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quarta-feira, 9 de novembro de 2022

"Por causa das roupas" - Poema de Laura Riding



João Marques de Oliveira (Porto, 1853-1927), Interior - Costureiras trabalhando, 1884, 
 
[Descrição: No interior de uma sala com janela aberta para a paisagem, estão representadas três mulheres jovens, sentadas, envolvidas na atividade da costura. No 1º plano, um tapete de motivos geométricos, de cor ocre vermelho e azul, cobre parte do soalho. À esquerda, uma mesa coberta com toalha dum branco luminoso, sobre a qual está pousada uma garrafa de vidro onde se reflete a luz; na parede ocre por trás da mesa, várias pinturas suspensas. Ainda do lado esquerdo, uma das figuras femininas sentada de costas para o observador trabalha com a máquina de costura que tem diante de si. As outras mulheres estão representadas, uma à direita, de perfil e voltada para a esquerda e outra, ao centro, voltada para o observador e a três quartos para o lado direito. A meio da parede de fundo, uma porta aberta para a paisagem onde se prolonga o espaço do quadro. A luz que entra pela porta é um elemento estruturante da composição.] (daqui)
 

Por causa das roupas

 
Sem costureiros para conectar
A boa vontade do corpo
Ao propósito da mente,
Devíamos ser dois mundos
Em vez de um mundo e sua sombra,
A carne.

A cabeça é um mundo
E o corpo um outro -
O mesmo, mas algo mais lento
E mais deslumbrado e anterior,
A divergência sendo corrigida
No vestido.

Há um cheiro de Cristo
No tecido: abaixo do queixo
Não se quer mal algum.
Igual, imune
À prova capital, o saber floresce
Do seio protegido da luz, e as coxas
São humildes.

A união da matéria com a mente
Pelo método da indumentária
Não destrói nossa nudez
Nem abafa a sineta do pensamento.
O momento apenas une-se à sua hora
Muda.

No íntimo existe o brilho do conhecimento
E por fora existe o sombrio da aparência.
Mas ao vestir o manto e a touca
Só com mãos e face aparecendo,
Internalizamos o sombrio e brilhamos
Suavemente.

Por causa disso, pela graça neutra
Da agulha, nos apossamos de nossos triunfos
E de nossas derrotas
Numa conjugação equilibrada e única:
Hesitamos entre senso e insensatez,
E vivemos. 


Laura Riding
, "Mindscapes - poemas"
Seleção, tradução e introdução de Rodrigo Garcia Lopes,
São Paulo: Iluminuras, 2004.
 

domingo, 23 de outubro de 2022

"É inútil querer parar o Homem" - Poema de Moacyr Félix

 
Gustave Courbet (French painter, 1819-1877), The Stone Breakers, 1849. 
(Les Casseurs de pierres - Reproduction colorisée du tableau détruit.)
The painting was destroyed during World War II.
 


É inútil querer parar o Homem
 
 
 É inútil querer parar o Homem,
o que transforma a pedra em piso,
o piso em casa e a casa em fonte
de novas músicas da carne
sob as velocidades da luz e da sombra.
É inútil querer parar o Homem
a colher sempre um pouco de si próprio
no mistério da vida a cavalgar
os cavalos aéreos da semântica
sob uma indeferida eternidade.
É inútil querer parar o Homem
e o impulso que o transforma sempre
na pátria sem fim do ato livre
que arranca a vida e o tempo e as coisas
do espelho imóvel dos conceitos.
Ah, que mistério maior é este
que liga a liberdade e o homem
e une o homem a outros homens
como o curso de um rio ao mar!
(quando a noite é una e indivisível,
nos olhos da mulher que eu amo
acende-se o deus deste segredo
e uma sombra só nos transporta
ao fundo sem nome da vida.)

É inútil querer parar o Homem.
Do que morre fica o gesto alto
a ser o germe de outro gesto
que ainda nem vemos no tempo.
Isto as crianças nos lembram
quando rodam em nossas portas
os ossos do dia que foi nosso
e agora são os eixos do pedalar
nas bicicletas com que os deuses
as vão levando para outros dias
do acaso, do desejo e do fazer
em que não seremos mais, eternamente.
É inútil querer parar o Homem
e o seu sonho a dar longas voltas
ou a inventar estradas no cárcere,
o seu sonho mais essencial
a destruir e a enferrujar
metais de qualquer ditadura.
É inútil querer parar o Homem
e o seu sonho, o mais de flor,
de apagar dos lábios da terra
o ricto do medo que estica
no céu de aço a bomba atómica;
o seu sonho, que é o seu movimento
onde a razão dança mais bela,
de ver no armário dos museus
o manual oco e sem asas
que aprisiona o corpo e o sexo
em desrazões dadas na infância
e os livros de Deve & Haver
dos poderosos de Manhattan
comerciando Deus e o mundo.

É inútil querer parar o Homem
e o seu sonho de enterrar
sob o verde passo de uma história livre
os dogmas do stalinismo
grudado como esparadrapo
sobra a boca múltipla da vida
(e a subdesenvolvida farda
dos tiranos que bebem uísque
pago com o sangue de sua pátria).
É inútil querer parar o Homem:
em tudo que de amor cantar
o seu sonho caminhará
a encaminhá-lo na direção dele próprio
inteirado quando historicamente liberto
do económico em que ora o algemam.
É inútil querer parar o Homem,
o que transforma a pedra em piso,
o piso em casa e a casa em fonte
de novas músicas de carne.
A andar em formas de palavras
sob os arvoredos da vida
o sonho do Homem caminhará
do pensamento para as mãos
e das mãos para o pensamento,
noite e dia caminhará.
até tornar as mãos em pássaros
livres, inteiramente livres, para amar
o azul ou as várias almas do céu
dentro do Homem que se movimenta
na liberdade, no amor e no desejo
em que a si próprio inventa.  
 
 
in 'Canto para as Transformações do Homem', 1964
 
 

quinta-feira, 20 de outubro de 2022

"Recordação" - Poema de Rainer Maria Rilke


 
Thomas Eakins (American realist painter, photographer, sculptor, and fine arts
educator, 1844–1916), The Thinker: Portrait of Louis N. Kenton, 1900,
Metropolitan Museum of Art, New York City
 

Recordação 


E tu esperas, aguardas a única coisa
que aumentaria infinitamente a tua vida;
o poderoso, o extraordinário,
o despertar das pedras,
os abismos com que te deparas.

Nas estantes brilham
os volumes em castanho e ouro;
e tu pensas em países viajados,
em quadros, nas vestes
de mulheres encontradas e já perdidas.

E então de súbito sabes: era isso.
Ergues-te e diante de ti estão
angústia e forma e oração
de certo ano que passou. 


Rainer Maria Rilke, in "O Livro das Imagens" 
Tradução de
Maria João Costa Pereira
 
 

Helmuth Westhoff (German painter, 1891–1977),
 Portrait of Rilke, 1901

Rainer Maria Rilke, escritor modernista alemão, nasceu em 1875, em Praga, e faleceu em 1926, no sanatório de Valmont, vítima de leucemia. Tendo frequentado a Academia Militar e as universidades de Munique e Berlim, produziu, durante a infância e a adolescência, as primeiras coletâneas líricas - entre elas, Leben und Lieder (1896) e Advent (1898). A sua obra, influenciada pelos anos que passou em Praga e pelas diversas viagens que fez pela Europa ao longo da vida, é muito vasta. Merecem destaque especial, no romance, Die Aufzeichnungen des Malte Laurids Brigge (Os Cadernos de Malte Laurids Brigge, 1910), e na poesia Sonette an Orpheus (Sonetos a Orfeu, 1923) e Duineser Elegien (Elegias de Duino, 1923). (daqui)
 
 
 Tradução e nota introdutória de Maria João Costa Pereira
Ano: 2005
 
"O Livro das Imagens é uma obra que Rilke escreveu na juventude, atravessada pela escrita de algumas das suas criações mais importantes (...) é uma compilação das diferentes fases criativas do poeta, dando-lhe um carácter híbrido e algo desconcertante. (...) Trata-se de uma obra composta por quase todo o tipo de poemas escritos por Rilke e nele estão já presentes muitos dos seus temas de culto: a natureza, a noite, a religiosidade, a solidão, a morte, a angústia, o amor. Sendo uma obra de juventude, O Livro das Imagens inclui alguns dos seus poemas mais conhecidos e mais amados, invariavelmente incluídos nas antologias, como Intróito, Outono, Oração e Anoitecer e traz em si a marca de muito do que viria a ser a criação da maturidade do poeta." 
 
 Nota introdutória de Maria João Costa Pereira
 
Enquanto Rilke escreveu muito rapidamente algumas das suas grandes obras, O Livro das Imagens demoraria sete anos a chegar à sua forma final. A primeira edição remonta a Julho de 1902 e recolhia quarenta e cinco poemas escritos entre 1898 e 1901, a maior parte dos quais retirados do diário do autor. Rilke tinha então 26 anos. Em Dezembro de 1906, seria publicada uma segunda edição que modificava e aumentava significativamente a anterior. Eram-lhe acrescentados trinta e sete novos poemas, a ordem inicial pela qual eram apresentados os poemas anteriores fora modificada, um poema foi eliminado, assim como o verso final de um outro, foram dados títulos a poemas que antes os não tinham, outros que se apresentavam separados seriam unificados num só e a obra foi finalmente dividida em dois livros, cada um dos quais com duas partes.
As circunstâncias do poeta desempenhariam igualmente um papel determinante nesta obra, cuja conceção foi pontuada por acontecimentos significativos na sua vida: a atribulada relação amorosa com Lou Andreas-Salomé, as duas viagens de ambos à Rússia, a estada em Worspwede durante a qual conheceria a escultora Clara Westhoff, sua futura mulher, e Paula Becker, com quem manteve uma relação ambivalente, o período que passou em Paris, o nascimento da filha Ruth e o seu progressivo distanciamento da família.
Podem seguir-se em O Livro das Imagens os indícios destes acontecimentos e respetivas influências, pois ele constitui como que uma compilação das diferentes fases criativas do autor, dando-lhe um carácter híbrido e algo desconcertante. (daqui)
 
 

Thomas Eakins (American realist painter, 1844–1916), Self-portrait, 1902,  


Thomas Cowperthwait Eakins (25 de julho de 1844 - 25 de junho de 1916) foi um pintor realista americano, fotógrafo, professor e educador de artes plásticas. Ele é amplamente reconhecido como um dos artistas mais importantes da história da arte americana.

Ao longo de toda sua carreira Eakins trabalhou num estilo realista, tendo o ser humano como centro temático. Pintou centenas de retratos, que em conjunto dão um panorama da vida intelectual da Filadélfia em seu tempo, e isolados são penetrantes visões sobre os indivíduos. Como professor foi um nome altamente respeitado e muito influente no circuito das artes norte-americanas, apesar de escândalos pessoais terem prejudicado um sucesso mais amplo. Na fotografia foi um inovador, usando abordagens ousadas para sua época. Hoje é considerado o mais importante realista dos Estados Unidos na virada do século XIX para o século XX.

Durante o período de sua carreira profissional, desde o início da década de 1870 até que sua saúde começou a falhar, por volta de 40 anos depois, Eakins trabalhou rigorosamente, escolhendo como objeto para sua arte as pessoas de sua cidade natal, Filadélfia, na Pensilvânia. Ele pintou centenas de retratos, geralmente de amigos, membros da família ou pessoas proeminentes na arte, ciência, medicina e do clero. Vistos em conjunto, os retratos oferecem uma visão geral da vida intelectual de Filadélfia no final do século XIX, e início do século XX; individualmente, são representações incisivas de pessoas pensantes.

Além disso, Eakins produziu uma série de grandes pinturas, que o levaram de retratos em sua sala a pinturas em escritórios, nas ruas, em parques, rios, arenas e anfiteatros de sua cidade. Esses locais ao ar livre lhe permitiram pintar o tema que mais o inspirou: pessoas nuas ou levemente vestidas em movimento. No processo, ele poderia modelar as formas do corpo na plena luz solar, e criar imagens de espaço profundo, utilizando seus estudos em perspetiva. Eakins também se interessou pelas novas tecnologias da fotografia de movimento, um campo em que ele agora é visto como um inovador.

Não menos importante na vida de Eakins, foi seu trabalho como professor. Como instrutor, ele era uma presença com alta influência na arte americana. As dificuldades que o atormentaram como artista que procurava pintar o retrato e a figura de forma realista, foram paralelizadas e até mesmo amplificadas em sua carreira de educador, onde os escândalos comportamentais e sexuais atrapalharam seu sucesso e danificaram sua reputação. Eakins era uma figura controversa, cujo trabalho recebeu pouco reconhecimento oficial durante sua vida. Desde a sua morte, ele foi celebrado pelos historiadores da arte americanos como "o mais forte e mais profundamente realista da arte americana do século XIX e início do século XX". (daqui)

quinta-feira, 18 de abril de 2019

"A cereja" - Poema de A. M. Pires Cabral


Édouard Manet, Boy with Cherries (Gamin aux Cerises), 1859
Museu Calouste Gulbenkian
, Lisboa, Portugal

 

A cereja


A cereja começou por uma flor
branca e singela.
(talvez tenha começado um mês antes,
num dia em que o cerdeiro surpreendeu
na sua própria carne mil ânsias e tremores
de renascer.
Isto foi
na primavera, antes de o sol ser rei.)

A flor agitou-se, murmurou
recados de amor ao ar embriagante
duma manhã de Abril.
Chamou as abelhas,
amou-as uma a uma e a elas confiou
o sémen amarelo, caprichoso do seu corpo -
como alguém que depõe um beijo sobre os dedos
e o sopra pelos ares à boca amada.
O milagre deu-se (o segundo milagre)
de esse sémen fecundar um ventre amigo, ardente,
um ovário silencioso e obscuro, antro de vida,
um templo de nascer.
E a cereja fez-se! redonda, verde, miúda,
de longa chanca a prendê-la ao ramo,
ela desarranjou
a barriga do ciganito louco
que, tremendo de impaciência, subiu, subiu,
no tronco a pino as bagas de vinagre.

Fez-se maior: um fruto claro,
pequeno planeta límpido e sereno.
Rosado
e logo após rubro, da sede de entregar-se,
piscou o olho aos estorninhos,
aos tentilhões.
Ao longo das estradas, numa versão humilde,
manteve com vagar
suas longas conversas com as silvas
e ouviu da seara ali ao lado
o deflagrar de espigas anunciando o verão.

Um dia (como uma jovem prenhe alvoroçada)
sentiu dentro de si um estigma de vida intrusa
bem arrumadinho ao coração.
Lembrou-se então das bodas consentidas,
núpcias nervosas,
carícias de um louco e breve inseto.
Matrimónio fugaz - seu filho agora
é dulcíssima broca,
arrasta-se no ventre
e perfura-lhe a carne em busca de ar e luz.

Está velha e não a colhem. Alcandorada
no último dos galhos do cerdeiro,
olha com cio e saudade os garotinhos
que passam junto ao toro. Está só e tem inveja
de outras que viu cumprir-se, comidas
com um naco de pão,
serem jantar de gente que não janta;
e outras que viu em pares, pendendo orgulhosas,
serem os brincos de tontas raparigas
que não têm outros brincos.
Está só. Encarquilhada, inútil,
recusada de melros e pardais,
a cereja lentamente se enrola sobre si
e morre.

quinta-feira, 31 de agosto de 2017

"Liberdade" - Poema de Sophia de Mello Breyner Andresen



Edgar Degas (French Impressionist artist, 1834–1917),
 "Beach Scene", 1877, National Gallery.


Liberdade


Aqui nesta praia onde
Não há nenhum vestígio de impureza,
Aqui onde há somente
Ondas tombando ininterruptamente,
Puro espaço e lúcida unidade,
Aqui o tempo apaixonadamente
Encontra a própria liberdade.


Sophia de Mello Breyner Andresen,
in "Mar Novo", 1958


 
Edgar Degas
, "Autoportrait" ou "Degas au porte-fusain", 1854-1855,
huile sur papier, 81,3 × 64,5 cm, Paris, musée d'Orsay.


Edgar Degas foi um pintor francês, nascido em 1834 e falecido em 1917, ligado à geração do Impressionismo, mas que dificilmente pode ser considerado um verdadeiro impressionista. Assimilou a lição das obras dos velhos mestres, nas viagens por Itália, e conservou a admiração por Ingres, no traço e no estilo linear. 
Degas apreciava tudo o que era fora do comum. Chocava por uma paleta discordante, nos dizeres do público da época, em que era capaz de colocar lado a lado um violeta intenso e um verde ácido. A escolha dos temas era frequentemente pouco convencional.



Edgar Degas, "L'Absinthe" ("O Absinto", "O Copo de Absinto" ou "No Café")
 1875, Musée d'Orsay, Paris, France


Influenciado pela estética naturalista, retratou a vida parisiense, nos seus vícios, como em O Absinto (1876-77), e costumes. A frequência da vida noturna de Paris, e principalmente da Ópera, levou-o a multiplicar os ângulos de visão e os enquadramentos insólitos, que mais tarde o cinema e a fotografia iriam banalizar.



Edgar Degas, "Prima Ballerina" ("A Primeira Bailarina"), c. 1876,
 Musée d'Orsay, Paris, France


Em A Bailarina (1876), Degas exprime a beleza fugidia da dança, e neste aspeto pode considerar-se que está a ser "impressionista". Embora a bailarina se encontre completamente à direita, a composição é assimetricamente equilibrada pela mancha escura do que será o chefe do corpo de baile.



Edgar Degas, "Madame Camus with a Fan", 18691870 


Tradicionalmente, a arte ocidental respeita a unidade de composição. As formas surgem ligadas a outras formas, criando um movimento ou um conjunto de linhas no espaço. A arte oriental, pelo contrário, baseia essa relação no acentuar de certos grafismos ou cores e levando em linha de conta o espaço "entre", o vazio. Degas não deixou de tomar conhecimento da exposição de gravuras japonesas realizada em Paris em 1860, assimilando o delicado traço das composições. Os objetos deixam de ser olhados como objetos em si, a retratar fielmente, mas são representados pelas qualidades pictóricas que podem emprestar ao conjunto do quadro.



Edgar Degas, "The Tub" ("A banheira"), 1886,  Musée d'Orsay


Nas numerosas versões de Depois do Banho, é desenvolvido o tema de mulheres fazendo a toilette. O pintor experimenta vários processos técnicos: a aguarela, o pastel, a água-forte, a litografia, o monotipo. 
Nos últimos anos, devido às dificuldades de visão, trabalhou quase exclusivamente com cera, pastel e barro. A sua paleta ganhou mais força e luminosidade, enquanto as formas se simplificaram.  (daqui)


 
Edgar Degas, "After the Bath" ("Depois do banho"), c. 18851886
 Musée d'Orsay, Paris, France


sexta-feira, 6 de novembro de 2015

"Carta" - Texto de Mia Couto



Jean-Baptiste Greuze (French painter, 1725–1805), 'The Laundress', 1761


Carta
 
(digo dos que se ditam: 
a minha defesa 
são os vossos punhais) 

      Quando me disseram «não se vem à vida para sonhar» passei a odiar-vos. Para vos matar escolhi materiais inacessíveis ao meu ódio. Em mim fizestes despertar a irreparável urgência de ferir. 
      Descobri a vossa intenção: decepar as minhas raízes mais profundas, obrigar-me à cerimónia das palavras mortas. Preferi reiniciar-me: na solidão me apaguei. Estava só para me encher de gente, para me povoar de ternura. Eu queria simplesmente olhar de frente a verdade das pequenas coisas: esta água vem de onde, quem teceu este linho, que mãos fizeram este pão? 
     Desloquei-me para tudo ver de um outro lado: levei o meu olhar, o desejo de um princípio infinitamente retomado. Ganhei sonoridade nas vozes que me habitavam silenciosamente. Entre mar e terra eu preferia ser espuma, ter raiz e poente entre oceano e continente. 
      O tempo, por vezes, morria de o não semear. Terras que golpeava com ternura eram feridas que em mim se abriam para me curar. Eram terras suspeitas, acusadas de futuro. Outras vezes eram mãos de um corpo que ainda me não nascera. Surgiam da obscuridade para afastar a água e nela me deixar tombar. Tecido que escapava da mais bela das lavadeiras eu ia pelo rio, a corrente insuflando-me e eu deixando-me arrastar com fingida contrariedade.

Outubro, 1981 
 
Mia Couto, in 'Raiz de Orvalho'

sábado, 24 de outubro de 2015

"A Missão de continuar a Vida" - Crónica de Natália Correia


Henry Herbert La Thangue (1859-1929), An Autumn Morning, 1897


A Missão de continuar a Vida


Ninguém se pode possuir inteiramente, porque se ignora, porque somos um mistério. Para nós mesmos. Podemos sim, ser mais conscientes de uma determinada missão que temos no mundo. Todos nós somos uma missão. Somos a missão de continuar a vida, aperfeiçoando-a, festejando-a e não destruindo-a como se está a fazer hoje. Eu não tenho certezas, mas tenho convicções e uma das minhas convicções mais firmes é que nascemos para a liberdade. E, no entanto, veja o paradoxo: essa liberdade, esse caminho para a liberdade está a ser cada vez mais obscurecido por aquilo que observamos no nosso mundo de hoje. Nós chegamos a esta coisa terrível, o chamado equilíbrio nuclear, que é o jogo de escondidas de duas disponibilidades criminosas para suprimir a humanidade. A humanidade está hoje pronta (parece que está sempre pronta!) para pôr luto por si própria. Isto não é uma forma humana de viver. Esta tragédia tem que ser a sua «húbris», que é, digamos, a arrogância que desencadeia a catástrofe punitiva. E o que me perturba muito, o que me assusta, é que países que subscrevem, que proclamam os direitos humanos, possam entrar num jogo fatal destes, um jogo que se destina a suprimir o homem. 

Natália Correia,  in 'Entrevista (1983)'


Henry Herbert La ThangueThe Connoisseur, 1887
 

"Às vezes procura-se parecer melhor do que se é. Outras vezes, procura-se parecer pior. Hipocrisia por hipocrisia, prefiro a segunda."

Jacinto Benavente, La Virtud Sospechosa

[Jacinto Benavente y Martínez (Madrid, 12 de Agosto 1866 — Madrid, 14 de Julho 1954) foi um dramaturgo e crítico espanhol. Foi galardoado com o Nobel de Literatura de 1922.]

domingo, 4 de outubro de 2015

"Consciência Cósmica" - Poema de João Guimarães Rosa


 


Consciência Cósmica


Já não preciso de rir.
Os dedos longos do medo
largaram minha fronte.
E as vagas do sofrimento me arrastaram
para o centro do remoinho da grande força,
que agora flui, feroz, dentro e fora de mim...

Já não tenho medo de escalar os cimos
onde o ar limpo e fino pesa para fora,
e nem deixar escorrer a força dos meus músculos,
e deitar-me na lama, o pensamento opiado... 

Deixo que o inevitável dance, ao meu redor,
a dança das espadas de todos os momentos.
e deveria rir, se me retasse o riso,
das tormentas que poupam as furnas da minha alma,
dos desastres que erraram o alvo do meu corpo...


 
 

quinta-feira, 24 de setembro de 2015

"Enquanto pasta alegre o manso gado" - Poema de Tomás António Gonzaga


Henry Herbert La Thangue (British, 1859-1929), Back from the common, Heyshott, West Sussex



Lira XIX


Enquanto pasta alegre o manso gado, 
Minha bela Marília, nos sentemos 
À sombra deste cedro levantado.

Um pouco meditemos 
Na regular beleza,
Que em tudo quanto vive, nos descobre
A sábia natureza. 

Atende, como aquela vaca preta 
O novilhinho seu dos mais separa, 
E o lambe, enquanto chupa a lisa teta.
Atende mais, ó cara, 
Como a ruiva cadela
Suporta que lhe morda o filho o corpo,
E salte em cima dela. 

Repara, como cheia de ternura 
Entre as asas ao filho essa ave aquenta, 
Como aquela esgravata a terra dura,
E os seus assim sustenta; 
Como se encoleriza,
E salta sem receio a todo o vulto,
Que junto deles pisa. 

Que gosto não terá a esposa amante, 
Quando der ao filhinho o peito brando, 
E refletir então no seu semblante!
Quando, Marília, quando 
Disser consigo: “É esta
De teu querido pai a mesma barba,
A mesma boca, e testa.”


Tomás António Gonzaga,
in Marília de Dirceu, Parte I (1792)


Tomás António Gonzaga

Tomás António Gonzaga  (Miragaia, Porto, 11 de agosto de 1744 — Ilha de Moçambique, 1810), cujo nome arcádico é Dirceu, foi um jurista, poeta e ativista político português das Américas. Considerado o mais proeminente dos poetas árcades, é ainda hoje estudado em escolas e universidades por seu "Marília de Dirceu" .
Tomás Gonzaga foi para o Brasil com 7 anos de idade. Fez seus primeiros estudos com os jesuítas. Em Portugal, formou-se em Coimbra e escreveu o Tratado de Direito Natural, tese com a qual se candidatou à carreira universitária. Foi magistrado em Portugal, retornando ao Brasil com 38 anos, na condição de Ouvidor de Vila Rica. Datam dessa época, as Liras de Marília de Dirceu (1ª parte), inspiradas em Maria Joaquina Dorotéia de Seixas, noiva do poeta. Em 1789, foi preso por implicações na Inconfidência Mineira. Remetido para a prisão da Ilha das Cobras, escreve, no cárcere, a segunda parte das Liras. Em 1792, parte, degredado, para Moçambique, onde reconstrói a vida e morre.
Sua principal obra são as Liras de Marília de Dirceu, inspiradas em seu romance com Maria Dorotéia. Esta obra apresenta-se dividida em duas partes distintas: a primeira discorre sobre a iniciação amorosa, o namoro, a felicidade do amante, os sonhos de uma família, a defesa da tradição e da propriedade, sempre numa postura patriarcal:

“Irás a divertir-te na floresta,
sustentada, Marília, no meu braço;
aqui descansarei a quente sesta
dormindo um leve sono em teu regaço
enquanto a luta jogam os pastores,
e emparelhados correm nas campinas
toucarei teus cabelos de boninas,
nos troncos gravarei os teus louvores.
Graças, Marília bela,
Graças à minha estrela!”

A segunda parte, sob a influência dos sofrimentos provocados pela cadeia, mostra-nos uma série de reflexões que abordam desde a justiça dos homens até os caminhos do destino e a eterna consolação no amor que sente por Marília:

“Nesta triste masmorra,
de um semivivo corpo sepultura,
inda, Marília, adoro
a tua formosura.
amor na minha ideia te retrata;
busca, extremoso, que eu assim resista,
à dor imensa, que me cerca e mata.”

As Cartas Chilenas, por outro lado, completam a obra de Gonzaga. São poemas satíricos em forma de carta que circulavam em Vila Rica às vésperas da Inconfidência, eram assinadas por Critilo e endereçados a Doroteu. A autoria das Cartas foi motivo de longas discussões entre os historiadores; só recentemente definiu-se a questão: Critilo, morador em Santiago do Chile (na verdade, Vila Rica), narra os desmandos e arbitrariedades do governador chileno, Fanfarrão Minésio, um político sem moral (na realidade, Luís da Cunha Meneses, governador de Minas Gerais até pouco antes da Inconfidência).


TEXTO I
Cartas Chilenas (fragmento)

“Escuta a história de um modesto chefe
Que acaba de reger a nossa Chile:
Tem pesado semblante, a cor é baça
O corpo de estatura um tanto esbelta,
Feições compridas e olhadura feia,
Tem grossas sobrancelhas, testa curta,
Nariz direito e grande, fala pouco
Em rouco, baixo som de mau falsete,

Sem ser velho, já tem cabeço ruço
E cobre este defeito a fria calva
A força de polvilho, que lhe deita.

Ainda me parece que estou vendo
No gordo rocinante escarranchado
As longas calças pelo umbigo atadas.
Amarelo colete e sobre tudo
Vestida uma vermelha e justa farda.
De cada bolso da fardeta, pendem
Listadas pontas de dois brancos lenços;
Na cabeça vazia se atravessa
Um chapéu desmarcado, nem sei como
Sustenta o pobre só do laço o peso.

[Tomás Antônio Gonzaga]


TEXTO II - LIRA A

“Eu, Marília, não sou algum vaqueiro,
que vivia de guardar alheio gado
de tosco trato, de expressões grosseiro,
dos frios gelos e dos sóis queimado.
Tenho próprio casal e nele assisto;
dá-me vinho, legume, fruta, azeite;
das brancas ovelhinhas tiro o leite
e mais as finas lãs, de que me visto.
Graças, Marília bela,
Graças à minha estrela!”

[Tomás Antônio Gonzaga]


LIRA B

“Eu, Marilia, não fui nenhum vaqueiro,
fui honrado pastor da tua aldeia;
vestia finas lãs e tinha sempre
a minha choça do preciso cheia.
Tiraram-me o casal e o manso gado,
nem tenho a que me encoste um só cajado.

Para ter que te dar, é que eu queria
de mor rebanho ainda ser o dono;
prezava o teu semblante, os teus cabelos
ainda muito mais que um grande trono.
Agora que te oferece já não vejo,
além de um puro amor, de um são desejo.

[Tomás Antônio Gonzaga]
(Daqui)

domingo, 20 de setembro de 2015

"Da Condição Humana" - Poema de Ary dos Santos


António da Silva Porto (Pintor português, 1850–1893), Carro de bois, s/d
 
 

Da Condição Humana


Todos sofremos. 
O mesmo ferro oculto 
Nos rasga e nos estilhaça a carne exposta 
O mesmo sal nos queima os olhos vivos. 
Em todos dorme 
A humanidade que nos foi imposta. 
Onde nos encontramos, divergimos. 
É por sermos iguais que nos esquecemos 
Que foi do mesmo sangue, 
Que foi do mesmo ventre que surgimos.


Ary dos Santos, in 'Liturgia do Sangue'




"A vida não passa de uma oportunidade de encontro; só depois da morte se dá a junção; os corpos apenas têm o abraço, as almas têm o enlace."
 


domingo, 19 de outubro de 2014

"O mar é longe mas somos nós o vento" - Poema de Pedro Tamen



José Navarro Llorens (Spanish painter, 18671923), 'llegar a la costa'
(Arriving at the Coast),
n.d.
 

O mar é longe mas somos nós o vento


O mar é longe, mas somos nós o vento;
e a lembrança que tira, até ser ele,
é doutro e mesmo, é ar da tua boca
onde o silêncio pasce e a noite aceita.
Donde estás, que névoa me perturba
mais que não ver os olhos da manhã
com que tu mesma a vês e te convém?
Cabelos, dedos, sal e a longa pele,
onde se escondem a tua vida os dá;
e é com mãos solenes, fugitivas,
que te recolho viva e me concedo
a hora em que as ondas se confundem
e nada é necessário ao pé do mar.


Pedro Tamen
in "Daniel na Cova dos Leões"



José Navarro Llorens, 'Barcas en la Playa'


"Quanto mais nos elevamos, menores parecemos aos olhos daqueles que não sabem voar." 


Friedrich Nietzsche
[Filósofo, filólogo, crítico cultural, poeta e compositor alemão, 1844–1900]



José Navarro Llorens, 'La cala de Granaella, Alicante'


terça-feira, 12 de agosto de 2014

"Leitura" - Poema de Edmundo Bettencourt


José Navarro Llorens (Pintor espanhol, 1867-1923), Ameaça de naufrágio, 1894, óleo sobre tela.
 

Leitura

Havia luz em uns instantes surgidos
na minha vida,
que a mesma vida apagava.
E a pobre realidade
era uma cinza...
...já nada me recordava 
se, de entre ela, uma faúlha
não me queimasse os sentidos.

O fogo das queimaduras
é dor que nunca me passa!
E é esta que me ressurge
um pouco dessa luz-alma
de tantos momentos idos...

A inquieta luz, sempre de agora,
que ao mundo nada desvenda,
a mim diz certa verdade,
a chã naturalidade
nas coisas vãs da legenda.

Talvez ninguém me acredite,
e se ria,
quando grave eu me recite.

Mas recitar-me, cantar,
mesmo cansada a memória,
teria de acontecer:
é comigo,
bem viva enquanto eu viver,
a minha inútil história.”


Edmundo Bettencourt




Poemas de Edmundo de Bettencourt

A edição rapidamente esgotada, em 1963, dos Poemas de Edmundo de Bettencourt (obra completa do autor, 1930-1962), causou polémica junto da crítica, não tanto - como deveria ter sido - pela revelação de um percurso poético original e independente, mantido em silêncio durante trinta e três anos, mas sobretudo pelas palavras corajosas com que Herberto Helder apresentava o autor. Nesse conhecido e rebatido prefácio, o jovem autor de O Amor em Visita põe em relevo o carácter subversivo e precocemente surrealista da escrita de Edmundo de Bettencourt relativamente a dois movimentos, o presencista e o neorrealista, ambos, e por diferentes modos, responsáveis pelo adiamento da modernidade e dos princípio revolucionários já contidos em Orpheu
Para Herberto Helder a libertação da herança de Presença, neste autor que integrou a direção da revista coimbrã, ainda visível em O Momento e a Legenda, manifesta-se na recusa de um certo "narrativismo presencista", em benefício de um nexo "mais de sugestão do que de narração" (cf. HELDER, Herberto - "Relance sobre a Poesia de Edmundo de Bettencourt", prefácio a Poemas de Edmundo de Bettencourt, Lisboa, Portugália, 1963, p. XX), onde "o encontro coma imagem" permite a apreensão de novas dimensões da realidade, pela capacidade de "fusão de antinomias", através de um processo pelo qual "o tema desaparece, ou fragmenta-se, ou somente se insinua, ambíguo ou pré-textual, apenas." (id. ib., p. XXI). Com pontos de contacto com o imagismo anglo-americano, o surrealismo francês ou a "lição rimbaldiana", Herberto Helder assinala, assim, nas composições de Bettencourt, o "insólito das imagens e metáforas, o clima sufocante, a obliquidade da emoção, a medida onírica, o delírio gelado e noturno" e a conquista de uma modernidade firmada em termos de criação que dota o poema de "existência própria, independentee suficiente como um corpo". Numa fase posterior, ainda segundo o mesmo crítico, Bettencourt terá evoluído para uma fase caracterizada por uma maior vigilância e objetividade, mas onde a "economia irónica" não despreza, contudo, "o exercício libertário da imaginação".

Poemas de Edmundo de Bettencourt. In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2014. [Consult. 2014-08-11].


Galeria de José Navarro Llorens
 

José Navarro Llorens, Self-Portrait
 

José Navarro Llorens, In the Garden


José Navarro Llorens, The bathing boy


José Navarro Llorens, Children on the Beach, 1912-1915


José Navarro Llorens, Orienalist landscape


José Navarro Llorens,  A rainy day, 1899


José Navarro Llorens, A Bustling Street, 1910