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quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

"Para a minha filha" - Poema de Joseph Brodsky


Luigi Amato (Italian painter, 1889-1961), Soap bubbles



Para a minha filha


Dai-me outra vida e estarei no Caffè Rafaella
a cantar. Ou estarei sentado a uma mesa,
simplesmente. Ou de pé, como um móvel no corredor,
caso essa vida seja menos generosa que a anterior.

Contudo, em parte porque nenhum século daqui em diante
conseguirá passar sem jazz nem cafeína, aguentarei esse desplante,
e pelas minhas rachas e poros, verniz e todo de pó coberto,
observarei, daqui a vinte anos, como a tua flor se terá aberto.

De um modo geral, lembra-te de que estou por ali. Ou melhor, que
um objeto inanimado pode ser o teu pai, sobretudo se
os objetos forem mais velhos do que tu, ou maiores. Não
os percas de vista, pois, sem dúvida, te julgarão.

Seja como for, ama essas coisas, haja ou não encontro.
Além disso, pode ser que ainda te lembres duma silhueta, dum contorno,
ao passo que eu até isso perderei, juntamente com a restante bagagem.
Daí estes versos, algo toscos, na nossa comum linguagem.


(Nobel de Literatura de 1987)


sábado, 6 de janeiro de 2018

"Amor" - Poema de Joseph Brodsky



Madeleine Lemaire (Peintre, illustratrice et salonnière française, 1845-1928),
Rêverie du soir.
 

Amor


Duas vezes despertei, durante a noite, e fui
para a janela. As lâmpadas, na rua,
eram um pedaço de uma frase dita em sonhos,
levando a parte alguma, como reticências,
sem trazer consolo ou alegria.

Sonhei contigo, quando grávida, e hoje;
tenho vivido tantos anos longe de ti,
senti toda a minha culpa; e suas mãos,
ao tocaram alegremente o teu ventre,
estavam na verdade remexendo

no interruptor da luz. Indo até a janela,
percebi ter-te deixado lá sozinha,
no escuro, no sonho, onde pacientemente
me esperaste, sem me culpar,
até que voltei daquela insólita

interrupção. Pois o escuro, este que a luz
finalmente rompe, dura muito;
nele nos casamos, foi nele que fizemos
amor; e as crianças vieram para
justificar nossa nudez.

Em alguma noite do futuro virás
de novo para mim, cansada, mais magra,
e verei um filho ou filha,
ainda sem nome – desta vez
não correrei para a tomada, nem

tirarei a mãos, pois não tenho o direito
de te abandonar nos domínios das sombras
silenciosas, diante da cerca dos dias,
caindo na dependência de uma realidade
que me contém – e inatingível.


Tradução de Lauro Machado Coelho