Mostrar mensagens com a etiqueta Karl Harald Alfred Broge. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Karl Harald Alfred Broge. Mostrar todas as mensagens

domingo, 29 de março de 2026

"Os Espelhos" - Poema de Sophia de Mello Breyner Andresen


 
Karl Harald Alfred Broge (Danish painter, 1870–1955), Reflections, 1915.



Os Espelhos 
 

Os espelhos acendem o seu brilho todo o dia
Nunca são baços
E mesmo sob a pálpebra da treva
Sua lisa pupila cintila e fita
Como a pupila do gato
Eles nos refletem. Nunca nos decoram

Porém é só na penumbra da hora tardia
Quando a imobilidade se instaura no centro do silêncio
Que à tona dos espelhos aflora
A luz que os habita e nos apaga:
Luz arrancada
Ao interior de um fogo frio e vítreo.


Sophia de Mello Breyner Andresen, 
 in Geografia, 1967.
 

sábado, 28 de junho de 2025

"Depois de tudo, fica a lembrança dos lugares" - Poema de Maria do Rosário Pedreira

 


Karl Harald Alfred Broge (Danish painter, 1870–1955),
 Woman in the Light of a Candle, s.d.
 

 Depois de tudo, fica a lembrança dos lugares


Depois de tudo, fica a lembrança dos lugares e
dos seus nomes; dos quartos virados a poente
onde as imagens do rio nunca se repetem nas janelas
e todos os enredos são consentidos sobre as camas.

Ao fundo, havia um armário de madeira com espelho
onde as nossas roupas trocavam de perfume
para que os dias se vestissem sempre melhor.
E, sobre a cómoda, num espelho mais antigo,
a tarde refletia algumas das alegrias da infância.

Não era o quarto de nenhum de nós,
mas a ele regressávamos sempre com a pressa
de quem anseia os cheiros quentes e antigos
da casa conhecida; como quem espera ser aguardado.

Pressenti, porém, que não era eu quem aguardavas:
uma noite, pedi-te mais um cobertor em vez de um abraço.


Maria do Rosário Pedreira, in A Casa e o Cheiro dos Livros,
2ª. Ed. Lisboa: Gótica, 2007
 

 
Karl Harald Alfred Broge (Danish painter, 1870–1955),
Interior with Sunlight from an Open Window, 1907.



"Uma casa morre, se não é habitada com amor." 


Mia Couto
, em O Outro Pé da Sereia
(1ª ed. da Caminho em 2006)
 

sexta-feira, 20 de dezembro de 2024

"O direito de ler em voz alta" - Texto de Daniel Pennac


Karl Harald Alfred Broge (Danish painter, 1870–1955),
A young girl seated reading before the window, 1914.
 


O direito de ler em voz alta

 
Eu pergunto-lhe:
- Quando eras pequena liam-te histórias em voz alta?
Ela responde:
- Nunca. O meu pai andava sempre a viajar e a minha mãe estava sempre muito ocupada.
Eu pergunto:
- Então de onde vem esse teu gosto pela leitura em voz alta?
Ela responde:
- Da escola.
Feliz por ouvir alguém reconhecer algum mérito à escola, exclamo, satisfeito:
- Ah! Estás a ver?
Ela diz-me:
- De modo nenhum. Na escola proibiam-nos que lêssemos em voz alta. O credo da época era a leitura silenciosa. Diretamente da vista ao cérebro. (...) Mas, mal chegava a casa, relia tudo em voz alta.
- Para quê?
- Para me maravilhar. As palavras pronunciadas começavam a ter existência fora de mim, tinham autêntica vida. Além disso, para mim era um ato de amor.
Era o próprio amor. (...) Deitava as minhas bonecas na minha cama, no meu lugar e lia para elas. Cheguei a adormecer no tapete.

Daniel Pennac, "Como um Romance" ("Comme un roman"), 1992
 
 
Daniel Pennac, "Como um Romance"
Tradução de Francisco Paiva Boléo
Edições ASA

 
Sinopse 

É sobejamente conhecido o desgosto com que os pais preocupados com a formação dos filhos costumam registar a inapetência destes para a leitura. Daniel Pennac, romancista, professor e pai de família, descreve neste ensaio cheio de humor, todas as perplexidades que usualmente assaltam os diversos intervenientes neste processo de conflitos surdos, temores, bloqueios e teimosias. 
Acima de tudo, conforme se sublinha no presente livro, a leitura tem de ser um prazer e os leitores de hoje devem usufruir de alguns direitos inalienáveis. 
A profunda originalidade de Como Um Romance está na forma ao mesmo tempo muito divertida e muito séria com que o autor aborda a questão central de que dependem tanto o destino do livro como o destino da cultura e da educação.
 
Como Um Romance liderou durante vários meses a lista dos livros mais vendidos em França e o seu impacto originou que se falasse mesmo do "fenómeno Pennac". 
 

Karl Harald Alfred Broge (Danish painter, 1870–1955),
Interior with a girl reading, oil on canvas, 41 x 31 cm.
 

«(…) o melhor que nós lemos, devemo-lo frequentemente a um ser que nos é querido. E é a um ser que nos é querido, que primeiro falaremos. E talvez, muito provavelmente, porque o que é intrínseco tanto ao sentimento como ao desejo de ler, consiste em preferir. Amar é doarmos as nossas preferências àqueles que preferimos. E estas partilhas povoam a invisível cidadela da nossa liberdade. Somos habitados por livros amigos.
Quando um ser querido nos dá um livro a ler, é ele que primeiro procuramos nas linhas, os seus gostos, as razões que o levaram a colocar o livro nas nossas mãos, os sinais de fraternidade. Depois, o texto transporta-nos, e esquecemos quem nos levou a mergulhar nele; é nisto exatamente que reside o poder de uma obra, afastar também essa contingência!
No entanto, os anos passam, e acontece que a evocação do texto recorda-nos a lembrança do outro; alguns títulos transformam-se então em rostos.» 
 
Daniel Pennac, "Como um Romance"