faço versos como quem chora
De desalento... de desencanto...
Fecha o meu livro, se por agora
Não tens motivo nenhum de pranto.

Meu verso é sangue. Volúpia ardente...
Tristeza esparsa... remorso vão...
Dói-me nas veias. Amargo e quente,
Cai, gota a gota, do coração.

E nestes versos de angústia rouca,
Assim dos lábios a vida corre,
Deixando um acre sabor na boca.
– Eu faço versos como quem morre.

Teresópolis, 1912

Manuel Bandeira
,
A Cinza das Horas, 1917


 
Charles James McCall, London Street, 1954
 
 
Velha cidade silenciosa…
O perfume das flores flutuando
e à noite um sino a cantar. 
 
(Haicai / Haikai / Haiku)
 
 

sábado, 3 de abril de 2021

"Belo Belo" - Poema de Manuel Bandeira


Franz Dvorak or Franz Bruner, In the Orchard, 1912

 
Belo Belo


Belo belo minha bela
Tenho tudo que não quero
Não tenho nada que quero
Não quero óculos nem tosse
Nem obrigação de voto
Quero quero
Quero a solidão dos píncaros
A água da fonte escondida
A rosa que floresceu
Sobre a escarpa inacessível
A luz da primeira estrela
Piscando no lusco-fusco
Quero quero
Quero dar a volta ao mundo
Só num navio de vela
Quero rever Pernambuco
Quero ver Bagdá e Cusco
Quero quero
Quero o moreno de Estela
Quero a brancura de Elisa
Quero a saliva de Bela
Quero as sardas de Adalgisa
Quero quero tanta coisa
Belo belo
Mas basta de lero-lero
Vida noves fora zero.

Petrópolis, fevereiro de 1947

Manuel Bandeira,
in 'Estrela da Vida Inteira'
Ed. Nova Fronteira 
 

Franz Dvorak (1862-1927), The Angel of the Birds, 1910
 

Primavera

Borboletas e
aves agitam voo:
nuvem de flores.
 
 (Haicai / Haikai / Haiku)

"Ingratidão" - Soneto de Raul de Leoni


 
 Anita Malfatti (São Paulo, 1889 - 1964), Paisagem de Santo Amaro, 1920


Ingratidão

 
Nunca mais me esqueci!… Era criança
e em meu velho quintal, ao sol-nascente,
plantei, com minha mão ingénua e mansa,
uma linda amendoeira adolescente.

Era a mais rútila e íntima esperança…
cresceu… cresceu… e, aos poucos, suavemente,
pendeu os ramos sobre um muro em frente
e foi frutificar na vizinhança… ,

Daí por diante, pela vida inteira,
todas as grandes árvores que em minhas
terras, num sonho esplêndido semeio,

como aquela magnífica amendoeira,
eflorescem nas chácaras vizinhas
e vão dar frutos no pomar alheio…

in Luz Mediterrânea
 
 
 Anita Malfatti, O farol, 1915


Primavera

Quero ainda ver
nas flores no amanhecer
a face de um deus.
 
(1688)  
 
(Haicai / Haikai / Haiku)
Tradução de Gustavo Frade

 

Tsukioka Yoshitoshi, Poet Bashō and Moon Festival, 1891

Bashō meets two farmers celebrating the mid-autumn moon festival in a print from Yoshitoshi's Hundred Aspects of the Moon. The haiku reads: "Since the crescent moon, I have been waiting for tonight."