Mostrar mensagens com a etiqueta Gabriel von Max. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Gabriel von Max. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 3 de setembro de 2026

"O macaco que queria voar" - Poema de Duda Machado

 
 
Gabriel von Max (Prague-born Austrian-German painter, and professor
of history painting, 1840–1915), Going to Sleepǃ, c. 1900


O macaco que queria voar


Quinho era um macaco diferente.
Não gostava de comer banana
Nem de ficar imitando gente.

Mas não podia ver passarinho
Que tinha vontade de voar.
Parecia até um maluquinho,

Se deitava, rolava no chão,
Saltava entre os galhos e guinchava.
Voar que é bom, não voava não.

Desistia, ficava calado,
A mão no queixo, um jeito sério
E o ar de quem está concentrado.

Aí é que parecia gente.
Nem se coçava, cruzava os braços,
Querendo pensar logicamente. 


Duda Machado
,
em 'Histórias com poesia, alguns bichos & cia', 1997.

domingo, 21 de fevereiro de 2021

"Lágrimas de Cera" - Poema de Machado de Assis



Gabriel von Max (Austrian-German painter, and professor of history painting,
1840–1915), Portrait of Friederike Hauffe (The Seeress of Prevorst), 1895



Lágrimas de Cera

 
 Passou; viu a porta aberta.
Entrou; queria rezar.
A vela ardia no altar.
A igreja estava deserta.

Ajoelhou-se defronte
Para fazer a oração;
Curvou a pálida fronte
E pôs os olhos no chão.

Vinha trémula e sentida.
Cometera um erro. A Cruz
É a âncora da vida,
A esperança, a força, a luz.

Que rezou? Não sei. Benzeu-se
Rapidamente. Ajustou
O véu de rendas. Ergueu-se
E à pia se encaminhou.

Da vela benta que ardera,
Como tranquilo fanal,
Umas lágrimas de cera
Caíam no castiçal.

Ela porém não vertia
Uma lágrima sequer.
Tinha a fé, — a chama a arder, —
Chorar é que não podia. 


Machado de Assis
, in 'Falenas'



Gabriel von Max, The Seeress of Prevorst (Friederike Hauffe, 1801–1829), 1892
National Gallery Prague



Misticismo

O misticismo é uma temática tão vasta que se perde nos tempos, perde-se também nos limites do espaço, pois aparece em todo o lugar da Terra. Dir-se-ia mesmo que onde quer que haja homens há místicos; não que se entenda que todo o homem é místico, mas, sem dúvida, todo o homem experimenta na sua vida um ou outro momento de misticismo, na medida em que seja confrontado com o grande mistério da existência, com o grande enigma da vida e da morte. Todavia, esta conceção tão geral não serve a uma definição de misticismo, vamos por isso restringir o seu sentido apenas àqueles homens que doaram a sua vida à busca do mistério. Neste sentido, mais restrito, encontramos místicos ao longo da história de toda a humanidade.

Antes de mais, o misticismo é uma via de conhecimento, quer dizer, uma via que procura desvelar o mistério do real, pois para o místico o real aparece como um mistério. Esta via, embora englobando em si a racionalidade, ao contrário do que muitas vezes de maneira apressada se tem dito, não se limita a ela e anseia por uma visão intuitiva direta, pois sabe que, em última instância, o mistério é suprarracional. São Tomás de Aquino, na linha do seu mestre, Santo Alberto Magno, definiu a mística como "conhecimento experimental de Deus". O objetivo, primeiro e último, do místico é encontrar Deus - em quem ele deposita a raiz do mistério. O místico entende que é o conhecimento que salva o homem e lhe permite voltar ao estado que tinha antes de ter decaído. Por esta razão o misticismo se associa frequentemente à religião, embora não possamos falar aqui de uma relação exclusiva, pois há místicos fora de uma religião instituída. Apesar de tudo, o misticismo mais elaborado e mais coerente é aquele que toma por base uma religião e no seio da sua doutrina explora, por uma hermenêutica profunda os textos sagrados da sua revelação.

A via que o misticismo assume para si próprio assenta numa constatação prática da teoria, numa vivência da crença. Tal como o místico não aceita a via da razão exclusivamente, também não aceita a via da teoria exclusivamente e, por isso, acentua o lado prático, quer dizer, vivencial, da experiência. Por esta razão, o místico é frequentemente um asceta.

Supõe-se que a pré-história teria uma vivência essencialmente mística, na medida em que, tanto quanto nos é dado saber, para esses povos o sagrado podia-se manifestar em qualquer lugar. A natureza era vista ela própria como uma teofania, determinados lugares "transbordavam" de sagrado, de poder divino. O místico aqui era sobretudo o feiticeiro, a quem cabia, depois de uma longa e terrível iniciação, a mediação entre Deus e os homens. Apesar de esta função mediadora se ver centralizada no feiticeiro, o homem primordial tinha a noção de que a liberdade divina se podia manifestar a qualquer momento e noutros membros da comunidade, sobretudo através do sonho.

Numa época mais recente encontramos um florescimento de místicos, numa espantosa quase simultaneidade do ocidente ao oriente: Lao-Tsé, Buda, Pitágoras, Moisés. Numa outra época mais recente ainda, depois de Cristo, encontramos o gnosticismo, os Padres do deserto e as diferentes heterodoxias, como o priscilianismo, para só dar um exemplo português. Outro ciclo importante é o que se segue ao século XIII e ao século XVII.

O místico interpreta o real como um símbolo de Deus, sob a sua forma dupla, quer dizer, na dupla revelação divina, na natureza ou sob a sua forma escrita, nos livros sagrados. Tanto a natureza como esses livros têm um lado exterior ou aparente e um lado interior ou oculto. Por isso, face a um texto como a Bíblia, um místico, não descurando a interpretação literal, prefere o sentido simbólico.

Há inúmeras formas de mística, mas podem ser metodologicamente dividas em duas grandes classes: aquela que acentua o lado do imanente e aquela que acentua o lado do transcendente da sua experiência. Por exemplo, no cristianismo encontramos S. Francisco ao lado da primeira e Mestre Eckhart ao lado da segunda. Todavia, transcendência e imanência estão ambas presentes em todos os místicos, mas em graus diferentes. Aliás, poder-se-ia dizer que o ponto nuclear do misticismo é precisamente a certeza paradoxal que o místico tem de que entre a transcendência de Deus e a imanência do homem há um ponto de contacto e é este ponto ou ponte que ele procura toda a sua vida.

Tem-se acusado os místicos de se encerrarem numa experiência puramente subjetiva, mas uma leitura atenta destes autores perceberá imediatamente que um dos seus primeiros e principais objetivos é o de vencerem a sua subjetividade, o seu ego, que consideram o seu grande inimigo. Estudiosos como Carl Gustav Jung, na psicologia, e Mircea Eliade, na história dos mitos e das religiões, têm ajudado a compreender que a linguagem dos místicos é universal, e que podemos encontrar as mesmas experiências desde o oriente ao ocidente, nas mais variadas épocas. (daqui)
 

segunda-feira, 24 de julho de 2017

"Parto-me desses olhos graciosos" - Soneto de Bernardo de Brito



Gabriel von Max (Austrian-German painter, and professor of history painting,
1840–1915), Blonde young girl wiyth a veil, n.d.


Parto-me desses olhos graciosos


Bem pode, Sílvia minha, qualquer serra 
tirar a estes meus olhos sua glória, 
qualquer monte terá de mim vitória, 
qualquer pequeno espaço, enfim, de terra. 

Mas contra um pensamento fazem guerra, 
que traz em si pintada vossa história, 
e quanto mais contrastes, mais memória 
conserva um coração que vos encerra. 

Parto-me desses olhos graciosos, 
mas por eles vos juro, que mudança 
se não veja nos meus eternamente, 

Que a mágoa de os ver ficar chorosos 
estímulo será para a lembrança 
de quem se vê de vós viver ausente. 


Bernardo de Brito, in 'Sílvia de Lisardo'