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segunda-feira, 22 de dezembro de 2025

"Rosas de Inverno" - Poema de Camilo Pessanha



Aldo Parmigiani (Italian painter, b. 1935), Rosas, s.d.


Rosas de Inverno


Corolas, que floristes
Ao sol do inverno, avaro,
Tão glácido e tão claro
Por estas manhãs tristes.

Gloriosa floração,
Surdida, por engano,
No agonizar do ano,
Tão fora da estação!

Sorrindo-vos amigas,
Nos ásperos caminhos,
Aos olhos dos velhinhos,
Às almas das mendigas!

Desse Natal de inválidos
Transmito-vos a bênção,
Com que vos recompensam
Os seus sorrisos pálidos.


Camilo Pessanha,
in "Clepsidra e outros poemas", 1962.




Aldo Parmigiani, "La rosa bianca", 2012.



"Você pode se queixar porque a rosa tem espinhos ou se alegrar porque os espinhos têm rosas."

Tom Wilson, citado in  Altered You!: Alter Your Style ... Your Stuff ... Your Space! - Página 79,
 Karin Buckingham - Kalmbach Books, 2013 - 96 páginas.
 

segunda-feira, 10 de novembro de 2025

"Vénus" - Poemas de Camilo Pessanha



Raphaelle Peale (American painter of still-life, 1774–1825),
Venus Rising From the Sea - A Deception (After the Bath), ca. 1822,
The Nelson-Atkins Museum of Art.


Vénus

I

À flor da vaga, o seu cabelo verde,
Que o torvelinho enreda e desenreda...
O cheiro a carne que nos embebeda!
Em que desvios a razão se perde!

Pútrido o ventre, azul e aglutinoso,
Que a onda, crassa, num balanço alaga,
E reflui (um olfato que se embriaga)
Como em um sorvo, múrmura de gozo.

O seu esboço, na marinha turva...
De pé flutua, levemente curva;
Ficam-lhe os pés atrás, como voando...

E as ondas lutam, como feras mugem,
A lia em que a desfazem disputando,
E arrastando-a na areia, co'a salsugem.

II

Singra o navio. Sob a água clara
Vê-se o fundo do mar, de areia fina...
— Impecável figura peregrina,
A distância sem fim que nos separa!

Seixinhos da mais alva porcelana,
Conchinhas tenuemente cor de rosa,
Na fria transparência luminosa
Repousam, fundos, sob a água plana.

E a vista sonda, reconstrui, compara,
Tantos naufrágios, perdições, destroços!
— Ó fúlgida visão, linda mentira!

Róseas unhinhas que a maré partira...
Dentinhos que o vaivém desengastara...
Conchas, pedrinhas, pedacinhos de ossos...


Camilo Pessanha, in 'Clepsidra'

 

domingo, 22 de dezembro de 2024

"Paisagens de Inverno" - Poema de Camilo Pessanha

 

Edward Cucuel (American Impressionist artist, 1879–1954),
Girl with fur coat, Bad Tolz. Oil on canvas, 100 x 90 cm.



Paisagens de Inverno 

I

Ó meu coração, torna para trás.
Onde vais a correr, desatinado?
Meus olhos incendiados que o pecado
Queimou - o sol! Volvei, noites de paz.

Vergam da neve os olmos dos caminhos.
A cinza arrefeceu sobre o brasido.
Noites da serra, o casebre transido...
Ó meus olhos, cismai como os velhinhos.

Extintas primaveras evocai-as:
— Já vai florir o pomar das macieiras.
Hemos de enfeitar os chapéus de maias. —

Sossegai, esfriai, olhos febris.
— E hemos de ir cantar nas derradeiras
Ladainhas... Doces vozes senis...

II

Passou o Outono já, já torna o frio...
— Outono de seu riso magoado.
Álgido Inverno! Oblíquo o sol, gelado...
— O sol, e as águas límpidas do rio.

Águas claras do rio! Águas do rio,
Fugindo sob o meu olhar cansado,
Para onde me levais meu vão cuidado?
Aonde vais, meu coração vazio?

Ficai, cabelos dela, flutuando,
E, debaixo das águas fugidias,
Os seus olhos abertos e cismando...

Onde ides a correr, melancolias?
— E, refratadas, longamente ondeando,
As suas mãos translúcidas e frias...


Camilo Pessanha
, in 'Clepsidra'
 

terça-feira, 22 de outubro de 2024

"Desce em folhedos tenros a colina" - Poema de Camilo Pessanha


Albert Aublet (French painter, 1851-1938), Reading on the garden path, 1883.
 
 

 Desce em folhedos tenros a colina

 
Desce em folhedos tenros a colina:
— Em glaucos, frouxos tons adormecidos,
Que saram, frescos, meus olhos ardidos,
Nos quais a chama do furor declina…

Oh vem, de branco, —  do imo da folhagem!
Os ramos, leve, a tua mão aparte.
Oh vem! Meus olhos querem desposar-te,
Refletir-te virgem a serena imagem.

De silva doida uma haste esquiva.
Quão delicada te osculou num dedo
Com um aljôfar cor de rosa viva!…

Ligeira a saia… Doce brisa impele-a…
Oh vem! De branco! Do imo do arvoredo!
Alma de silfo, carne de camélia… 
 

quinta-feira, 4 de julho de 2024

"Imagens que passais pela retina" - Poema de Camilo Pessanha


Genco Gulan (Contemporary conceptual artist and theorist, who lives and works
in Istanbul, b. 1969), Self-portrait with 4 eyes, 2011. Oil on Canvas.



Imagens que passais pela retina


Imagens que passais pela retina
Dos meus olhos, porque não vos fixais?
Que passais como a água cristalina
Por uma fonte para nunca mais!...

Ou para o lago escuro onde termina
Vosso curso, silente de juncais,
E o vago medo angustioso domina,
— Porque ides sem mim, não me levais?

Sem vós o que são os meus olhos abertos?
— O espelho inútil, meus olhos pagãos!
Aridez de sucessivos desertos...

Fica, sequer, sombra das minhas mãos,
Flexão casual de meus dedos incertos,
— Estranha sombra em movimentos vãos.


Camilo Pessanha, in 'Clepsidra'
 

quinta-feira, 23 de setembro de 2021

"Vida" - Poema de Camilo Pessanha

 
Vincent van Gogh, View of Arles with Irises in the Foreground, 1888, Van Gogh Museum 
 
 
 
Vida


Choveu! E logo da terra humosa
Irrompe o campo das liliáceas.
Foi bem fecunda, a estação pluviosa!
Que vigor no campo das liliáceas!

Calquem. Recalquem, não o afogam.
Deixem. Não calquem. Que tudo invadam.
Não as extinguem. Porque as degradam?
Para que as calcam? Não as afogam.

Olhem o fogo que anda na serra.
É a queimada... Que lumaréu!
Podem calcá-lo, deitar-lhe terra,
Que não apagam o lumaréu.

Deixem! Não calquem! Deixem arder.
Se aqui o pisam, rebenta além.
- E se arde tudo? - Isso que tem?
Deitam-lhe fogo, é para arder...

Camilo Pessanha, in 'Clepsidra'




 
Camilo Pessanha
[N. Casal de Leão, Coimbra, 7-09-1867 – m. Macau, 1-03-1926]

O "único verdadeiro simbolista da literatura portuguesa e, em absoluto, um dos maiores intérpretes do Simbolismo europeu", nas palavras de Barbara Spaggiari, teve como pai Francisco António de Almeida Pessanha, um estudante de Direito (mais tarde juiz), e como mãe uma criada, Maria do Espírito Santo Duarte Nunes Pereira. Será significativo referir que C. Pessanha nasce no ano da morte de Baudelaire, que, dez anos antes, com a sua "teoria das correspondências", havia lançado as bases do simbolismo francês na obra Les Fleurs du Mal.

 Em 1883 iniciou os seus estudos em Direito, na Universidade do Coimbra, onde veio a tomar contacto com as novas ideias literárias, originárias de França, com expressão nas revistas Boémia Nova e Os Insubmissos. Datam dessa época os seus primeiros trabalhos literários, de pouca repercussão. 

Em 1890 António Nobre, Alberto de Oliveira, Júlio e Raul Brandão formam no Porto o grupo dos "Nefelibatas", ao qual Eugénio de Castro (que publica nesse ano Oaristos, introduzindo o Simbolismo, como escola, em Portugal) e Pessanha aderem momentaneamente. As adesões deste último aos movimentos culturais da época são, aliás, sempre pouco evidentes, atribuindo-se-lhe várias razões para tal procedimento: insegurança, orgulho, apatia e tendência para o isolamento. Já então Pessanha (de constituição física débil, por natureza) se ressentia dos anos de boémia vividos em Coimbra, onde o absinto era a sua bebida favorita e onde várias crises nervosas o haviam abatido. 

Em 1890, também, a Grã-Bretanha impõe o Ultimatum a Portugal. Em 1891 termina o seu curso. No ano seguinte é publicado em Paris o de António Nobre. Pessanha encontra-se então em Trás-os-Montes, exercendo advocacia, donde partirá, no ano seguinte, acompanhado de seu primo Alberto Osório de Castro, para Óbidos. Decidiu-se então, devido à desilusão que a vida na província lhe havia provocado e às humilhações sofridas por Portugal no campo político, a procurar uma nova vida no Oriente, para onde concorreu a uma vaga de professor no Liceu de Macau e onde foi colocado em 1894. Aí foi, durante três anos, companheiro de Wenceslau de Moraes e exerceu as actividades de conservador do Registo Predial (1900) e juiz. Também aí ganhou o gosto pelo coleccionismo de objectos raros e pelo estudo de literatura e língua chinesa. 

C. Pessanha teve uma vida íntima atribulada, dividida entre o consumo demasiado de ópio e a relação com uma companheira chinesa que lhe deu um filho - João Manuel - nascido em 1896 e falecido alguns anos depois, devido ao ópio e à tuberculose. 1896 é, por coincidência, o ano em que morre Verlaine (tido como autor de cabeceira de P.), que em 1874 havia publicado Romances sans Paroles, dando à luz a máxima "de la musique avant toute chose". 

O Simbolismo surge como uma corrente literária que estabelece a ligação entre a época romântica e a contemporânea, privilegiando o significante em relação ao significado, a melodia assim como a sugestão, a sensação difusa, a imaginação e o fascínio pelo hermetismo e pela magia verbal. E é esta tendência da poesia para a música que P. irá cultivar na sua própria poética. 

Em 1899 alguns poemas seus são publicados na revista Ave Azul e em jornais de província, na sequência da sua segunda estada na metrópole entre 1899-1900. A primeira teria sido entre 1896-1897, numa possível tentativa de recuperação da degradação física para a qual caminhava a passos largos.

 Regressou a Portugal entre 1905-1909 e assistiu ao regicídio de D. Carlos e do príncipe herdeiro. Voltará por uma última vez em Setembro de 1915 (permanecendo até Março de 1916), ano da publicação dos dois números únicos da revista Orpheu. Neste período, possivelmente, terá sido elaborada a carta que Fernando Pessoa escreveu ao poeta e em que a dado passo se pode ler: "Se estivessem inteiramente escondidos da publicidade, [...] seria, da parte de V. Ex.ª, lamentável mas explicável. O que se dá, porém não se explica; visto que, sendo de todos mais ou menos conhecidos [...], eles não se encontram acessíveis a um público maior e mais permanente na forma normal da letra redonda. [...] sei-os de cor, aqueles cujas cópias tenho, e eles são para mim fonte contínua de exaltação estética. [...] é porque muito admiro esses poemas, e porque muito lamento o seu actual carácter de inéditos (quando, aliás, correm, estropiados, de boca em boca nos cafés), que ouso endereçar a V. Ex.ª esta carta, com o pedido que contém." 

O pedido era de que alguns poemas fossem publicados na edição de Orpheu 3. E também Mário de Sá-Carneiro se havia já manifestado, em entrevista ao jornal República, em 1914, sobre a inexplicável ausência de edição da obra de P.: "A minha vibração emocional, a melhor obra de arte escrita dos últimos trinta anos [...] é um livro que não está publicado - seria com efeito aquele, imperial, que reunisse os poemas inéditos de Camilo P. o grande ritmista." António José Saraiva afirmará mesmo: " [...] A sua presença indirecta na literatura portuguesa é anterior ao seu aparecimento perante o público, visto que já Pessoa e Sá-Carneiro lhe devem tanto, pelo menos, como a Cesário ou a Nobre." 

No ano do suicídio de Sá-Carneiro, Luís de Montalvor publica quinze poemas de P. no n.º 1 da revista Centauro. Mas só em 1920 Ana de Castro Osório edita um conjunto significativo da produção de P., sob o título de Clepsydra, reunindo poemas ditados de memória pelo próprio autor, sob a insistência de seu filho João de Castro Osório (grande admirador de P.), que, em 1969, publicará uma edição mais completa e fiel. 

Ao título Clepsydra atribuem-se muitas e variadas origens, sendo, porém, a mais considerada a que remete para Baudelaire, no seu poema "L'horloge" e no verso "Le gouffre a toujours soif; la clepsydre se vide". A clepsidra é tomada como um objecto que participa das noções concreta abstracta de tempo. Como afirma Jacinto do Prado Coelho: "[...] inculca o sentimento melancólico de que a vida corre no tempo, de que o próprio Homem é constante passagem e se esvai no tempo". 

E é assim que Pessanha, numa poética de exercício da palavra, procurando um entendimento entre os signos e os sinais do universo, sugerindo e subentendendo, constata a relação existente entre a passagem da vida e a inevitável aproximação da morte.

 O tempo das clepsidras é um tempo linear, angustiante, que marca a hemorragia constante dos segundos. Existe em Clepsydra um plano teórico que faz reconhecer desde "Inscrição" (o poema que abre a obra, remetendo para as inscrições tumulares) até "Poema final" (em que o eu esgotou a sua vida, entrando na morte) uma unidade. O plano da contemplação subjaz à obra, o que levou, por exemplo, Esther de Lemos a afirmar: "[...] falta um verdadeiro sensualismo, uma paixão ardente que permita participar fisicamente na realidade". 

Pessanha abandonou a vida a 1 de Março de 1926, vítima de tuberculose pulmonar».

in Dicionário Cronológico de Autores Portugueses
[Camilo Pessanha (Biografia. Bibliografia)]
 
 

 
 
"Não é a resposta que nos ilumina, mas sim a pergunta." 
 
 
Eugène Ionesco, dramaturgo francês, de origem romena, nascido em 1912 e falecido em 1994, parodiou o absurdo da existência em La Cantatrice chauve (A Cantora Careca, 1950), La Leçon (A Aula, 1951) e Les Chaises (As Cadeiras, 1952). A morte é o tema de Rhinocéros (Rinoceronte, 1959) e Le roi se meurt (O Rei está a morrer, 1962), enquanto a política é o alvo de Jeux de massacre (1970) e Macbeth (1972). Publicou ainda Journal en miettes (1967-68) e vários ensaios sobre teatro coligidos em Notes et Contre-notes (1962). (Daqui)
 

quinta-feira, 10 de setembro de 2020

"Madalena" - Poema de Camilo Pessanha


Caravaggio, Maria Madalena em êxtase, 1606



Madalena
"...e lhe regou de lágrimas os pés e os
enxugou com os cabelos da sua cabeça
."
Evangelho de S. Lucas
Ó Madalena, ó cabelos de rastos,
Lírio poluído, branca flor inútil,
Meu coração, velha moeda fútil,
E sem relevo, os caracteres gastos,

De resignar-se torpemente dúctil,
Desespero, nudez de seios castos,
Quem também fosse, ó cabelos de rastos,
Ensanguentado, enxovalhado, inútil,

Dentro do peito, abominável cómico!
Morrer tranquilo, - o fastídio da cama.
Ó redenção do mármore anatómico,

Amargura, nudez de seios castos!...
Sangrar, poluir-se, ir de rastos na lama,
Ó Madalena, ó cabelos de rastos! 
(1867-1926),
Clepsidra


domingo, 2 de setembro de 2012

"Crepuscular" - Poema de Camilo Pessanha




Crepuscular


Há no ambiente um murmúrio de queixume,
De desejos de amor, d'ais comprimidos...
Uma ternura esparsa de balidos,
Sente-se esmorecer como um perfume.

As madressilvas murcham nos silvados
E o aroma que exalam pelo espaço,
Tem delíquios de gozo e de cansaço,
Nervosos, femininos, delicados.

Sentem-se espasmos, agonias d'ave,
Inapreensíveis, mínimas, serenas...
- Tenho entre as mãos as tuas mãos pequenas,
O meu olhar no teu olhar suave.

As tuas mãos tão brancas d'anemia...
Os teus olhos tão meigos de tristeza...
- É este enlanguescer da natureza,
Este vago sofrer do fim do dia.
Margarida (Leucanthemum vulgare)


"Há dias em que tudo ao redor de nós é luminoso e leve." 

(Rainer Maria Rilke)




"Todas as pessoas grandes foram um dia crianças, mas poucas se lembram disso." 

(Antoine de Saint-Exupéry)




"O presente é sempre a única coisa que é importante pôr em ordem. 
Tu não tens de prever o futuro, mas sim de o permitir."

(Antoine de Saint-Exupéry)




"O futuro não é um lugar onde estamos indo, mas um lugar que estamos criando. O caminho para ele não é encontrado, mas construído e o ato de fazê-lo muda tanto o realizador quando o destino." 

(Antoine de Saint-Exupery)




"O melhor meio de se viver com alegria é acreditar que a vida lhe foi dada por alegria. Quando a alegria desaparece, procure onde está o seu erro." 

(Leon Tolstoi)

"Interrogação" - Poema de Camilo Pessanha


Steven Meisel - Vogue italia dec. 2007


Interrogação 


Não sei se isto é amor. Procuro o teu olhar, 
Se alguma dor me fere, em busca de um abrigo; 
E apesar disso, crê! nunca pensei num lar 
Onde fosses feliz, e eu feliz contigo. 

Por ti nunca chorei nenhum ideal desfeito. 
E nunca te escrevi nenhuns versos românticos. 
Nem depois de acordar te procurei no leito 
Como a esposa sensual do "Cântico dos cânticos". 

Se é amar-te não sei. Não sei se te idealizo 
A tua cor sadia, o teu sorriso terno... 
Mas sinto-me sorrir de ver esse sorriso 
Que me penetra bem, como este sol de inverno. 

Passo contigo a tarde e sempre sem receio 
Da luz crepuscular, que enerva, que provoca. 
Eu não demoro o olhar na curva do teu seio 
Nem me lembrei jamais de te beijar na boca. 

Eu não sei se é amor. Será talvez começo... 
Eu não sei que mudança a minha alma pressente... 
Amor não sei se o é, mas sei que te estremeço, 
Que adoecia talvez de te saber doente.  
 
 
 
 

 
Steven Meisel (Nova York, 1954) é um fotógrafo de moda norte-americano, considerado hoje um dos fotógrafos mais famosos e bem sucedidos na indústria da moda. 
Obteve sucesso com seu trabalho em revistas como Vogue América, Vogue Ítalia e suas fotografias, da amiga Madonna , no Erótica de 1992, livro projetado por Fabien Baron. Fotografou para revistas como Vogue, Harper's Bazaar, Seventeen e W. Participou de campanhas para grifes como Prada, Dolce & Gabbana, Valentino e Versace. Fotografou outras celebridades como Isabella Rossellini e foi quem descobriu a top Linda Evangelista.
Seu fascínio pela beleza e as modelos começou na juventude. Naquele tempo Meisel não se divertia com brinquedos, mas preferia desenhar mulheres. Usava revistas como Bazaar e Vogue como fontes da inspiração para seus desenhos. Meisel sonhava com mulheres da sociedade elevada como Gloria Guinness e Babe Paley, que personificavam as ideias da beleza e do high society. Outros ícones eram sua mãe e sua irmã. Como se tornou obsecado por modelos como Twiggy, Veruschka, e Jean Shrimpton, aos 12 anos pedia as amigas que ligassem para as agências de modelos e, fingindo ser secretárias de Richard Avedon, solicitassem modelos para começar seus retratos. Para encontrar-se com Twiggy, também, aos 12 anos Meisel ficou à sua espera do lado de fora do estúdio de Melvin Sokolsky. Estudou na High School of Art.
Um dos primeiros trabalhos de Meisel foi trabalhar para a revista Halstoncomo como ilustrador. Meisel nunca pensou que poderia  transformar-se num fotógrafo de sucesso. Admirava fotógrafos como Schatzberg Jerry, Irving Penn, Richard Avedon e Stern de Bert. Mais tarde, cansado de trabalhar como ilustrador, foi à agência do modelo do Elite onde duas de suas amigas trabalhavam e fez fotografias de algumas de suas modelos. Fotografou em seu apartamento no parque de Gramercy ou na rua. Uma delas era Phoebe Cates que ajudou a divulgar seu trabalho. Meisel trabalha atualmente para muitas editoras, incluindo as biblias da moda como Vogue America, Vogue Ítalia e W.
Meisel é creditado por “descobrir” ou promover as carreiras de muitas supermodels. Tem promovido recentemente Heather Bratton, Snejana Onopka, Coco Rocha, e James Rousseau. Foi um "protégé" de ambas as rainhas reinando na imprensa de moda, das redatoras-chefes: Franca Sozzani (Vogue Ítalia) e de Anna Wintour (E.U. Vogue).
Meisel fotografou campanhas para Versace, Valentino, Dolce & Gabbana e Calvin Klein. Ele é conhecido também por fotografar campanhas para Prada, considerada uma das marcas mais inovadoras.


Galeria fotográfica de Steven Meisel
(Vogue italia dec. 2007)






















Lord of The Rings - May it be by Enya



Enya

 
Eithne Ní Bhraonáin, conhecida como Enya, (Gaoth Dobhair, 17 de maio de 1961) é uma cantora, instrumentista e compositora irlandesa. Seu nome é, por vezes, apresentado na mídia como Enya Brennan; Enya é uma transliteração aproximada de como Eithne é pronunciado em seu irlandês nativo. 
Ela começou sua carreira musical em 1980, e rapidamente se juntou à banda Clannad, de sua família, antes de sair para prosseguir com sua carreira solo. Seu álbum Watermark, que foi lançado em 1988, a levou ao reconhecimento internacional, e Enya ficou conhecida por seu som único, que foi caracterizado por camadas de voz, melodias folk, cenários sintetizados e reverberações etéreas. 
Ela continuou fazendo sucesso constante durante os anos 1990 e 2000. Seu álbum de 2000, A Day Without Rain, obteve vendas recordes (mais de 15 milhões) e foi o álbum mais vendido por uma artista feminina em 2001. Enya é a artista solo que mais vende e, do país, é oficialmente a segunda maior exportadora musical, depois da banda U2. Ao todo, Enya vendeu mais de 75 milhões de discos. Seu trabalho  rendeu-lhe, entre outras coisas, uma indicação ao Oscar. Ela é conhecida por ter cantado em 10 línguas diferentes durante sua carreira até agora. Enya é uma das artista femininas que mais vendeu álbuns nos Estados Unidos, com mais de 26 milhões de cópias no país. Em 2005, lançou o bem recebido disco Amarantine, cantando algumas músicas na língua Loxian, desenvolvida pelo casal Ryan. Em 2008, lançou o disco And Winter Came, cujos temas principais são o Natal e o Inverno. Enya é uma das musicistas mais talentosas e originais da atualidade, preferindo o sucesso musical à mera fama. Disse numa entrevista: 

"Eu tenho uma vida muito privada. É muito importante para a música, eu penso que a razão porque consigo ter uma vida privada, é porque a música é maior que eu. Alguns artistas são maiores que a música".

(Origem: Enya, Wikipédia, a enciclopédia livre.)

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

"Estátua" - Poema de Camilo Pessanha


Christian Tagliavini, Dame di Cartone, Fifties I, 2008



Estátua


Cansei-me de tentar o teu segredo:
No teu olhar sem cor, - frio escalpelo,
O meu olhar quebrei, a debatê-lo,
Como a onda na crista dum rochedo.

Segredo dessa alma e meu degredo
E minha obsessão! Para bebê-lo
Fui teu lábio oscular, num pesadelo,
Por noites de pavor, cheio de medo.

E o meu ósculo ardente, alucinado,
Esfriou sobre o mármore correcto
Desse entreaberto lábio gelado...

Desse lábio de mármore, discreto,
Severo como um túmulo fechado,
Sereno como um pélago quieto.


Camilo Pessanha




Biografia de Camilo Pessanha (2)

Camilo Almeida Pessanha (Coimbra, 7 de Setembro de 1867 — Macau, 1 de Março de 1926) foi um poeta português considerado o expoente máximo do simbolismo em língua portuguesa, além de antecipador do princípio modernista da fragmentação.
Tirou o curso de direito em Coimbra. Procurador Régio em Mirandela (1892), advogado em Óbidos, em 1894, transfere-se para Macau, onde, durante três anos, foi professor de Filosofia Elementar no Liceu de Macau, deixando de lecionar por ter sido nomeado, em 1900, conservador do registo predial em Macau e depois juiz de comarca. Entre 1894 e 1915 voltou a Portugal algumas vezes, para tratamento de saúde, tendo, numa delas, sido apresentado a Fernando Pessoa que era, como Mário de Sá-Carneiro, apreciador da sua poesia. 
Publicou poemas em várias revistas e jornais, mas seu único livro Clepsidra (1920), foi publicado sem a sua participação (pois encontrava-se em Macau) por Ana de Castro Osório, a partir de autógrafos e recortes de jornais. Graças a essa iniciativa, os versos de Pessanha salvaram-se do esquecimento. Posteriormente, o filho de Ana de Castro Osório, João de Castro Osório, ampliou a Clepsidra original, acrescentando-lhe poemas que foram encontrados. Essas edições foram publicadas em 1945, 1954 e 1969. 
Além das características simbolistas que sua obra assume, já bem conhecidas, Camilo Pessanha antecipa alguns princípios de tendências modernistas. 
Camilo Pessanha buscou em Charles Baudelaire, proto-simbolista francês, o termo “Clepsidra”, que elegeu como título do seu único livro de poemas, praticando uma poética da sugestão como proposta por Mallarmé, evitando nomear um objeto direta e imediatamente. 
Por outro lado, segundo o pesquisador da Universidade do Porto Luís Adriano Carlos, o seu chamado "metaforismo" entraria no mesmo rol estético do imagismo, do inteseccionismo e do surrealismo, buscando as relações analógicas entre significante e significado por intermédio da clivagem dinâmica dos dois planos. Junto de sua fragmentação sintática, que segundo a pesquisadora da Universidade do Minho Maria do Carmo Pinheiro Mendes substitui um mundo ordenado segundo leis universalmente reconhecidas por um mundo fundado sobre a ambiguidade, a transitoriedade e a fragmentação, podemos encontrar na obra de Camilo Pessanha, de acordo com os dois autores citados, duas características que costumam ser mais relacionadas à poesia moderna que ao Simbolismo mais convencional.
Apesar da pequena dimensão da sua obra, é considerado um dos poetas mais importantes da língua portuguesa. Camilo Pessanha morreu no dia 1 de Março de 1926 em Macau, devido ao uso excessivo de Ópio.
Fonte: Biografia na Wikipédia


Obra do designer gráfico e fotógrafo
Christian Tagliavini (2)

Dame di Cartone, Fifties II


Dame di Cartone, Fifties III


Dame di Cartone, Cubism I - Cardboard Ladies.


Dame di Cartone, Cubism II


Dame di Cartone, Cubism III


Dame di Cartone, 17th Century I 


Dame di Cartone, 17th Century II


Dame di Cartone, 17th Century III


terça-feira, 28 de agosto de 2012

"Porque o melhor enfim" - Poema de Camilo Pessanha


Imagem de Sarolta Bán
 


Porque o melhor enfim


Porque o melhor, enfim,
É não ouvir nem ver...
Passarem sobre mim
E nada me doer!

Sorrindo interiormente,
Com as pálpebras cerradas,
Às águas da torrente
Já tão longe passadas.

Rixas, tumultos, lutas,
Não me fazerem dano...
Alheio às vãs labutas,
Às estações do ano.

Passar o estio, o outono,
A poda, a cava, e a redra,
E eu dormindo um sono
Debaixo duma pedra.

Melhor até se o acaso
O leito me reserva
No prado extenso e raso
Apenas sob a erva 

Que Abril copioso ensope...
E, esvelto, a intervalos
Fustigue-me o galope
De bandos de cavalos.

Ou no serrano mato,
A brigas tão propício,
Onde o viver ingrato
Dispõe ao sacrifício

Das vidas, mortes duras
Ruam pelas quebradas,
Com choques de armaduras
E tinidos de espadas...

Ou sob o piso, até,
Infame e vil da rua,
Onde a torva ralé
Irrompe, tumultua,

Se estorce, vocifera,
Selvagem nos conflitos,
Com ímpetos de fera
Nos olhos, saltos, gritos...

Roubos, assassinatos!
Horas jamais tranquilas,
Em brutos pugilatos
Fracturam-se as maxilas... 

E eu sob a terra firme,
Compacta, recalcada,
Muito quietinho. A rir-me
De não me doer nada.


in 'Clepsidra' 


Imagem de Sarolta Bán


Senhor, ajudai-nos a construir a nossa casa
com janelas de aurora e árvores no quintal.
Árvores que na primavera fiquem cobertas de flores
e ao crepúsculo fiquem cinzentas como a roupa dos pescadores.



sábado, 14 de julho de 2012

"Violoncelo" - Poema de Camilo Pessanha


Amedeo Modigliani (1884-1920), O violoncelista


Violoncelo


Chorai arcadas
Do violoncelo,
Convulsionadas,
Pontes aladas
De pesadelo... 

De que esvoaçam,
Brancos, os arcos...
Por baixo passam,
Se despedaçam,
No rio os barcos.

Fundas, soluçam
Caudais de choro...
Que ruínas, (ouçam)!
Se se debruçam,
Que sorvedouro!...

Trémulos astros...
Solidões lacustres...
- Lemes e mastros...
E os alabastros
Dos balaústres!

Urnas quebradas!
Blocos de gelo...
- Chorai, arcadas,
Despedaçadas,
Do violoncelo.


 
 
Joseph de Camp (1858-1923), A violoncelista


Augustus John (1878−1961), Madame Suggia, a violoncelista 


Retrato de Guilhermina Suggia


Guilhermina Augusta Xavier de Medim Suggia (PortoSão Nicolau, 27 de Junho de 1885 — Porto, 30 de Julho de 1950) foi uma violoncelista portuguesa, filha de Augusto Jorge de Medin Suggia (Lisboa, 11 de Março de 1851 - 29 de Março de 1932), de ascendência italiana e espanhola, e de sua mulher Elisa Augusta Xavier (Lisboa, 26 de Novembro de 1850 - 29 de Outubro de 1932). 
O pai foi violoncelista no Real Teatro de São Carlos e professor no Conservatório de Música de Lisboa. No seio deste ambiente familiar Guilhermina terá começado a estudar música aos 5 anos, tendo seu pai como primeiro professor. A sua primeira aparição pública verificou-se quando tinha sete anos de idade, em MatosinhosGuilhermina ao violoncelo e a sua irmã Virgínia (3 anos mais velha) ao piano, eram convidadas para actuar no seio cultural portuense. Com apenas 13 anos, Guilhermina era violoncelista principal da Orquestra da Cidade do Porto, tocando também com o quarteto de cordas Bernardo Moreira de Sá. Em 1898, o pai consegue que ela tenha umas aulas com o famoso violoncelista Catalão Pablo Casals, que nesse Verão actuava no casino de Espinho. Durante várias semanas Guilhermina e seu pai fazem os 16 quilómetros de comboio que separam a cidade do Porto da de Espinho, transportando o violoncelo e as partituras
Em Março de 1901 as duas irmãs atuaram no Palácio Real de Lisboa. Com 15 anos apenas, Guilhermina respondeu a uma interpelação da rainha Dona Amélia sobre qual seria o sonho da sua vida, dizendo que gostaria de aperfeiçoar os seus conhecimentos musicais no estrangeiro. Uns meses depois a coroa portuguesa concedeu-lhe uma bolsa para estudar no local da sua eleição, o que possibilitou a ida, acompanhada pelo pai, para o conservatório de LeipzigAlemanha, onde iria aprender com Julius Klengel, violoncelista da famosa Gewandhaus Orquestra dirigida por Arthur Nikisch, em Novembro de 1901. A vida de pai e filha em Leipzig era extremamente difícil pois a bolsa cobria os custos com as aulas e a estadia de Guilhermina mas não de seu pai nem das despesas acessórias que iam sendo necessárias.
Família de poucos recursos, rapidamente a situação financeira se foi degradando, com a irmã mais velha, pianista até então já conhecida, a sacrificar a sua carreira futura para sustentar irmã e pais, dando aulas particulares de piano a um grupo de alunos. Com 20 anos, Virgínia providenciava o sustento da família sendo a única que trazia proventos e que financiava todo aquele investimento na irmã. Apesar da agudização da situação financeira, o regresso de Guilhermina foi adiado sucessivamente até à sua apresentação histórica no concerto comemorativo do aniversário da orquestra Gewandhaus em 26 de Fevereiro de 1903. Tinha apenas 17 anos. Nunca um intérprete tão jovem havia actuado com a orquestra, muito menos como solista e menos ainda do sexo feminino. O êxito foi total e, face aos pedidos do público, o maestro pediu-lhe que repetisse toda a actuação. Começava aqui o seu sucesso internacional. Guilhermina revolucionou o instrumento em técnica, posição e sonoridade. Abriu as portas profissionais do violoncelo às mulheres, até então quase fechadas. De facto, o considerável gasto de energia exigido para manejar a envergadura do violoncelo, acrescido do facto de as boas maneiras da época obrigarem a colocar o instrumento de um ou outro lado do corpo obrigando a uma significativa contorção do dorso, tornavam o instrumento ainda mais inacessível às executantes femininas. (Note-se que ainda em 1930 o violoncelo era tido como um instrumento indecoroso para as mulheres, sendo então proibida a contratação de violoncelistas mulheres pela própria orquestra da BBC).
Para Suggia, o violoncelo é o mais extraordinário de todos os instrumentos, considerando-o ela o único que tem a possibilidade de suster um baixo por um longo período e a possibilidade de cantar uma melodia praticamente em qualquer registo. Porém, para que se revele a substância musical do violoncelo, é preciso que a técnica não seja estudada apenas como destreza, mas que tenda sempre para a música. "A técnica é necessária como veículo de expressão e quanto mais perfeita a técnica, mais livre fica a mente para interpretar as ideias que animaram o compositor". Guilhermina Suggia, "The Violoncello" in Music and Letters, nº 2, vol. I, Londres, Abril de 1920, 106.
Em 1923 o pintor galês Augustus John haveria de deixar na tela para a posteridade um pouco da fibra e da atitude interpretativa de Guilhermina Suggia durante as suas actuações. Conforme o próprio relatou, durante as sessões no seu atelier, Suggia tocava Bach. É divino o momento que capta o pintor. Coloca-lhe, por isso, um fantástico vestido vermelho. 
Suggia tocava todos os importantes concertos da época para violoncelo e orquestra – os concertos de HaydnElgarSaint-SaënsSchumannEugen d'AlbertDvořák.


Guilhermina Suggia plays Kol Nidrei from Max Bruch