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sábado, 17 de maio de 2025

"Dúvida" - Poema de João de Deus

 

Herbert P. Dollman (British painter and illustrator, 1856-1892),
La boîte à lettre secrète, s.d.
 

Dúvida 


 
Amas-me a mim? Perdoa,
É impossível! Não,
Não há quem se condoa
Da minha solidão.

Como podia eu, triste,
Ah! inspirar-te amor
Um dia que me viste,
Se é que me viste... flor!

Tu, bela, fresca e linda
Como a aurora, ou mais
Do que a aurora ainda,
Mal ouves os meus ais!

Mal ouves, porque as aves
Só saltam de manhã
Seus cânticos suaves;
E tu és sua irmã!

De noite apenas trina
O triste rouxinol:
Toda a mais ave inclina
O colo ao pôr do Sol.

Porquê? Porque é ditosa!
Porquê? Porque é feliz!
E a que sorri a rosa?
Ao mesmo a que sorris...

À luz dourada e pura
Do astro criador:
À noite, não, que é escura,
Causa-lhe a ela horror.

Ora uma nuvem negra,
Uma pesada cruz,
Uma alma que se alegra
Só quando vê a luz

De que ele, o Sol, inunda
O mar, quando se põe,
Imagem moribunda
De um coração que foi...

Uma alma semelhante
Não pode cativar
Um rosto tão galante,
Um tão galante olhar!

E eu vi caracteres
Que a tua mão traçou;
Mas vós... ah! vós, mulheres,
Quem já vos decifrou!

Mal te sustinha o pulso
A delicada mão;
Sentia-te convulso
Bater o coração;

Via-te arfar o seio...
Corar... mudar de cor...
E embora, ah! não, não creio...
Tu não me tens amor! 
 in 'Campo de Flores'
 
 

domingo, 21 de julho de 2024

"Atração" - Poema de João de Deus


Fernand Toussain (Belgian painter and illustrator, 1873–1956), Contemplation.



Atração


Meus olhos sempre inquietos
Que posso até dizer,
Só acham na alma objetos
Que os possam entreter;

Meus olhos... coisa rara!
Porque hão de em ti parar
Como a corrente para
Em encontrando o mar!?

E penso nisto, cismo...
Mas é tão natural
Cair-se no abismo
Duma beleza tal!...

Olhei!... Foi indiscreta
A vista que te pus.
A pobre borboleta
Viu luz... caiu na luz!

Uma atração mais forte
Que toda a reflexão,
(É fado, é sina, é sorte!)
Me arrasta o coração...

in 'Ramo de Flores', 1868
 
"Ramo de Flores" é uma coletânea de poesias líricas, de João de Deus, onde sobressai a temática amorosa ("Sede de amor", "Enlevo", "Adeus", "Saudade"), centrada no motivo da mulher sedutora ("Sempre!", "Atração", "O seu nome"). Do ponto de vista formal, as composições primam pela musicalidade, frequentemente associada ao uso das formas métricas e estróficas tradicionais (vejam-se, a título de exemplo, os efeitos do uso do verso tetrassílabo em "Simpatia" ou "Saudade"). O volume contém apreciações críticas à coletânea Flores do Campo, assinadas por Alexandre da Conceição, Luciano Cordeiro, Guiomar Torrezão e Cândido de Figueiredo. (daqui)
 

terça-feira, 4 de junho de 2024

"Adeus tranças cor de ouro" - Poema de João de Deus



Fernand Toussaint (Belgian painter and illustrator, 1873–1956),
Lady in green dress with mirror.


Adeus tranças cor de ouro



Adeus tranças cor de ouro,
Adeus peito cor de neve!
Adeus cofre onde estar deve
Escondido o meu tesouro!

Adeus bonina, adeus lírio
Do meu exílio de abrolhos!
Adeus, ó luz dos meus olhos
E meu tão doce martírio!

Adeus meu amor-perfeito,
Adeus tesouro escondido,
E de guardado, perdido
No mais íntimo do peito.

Desfeito sonho dourado,
Nuvem desfeita de incenso
Em quem dormindo só penso,
Em quem só penso acordado!

Visão, sim, mas visão linda,
Sonho meu desvanecido!
Meu paraíso perdido
Que de longe adoro ainda!

Nuvem que ao sopro da aragem
Voou nas asas de prata,
Mas no lago que a retrata
Deixou esculpida a imagem!

Rosa de amor desfolhada
Que n'alma deixou o aroma,
Como o deixa na redoma
Fina essência evaporada!

Gota de orvalho que o vento
Levou do cálix das flores,
Curto abril dos meus amores,
Primavera de um momento!

Adeus Sol, que me alumia
Pelas ondas do oceano
Desta vida, deste engano,
Deste sonho de um só dia!

No mesmo arbusto onde o ninho
Teceu a ave inocente,
Se volta a quadra inclemente,
Acha abrigo o passarinho;

Mas eu nesta soledade
Quando em meus sonhos te estreito
Rosto a rosto, peito a peito,
Acordo e acho a saudade!

Adeus pois morte! adeus vida!
Adeus infortúnio e sorte!
Adeus estrela-do-norte!
Adeus bússola perdida!


João de Deus (1830-1896),
 in 'Campo de Flores'
 

segunda-feira, 20 de maio de 2024

"Cantigas" - Poema de João de Deus


Charles Joshua Chaplin (French painter, 1825 - 1891), Rêverie, s.d.
National Museum of Fine Arts
 

Cantigas


Quando vejo a minha amada
Parece que o Sol nasceu;
Cantai, cantai alvorada
Ó avezinhas do céu.

Nessas águas do Mondego
Se pode a gente mirar,
Elas procuram sossego...
E vão a caminho do mar.

A rosa que tu me deste
Peguei-lhe, mudou de cor;
Tornou-se de azul-celeste
Como o céu do nosso amor.

Não me fales da janela,
Que te não ouço da rua;
Fala-me de alguma estrela,
Que te vou ouvir da Lua.

Dizes que a letra não deve
Ser nunca miudinha;
Mas grada ou miúda escreve,
Que o coração adivinha.

Não digas que me não amas
A ver se tenho ciúme;
Os laços do amor são chamas,
E não se brinca com lume.

A virgem dos meus amores
Sobressai entre as mais belas:
É como a rosa entre flores,
É como o Sol entre estrelas.

Eu zombo de sol e chuva,
Noite e dia, terra e mar;
Ais de uma pobre viúva,
Se os ouço, dá-me em chorar.

A sombra da nuvem passa
depressa pela seara;
Mas a nuvem da desgraça
Já de mim se não separa.

Eu bem sei qual é a tinta
Que dás às faces mimosas;
E o carmim com que pinta
Deus nosso Senhor as rosas.

Quando eu era pequenino
Que chorava a bom chorar
A mãe beijava o menino,
No beijo se ia o pesar.

Nunca os beijos que te dei
Me venham ao pensamento...
Correi lágrimas, correi
Para o mar do sofrimento.

Faça Deus maior o mundo,
Terra, mar e céu maior,
Não faz nada tão profundo,
Tão vasto como este amor.

Se tua mãe te vigia,
Faz tua mãe muito bem;
Com joias de tal valia
Não há fiar em ninguém.

Na alma já não me assoma
Aquela antiga visão;
A rosa perdeu o aroma
A luz perdeu o clarão.


João de Deus (1830-1896),
in 'Campo de Flores'


segunda-feira, 27 de março de 2023

"Melancolia" - Poema de João de Deus

 
Marc Chagall (1887-1985), Lune rousse au Cap d'Antibes, 1969, oil, pastel, 
 and watercolor on paper, 61.4 x 49.3 cm, coleção particular.



Melancolia 
 
 
Oh doce luz! oh lua!
Que luz suave a tua,
E como se insinua
Em alma que flutua
De engano em desengano!
Oh criação sublime!
A tua luz reprime
As tentações do crime,
E à dor que nos oprime
Abres-lhe um oceano!

É esse céu um lago,
E tu, reflexo vago
Dum sol, como o que eu trago
No seio, onde o afago,
No seio, onde o aperto?
Oh luz órfã do dia!
Que mística harmonia
Há nessa luz tão fria,
E a sombra que me guia
Neste areal deserto!

Embora as nuvens trajem
De dia outra roupagem,
O sol, de que és imagem,
Não tem essa linguagem
Que encanta, que namora!
Fita-te a gente, estuda,
(Sem medo que se iluda)
Essa linguagem muda...
O teu olhar ajuda...
E a gente sente e chora!

Ah! sempre que descrevas
A órbita que levas,
Confia-me o que escrevas
De quanto vês nas trevas,
Que a luz do sol encobre!
As vítimas, que escutas,
De traças mais astutas
Que as dessas feras brutas...
E as lastimas, as lutas
Da órfã e do pobre! 


João de Deus, in 'Ramo de Flores', 1869
 
Ramo de flores é uma coletânea de poesias líricas, de João de Deus (1830 – 1896), onde sobressai a temática amorosa ("Sede de amor", "Enlevo", "Adeus", "Saudade"), centrada no motivo da mulher sedutora ("Sempre!", "Atração", "O seu nome"). Do ponto de vista formal, as composições primam pela musicalidade, frequentemente associada ao uso das formas métricas e estróficas tradicionais (vejam-se, a título de exemplo, os efeitos do uso do verso tetrassílabo em "Simpatia" ou "Saudade"). O volume contém apreciações críticas à coletânea Flores do Campo, assinadas por Alexandre da Conceição, Luciano Cordeiro, Guiomar Torrezão e Cândido de Figueiredo. (daqui)
 
 
João de Deus in 'O Ocidente', 1878 


João de Deus (1830-1896)

João de Deus de Nogueira Ramos, nascido em São Bartolomeu de Messines no Algarve, ingressou no Seminário de Coimbra, mas a falta de vocação eclesiástica levou-o a cursar Direito. Sem gosto particular pela advocacia tornar-se-ia, por vocação, um ilustre poeta lírico.
João de Deus é autor dos poemas publicados nas coletâneas «Flores do Campo» (1868), «Ramo de Flores» (1869), «Despedidas de Verão» (1880) e «Campo de Flores» (1893).
Viria, porém, a alcançar extraordinária popularidade como pedagogo, pelo seu envolvimento nas campanhas de alfabetização, criando um inovador método de ensino da leitura às crianças, assente na Cartilha Maternal, de sua autoria (1876), aprovado, dois anos depois, como o método nacional de aprendizagem da leitura e da escrita da língua portuguesa.
Foi inumado no Panteão Nacional, em 1966, depois de, no ano da sua morte, os seus restos mortais terem sido depositados na capela do batistério do Mosteiro dos Jerónimos. (daqui)
 

domingo, 27 de dezembro de 2020

"Hino de Amor" - Poema de João de Deus

 
Guido Reni (1575–1642), St. Joseph with Infant Jesus, c. 1620, Hermitage Museum 



Hino de Amor

 
Andava um dia
Em pequenino
Nos arredores
De Nazaré,
Em companhia
De São José,
O bom Jesus,
O Deus Menino.

Eis senão quando
Vê num silvado
Andar piando
Arrepiado
E esvoaçando
Um rouxinol,
Que uma serpente
De olhar de luz
Resplandecente
Como a do Sol,
E penetrante
Como diamante,
Tinha atraído,
Tinha encantado. 

Jesus, doído
Do desgraçado
Do passarinho,
Sai do caminho,
Corre apressado,
Quebra o encanto,
Foge a serpente,
E de repente
O pobrezinho,
Salvo e contente,
Rompe num canto
Tão requebrado,
Ou antes pranto
Tão soluçado,
Tão repassado
De gratidão,
De uma alegria,
Uma expansão,
Uma veemência,
Uma expressão,
Uma cadência,
Que comovia
O coração! 

Jesus caminha
No seu passeio,
E a avezinha
Continuando
No seu gorjeio
Enquanto o via;
De vez em quando
Lá lhe passava
A dianteira
E mal poisava,
Não afrouxava
Nem repetia,
Que redobrava
De melodia!

Assim foi indo
E foi seguindo.
De tal maneira,
Que noite e dia
Numa palmeira,
Que havia perto
Donde morava
Nosso Senhor
Em pequenino
(Era já certo)
Ela lá estava
A pobre ave
Cantando o hino
Terno e suave
Do seu amor
Ao Salvador! 


in 'Antologia Poética'
 
 
Guido Reni, St. Joseph and the Christ Child, c.1640, Museum of Fine Arts, Houston


domingo, 23 de abril de 2017

"O Dinheiro" - Poema de João de Deus


Abbott Fuller Graves (1859 – 1936), Dividing the shares



O Dinheiro


O dinheiro é tão bonito, 
Tão bonito, o maganão! 
Tem tanta graça, o maldito, 
Tem tanto chiste, o ladrão! 
O falar, fala de um modo... 
Todo ele, aquele todo... 
E elas acham-no tão guapo! 
Velhinha ou moça que veja, 
Por mais esquiva que seja, 
Tlim! 
Papo. 

E a cegueira da justiça 
Como ele a tira num ai! 
Sem lhe tocar com a pinça; 
E só dizer-lhe: «Aí vai...» 
Operação melindrosa, 
Que não é lá qualquer coisa; 
Catarata, tome conta! 
Pois não faz mais do que isto, 
Diz-me um juiz que o tem visto: 
Tlim! 
Pronta. 

Nessas espécies de exames 
Que a gente faz em rapaz, 
São milagres aos enxames 
O que aquele demo faz! 
Sem saber nem patavina 
De gramática latina, 
Quer-se um rapaz dali fora? 
Vai ele com tais falinhas, 
Tais gaifonas, tais coisinhas... 
Tlim! 
Ora... 

Aquela fisionomia 
É lábia que o demo tem! 
Mas numa secretaria 
Aí é que é vê-lo bem! 
Quando ele de grande gala, 
Entra o ministro na sala, 
Aproveita a ocasião: 
«Conhece este amigo antigo?» 
— Oh, meu tão antigo amigo! 
(Tlim!) 
Pois não! 


in 'Campo de Flores'


quinta-feira, 17 de novembro de 2016

"Boas noites" - Poema de João de Deus


Camille Pissarro (Danish-French Impressionist and Neo-Impressionist painter, 1830-1903),
 Les laveuses, 1886.
 

Boas noites


Estava uma lavadeira
A lavar numa ribeira
Quando chega um caçador:

- Boas tardes, lavadeira!

- Boas tardes, caçador!

- Sumiu-se-me a perdigueira
Ali naquela ladeira;
Não me fazeis o favor
De me dizer se a brejeira
Passou aqui a ribeira?

- Olhai que, dessa maneira,
Até um dia, senhor,
Perdereis a caçadeira,
Que ainda é perda maior.

- Que me importa, lavadeira!
Aqui na minha algibeira
Trago dobrado valor...
Assim eu fora senhor
De levar a vida inteira
Só a ver o meu amor
Lavar roupa na ribeira!

- Talvez que fosse melhor...
Ver coser a costureira!
Vir de ladeira em ladeira
Apanhar esta canseira,
E tudo só por amor
De ver uma lavadeira
Lavar roupa na ribeira...
É escusado, senhor!

- Boas noites,... lavadeira!

- Boas noites, caçador!...


João de Deus, in 'Campo de Flores'


Camille Pissarro, Woman Bathing Her Feet in a Brook, 1894/95


"O importante é a imensidão da alma, com os seus tempos, as suas montanhas, os seus desertos de silêncio e os seus degelos, as suas flores dependuradas, as suas águas adormecidas: tudo isso é uma garantia invisível e sublime. Nela se baseia a tua felicidade e dela não te podes separar."


domingo, 6 de janeiro de 2013

"A Caridade" - Poema de João de Deus


Pintura de Arthur Hughes


A Caridade 


Eu podia falar todas as línguas 
Dos homens e dos anjos; 
Logo que não tivesse caridade, 
Já não passava de um metal que tine, 
De um sino vão que soa. 

Podia ter o dom da profecia, 
Saber o mais possível, 
Ter fé capaz de transportar montanhas; 
Logo que eu não tivesse caridade, 
Já não valia nada! 

Eu podia gastar toda afortuna 
A bem dos miseráveis, 
Deixar que me arrojassem vivo às chamas; 
Logo que eu não tivesse caridade, 
De nada me servia! 

A caridade é dócil, é benévola, 
Nunca foi invejosa, 
Nunca procede temerariamente, 
Nunca se ensoberbece! 

Não é ambiciosa; não trabalha 
Em seu proveito próprio; não se irrita; 
Nunca suspeita mal! 

Nunca folgou de ver uma injustiça; 
Folga com a verdade! 

Tolera tudo! Tudo crê e espera! 
Em suma tudo sofre! 


João de Deus, in 'Campo de Flores'


João de Deus in 'O Ocidente', 1878 
 
 
 
João de Deus 


Poeta e pedagogo, João de Deus de Nogueira Ramos nasceu a 8 de março de 1830, no Algarve, e morreu a 11 de janeiro de 1896, em Lisboa.
Depois de ter frequentado, durante dez anos, o curso de Direito em Coimbra (onde foi uma das figuras mais destacadas da boémia estudantil da época e se relacionou com alguns elementos da Geração de 70, sobretudo Antero de Quental e Teófilo Braga), de ter dirigido em Beja, entre 1862 e 1864, o jornal O Bejense (onde publicou muitas das suas primeiras poesias), e de ter iniciado a prática de jurisconsulto, foi eleito deputado, em 1868, por Sines. Mudou-se para Lisboa, onde continuou a frequentar ambientes de boémia literária. Colaborou em vários jornais e revistas, como O Académico, Anátema, O Ateneu, Ciências, Artes e Letras, O Fósforo, Gazeta de Portugal, A Grinalda, Herculano, Prelúdios Literários e Revista de Coimbra. Por volta de 1868-1869, coligiu as suas poesias no volume Flores do Campo, a que se seguiram Ramo de Flores (1869), Folhas Soltas (1876), Despedidas do verão (1880) e Campo de Flores (1893). No seguimento da sua nomeação para o cargo de comissário-geral do ensino da leitura, viria a desempenhar um papel social e cultural da maior distinção, revelando-se decisivos os seus esforços para a alfabetização de camadas cada vez mais alargadas da população portuguesa. A publicação, em 1876, da célebre Cartilha Maternal, método de ensino da leitura verdadeiramente revolucionário no panorama pedagógico nacional, constituiu um marco importante desse processo. Devido, em parte, à sua ação de pedagogo, em 1895 foi agraciado com várias homenagens à escala nacional, entre as quais a de sócio-honorário da Academia Real das Ciências e do Instituto de Coimbra.
Como poeta, João de Deus situou-se num momento em que a via ultrarromântica estava já a esgotar-se, mas, apesar do apreço que lhe manifestavam autores como Antero de Quental, não se identificou com as preocupações filosóficas e sociais da Geração de 70. De facto, a temática dominante da sua obra poética afastou-o da nova corrente. O seu lirismo intimista versa constantemente sobre o amor, e por vezes perpassa um sentido de plácida religiosidade, exprimindo-se sempre num estilo simples. A sua obra abrange vários géneros, da ode à elegia, do epigrama à fábula, passando pelo soneto. João de Deus, que Antero considerava, já em 1860, "o poeta mais original do seu tempo", defendeu e praticou um lirismo depurado, inspirado, a exemplo de Garrett, na lírica tradicional portuguesa e na obra camoniana, de onde recuperaria o soneto como um dos seus géneros de eleição.

João de Deus. In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2013. [Consult. 2013-01-06].
 


Galeria de Arthur Hughes

Arthur Hughes, c. 1859

Arthur Hughes (27 de janeiro de 1832 - 22 de Dezembro de 1915), foi um pintor e ilustrador Inglês associado com a Irmandade pré-rafaelita. Ele é o tio do pintor Inglês Edward Robert Hughes
 

Arthur Hughes, Self-portrait, 1851


Arthur Hughes


Arthur Hughes


Arthur Hughes


Arthur Hughes


Arthur Hughes


Arthur Hughes


 Arthur Hughes


 Arthur Hughes


 Arthur Hughes


  Arthur Hughes


  Arthur Hughes

domingo, 1 de abril de 2012

"A Vida" - Poema de João de Deus


August Macke, Our Street in Gray, 1911


A Vida 


A vida é o dia de hoje, 
a vida é ai que mal soa, 
a vida é sombra que foge, 
a vida é nuvem que voa; 
a vida é sonho tão leve 
que se desfaz como a neve 
e como o fumo se esvai: 
A vida dura um momento, 
mais leve que o pensamento, 
a vida leva-a o vento, 
a vida é folha que cai! 

A vida é flor na corrente, 
a vida é sopro suave, 
a vida é estrela cadente, 
voa mais leve que a ave: 
Nuvem que o vento nos ares, 
onda que o vento nos mares 
uma após outra lançou, 
a vida – pena caída 
da asa de ave ferida - 
de vale em vale impelida, 
a vida o vento a levou! 




August Macke, Autorretrato


August Macke (Meschede, 3 de janeiro de 1887 — Perthes-lès-Hurlus, Champanhe, 26 de setembro de 1914) foi um pintor expressionista alemão.
Em Paris, onde esteve pela primeira vez em 1907, Macke pode conhecer a obra dos impressionistas e logo depois mudou-se para Berlim, onde passou alguns meses no estúdio de Lovis Corinth. Seu estilo formou-se à maneira do impressionismo francês e do pós-impressionismo. Posteriormente atravessou um período fauve.
Em 1909 casou-se com Elizabeth Gerhardt.
Em 1910, graças à amizade com Franz Marc, Macke encontrou Kandinsky e, por um curto período, compartilhou da estética não-objetual e dos interesses místicos e simbólicos do grupo Der Blaue Reiter.


August Macke, Autorretrato


O encontro com Robert Delaunay em Paris, no ano de 1912, representou para Macke uma espécie de revelação. O cubismo cromático de Delaunay, que Apollinaire havia definido como orfismo, influenciará a produção do artista dali em diante. Suas “Vitrines” podem ser consideradas como interpretações pessoais das "Janelas" de Delaunay, combinadas com a simultaneidade de imagens que se encontra no Futurismo italiano.
A atmosfera exótica da Tunísia, onde Macke esteve em 1914 com Paul Klee e Louis Moilliet, foi fundamental para a criação da abordagem luminista do seu período final durante o qual produziu uma série de trabalhos atualmente considerados como obras-primas.
A carreira de Macke foi bruscamente interrompida por sua morte prematura, em combate, na Primeira Guerra Mundial. Foi sepultado no Alter Friedhof Bonn.


August Macke 


"A imaginação é a visão da alma."



August Macke 


"Quem tem imaginação, mas não tem cultura, possui asas, mas não tem pés."

August Macke 


"O medo depende da imaginação, a cobardia do carácter."

August Macke 


"Bondade é amar as pessoas mais do que elas merecem."



August Macke 


"A superstição é a única religião de que as almas baixas são capazes."



August Macke 


"São os livros que nos causam os maiores prazeres e os homens 
quem nos causa as maiores dores."


sábado, 24 de março de 2012

"Dia de anos" - Poema de João de Deus




Dia de anos 


Com que então caiu na asneira
De fazer na quinta-feira
Vinte e seis anos! Que tolo!
Ainda se os desfizesse…
Mas fazê-los não parece
De quem tem muito miolo!

Não sei quem foi que me disse
Que fez a mesma tolice
Aqui o ano passado…
Agora o que vem, aposto,
Como lhe tomou o gosto,
Que faz o mesmo? Coitado!

Não faça tal; porque os anos
Que nos trazem? Desenganos
Que fazem a gente velho:
Faça outra coisa; que em suma
Não fazer coisa nenhuma,
Também lhe não aconselho.

Mas anos, não caia nessa!
Olhe que a gente começa
Às vezes por brincadeira,
Mas depois se se habitua,
Já não tem vontade sua,
E fá-los, queira ou não queira!


João de Deus


João de Deus de Nogueira Ramos (São Bartolomeu de Messines, 8 de Março de 1830 — Lisboa, 11 de Janeiro de 1896), mais conhecido por João de Deus, foi um eminente poeta lírico, considerado à época o primeiro do seu tempo, e o proponente de um método de ensino da leitura, assente numa Cartilha Maternal por ele escrita, que teve grande aceitação popular, sendo ainda utilizado. Gozou de extraordinária popularidade, foi quase um culto, sendo ainda em vida objeto das mais variadas homenagens e, aquando da sua morte, sepultado no Panteão Nacional. Foi considerado o poeta do amor.


Obras de Antonio Guzmán Capel







Retrato a óleo - Parte 1 - Antonio  Capel

Retrato a óleo - Parte 2 - Antonio  Capel