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quinta-feira, 13 de novembro de 2025

"Cavalo à solta" - Poema de Ary dos Santos



Max Kurzweil
(Austrian painter and printmaker, 1867–1916), A Dear Visitor, 1894.
 

Cavalo à solta 

 
Minha laranja amarga e doce
meu poema
feito de gomos de saudade
minha pena
pesada e leve
secreta e pura
minha passagem para o breve
breve instante da loucura.

Minha ousadia
meu galope
minha rédea
meu potro doido
minha chama
minha réstia
de luz intensa
de voz aberta
minha denúncia do que pensa
do que sente a gente certa.

Em ti respiro
em ti eu provo
por ti consigo
esta força que de novo
em ti persigo
em ti percorro
cavalo à solta
pela margem do teu corpo.

Minha alegria
minha amargura
minha coragem de correr contra a ternura.
 
Minha laranja amarga e doce
minha espada,
poema feito de dois gumes
tudo ou nada.
Por ti renego, por ti aceito
este corcel que não sossego
à desfilada no meu peito.

Por isso digo
canção castigo
amêndoa travo corpo alma amante amigo
por isso canto
por isso digo
alpendre casa cama arca do meu trigo.

Meu desafio
minha aventura
minha coragem de correr contra a ternura.


Ary dos Santos, in "As Palavras das Cantigas"


"Cavalo à Solta"
Voz de Fernando Tordo
  
 
Cavalo à Solta  é uma música da autoria de José Carlos Ary dos Santos e de Fernando Tordo, interpretada, originalmente, por este último, no Festival RTP da Canção 1971, tendo ficado em 3º lugar, com 42 pontos. No entanto, mantém-se como uma das músicas mais marcantes da música portuguesa. (daqui)
 

terça-feira, 9 de julho de 2024

"Encontro" - Poema de Natália Correia

 

Pierre-Auguste Renoir (French artist, 1841–1919), The Theater Box, 1874,
 
 

 Encontro 

 
Como se um raio mordesse
meu corpo pero rosado
e o namorado viesse
ou em vez do namorado

um novilho atravessasse
meus flancos de seda branca
e o trajeto me deixasse
uma açucena na anca

como se eu apenas fosse
o efeito de um feitiço
um astro me desse um coice
e eu não sofresse com isso

como se eu já existisse
antes do sol e da lua
e se a morte me despisse
eu não me sentisse nua

como se Deus cá em baixo
fosse um cigano moreno
como se Deus fosse macho
e as minhas coxas de feno

como se alguém dos espaços
me desse o nome de flor
ou me deixasse nos braços
este cordeiro de amor


Natália Correia

(Escritora e poeta portuguesa, nascida nos Açores, 1923 - 1993)
 
 
Renato Júnior - "Natália é Quando Uma Mulher Quiser"
ao vivo na Aula Magna (Full Concerto).
 
Concerto de apresentação do projeto do compositor Renato Júnior que assinala os 100 anos de Natália Correia. Participação de: Áurea, Ana Bacalhau, Amélia Muge, Elisa Rodrigues, Katia Guerreiro, Maria João, Mafalda Veiga, Patrícia Antunes, Patrícia Silveira, Rita Redshoes, Sofia Escobar e Viviane. Promovido pela SPA, gravado e transmitido pela RTP1.
 

segunda-feira, 3 de junho de 2024

"Um Ninho" - Poema de Afonso Simões



Charles Joshua Chaplin (French painter, 1825 - 1891), 
 Young Girl with a Nest, 1869, Museum of Fine Arts of Lyon.

 

Um Ninho


Sabeis o que é um ninho, esse pequeno lar
Onde a ventura mora em noites de luar,
Onde a brisa suspira e canta a cotovia
Desde o romper da aurora ao declinar do dia?

Sabeis o que é um ninho em dias estivais,
Perdido no rumor dos bastos salgueirais,
À borda dum riacho alegre, saltitante,
Que vai de pedra em pedra até morrer, distante?

Sabeis o que é um ninho inundado de sol,
Onde desperta o melro e dorme o rouxinol?
Não, não sabeis! Pois bem. Juntai toda a ventura
Do vosso lar ditoso: os beijos, a ternura

Duma extremosa mãe, os cuidados dum pai,
Os risos duma irmã que tanto vos distrai,
Um doce olhar de avó, vaidosa no carinho,
E ficareis sabendo o que se chama um ninho.


Afonso Simões (1866-1947), em “Folhas em Branco”, 1914
Imprensa Libanio da Silva
 

Charles Joshua Chaplin, The Bird's Nest, 1860, Private collection.


"Uma imagem vale mais que mil palavras."

"A mulher e o passarinho, com Sol ao ninho."

"Cada passarinho gosta do seu ninho."



(Provérbios portugueses)


Charles Joshua Chaplin, Feeding Doves, Private collection.


"A natureza dá a vida, mas a vida ensina a viver."

"Quem passarinhos receia, milho não semeia."

"Aves da mesma pena andam juntas."


 
 
Charles Joshua Chaplin, Young Girl with a Dove, 1850,
 Private collection.
 
 
Pomba branca, pomba branca


Pomba branca, pomba branca
Já perdi o teu voar
Naquela terra distante
Toda coberta pelo mar

Fui criança, andei descalço
Porque a terra me aquecia
Eram longos os meus sonhos
Quando a noite adormecia

Vinham barcos dos países
Eu sorria, de os sonhar
Traziam roupas, felizes
As crianças dos países
Nesses barcos a chegar

Depois mais tarde ao perder-me
Por ruas de outras cidades
Cantei meu amor ao vento
Porque sentia saudades

Saudades do meu lugar
Do primeiro amor da vida
Desse instante a aproximar
Dos campos, do meu lugar
À chegada e à partida
  (Poeta, ator, encenador, declamador e radialista português, 1924 - 1980) 



Max
- Pomba Branca, Pomba Branca


Max
 
Fadista, ator e músico popular, Maximiano de Sousa nasceu a 20 de janeiro de 1918, no Funchal, faleceu a 29 de março de 1980, em Lisboa. É o mais famoso músico madeirense a nível nacional e internacional.
Apaixonou-se pelo fado logo em criança. Alimentava o sonho de ser barbeiro, numa altura em que os salões por vezes se transformavam em autênticas tertúlias fadistas. A morte do pai, aos 14 anos, forçou-o a começar cedo a trabalhar. Seguiu o ofício de alfaiate, nunca deixando, de forma amadora, de se dedicar ao fado. Aos 16 anos, foi para os Açores, com um grupo de amadores, e ali permanece dois anos a cantar. De regresso à Madeira, começou a atuar aos fins de semana em clubes locais e boites, não só o fado, mas sobretudo êxitos da música ligeira internacional, em locais como o Hotel Bela Vista. Aos 25 anos integrou o Conjunto Tony Amaral, desempenhando as funções de vocalista e baterista.
Em 1946, partiu para Lisboa onde cimentou a sua carreira. Inicialmente, com o Conjunto Tony Amaral, em locais como o Clube Americano e o Nina. Foi com este grupo que gravou o seu primeiro disco, em 1949. Depois, ganhou notoriedade a solo, e construiu uma carreira muito profícua e aplaudida, dividindo-se entre o fado e canções populares e humorísticas. A sua popularidade levou-o também ao teatro de revista, a partir de 1952, tendo participado em peças como Saias Curtas, Cala o Bico, Peço a Palavra, Mão à Obra e Mulheres à vista.
Teve uma longa carreira internacional, com concertos na Alemanha, Brasil, Canadá, Austrália, Argentina, Venezuela, Espanha e Áustria. Mas com principal destaque nos Estados Unidos, onde viveu mais de dois anos, e chegou a participar no programa de Gourucho Marx na NBC.
Para o seu reportório de música popular, escreveu temas com tal fama que hoje se confundem com a música tradicional madeirense, como é o caso do "Bailinho da Madeira" e da "Mula da Cooperativa". No fado, também escreveu vários temas, que marcam a história da canção de Lisboa. Entre outros, "Vielas de Alfama" (com Artur Ribeiro), "Nem às Paredes Confesso" (com Artur Ribeiro e Ferrer Trindade), "Fiz Leilão de Mim" (com Artur Ribeiro) ou "Lamentos" (com Domingues Gonçalves Costa). E destacou-se na interpretação de outros temas como "A Rosinha dos Limões" (Artur Ribeiro), "A Júlia Florista" (Joaquim Pimentel/Leonor Vilar) ou "Carta de um Soldado" (José Galhardo/Raul Ferrão). Era regularmente acompanhado pelo Conjunto de Guitarras de Raul Nery.
Tem uma extensa discografia, com dezenas de EP, como era hábito na época. Destacam-se as coletâneas, editadas em CD, O Melhor de Max vol. 1 e 2, Biografias do Fado, Pomba Branca, Saudade e Bailinho da Madeira, todas com edição da Emi-Valentim de Carvalho.
Em 1979, o Governo Regional da Madeira homenageou-o num espetáculo que decorreu no Funchal. Max, que sofria do coração, morreu, de forma súbita, no ano seguinte, quando saía de um restaurante, em Lisboa. (daqui)

segunda-feira, 15 de janeiro de 2024

"Lavava no rio lavava" - Poema de Amália Rodrigues

Washerwomen of Fouesnant, 1869, Memorial Art Gallery.


Lavava no rio lavava

 
Lavava no rio, lavava
Gelava-me o frio, gelava,
Quando ia ao rio lavar.
Passava fome, passava,
Chorava, também chorava,
Ao ver minha mãe chorar!

Cantava, também, cantava!
Sonhava, também, sonhava!
E, na minha fantasia,
Tais coisas fantasiava,
Que esquecia que chorava,
Que esquecia que sofria!

Já não vou ao rio lavar,
Mas continuo a chorar!
Já não sonho o que sonhava!
Já não lavo no rio!
Por que me gela este frio
Mais do que então gelava?

Ai, minha mãe, minha mãe
Que saudades desse bem,
Do mal que então conhecia!
Dessa fome que eu passava,
Do frio que nos gelava,
E da minha fantasia!

Já não temos fome, mãe!
Mas já não temos também
O desejo de a não ter!
Já não sabemos sonhar,
Já andamos a enganar
O desejo de morrer!

Ed. Livros Cotovia
 

Amália Rodrigues - Fado: 'Lavava no Rio, Lavava'
 
 
Ícone do Fado, Amália Rodrigues (1920-1999) é uma das personalidades mais importantes da história da música do século xx. Desde a sua estreia profissional, em 1939, no Retiro da Severa, Amália foi um fenómeno de popularidade: arrebatou plateias, acendeu paixões e suscitou os mais animados debates. No pós-guerra, era já a grande figura de referência no panorama musical português. Mas também a sua carreira internacional foi apoteótica: o mundo foi o seu palco natural e a sua voz o instrumento privilegiado para cantar toda a poesia portuguesa, do repertório trovadoresco e renascentista à criação literária contemporânea. Popular e erudito, moderno e intemporal, o legado de Amália Rodrigues devolve ao nosso imaginário a poderosa imanência dos grandes temas da cultura portuguesa. (daqui)

quinta-feira, 6 de julho de 2023

"Amizade" - Poema de Paulo Leminski


Eugene de Blaas (Italian painter, 1843–1931), Two Venetian Women, 1898



Amizade


Meus amigos
quando me dão a mão
sempre deixam
outra coisa

presença
olhar
lembrança, calor.

Meus amigos
quando me dão
deixam na minha
a sua mão.
 

Paulo Leminski, in Caprichos e relaxos,
São Paulo, Brasiliense, 1983. p.86.
 

Vozes: Marisa Liz e Áurea 


"Nunca foi um bom amigo quem por pouco quebrou a amizade."
 
(Provérbio popular)
 

quarta-feira, 7 de junho de 2023

"Tu e eu meu amor" - Poema de Manuel da Fonseca


 
Frederick McCubbin (Australian artist, art teacher and prominent member of the Heidelberg School 
art movement, also known as Australian impressionism, 1855 –1917), Bush Idyll, 1893.
 


Tu e eu meu amor 
 

Tu e eu meu amor
meu amor eu e tu
que o amor meu amor
é o nu contra o nu.

Nua a mão que segura
outra mão que lhe é dada
nua a suave ternura
na face apaixonada
nua a estrela mais pura
nos olhos da amada
nua a ânsia insegura
de uma boca beijada.

Tu e eu meu amor
meu amor eu e tu
que o amor meu amor
é o nu contra o nu.

Nu o riso e o prazer
como é nua a sentida
lágrima de não ver
na face dolorida
nu o corpo do ser
na hora prometida
meu amor que ao nascer
nus viemos à vida.

Tu e eu meu amor
meu amor eu e tu
que o amor meu amor
é o nu contra o nu.

Nua nua a verdade
tão forte no criar
adulta humanidade
nu o querer e o lutar
dia a dia pelo que há de
os homens libertar
amor que a eternidade
é ser livre e amar.

Tu e eu meu amor
meu amor eu e tu
que o amor meu amor
é o nu contra o nu. 
in "Poemas para Adriano", 1972
 
["Poemas para Adriano" é o conjunto de nove poemas de Manuel Fonseca escritos especialmente para o álbum Que nunca mais, lançado pelo músico português Adriano Correia de Oliveira, em 1975. Com esse álbum, o músico foi eleito o Artista do Ano, pela revista inglesa Music Week.]
 
 
 
 Adriano Correia de Oliveira - "Tu e eu meu amor"
do disco "Que Nunca Mais" (LP 1975)

 

domingo, 13 de setembro de 2020

"Cabra-Cega" - Poema de Pedro Homem de Mello



Francisco de Goya, La Gallina Ciega (Blind Man's Bluff), 1788, Museu do Prado, Madrid


Cabra-Cega 


À volta de incerto fogo
Brincaram as minhas mãos.
... E foi a vida o seu jogo!

Julguei possuir estrelas
Só por vê-las.
Ai! Como estrelas andaram
Misteriosas e distantes
As almas que me encantaram
Por instantes!

Em ritmo discreto, brando,
Fui brincando, fui brincando
Com o amor, com a vaidade...

— E a que sentimentos vãos
Fiquei devendo talvez
A minha felicidade! 
in "Jardins Suspensos"



Alberto Lacerda (1889–1975), Cabra-Cega, óleo sobre tela, 1914.
Museu José Malhoa

(Cena lúdica de interior. Três crianças jogam à cabra-cega, num alpendre com colunas de pedra, chão de tijoleira vermelha e muro revestido de azulejos com motivos florais a azul, amarelo e branco, aberto para um pátio interior. Em primeiro plano, na metade esquerda da composição, uma menina, vestida com uma bata vermelha pelos joelhos, de mangas a três quartos, sobre uma veste branca, cujos punhos e parte das mangas saem das mangas da bata, faz de cabra-cega; uma faixa branca sobre os cabelos curtos, castanhos, envolve-lhe a cabeça, tapando-lhe os olhos; à sua esquerda, protegendo-se atrás da esquina do muro, um menino mais jovem, vestido de branco, estende, com o braço esquerdo esticado na sua direção um pequeno galho bifurcado com duas folhas, uma em cada haste; escondida atrás do muro, apoiando a mão direita no parapeito, outra criança espreita a cena.) (daqui)


Márcia - "CABRA-CEGA" - Video Oficial
 
 

domingo, 17 de novembro de 2019

"Maria Lisboa" - Poema de David Mourão-Ferreira



Luís Dourdil (Pintor, artista gráfico, desenhador e muralista autodidata 
português, 1914–1989), "Varinas"


Maria Lisboa


É varina, usa chinela,
tem movimentos de gata;
na canastra, a caravela,
no coração, a fragata.

Em vez de corvos no xaile,
gaivotas vêm pousar.
Quando o vento a leva ao baile,
baila no baile com o mar.

É de conchas o vestido,
tem algas na cabeleira,
e nas velas o latido
do motor duma traineira.

Vende sonho e maresia,
tempestades apregoa.
Seu nome próprio: Maria;
seu apelido: Lisboa. 


David Mourão-Ferreira,
in 'Obra Poética'



Mariza - Maria Lisboa


Composição / Music by: David Mourão-Ferreira / Alain Oulman 

quarta-feira, 21 de novembro de 2018

"Entrega" - Poema de Pedro Homem de Mello




Entrega


Descalço venho dos confins da infância,
Que a minha infância ainda não morreu.
Atrás de mim em face ainda há distância.
Menino Deus, Jesus da minha infância,
Tudo o que tenho, e nada tenho, é teu.

Venho da estranha noite dos poetas,
Noite em que o mundo nunca me entendeu.
Vê, trago as mãos vazias dos poetas.
Menino Deus, amigo dos poetas,
Tudo o que tenho, e nada tenho, é teu.

Feriu-me um dardo, ensanguentei as ruas
Onde o demónio em vão me apareceu.
Porque as estrelas todas eram suas.
Menino, irmão dos que erram pelas ruas,
Tudo o que tenho, e nada tenho, é teu.

Quem te ignorar ignora os que são tristes,
Ó meu irmão Jesus, triste como eu.
Ó meu irmão, menino de olhos tristes,
Nada mais tenho além dos olhos tristes
Tudo o que tenho, e nada tenho, é teu!


Pedro Homem de Mello




Ricardo Ribeiro e Pedro Jóia - Entrega 

quinta-feira, 9 de março de 2017

"José Afonso" - Poema de Hélia Correia


Amadeo de Souza-Cardoso, Vida dos Instrumentos, 1916




Em louvor da desordem. 
Exaltando 
o vinho e os seus fermentos. 
Em louvor dos motivos 
e em louvor 
da pura insensatez, 
nos sentaremos nós ouvindo este homem, 
atravessados pelo seu galope. 

Como a uma criança, aconchegamos tudo aquilo que ele amou. 
Tudo o que é térreo 
e sujo 
e sorridente, 
e oferece o rosto 
de chapão à luz. 
Coisas que nos deslizam sob a pele disparando calor. 
Regendo as linhas 
fundamentais da vida. 

Há um nó de caminhos onde este homem 
se pôs a esconder pólvora e sementes, 
calendários rurais. 
Dele não pode falar-se sem que se ouça 
a espantosa alegria. 
Sem que de novo bata pelos sítios 
o eco de um tambor, 

É bem possível 
que a canção vele, oculta nas cidades. 
Que se incline nos nossos pensamentos 
como um espelho lunar, 
duro e pacífico. 
E sob o seu olhar nos desloquemos 
por entre a turbulência. 
E dela venha um íntimo sentido 
e o seu ardor nos saiba 
conduzir. 

Pois deste homem ficou o ofício. 
Os meios. 
Sabemos de que modo se levantam 
as pedras sobre as pedras. 
Sabemos de que modo as aguçar. 

Existe anda 
um cordão de linguagens. 
Vibra teimosamente o ar, movido por sopros e até mesmo
por fadigas.
E a sua voz empurra e alimenta essas circulações.
É o vento do sol
que permanece.




Zeca Afonso (José Afonso) - Vejam Bem
"Cantares do Andarilho" (1968)


"Cantar, dizem, é um afastamento da morte. A voz suspende o passo da morte e, em volta, 
tudo se torna pegada da vida."

in  'Na berma de nenhuma estrada e outros contos'

quarta-feira, 28 de setembro de 2016

"Sonetos do Regresso" - Poemas de Carlos de Oliveira


Henry Mosler (American artist, 1841-1920), The Lost Cause, 1869



Sonetos do Regresso

I

Volto contigo à terra da ilusão, 
mas o lar de meus pais levou-o o vento 
e se levou a pedra dos umbrais 
o resto é esquecimento: 
procurar o amor neste deserto 
onde tudo me ensina a viver só 
e a água do teu nome se desfaz 
em sílabas de pó 
é procurar a morte apenas, 
o perfume daquelas 
longínquas açucenas 
abertas sobre o mundo como estrelas: 
despenhar no meu sono de criança 
inutilmente a chuva da lembrança. 

II 

Acordar, acender 
o rápido lampejo 
na água escusa onde rola submersa 
como o lodo no Tejo 
a vida informe, peso dúbio 
desse cardume denso ou leve 
que nasce em mim para morrer 
no mar da noite breve; 
dormir o pobre sono 
dos barbitúricos piedosos 
e acordar, acender 
os tojos caudalosos 
nesta areia lunar 
ou, charcos, nunca mais voltar.


in 'Cantata'


Ana Moura - Tens os olhos de Deus


sexta-feira, 8 de abril de 2016

"Morena"- Poema de Guerra Junqueiro



Albert Chevallier Tayler (English artist, 1862–1925), Girl Shelling Peas, 1886.


Morena

 
Não negues, confessa
Que tens certa pena
Que as mais raparigas
Te chamem morena.

Pois eu não gostava,
Parece-me a mim,
De ver o teu rosto
Da cor do jasmim.

Eu não... mas enfim
É fraca a razão,
Pois pouco te importa
Que eu goste ou que não.

Mas olha as violetas
Que, sendo umas pretas,
O cheiro que têm!
Vê lá que seria,
Se Deus as fizesse
Morenas também!

Tu és a mais rara
De todas as rosas;
E as coisas mais raras
São mais preciosas.

Há rosas dobradas
E há-as singelas;
Mas são todas elas
Azuis, amarelas,
De cor de açucenas,
De muita outra cor;
Mas rosas morenas,
Só tu, linda flor.

E olha que foram
Morenas e bem
As moças mais lindas
De Jerusalém.
E a Virgem Maria
Não sei... mas seria
Morena também.

Moreno era Cristo.
Vê lá depois disto
Se ainda tens pena
Que as mais raparigas
Te chamem morena! 


Guerra Junqueiro,
in 'A Musa em Férias'



Rodrigo Costa Félix em dueto com Katia Guerreiro
Interpretação do tema "Morena"

sábado, 26 de março de 2016

"Povo que lavas no rio" - Poema de Pedro Homem de Mello


 
Arkady Rylov (Russian and Soviet Symbolist painter, 1870
–1939),
The Mouth of the Orlinka River, 1928.



Povo que lavas no rio


Povo que lavas no rio
Que vais às feiras e à tenda,
Que talhas com teu machado
As tábuas do meu caixão,
Pode haver quem te defenda,
Quem turve o teu ar sadio,
Quem compre o teu chão sagrado,
Mas a tua vida, não!

Meu cravo branco na orelha!
Minha camélia vermelha!
Meu verde manjericão!
Ó natureza vadia!
Vejo uma fotografia…
Mas a tua vida, não!

Fui ter à mesa redonda,
Bebendo em malga que esconda
O beijo, de mão em mão…
Água pura, fruto agreste,
Fora o vinho que me deste,
Mas a tua vida, não!

Procissões de praia e monte
Areais, píncaros, passos
Atrás dos quais os meus vão!
Que é dos cântaros a fonte?
Guardo o jeito desses braços…
Mas a tua vida, não!

Aromas de urze e de lama!
Dormi com eles na cama…
Tive a mesma condição
Bruxas e lobas, estrelas!
Tive o dom de conhecê-las…
Mas a tua vida, não!

Subi às frias montanhas,
Pelas veredas estranhas
Onde os meus olhos estão
Rasguei certo corpo ao meio…
Vi certa curva em teu seio…
Mas a tua vida, não!

Só tu! Só tu és verdade!
Quando o remorso me invade
E me leva à confissão…
Povo! Povo! Eu te pertenço.
Deste-me alturas de incenso.
Mas a tua vida, não!

Povo que lavas no rio,
Que vais às feiras e à tenda,
Que talhas com teu machado
As tábuas do meu caixão,
Pode haver quem te defenda,
Quem turve o teu ar sadio,
Quem compre o teu chão sagrado,
Mas a tua vida, não!


Pedro Homem de Mello, in "Miserere"


Dulce Pontes - Povo que lavas no rio

terça-feira, 4 de agosto de 2015

"Sei de um rio" - Poema de Pedro Homem de Mello


Fotografia de Rui Videira, Rio Douro, Porto, Portugal 


Sei de um rio


Sei de um rio…
Sei de um rio
Em que as únicas estrelas
Nele, sempre debruçadas
São as luzes da cidade

Sei de um rio…
Sei de um rio
Rio onde a própria mentira
Tem o sabor da verdade
Sei de um rio

Meu amor, dá-me os teus lábios!
Dá-me os lábios desse rio
Que nasceu na minha sede!
Mas o sonho continua…

E a minha boca (até quando?)
Ao separar-se da tua
Vai repetindo e lembrando
“– Sei de um rio…
Sei de um rio…”

Sei de um rio…
Ai!
Até quando?


Pedro Homem de Mello


CAMANÉ - "Sei de um Rio"
(Composição: Pedro Homem de Mello e Alain Oulman)


"Tudo aquilo que, até hoje, escrevi ou mostrei, resultou, apenas, do que sentiram, durante meio século, os meus olhos, os meus ouvidos, os meus pés (e o mesmo será dizermos o meu corpo e a minha alma!) de bailador." -  Pedro Homem de Mello

[Pedro da Cunha Pimentel Homem de Melo (Porto, 5 de Setembro de 1904 — Porto, 5 de Março de 1984) foi um poeta, professor e folclorista português.]

domingo, 28 de junho de 2015

"O Corpo Exige" - Poema de Affonso Romano de Sant'Anna


 
António Neves (Artista plástico português, n. 1963), Porto - Elétrico, Técnica Mista


O Corpo Exige

 
Presto distraída atenção ao meu corpo. 
O que me pede, eu faço. 
Às vezes, não entendo logo suas ordens, mas 
cedo sempre. 
Me achego a ele e indago: 
-O que queres? Ah, é isso? Então, concedo. 
Sempre que eu resisti 
um de nós saiu-se mal. 

Nas 24 horas do dia, ele pede, 
e quando cala, fala 
num discurso de sonhos 
que me abala. 

Ele sabe. Eu sei que ele sabe, 
e sabe antes de mim, e nele 
eu sei dobrado, sou um-e-dois 
como os dois cortes de um sabre.




António Zambujo - "Pica do 7"
António Zambujo (Site Oficial) e  Sandra Barata Belo
 

Amor e Medo

Estou te amando e não percebo,
porque, certo, tenho medo.
Estou te amando, sim, concedo,
mas te amando tanto
que nem a mim mesmo
revelo este segredo.
 



quinta-feira, 17 de julho de 2014

"Dezasseis anos talvez" - Poema de António Manuel Couto Viana


 Ron Hicks (American Impressionist painter, b. 1965)


Dezasseis anos talvez


Dezasseis anos, talvez. 
Vejo-a, no café, cada manhã, 
A folhear, atenta, um compêndio de inglês, 
Com um perfume a Escola e a maçã. 

Não me canso de a olhar. Às vezes, olha 
(Um velho!), num desvio de atenção, 
E logo volta a folha, 
Enquanto molha 
o bolo no «galão». 

Eu saio, com pesar, bebida a «bica». 
Ela é a minha manhã, 
Tão natural, tão clara... que ali fica. 

- Que saudades da Escola! Que fome de maçã!


António Manuel Couto Viana, 
in 'Café de Subúrbio'


António Manuel Couto Viana

Poeta, encenador, ator e professor, António Manuel Couto Viana, nascido a 24 de janeiro de 1923, em Viana do Castelo, foi codiretor de Távola Redonda e diretor de Graal. Os primeiros livros de poesia de Couto Viana contrapõem-se, pelo equilíbrio e rigor formais e assunção da sinceridade lírica, ao contexto da poesia portuguesa do final da primeira metade do século, que oferecia "o aspeto de um acampamento desordenado e ruidoso, com pretensas mensagens tremulando no topo de mastros mal firmados" (cf. MOURÃO-FERREIRA, David - "De "O Avestruz Lírico" Até "A Face Nua", in Uma Vez - Uma Voz, 1985, p. 12). A participação no projeto da Távola Redonda, cujo título retoma um poema de António Manuel Couto Viana, datado de 1949, e publicado no fascículo 7, integra o poeta num grupo de autores que fixam como caminho para a aventura estética a busca de uma voz "pura e verdadeira", orientada para a "revalorizaçãodo lirismo", e exigindo ao poeta "autenticidade e um mínimo de consciência técnica, a criação em liberdade e, também, a diligência e capacidade de admirar, criticamente, os grandes poetas portugueses de gerações anteriores a 1950. Sem reservas ideológicas oupreconceitos de ordem estética" (VIANA, António Manuel Couto - "Breve Historial" in As Folhas Poesia Távola Redonda, Boletim Cultural daFundação C. Gulbenkian, VI série, n.º 11, outubro de 1988). Destes princípios brota uma poesia que se aproxima metricamente das matrizes tradicionais, com ligação, no aproveitamento de temáticas dos romanceiros, à tradição oral. Ao mesmo tempo, a poesia revela o contexto literário em que nasce, procurando o poeta, pela ironia, tentar superar "o receio do desacordo entre o tipo de poesia que pode fazer e aquele que o momento exige"(MOURÃO-FERREIRA, David, ibi, p. 13), dando voz, sobretudo a partir de Mancha Solar, à angústia e pessimismo de uma geração pós-guerra, que vive na iminência traumática de uma catástrofe universal ("vivemos ainda, mas sobre o abismo irremediável", "Aviso Inútil") e de uma nação bloqueada num regime totalitário, embora o poeta se mantenha sempre fiel a uma voz íntima e alheio aos "mitos de aluguer", ao partido "Dos homens gastos por bandeiras gastas, / Vigilantes de livros e de castas, / Emdefesa do mundo dividido" ("Pátria Exausta").

In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2014. [Consult. 2014-07-16].



Pintura de Ron Hicks 



"Quando somos jovens, temos manhãs triunfantes."


Victor Hugo 


Os Azeitonas - 'Quem és tu miúda'

quarta-feira, 26 de março de 2014

"A música o luar e os sonhos são as minhas armas mágicas" - Texto de Fernando Pessoa


 Éguas de manada, 1929, óleo sobre tela, 106 x 126 cm
 
 
 
A música, o luar e os sonhos são as minhas armas mágicas


« – A música, o luar e os sonhos são as minhas armas mágicas. Mas por música não deve entender-se só aquela que se toca, se não também aquela que fica eternamente por tocar. Por luar, ainda, não se deve supor que se fala só do que vem da lua e faz as árvores grandes perfis; há outro luar, que o mesmo sol não exclui, e obscurece em pleno dia o que as coisas fingem ser. Só os sonhos são sempre o que são. É o lado de nós em que nascemos e em que somos sempre naturais e nossos. – Mas, se o mundo é ação, como é que o sonho faz parte do mundo? – É que o sonho, minha senhora, é uma ação que se tornou ideia; e que por isso conserva a força do mundo e lhe repudia a matéria, que é o estar no espaço. Não é verdade que somos livres no sonho? – Sim, mas é triste o acordar... – O bom sonhador não acorda. Eu nunca acordei. Deus mesmo duvido que não durma. Já uma vez ele mo disse.»

Fernando Pessoa, in A Hora do Diabo


Simão César Dórdio Gomes, Dois banhistas à beira do Douro, 1928



Simão César Dórdio Gomes, Autorretrato da Natureza Morta, 1924
 
 
Biografia
 
Simão César Dórdio Gomes nasceu em Arraiolos a 26 de Julho de 1890 e morreu no Porto em 1976. Com 12 anos apenas matriculou-se na Academia de Belas Artes de Lisboa, que frequentou entre 1902 e 1910. Aí teve como mestres mais marcantes Luciano Freire, em Desenho, e Veloso Salgado, em Pintura. Embora este último o tenha de algum modo influenciado, as suas primeiras obras revelam sobretudo o fascínio que sobre ele exercia Columbano, com os seus tons sombrios. 
Em 1910 ganhou em concurso uma bolsa do legado Valmor, que lhe permitiria continuar os estudos em Paris, para onde seguiu na companhia do seu amigo e colega o escultor Francisco Franco. Aí frequentou a Academia Julian e as aulas de Jean-Paul Laurens, mas em 1911 a estadia foi interrompida por questões que envolveram os bolseiros (Francisco Franco, Santa-Rita, José Campas e o próprio Dordio) e o ministro de Portugal em Paris, João Chagas. 
Apesar dos contactos que teve em Paris e da companhia de outros artistas, como Santa-Rita ou Eduardo Viana, que tão grande importância teriam no movimento modernista português, neste período pouca alteração sofreu a pintura de Dordio Gomes que, de regresso a Portugal, se radicou de novo em Arraiolos durante 10 anos, seguindo a senda regionalista tradicional, que aprendera na escola. 
Em 1921 foi-lhe renovada a bolsa e partiu novamente para Paris, onde permaneceu ate 1926. Este 2º período viria a ser decisivo na obra de Dordio Gomes. Apesar de frequentar a Escola Nacional de Belas Artes de Paris e o atelier de Ferdinand Cormon, o contacto com as novas correntes e movimentos internacionais, bem como a frequência da tertúlia de artistas portugueses que viviam em Paris na altura, como Diogo de Macedo, Abel Manta, Manuel Jardim, Heitor Cramês, entre outros, permitiram-lhe dar à sua obra um cunho moderno. 
Deixando de lado Columbano e o naturalismo tradicional, sofreu uma nítida influência de Cezanne, na cor e forma, fazendo até uma breve e incipiente incursão pelo cubismo, que nunca assimilou totalmente; datam desta época as suas obras mais conhecidas: as Casas de Malakoff e o Autorretrato da natureza morta. Durante esta estadia teve ainda oportunidade de visitar outros países, como a Bélgica, a Suíça e a Holanda, e ainda de passar oito meses em Itália, país que viria a ter grande importância na obra futura deste artista, pelo interesse que lhe despertou a pintura a fresco, através do conhecimento direto que teve da obra dos grandes mestres italianos. 
De regresso a Portugal, deteve-se seis anos no Alentejo, entrando a sua obra na 3ª fase, de volta à temática regionalista, mas com um tratamento completamente diferente das suas primeiras pinturas, continuando a fazer-se sentir a influência de Cezanne no arrojo da forma e na exuberância da cor, que chega a ser violenta. São deste período inúmeras obras com motivos da paisagem alentejana, onde sobressaem os sobreiros e os cavalos em liberdade e ainda a decoração do salão nobre dos Paços do Concelho de Arraiolos com 11 painéis dedicados aos trabalhos e à vida da terra alentejana, que ele criticou, mais tarde, na sua autobiografia pela “urdidura álacre e dissonante, destituída de verdadeiro senso estético ou decorativo”, mas que revelam a originalidade do pintor no tratamento dos temas regionais. 
Em 1933 concorreu ao lugar de professor de pintura da Escola Superior de Belas Artes do Porto, sendo admitido em 1934 e aí se mantendo ate ao jubileu em 1960. O entusiasmo e abertura que sempre pôs na sua atividade docente foram determinantes para a renovação do ensino nesta Escola, permitindo a formação de uma geração de artistas modernos que se distinguiram nas décadas seguintes.
Com a vinda para o Norte, começou uma nova fase da obra de Dordio Gomes. A paleta viva e quente, própria para as terras alentejanas, com a sua luminosidade agressiva e contrastante, foi substituída por outra mais suave e que transmite a luz difusa da atmosfera do Porto. O rio Douro com a sua paisagem e os seus trabalhos característicos foi o tema preferencial desta época. Mas foi também o período em que se dedicou à pintura a fresco, velho sonho desde a viagem a Itália, executando decorações em vários interiores do Porto: antigo café Rialto em 1944, Baptistério da Igreja de Nª Srª da Conceição em 1947, Livraria Tavares Martins em 1948, Igreja de Nª Srª do Perpétuo Socorro em 1952, Igreja dos Redentoristas em 1953, Escola Superior de Belas Artes do Porto em 1954, Câmara Municipal do Porto em 1957.
Ao longo da sua vida, Dordio Gomes participou em inúmeras exposições, quer dentro dos esquemas tradicionais, por exemplo das exposições anuais da Sociedade Nacional de Belas Artes (entre 1913 e 1919 sem interrupção e depois até 1942 espaçadamente), quer integrado nos modernistas, a cuja primeira geração pertenceu. Foi assim que fez parte dos 5 Independentes (com Diogo de Macedo, Henrique e Francisco Franco e Alfredo Migueis) que expuseram em 1923 na Sociedade Nacional Belas Artes, grupo de pintores e escultores residentes em França na altura, e que, declarando-se “independentes de tudo e de todos” vieram abanar um pouco o meio artístico, constituindo esta exposição a “primeira manifestação modernista dos anos 20” (J. A. França).
Em 1930 foi um dos expositores do I Salão dos Independentes, onde se reuniu grande parte dos artistas modernos de então. Participou também nas Exposições de Arte Moderna organizadas pelo Secretariado de Propaganda Nacional / Secretariado Nacional de Informação em Lisboa e no Porto, sendo-lhe atribuído em 1938 o prémio Columbano e, em 1945, o prémio António Carneiro. Em Lisboa ainda, é de salientar a sua presença nas Exposições de Artes Plásticas da Fundação Calouste Gulbenkian, onde recebeu o 1º prémio de pintura, em 1957 e fez parte do júri, em 1961. No Porto participou em várias exposições coletivas e nas Exposições Magnas da Escola Superior de Belas Artes do Porto, como professor, entre 1954 e 1960, sendo alvo de uma homenagem nesta última, por ocasião do seu jubileu, em que foi agraciado com a insígnia de Cavaleiro da Ordem de Santiago de Espada. 
Concorreu a inúmeras exposições no estrangeiro, de que salientamos a Exposição Internacional do Rio de Janeiro, em 1922, e a Exposição Internacional de Paris, em 1937, tendo recebido em ambas a medalha de ouro, a XXV Bienal de Veneza, em 1950, as Bienais de S. Paulo, em 1951, 1953 e 1955 e a Exposição Internacional de Bruxelas, em 1958. A sua primeira exposição individual foi apresentada na Sociedade Nacional de Belas Artes em 1923, com as obras do 2º período alentejano. Em 1946, foi a vez do Porto, na Livraria Portugália; em 1956 o Museu de Évora organizou uma Retrospetiva da Pintura de Dordio Gomes; em 1965 outra Retrospetiva, desta vez na companhia de Abel Manta, foi levada a cabo pela Sociedade Nacional de Belas Artes; em 1975 foi novamente o Porto, na Galeria do Jornal de Notícias. Já depois da sua morte, ocorrida em 22 de Julho de 1976, a Escola Superior de Belas Artes do Porto organizou em 1978 uma homenagem a mestre Dordio Gomes. (Daqui)
 
 
 
Simão César Dórdio Gomes. "Fado do ciúme" - Amália Rodrigues