Mostrar mensagens com a etiqueta Seymour Joseph Guy. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Seymour Joseph Guy. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 3 de julho de 2020

"Dá-me tua mão" - Poema de Adalgisa Nery


Seymour Joseph Guy (American, 1824–1910), “Summer Issue”, 1877 



Repouso


Dá-me tua mão
E eu te levarei aos campos musicados pela canção das colheitas
Cheguemos antes que os pássaros nos disputem os frutos,
Antes que os insetos se alimentem das folhas entreabertas.
Dá-me tua mão
E eu te levarei a gozar a alegria do solo agradecido,
Te darei por leito a terra amiga
E repousarei tua cabeça envelhecida
Na relva silenciosa dos campos.
Nada te perguntarei,
Apenas ouvirás o cantar das águas adolescentes
E as palavras do meu olhar sobre tua face muito amada.


Adalgisa Nery
(1905-1980)
In As Fronteiras da Quarta Dimensão, 1951

quarta-feira, 24 de junho de 2020

"Missão de coelho" - Poema de Sônia Ferreira


Seymour Joseph Guy (American, 1824 - 1910), Unconscious of Danger, 1865



Missão de coelho


A criança de cabelos de cachos
jogou um sorriso no mundo
e foi fabricar seus brinquedos
Riu das chaminés variadas
e de todos os barulhos metálicos
Galopou sobre os telhados
Deu um mergulho profundo
na liberdade das praças
Virou risco e voou
entre as folhas dos galhos
Fez fila com as formigas
e carregou toras e copas
Participou de um enxame
trabalhando cera e mel
Deu pulos deu cambalhotas
ficou de olhos vermelhos
em sua missão de coelho
Contou história de urso
e continuou carregando cachos
em seus próprios cabelos


Sônia Ferreira



Seymour Joseph Guy, Daydreaming


Ladainha


Asas de borboletas
— dêem-me a leveza do voo
Sereno das manhãs
— dêem-me a força do sol
Brisa dos campos
— ensina-me a conviver com as tardes
Laranjais brancos de flor
— quero colorir os quintais
Pipoqueiro de chapéu de palha
— plante vida nos olhos
Sinos da capelinha
— permitam-me anunciar o amor
Cigarra da primavera
— quero morrer de cantar
Mãos do lavrador
— façam-me semente no chão! 


Sônia Ferreira,
  JANELAS DE CAMPO FORMOSO. Brasília: Thesaurus, 1991. 


Seymour Joseph Guy, Wading 


Anjo

Não sei se você
é periquito, sabiá,
bem-te-vi.
Não sei se você
é pai, padre,
pastor.
Sei que você
tem cajado,
tem relva,
tem prado.
Não sei se você
é contemplativo,
inquieto,
operário, administrador.
Só sei que você
tem asas de anjo,
soprando versos,
sobre a incerteza
do mundo. 

 
Sônia Ferreira

Sônia Ferreira é poetisa, cronista, ensaísta e animadora cultural. Filha do folclorista e animador cultural Joaquim Luiz Ferreira, e da artesã Leolina Gonzaga Ferreira, nasceu na Fazenda Samambaia, Orizona/GO. É diplomada em Línguas Neolatinas e em Orientação Educacional, com Mestrado em Educação. É especialista em Dinâmica de Grupos Comunitários e em Psicometria. É Professora Universitária, Jornalista, Consultora em Educação e Cultura e Pesquisadora.

Obra poética: Janelas de Campo Formoso,1991; Bucólica, 1991; Licores de Outros Quintais, 2001; Compotas de Poesias e Caldas, 2005; Chuva de Poesias, Cores e Notas no Brasil Central, 2005/2006 (1.a e 2.a edições ); Labaredas do Fogão - poemas e panelas (inédito); Dinâmica do Potencial Criador nas Escolas (inédito); Ação Pedagógica para Áreas Rurais (Tese de Mestrado). (Daqui)

domingo, 29 de dezembro de 2019

"A uma menina" - Poema de Machado de Assis


Seymour Joseph Guy (American, 1824 - 1910), The new story, 1892



A uma menina
La esencia de las flores
Tu dulce aliento sea.

QUINTANA 
Desabrochas ainda; tu és bela
Como a flor do jardim;
És doce, és inocente, como é doce
Divino Querubim.

Nas gotas da pureza inda se anima
A tu'alma infantil;
Não te nutre inda o peito da malícia
Mortífero reptil.

Quando sorris trasbordam de teus lábios
As gotas d’inocência;
No teu sorriso se traduz o encanto
Da tua pura essência.

És anjo, e são os anjos que confortam
Os tormentos da vida;
Vive, e não haja em teu semblante a prova
De lágrima vertida! 

Rio, 19 de setembro de 1855.

Machado de Assis

[Marmota Fluminense, 21 out. 1855. p. 4]


terça-feira, 2 de julho de 2019

"Mãe, agora que guardaste na arca" - Poema de Maria do Rosário Pedreira


Seymour Joseph Guy, The Contest for the Bouquet, 1866
(also known as The Family of Robert Gordon in Their New York Dining-Room) 




Mãe, agora que guardaste na arca


Mãe, agora que guardaste na arca
as blusas pretas e os teus olhos
voltaram a ser azuis; que os meus
irmãos dormem no seu quarto um
sono de poderem ser felizes, que

já conseguimos dizer uma à outra
o nome dele no meio de um sorriso
porque a morte, afinal, é uma coisa
tão longe – deixa-me perguntar-te

porque não há retratos do meu pai
comigo ao colo, como os dos meus
irmãos que ele trazia sempre junto
ao peito e tu depois dividiste pela
casa para ele poder saber que ainda

te lembravas; ou então debruçado
no meu berço – que tu escondeste
no sótão ainda eu era pequena e te
sentavas a embalar vazio quando ele
não entendia porque estavas tão
triste. Mãe, eram tão azuis os olhos

do meu pai no dia em que levou os
meus irmãos à escola e tinham tanto
medo do que pudesse acontecer-lhes;
são tão azuis também os olhos deles
debaixo do seu sono, e os meus tão

negros de dúvidas – porque foste
sempre tu que me levaste sozinha
para as coisas difíceis da minha vida,
que o meu pai nem nunca quis saber
que coisas eram. Mãe, estão hoje tão

azuis os teus olhos com essas roupas
claras, e eu ainda tenho o nome do
meu pai entre as minhas lágrimas, mas
agora, que os meus irmãos descansam

no seu quarto, que já todos podemos
dizer o nome dele sem nos cortar os
lábios, diz-me a verdade: esse homem
que chorámos era mesmo meu pai?


Maria do Rosário Pedreira


quinta-feira, 23 de maio de 2019

"Devia morrer-se de outra maneira" - Poema de José Gomes Ferreira


Seymour Joseph Guy, Brooklyn in Winter



Devia morrer-se de outra maneira


Devia morrer-se de outra maneira.
Transformarmo-nos em fumo, por exemplo.
Ou em nuvens.

Quando nos sentíssemos cansados,
fartos do mesmo sol, a fingir de novo todas as manhãs,
convocaríamos os amigos mais íntimos com um cartão de convite
para o ritual do Grande Desfazer:
“Fulano de tal comunica a V. Exa. que vai transformar-se
em nuvem hoje às 9 horas. Traje de passeio”.

E então, solenemente, com passos de reter tempo,
fatos escuros, olhos de lua de cerimónia,
viríamos todos assistir à despedida.
Apertos de mãos quentes.
Ternura de calafrio.

“Adeus! Adeus!”

E, pouco a pouco, devagarinho, sem sofrimento,
numa lassidão de arrancar raízes…
primeiro, os olhos… em seguida, os lábios…
depois os cabelos… a carne, em vez de apodrecer,
começaria a transfigurar-se em fumo…
tão leve… tão subtil… tão pólen…
como aquela nuvem além (veem?)

Nesta tarde de Outono 
ainda tocada por um vento de lábios azuis…

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

"Verbo Ser" - Poema de Carlos Drummond de Andrade


Seymour Joseph Guy (1824–1910), The bedtime story, 1878 


Verbo Ser


 
Que vai ser quando crescer?
Vivem perguntando em redor. Que é ser?
É ter um corpo, um jeito, um nome?
Tenho os três. E sou?
Tenho de mudar quando crescer? Usar outro nome, corpo e jeito?
Ou a gente só principia a ser quando cresce?
É terrível, ser? Dói? É bom? É triste?
Ser; pronunciado tão depressa, e cabe tantas coisas?
Repito: ser, ser, ser. Er. R.
Que vou ser quando crescer?
Sou obrigado a? Posso escolher?
Não dá para entender. Não vou ser.
Vou crescer assim mesmo.
Sem ser. Esquecer.
 



Alicia Keys - Doesn't Mean Anything


“Considero feliz aquele que quando se fala de êxito busca a resposta em seu trabalho.”

(Ralph W. Emerson)


Ralph Waldo Emerson (25 de maio de 1803, Boston - 27 de abril de 1882, Concord, Massachusetts) foi um famoso escritor, filósofo e poeta estado-unidense. Emerson fez seus estudos em Harvard para se tornar, como seu pai, ministro religioso. Foi pastor em Boston mas interrompeu essa atividade por divergências doutrinárias sobre a eucaristia. Em 1833 viaja pela Europa e encontra Mill, Coleridge, Wordsworth e Carlyle, cultivando uma profunda amizade com este último. De volta aos Estados Unidos, começou a desenvolver sua filosofia "transcendentalista", exposta em obras como Natureza, Ensaios e Sociedade e solidão. O transcendentalismo é, para Emerson, um esforço de introspecção metódica para se chegar além do "eu" superficial ao "eu" profundo, o espírito universal comum a toda a espécie humana. O clube transcendentalista de Concord, ao qual pertenciam entre outros Thoreau e Margareth Füller, e cujo órgão oficial era a revista The Dial, exercia grande influência sobre a vida intelectual americana do século XIX.