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domingo, 2 de setembro de 2012

"Crepuscular" - Poema de Camilo Pessanha





Crepuscular


Há no ambiente um murmúrio de queixume,
De desejos de amor, d'ais comprimidos...
Uma ternura esparsa de balidos,
Sente-se esmorecer como um perfume.

As madressilvas murcham nos silvados
E o aroma que exalam pelo espaço,
Tem delíquios de gozo e de cansaço,
Nervosos, femininos, delicados.

Sentem-se espasmos, agonias d'ave,
Inapreensíveis, mínimas, serenas...
- Tenho entre as mãos as tuas mãos pequenas,
O meu olhar no teu olhar suave.

As tuas mãos tão brancas d'anemia...
Os teus olhos tão meigos de tristeza...
- É este enlanguescer da natureza,
Este vago sofrer do fim do dia.


Camilo Pessanha


Era - Don't go away



"Há dias em que tudo ao redor de nós é luminoso e leve." 

(Rainer Maria Rilke)





"Todas as pessoas grandes foram um dia crianças, mas poucas se lembram disso." 

(Antoine de Saint-Exupéry)





"O presente é sempre a única coisa que é importante pôr em ordem. Tu não tens de prever o futuro, mas sim de o permitir."

(Antoine de Saint-Exupéry)





"O futuro não é um lugar onde estamos indo, mas um lugar que estamos criando. O caminho para ele não é encontrado, mas construído e o ato de fazê-lo muda tanto o realizador quando o destino." 

(Antoine de Saint-Exupery)






"O melhor meio de se viver com alegria é acreditar que a vida lhe foi dada por alegria. Quando a alegria desaparece, procure onde está o seu erro." 

(Leon Tolstoi)


"Interrogação" - Poema de Camilo Pessanha


Steven Meisel - Vogue italia dec. 2007


Interrogação 


Não sei se isto é amor. Procuro o teu olhar, 
Se alguma dor me fere, em busca de um abrigo; 
E apesar disso, crê! nunca pensei num lar 
Onde fosses feliz, e eu feliz contigo. 


Por ti nunca chorei nenhum ideal desfeito. 
E nunca te escrevi nenhuns versos românticos. 
Nem depois de acordar te procurei no leito 
Como a esposa sensual do "Cântico dos cânticos". 


Se é amar-te não sei. Não sei se te idealizo 
A tua cor sadia, o teu sorriso terno... 
Mas sinto-me sorrir de ver esse sorriso 
Que me penetra bem, como este sol de inverno. 


Passo contigo a tarde e sempre sem receio 
Da luz crepuscular, que enerva, que provoca. 
Eu não demoro o olhar na curva do teu seio 
Nem me lembrei jamais de te beijar na boca. 


Eu não sei se é amor. Será talvez começo... 
Eu não sei que mudança a minha alma pressente... 
Amor não sei se o é, mas sei que te estremeço, 
Que adoecia talvez de te saber doente. 

Camilo Pessanha



Steven Meisel (Nova York, 1954) é um fotógrafo de moda norte-americano, considerado hoje um dos fotógrafos mais famosos e bem sucedidos na indústria da moda. Obteve sucesso com seu trabalho em revistas como Vogue América, Vogue Ítalia e suas fotografias, da amiga Madonna , no Erótica de 1992, livro projetado por Fabien Baron. Fotografou para revistas como Vogue, Harper's Bazaar, Seventeen e W. Participou de campanhas para grifes como Prada, Dolce & Gabbana, Valentino e Versace. Fotografou outras celebridades como Isabella Rossellini e foi quem descobriu a top Linda Evangelista.
Seu fascínio pela beleza e as modelos começou na juventude. Naquele tempo Meisel não se divertia com brinquedos, mas preferia desenhar mulheres. Usava revistas como Bazaar e Vogue como fontes da inspiração para seus desenhos. Meisel sonhava com mulheres da sociedade elevada como Gloria Guinness e Babe Paley, que personificavam as ideias da beleza e do high society. Outros ícones eram sua mãe e sua irmã. Como se tornou obsecado por modelos como Twiggy, Veruschka, e Jean Shrimpton, aos 12 anos pedia as amigas que ligassem para as agências de modelos e, fingindo ser secretárias de Richard Avedon, solicitassem modelos para começar seus retratos. Para encontrar-se com Twiggy, também, aos 12 anos Meisel ficou à sua espera do lado de fora do estúdio de Melvin Sokolsky. Estudou na High School of Art.
Um dos primeiros trabalhos de Meisel foi trabalhar para a revista Halstoncomo como ilustrador. Meisel nunca pensou que poderia  transformar-se num fotógrafo de sucesso. Admirava fotógrafos como Schatzberg Jerry, Irving Penn, Richard Avedon e Stern de Bert. Mais tarde, cansado de trabalhar como ilustrador, foi à agência do modelo do Elite onde duas de suas amigas trabalhavam e fez fotografias de algumas de suas modelos. Fotografou em seu apartamento no parque de Gramercy ou na rua. Uma delas era Phoebe Cates que ajudou a divulgar seu trabalho. Meisel trabalha atualmente para muitas editoras, incluindo as biblias da moda como Vogue America, Vogue Ítalia e W.
Meisel é creditado por “descobrir” ou promover as carreiras de muitas supermodels. Tem promovido recentemente Heather Bratton, Snejana Onopka, Coco Rocha, e James Rousseau. Foi um "protégé" de ambas as rainhas reinando na imprensa de moda, das redatoras-chefes: Franca Sozzani (Vogue Ítalia) e de Anna Wintour (E.U. Vogue).
Meisel fotografou campanhas para Versace, Valentino, Dolce & Gabbana e Calvin Klein. Ele é conhecido também por fotografar campanhas para Prada, considerada uma das marcas mais inovadoras.


Galeria fotográfica de Steven Meisel
(Vogue italia dec. 2007)































Lord of The Rings - May it be by Enya



Enya

Eithne Ní Bhraonáin, conhecida como Enya, (Gaoth Dobhair, 17 de maio de 1961) é uma cantora, instrumentista e compositora irlandesa. Seu nome é, por vezes, apresentado na mídia como Enya Brennan; Enya é uma transliteração aproximada de como Eithne é pronunciado em seu irlandês nativo. 
Ela começou sua carreira musical em 1980, e rapidamente se juntou à banda Clannad, de sua família, antes de sair para prosseguir com sua carreira solo. Seu álbum Watermark, que foi lançado em 1988, a levou ao reconhecimento internacional, e Enya ficou conhecida por seu som único, que foi caracterizado por camadas de voz, melodias folk, cenários sintetizados e reverberações etéreas. 
Ela continuou fazendo sucesso constante durante os anos 1990 e 2000. Seu álbum de 2000, A Day Without Rain, obteve vendas recordes (mais de 15 milhões) e foi o álbum mais vendido por uma artista feminina em 2001. Enya é a artista solo que mais vende e, do país, é oficialmente a segunda maior exportadora musical, depois da banda U2. Ao todo, Enya vendeu mais de 75 milhões de discos. Seu trabalho  rendeu-lhe, entre outras coisas, uma indicação ao Oscar. Ela é conhecida por ter cantado em 10 línguas diferentes durante sua carreira até agora. Enya é uma das artista femininas que mais vendeu álbuns nos Estados Unidos, com mais de 26 milhões de cópias no país. Em 2005, lançou o bem recebido disco Amarantine, cantando algumas músicas na língua Loxian, desenvolvida pelo casal Ryan. Em 2008, lançou o disco And Winter Came, cujos temas principais são o Natal e o Inverno. Enya é uma das musicistas mais talentosas e originais da atualidade, preferindo o sucesso musical à mera fama. Disse numa entrevista: 

"Eu tenho uma vida muito privada. É muito importante para a música, eu penso que a razão porque consigo ter uma vida privada, é porque a música é maior que eu. Alguns artistas são maiores que a música".

(Origem: Enya, Wikipédia, a enciclopédia livre.)

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

"Estátua"- Poema de Camilo Pessanha


Christian Tagliavini, Dame di Cartone, Fifties I, 2008



Estátua


Cansei-me de tentar o teu segredo:
No teu olhar sem cor, - frio escalpelo,
O meu olhar quebrei, a debatê-lo,
Como a onda na crista dum rochedo.


Segredo dessa alma e meu degredo
E minha obsessão! Para bebê-lo
Fui teu lábio oscular, num pesadelo,
Por noites de pavor, cheio de medo.


E o meu ósculo ardente, alucinado,
Esfriou sobre o mármore correcto
Desse entreaberto lábio gelado...


Desse lábio de mármore, discreto,
Severo como um túmulo fechado,
Sereno como um pélago quieto.


(Camilo Pessanha)




Biografia de Camilo Pessanha (2)

Camilo Almeida Pessanha (Coimbra, 7 de Setembro de 1867 — Macau, 1 de Março de 1926) foi um poeta português considerado o expoente máximo do simbolismo em língua portuguesa, além de antecipador do princípio modernista da fragmentação.
Tirou o curso de direito em Coimbra. Procurador Régio em Mirandela (1892), advogado em Óbidos, em 1894, transfere-se para Macau, onde, durante três anos, foi professor de Filosofia Elementar no Liceu de Macau, deixando de leccionar por ter sido nomeado, em 1900, conservador do registo predial em Macau e depois juiz de comarca. Entre 1894 e 1915 voltou a Portugal algumas vezes, para tratamento de saúde, tendo, numa delas, sido apresentado a Fernando Pessoa que era, como Mário de Sá-Carneiro, apreciador da sua poesia. 
Publicou poemas em várias revistas e jornais, mas seu único livro Clepsidra (1920), foi publicado sem a sua participação (pois encontrava-se em Macau) por Ana de Castro Osório, a partir de autógrafos e recortes de jornais. Graças a essa iniciativa, os versos de Pessanha salvaram-se do esquecimento. Posteriormente, o filho de Ana de Castro Osório, João de Castro Osório, ampliou a Clepsidra original, acrescentando-lhe poemas que foram encontrados. Essas edições foram publicadas em 1945, 1954 e 1969. 
Além das características simbolistas que sua obra assume, já bem conhecidas, Camilo Pessanha antecipa alguns princípios de tendências modernistas. 
Camilo Pessanha buscou em Charles Baudelaire, proto-simbolista francês, o termo “Clepsidra”, que elegeu como título do seu único livro de poemas, praticando uma poética da sugestão como proposta por Mallarmé, evitando nomear um objeto direta e imediatamente. 
Por outro lado, segundo o pesquisador da Universidade do Porto Luís Adriano Carlos, o seu chamado "metaforismo" entraria no mesmo rol estético do imagismo, do inteseccionismo e do surrealismo, buscando as relações analógicas entre significante e significado por intermédio da clivagem dinâmica dos dois planos. Junto de sua fragmentação sintática, que segundo a pesquisadora da Universidade do Minho Maria do Carmo Pinheiro Mendes substitui um mundo ordenado segundo leis universalmente reconhecidas por um mundo fundado sobre a ambiguidade, a transitoriedade e a fragmentação, podemos encontrar na obra de Camilo Pessanha, de acordo com os dois autores citados, duas características que costumam ser mais relacionadas à poesia moderna que ao Simbolismo mais convencional.
Apesar da pequena dimensão da sua obra, é considerado um dos poetas mais importantes da língua portuguesa. Camilo Pessanha morreu no dia 1 de Março de 1926 em Macau, devido ao uso excessivo de Ópio.
Fonte: Biografia na Wikipédia


Obra do designer gráfico e fotógrafo
Christian Tagliavini (2)

Dame di Cartone, Fifties II



Dame di Cartone, Fifties III



Dame di Cartone, Cubism I - Cardboard Ladies.



Dame di Cartone, Cubism II



Dame di Cartone, Cubism III



Dame di Cartone, 17th Century I 



Dame di Cartone, 17th Century II



Dame di Cartone, 17th Century III


terça-feira, 28 de agosto de 2012

"Porque o melhor, enfim" - Poema de Camilo Pessanha


Imagem de Sarolta Bán



Porque o melhor, enfim


Porque o melhor, enfim,
É não ouvir nem ver...
Passarem sobre mim
E nada me doer!

Sorrindo interiormente,
Com as pálpebras cerradas,
Às águas da torrente
Já tão longe passadas.

Rixas, tumultos, lutas,
Não me fazerem dano...
Alheio às vãs labutas,
Às estações do ano.

Passar o estio, o outono,
A poda, a cava, e a redra,
E eu dormindo um sono
Debaixo duma pedra.

Melhor até se o acaso
O leito me reserva
No prado extenso e raso
Apenas sob a erva 

Que Abril copioso ensope...
E, esvelto, a intervalos
Fustigue-me o galope
De bandos de cavalos.

Ou no serrano mato,
A brigas tão propício,
Onde o viver ingrato
Dispõe ao sacrifício

Das vidas, mortes duras
Ruam pelas quebradas,
Com choques de armaduras
E tinidos de espadas...

Ou sob o piso, até,
Infame e vil da rua,
Onde a torva ralé
Irrompe, tumultua,

Se estorce, vocifera,
Selvagem nos conflitos,
Com ímpetos de fera
Nos olhos, saltos, gritos...

Roubos, assassinatos!
Horas jamais tranquilas,
Em brutos pugilatos
Fracturam-se as maxilas... 

E eu sob a terra firme,
Compacta, recalcada,
Muito quietinho. A rir-me
De não me doer nada.


Camilo Pessanha, in 'Clepsidra' 



Imagem de Sarolta Bán


Senhor, ajudai-nos a construir a nossa casa
com janelas de aurora e árvores no quintal.
Árvores que na primavera fiquem cobertas de flores
e ao crepúsculo fiquem cinzentas como a roupa dos pescadores.



sábado, 14 de julho de 2012

"Violoncelo" - Poema de Camilo Pessanha


Amedeo Modigliani (1884-1920), O violoncelista



Violoncelo


Chorai arcadas
Do violoncelo,
Convulsionadas,
Pontes aladas
De pesadelo... 

De que esvoaçam,
Brancos, os arcos...
Por baixo passam,
Se despedaçam,
No rio os barcos.

Fundas, soluçam
Caudais de choro...
Que ruínas, (ouçam)!
Se se debruçam,
Que sorvedouro!...

Trémulos astros...
Solidões lacustres...
- Lemes e mastros...
E os alabastros
Dos balaústres!

Urnas quebradas!
Blocos de gelo...
- Chorai, arcadas,
Despedaçadas,
Do violoncelo.


Camilo Pessanha 



Joseph de Camp (1858-1923), A violoncelista


Augustus John (1878−1961), Madame Suggia, a violoncelista 



Retrato de Guilhermina Suggia


Guilhermina Augusta Xavier de Medim Suggia (PortoSão Nicolau, 27 de Junho de 1885 — Porto, 30 de Julho de 1950) foi uma violoncelista portuguesa, filha de Augusto Jorge de Medin Suggia (Lisboa, 11 de Março de 1851 - 29 de Março de 1932), de ascendência italiana e espanhola, e de sua mulher Elisa Augusta Xavier (Lisboa, 26 de Novembro de 1850 - 29 de Outubro de 1932). 
O pai foi violoncelista no Real Teatro de São Carlos e professor no Conservatório de Música de Lisboa. No seio deste ambiente familiar Guilhermina terá começado a estudar música aos 5 anos, tendo seu pai como primeiro professor. A sua primeira aparição pública verificou-se quando tinha sete anos de idade, em MatosinhosGuilhermina ao violoncelo e a sua irmã Virgínia (3 anos mais velha) ao piano, eram convidadas para actuar no seio cultural portuense. Com apenas 13 anos, Guilhermina era violoncelista principal da Orquestra da Cidade do Porto, tocando também com o quarteto de cordas Bernardo Moreira de Sá. Em 1898, o pai consegue que ela tenha umas aulas com o famoso violoncelista Catalão Pablo Casals, que nesse Verão actuava no casino de Espinho. Durante várias semanas Guilhermina e seu pai fazem os 16 quilómetros de comboio que separam a cidade do Porto da de Espinho, transportando o violoncelo e as partituras
Em Março de 1901 as duas irmãs atuaram no Palácio Real de Lisboa. Com 15 anos apenas, Guilhermina respondeu a uma interpelação da rainha Dona Amélia sobre qual seria o sonho da sua vida, dizendo que gostaria de aperfeiçoar os seus conhecimentos musicais no estrangeiro. Uns meses depois a coroa portuguesa concedeu-lhe uma bolsa para estudar no local da sua eleição, o que possibilitou a ida, acompanhada pelo pai, para o conservatório de LeipzigAlemanha, onde iria aprender com Julius Klengel, violoncelista da famosa Gewandhaus Orquestra dirigida por Arthur Nikisch, em Novembro de 1901. A vida de pai e filha em Leipzig era extremamente difícil pois a bolsa cobria os custos com as aulas e a estadia de Guilhermina mas não de seu pai nem das despesas acessórias que iam sendo necessárias.
Família de poucos recursos, rapidamente a situação financeira se foi degradando, com a irmã mais velha, pianista até então já conhecida, a sacrificar a sua carreira futura para sustentar irmã e pais, dando aulas particulares de piano a um grupo de alunos. Com 20 anos, Virgínia providenciava o sustento da família sendo a única que trazia proventos e que financiava todo aquele investimento na irmã. Apesar da agudização da situação financeira, o regresso de Guilhermina foi adiado sucessivamente até à sua apresentação histórica no concerto comemorativo do aniversário da orquestra Gewandhaus em 26 de Fevereiro de 1903. Tinha apenas 17 anos. Nunca um intérprete tão jovem havia actuado com a orquestra, muito menos como solista e menos ainda do sexo feminino. O êxito foi total e, face aos pedidos do público, o maestro pediu-lhe que repetisse toda a actuação. Começava aqui o seu sucesso internacional. Guilhermina revolucionou o instrumento em técnica, posição e sonoridade. Abriu as portas profissionais do violoncelo às mulheres, até então quase fechadas. De facto, o considerável gasto de energia exigido para manejar a envergadura do violoncelo, acrescido do facto de as boas maneiras da época obrigarem a colocar o instrumento de um ou outro lado do corpo obrigando a uma significativa contorção do dorso, tornavam o instrumento ainda mais inacessível às executantes femininas. (Note-se que ainda em 1930 o violoncelo era tido como um instrumento indecoroso para as mulheres, sendo então proibida a contratação de violoncelistas mulheres pela própria orquestra da BBC).
Para Suggia, o violoncelo é o mais extraordinário de todos os instrumentos, considerando-o ela o único que tem a possibilidade de suster um baixo por um longo período e a possibilidade de cantar uma melodia praticamente em qualquer registo. Porém, para que se revele a substância musical do violoncelo, é preciso que a técnica não seja estudada apenas como destreza, mas que tenda sempre para a música. "A técnica é necessária como veículo de expressão e quanto mais perfeita a técnica, mais livre fica a mente para interpretar as ideias que animaram o compositor". Guilhermina Suggia, "The Violoncello" in Music and Letters, nº 2, vol. I, Londres, Abril de 1920, 106.
Em 1923 o pintor galês Augustus John haveria de deixar na tela para a posteridade um pouco da fibra e da atitude interpretativa de Guilhermina Suggia durante as suas actuações. Conforme o próprio relatou, durante as sessões no seu atelier, Suggia tocava Bach. É divino o momento que capta o pintor. Coloca-lhe, por isso, um fantástico vestido vermelho. 
Suggia tocava todos os importantes concertos da época para violoncelo e orquestra – os concertos de HaydnElgarSaint-SaënsSchumannEugen d'AlbertDvořák.


Guilhermina Suggia plays Kol Nidrei from Max Bruch



sexta-feira, 27 de abril de 2012

"Caminho" - Poema de Camilo Pessanha


Pintura de Yoshiro Tachibana 


Caminho 


Tenho sonhos cruéis; n'alma doente 
Sinto um vago receio prematuro. 
Vou a medo na aresta do futuro, 
Embebido em saudades do presente... 

Saudades desta dor que em vão procuro 
Do peito afugentar bem rudemente, 
Devendo, ao desmaiar sobre o poente, 
Cobrir-me o coração dum véu escuro!... 

Porque a dor, esta falta d'harmonia, 
Toda a luz desgrenhada que alumia 
As almas doidamente, o céu d'agora, 

Sem ela o coração é quase nada: 
Um sol onde expirasse a madrugada, 
Porque é só madrugada quando chora.


Camilo Pessanha



Pintura de Yoshiro Tachibana 


Caminho

II

Encontraste-me um dia no caminho
Em procura de quê, nem eu o sei.
- Bom dia, companheiro – te saudei,
Que a jornada é maior indo sozinho.

E longe, é muito longe, há muito espinho!
Paraste a repousar, eu descansei!...
Na venda em que poisaste, onde poisei,
Bebemos cada um do mesmo vinho.

E no monte escabroso, solitário.
Corta os pés como a rocha dum calvário,
E queima como areia!... Foi no entanto

Que choramos a dor de cada um
E o vinho em que choraste era comum:
Tivemos que beber do mesmo pranto.


Camilo Pessanha



Pintura de Yoshiro Tachibana 


Caminho

III

Fez-nos bem, muito bem, esta demora: 
Enrijou a coragem fatigada... 
Eis os nossos bordões da caminhada, 
Vai já rompendo o sol: vamos embora. 

Este vinho, mais virgem do que a aurora, 
Tão virgem não o temos na jornada... 
Enchamos as cabaças: pela estrada, 
Daqui inda este néctar avigora!... 

Cada um por seu lado!... Eu vou sozinho, 
Eu quero arrostar só todo o caminho, 
Eu posso resistir à grande calma!... 

Deixai-me chorar mais e beber mais, 
perseguir doidamente os meus ideais, 
E ter fé e sonhar - encher a alma.


Camilo Pessanha



Pintura de Yoshiro Tachibana 



Biografia de Camilo  Pessanha (1)


Camilo Almeida Pessanha (Coimbra, 7 de Setembro de 1867 — Macau, 1 de Março de 1926) foi um poeta português. 
Camilo Pessanha foi um dos mais importantes poetas portugueses. Expoente máximo do Simbolismo, escreveu poemas e sonetos de grande qualidade rítmica e formal. Estudou direito na Universidade de Coimbra e viveu grande parte da vida em Macau. Apaixonado pela cultura chinesa, fez vários estudos e traduziu poetas chineses. A sua obra influenciou escritores como Fernando Pessoa ou Mário de Sá-Carneiro. Os seus poemas foram reunidos numa coletânea intitulada “Clepsidra”, considerado um dos melhores livros da poesia portuguesa.




Camilo Pessanha exerceu uma influência fundamental na poesia portuguesa - apesar da sua personalidade apagada e de fugir de todo o tipo de protagonismos. Com grande sensibilidade, escrevia sobre ideais inatingíveis e a inutilidade dos esforços humanos. 
Camilo Pessanha nasceu em Coimbra, fruto da ligação ilícita entre um aristocrata estudante de direito e uma criada. Começou o liceu em Lamego e acabou-o em Coimbra. Em 1891 formou-se em Direito na Universidade de Coimbra. Partiu, três anos mais tarde, para Macau, onde deu aulas de filosofia. 
Os seus poemas foram publicados, pela primeira, em 1899 - não devido aos esforços de Camilo Pessanha, mas dos amigos. Foram eles que os fizeram chegar às revistas literárias. Foi assim que se tornou uma referência para a geração de Orpheu, que tinha como figuras de proa Fernando Pessoa e Mário de Sá-Carneiro. 
Camilo Pessanha fazia parte do Simbolismo, movimento proveniente de França e da Alemanha, que procurava expressar a realidade através de símbolos. A sua poesia era melancólica e pessimista, como podemos depreender num excerto de “Castelo de Óbidos”: “O meu coração desce, / Um balão apagado? / Melhor fora que ardesse, / Nas Trevas incendiado.” Em muitas das suas obras, mostrava uma tristeza absoluta e viscosa, de que era impossível fugir, como uma doença. A dor dilacerava. 
Em 1900 Pessanha ocupou a função de conservador do Registo Predial de Macau. Ao mesmo tempo, ia estudando a cultura chinesa. Aproveitou o conhecimento da língua para traduzir poemas de autores locais. 
Regressou algumas vezes a Portugal. Um dos seus melhores amigos era Alberto Osório de Castro, irmão da escritora e feminista Ana de Castro Osório. Pessanha apaixonou-se perdidamente por ela. Um amor não correspondido que durou a vida inteira. Ana de Castro Osório viria a ser uma das responsáveis pela publicação do primeiro livro de Pessanha: “Clepsidra”. 
Regressou a Macau onde acabou por morrer. O consumo diário de ópio provocou-lhe a morte em 1926. Camilo Pessanha revelou-se essencial para a poesia portuguesa. Sem ele, autores como Cesário Verde e Eugénio de Andrade não teriam encontrado um mestre.


Galeria de Yoshiro Tachibana (2)  




























"Primeiro aprenda a ser um artesão. Isso não o impedirá de ser um génio."


(Eugène Delacroix)

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