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sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

"O Relógio" - Poema de João Cabral de Melo Neto


Francis Cadell, The Harbour, Cassis, 1924



O Relógio

1

Ao redor da vida do homem 
há certas caixas de vidro, 
dentro das quais, como em jaula, 
se ouve palpitar um bicho. 

Se são jaulas não é certo; 
mais perto estão das gaiolas 
ao menos, pelo tamanho 
e quebradiço de forma. 

Uma vezes, tais gaiolas 
vão penduradas nos muros; 
outras vezes, mais privadas, 
vão num bolso, num dos pulsos. 

Mas onde esteja: a gaiola 
será de pássaro ou pássara: 
é alada a palpitação, 
a saltação que ela guarda; 

e de pássaro cantor, 
não pássaro de plumagem: 
pois delas se emite um canto 
de uma tal continuidade 

que continua cantando 
se deixa de ouvi-lo a gente: 
como a gente às vezes canta 
para sentir-se existente.

2

 O que eles cantam, se pássaros, 
é diferente de todos: 
cantam numa linha baixa, 
com voz de pássaro rouco; 

desconhecem as variantes 
e o estilo numeroso 
dos pássaros que sabemos, 
estejam presos ou soltos; 

têm sempre o mesmo compasso 
horizontal e monótono, 
e nunca, em nenhum momento, 
variam de repertório: 

dir-se-ia que não importa 
a nenhum ser escutado. 
Assim, que não são artistas 
nem artesãos, mas operários 

para quem tudo o que cantam 
é simplesmente trabalho, 
trabalho rotina, em série, 
impessoal, não assinado, 

de operário que executa 
seu martelo regular 
proibido (ou sem querer) 
do mínimo variar.

3

A mão daquele martelo 
nunca muda de compasso. 
Mas tão igual sem fadiga, 
mal deve ser de operário; 

ela é por demais precisa 
para não ser mão de máquina, 
a máquina independente 
de operação operária. 

De máquina, mas movida 
por uma força qualquer 
que a move passando nela, 
regular, sem decrescer: 

quem sabe se algum monjolo 
ou antiga roda de água 
que vai rodando, passiva, 
graças a um fluido que a passa; 

que fluido é ninguém vê: 
da água não mostra os senões: 
além de igual, é contínuo, 
sem marés, sem estações. 

E porque tampouco cabe, 
por isso, pensar que é o vento, 
há de ser um outro fluido 
que a move: quem sabe, o tempo.

4

 Quando por algum motivo 
a roda de água se rompe, 
outra máquina se escuta: 
agora, de dentro do homem; 

outra máquina de dentro, 
imediata, a reveza, 
soando nas veias, no fundo 
de poça no corpo, imersa. 

Então se sente que o som 
da máquina, ora interior, 
nada possui de passivo, 
de roda de água: é motor; 

se descobre nele o afogo 
de quem, ao fazer, se esforça, 
e que ele, dentro, afinal, 
revela vontade própria, 

incapaz, agora, dentro, 
de ainda disfarçar que nasce 
daquela bomba motor 
(coração, noutra linguagem) 

que, sem nenhum coração, 
vive a esgotar, gota a gota, 
o que o homem, de reserva, 
possa ter na íntima poça.




Samuel Peploe, Cassis, 1913


"Viver sem filosofar é o que se chama ter os olhos fechados sem nunca os haver tentado abrir."


quarta-feira, 15 de maio de 2013

"As Coisas Secretas da Alma" - Texto de Mário de Sá-Carneiro


George Segal (american, 1924-2000) is known for his sculptures 
of people placed in different scenes.


As Coisas Secretas da Alma


«Em todas as almas há coisas secretas cujo segredo é guardado até à morte delas. E são guardadas, mesmo nos momentos mais sinceros, quando nos abismos nos expomos, todos doloridos, num lance de angústia, em face dos amigos mais queridos - porque as palavras que as poderiam traduzir seriam ridículas, mesquinhas, incompreensíveis ao mais perspicaz. Estas coisas são materialmente impossíveis de serem ditas. A própria Natureza as encerrou - não permitindo que a garganta humana pudesse arranjar sons para as exprimir - apenas sons para as caricaturar. E como essas ideias-entranha são as coisas que mais estimamos, falta-nos sempre a coragem de as caricaturar. Daqui os «isolados» que todos nós, os homens, somos. Duas almas que se compreendam inteiramente, que se conheçam, que saibam mutuamente tudo quanto nelas vive - não existem. Nem poderiam existir. No dia em que se compreendessem totalmente - ó ideal dos amorosos! - eu tenho a certeza que se fundiriam numa só. E os corpos morreriam.» 


Mário de Sá-Carneiro, in 'Cartas a Fernando Pessoa' 


As Esculturas de George Segal

Sculpture by George Segal


"A alma, ao contrário do que tu supões, a alma é exterior: envolve e impregna o corpo como um fluido envolve a matéria. Em certos homens a alma chega a ser visível, a atmosfera que os rodeia tomar cor. Há seres cuja alma é uma contínua exalação: arrastam-na como um cometa ao oiro esparralhado da cauda - imensa, dorida, frenética. Há-os cuja alma é de uma sensibilidade extrema: sentem em si todo o universo. Daí também simpatias e antipatias súbitas quando duas almas se tocam, mesmo antes da matéria comunicar. O amor não é senão a impregnação desses fluidos, formando uma só alma, como o ódio é a repulsão dessa névoa sensível. Assim é que o homem faz parte da estrela e a estrela de Deus."

Raul Brandão, Húmus 


Sculpture by George Segal


"A única maneira de teres sensações novas é construíres-te uma alma nova." 

Fernando Pessoa


George Segal, Woman on a Park Bench, 1998


"Eleva a tal ponto a tua alma, que as ofensas não a possam alcançar."

René Descartes



Sculpture by George Segal
 

"Há um cansaço da inteligência abstrata, e é o mais horroroso dos cansaços. Não pesa como o cansaço do corpo, nem inquieta como o cansaço do conhecimento e da emoção. É um peso da consciência do mundo, um não poder respirar da alma."

Fernando Pessoa


Sculpture by George Segal


"Conhece alguém as fronteiras à sua alma, para que possa dizer - eu sou eu?"

Fernando Pessoa


Gay Liberation Sculpture by George Segal


"O homem é uma prisão em que a alma permanece livre."

Victor Hugo




"De que serve ao homem conquistar o mundo inteiro se perder a alma?"

Blaise Pascal


The Fireside Chat a sculpture by George Segal at the Franklin Delano Roosevelt Memorial
in Washington D.C. FDR used radio talks to speak directly to the American public.


George Segal (26 de novembro de 1924 - 9 de junho de 2000) foi um pintor e escultor americano associado ao movimento Art Pop. Ele foi presenteado com a Medalha Nacional de Artes em 1999.