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domingo, 7 de abril de 2019

"Elegia para Santa Rosa" - Poema de Mauro Mota


Abbott Handerson Thayer, Virgin Enthroned, 1891


Elegia para Santa Rosa



Aurora chega, e permaneces fria
noite, imobilizado, cego e mudo
às coisas das manhãs que amanhecias:
cavalete, jornal, café no bule.

O mundo neutro e nu pede a pintura;
a tela virgem, teu pincel tranquilo,
As cores vêm chorando pela rua,
entram no atelier branco e vazio.

Quais os murais que irás compor no muro,
entre o que foste e o que serás, erguido,
o indevassável muro eterno e duro?

Ai, Santa, pesam sobre nós os dias
desta sobrevivência que te usurpa
o espaço e o tempo que te pertenciam.


Mauro Mota, in 'Itinerário' 
 

domingo, 25 de novembro de 2018

"Anunciação a Maria" - Poema de Rainer Maria Rilke


Abbott Handerson Thayer, Angel, 1887, oil on canvas.
Smithsonian American Art Museum



Anunciação a Maria


Não foi a aparição de um Anjo (reconhece)
que a assustou. Nem de outros, quando
um raio de sol ou de luar à noite
os refletem no quarto desfilando,
se inquieta ela com a forma que um Anjo
possa ter assumido; mal suspeitando que
esta presença pudesse para o Anjo ser incómoda.
(ah se soubéssemos como ela era pura. Certa vez,
avistando uma gazela a repousar na floresta,
de tal modo a penetrou com o seu olhar que
mesmo sem acasalamento nela se gerou o unicórnio,
a criatura de luz, a pura criatura -).
Que ele entrasse, o Anjo, e com um rosto de adolescente
se debruçasse e a fixasse de tal modo que o olhar dela
e o seu se confundissem, como se de repente lá fora
tudo se esvaziasse, e o que era visto, procurado, levado
por milhões de homens nela se concentrasse: só ela e ele.
Contemplação e contemplado, olhar e prazer de ver,
em nenhum outro lugar a não ser neste - : repara,
é assustador! E ambos se assustaram.

Foi então que o Anjo cantou a sua melodia.


Rainer Maria Rilke
In A vida de Maria
Trad. Yvette K. Centeno


Abbott Handerson Thayer, An Angel, 1893
Milwaukee Art Museum (United States)


Anunciação


Não foi por um Anjo ter entrado (faz essa ideia tua)
que ela se sobressaltou. Tão pouco como outras, quando
um raio de sol ou à noite a lua
nos seus quartos se vão instalando,
se sobressaltam, ela não tinha o hábito de se indignar
à vista da figura que um Anjo assumia;
ela mal sabia que este ali ficar
para os Anjos é laborioso. (Oh, se fosse possível saber
como ela era pura. Não foi uma cerva que, a salvo,
deitada na floresta, dela se apercebeu,
equivocando-se de tal modo que concebeu,
sem sequer ser coberta, o Licorne mais alvo
o animal feito de luz, o mais puro de conceber.)
Não por ele entrar, mas por o Anjo inclinar
para ela, tão de perto, o rosto com que vinha anunciar,
tão jovem; e que de ambos o olhar se entrechocasse
quando um no outro se encontrasse,
como se em volta tudo vazio parecesse
e o que milhões de seres olhavam, faziam, suportavam,
nela se concentrasse: ela e ele apenas ali se encontravam;
Olhar e ser olhado; olhos e deleite para a vista
em mais nenhum lugar senão aquele: repara,
isso sobressalta. E o susto de ambos era coisa prevista.

Então entoou o Anjo a sua melodia clara.


Rainer Maria Rilke
In A vida de Maria, ed. Portugália
Trad. Maria Teresa Dias Furtado


domingo, 31 de dezembro de 2017

"Um dia te acharás" - Poema de Geir Nuffer Campos


Abbott Handerson Thayer, The Sisters, 1884



Um dia te acharás


Um dia te acharás 
sem inteirar a casa: 
ouvirás o marido ressonando, 
os filhos dormindo em calma… 
O espelho te acenará, 
te lembrará coisas da mocidade, 
coisas da meninice, 
te mostrará vindas algumas rugas; 
contemplarás o espelho, 
o quarto, a casa; 
perguntarás por ti mesma, 
pelo teu próprio destino 
— e o espelho fará silêncio: 
será o sinal de estares acordando. 


in 'Cantiga de Acordar Mulher'