terça-feira, 21 de julho de 2026

"Harmonia" - Poema de Miguel Torga

  

Tove Jansson (Finland-Swedish author, novelist and comic strip author, painter
and illustrator, 1914–2001), 'Family', 1942, Private Collection.

 
Harmonia 


Feliz canto das aves,
Sem possível
Compreensão;
Feliz rumo dos astros,
Sem possível
Desvio;
Feliz fúria do vento,
Sem possível
Arrependimento.

E feliz o poeta
Que ninguém lê.
Que sozinho contempla
O nascimento e a morte
Dos seus versos.
Pai acabado que no próprio corpo
Gera os filhos
E lhes dá ternura
Do berço à sepultura.


Miguel Torga,
in 'Orfeu Rebelde', 1958

***


Tove Jansson, 'Self-portrait with Wicker Chair', 1937.
 Private Collection
 

Tove Marika Jansson (1914–2001) nasceu em Helsínquia, numa família de artistas, que fazia parte da minoria sueca na Finlândia. Estudou Artes no seu país, em Estocolmo e finalmente na Escola de Belas-Artes de Paris, tendo realizado a sua primeira exposição a solo em 1943. Tornou-se conhecida também como escritora e ilustradora. Publicou o primeiro livro dos Mumins durante a Segunda Guerra Mundial, em 1945, pois o conflito deprimia-a e por isso “quis escrever sobre qualquer coisa inocente”. No ano seguinte, editou O Cometa na Terra dos Mumins e, em 1948, A Família dos Mumins, que a tornaram famosa e a escritora finlandesa mais lida. Em 1966, recebeu o Prémio Hans Christian Andersen de literatura infantil pelo conjunto da sua obra.

 
Tove Jansson, 'The Moomins'


A Família Mumin - em sueco: Mumintrollen - ou a família Moomin, é uma família de ficção literária, criada pela escritora sueco-finlandesa Tove Jansson
A família vive numa casa no Vale dos Mumin (Mumindalen), e é composta pelo Mumin (Mumintrollet), pela Mãe Mumin (Muminmamma) e pelo Pai Mumin (Muminpappa). Como vizinhos, eles têm o tímido Sniff, a traquinas Lilla My, o vagabundo Snusmumriken, a namorada de Mumin, Snorkfröken, o vagaroso Hemulen e a nervosa Filifjonkan. Nas montanhas assustadoras a leste do vale, mora a monstruosa Mårran, e um pouco por toda a parte os incompreensíveis Hattifnattarna.  (daqui)

 
Tove Jansson
, 'A Famílias dos Mumins'
Tradução: Mafalda Eliseu
Relógio D'Água, 2015
 

Descrição 
 
 [A Família Mumin (edição brasileira) ou A Família dos Mumins (edição portuguesa)]
 
A primavera chegou ao vale dos Mumins, assim como uma cartola mágica que o Mumintroll e os seus amigos Farisco e Sniff descobrem, e que pode transformar qualquer coisa ou alguém em seja o que for. 

«Um tesouro perdido, agora redescoberto… Uma obra–prima.»
 Neil Gaiman

«Jansson era um génio de um modo subtil. Estas histórias simples estão repletas de emoções únicas, profundas e complexas, como jamais se viram em literatura para crianças ou adultos.»
 Philip Pullman 

«Tove Jansson é, sem dúvida, uma das maiores escritoras de livros para crianças.» 
 Sir Terry Pratchett (daqui)
 

'The Moomins', comic book cover by Tove Jansson. From left to right:
Sniff, Snufkin, Moominpappa, Moominmamma, Moomintroll (Moomin), 
the Mymble's daughter, Groke, Snork Maiden and Hattifatteners.



Tove Jansson, 'Moominmama, Moominpapa and Little My'



"Arte e vida se misturam.
 Fantasia e realidade se acrescentam."


Affonso Romano de Sant'Anna

[Escritor e poeta brasileiro, 1937–2025]


segunda-feira, 20 de julho de 2026

"Deslumbramento" - Poema de Teixeira de Pascoaes



Albert Bierstadt (German-American painter, 1830–1902),
'Sunrise on the Matterhorn', between 1867 and 1897.
Metropolitan Museum of Art, New York City.


Deslumbramento


A vida é sonho, amor, exaltação.
Flama a irromper de eterna escuridão.
É lume a flor e a sombra amanhecente.
A terra é carne, a luz é sangue ardente.
Gira líquida chama em cada veia
E que alegria as nuvens incendeia!
Contemplai, sob os raios matinais,
O delírio e a vertigem dos cristais,
Entre cintilações, gritando e rindo,
Abrasados de luz, tremeluzindo!
No alvor da aurora, as aves resplandecem,
No coração do orvalho, sóis florescem,
No coração dos homens solitários,
Há Cristos a subir ermos calvários.
Cantam as fontes, doidas de ternura;
Seu canto veste os montes de verdura!
E esse infinito Vácuo tenebroso,
Quando o sensibiliza o sol radioso,
Sente grande prazer, grande alegria
E assim nos comunica a luz do dia!
E que loucura as ondas alevanta,
Quando o luar misterioso canta!
Ó mar, à luz do luar! Ó mar profundo,
Em choros que se espalham sobre o mundo!
Ó anjo imenso que, na mão, sustentas
O cálix da amargura e das tormentas!
Tudo é sonho e desejo; céu e inferno.
Abrasa tudo o mesmo fogo eterno.
Vive uma estrela oculta no rochedo,
Crepita a seiva ardente do arvoredo.
Têm pétalas de chama a rosa, o lírio.
A substância das cousas é o delírio.
A vida não é mais que sentimento;
Grande incêndio ateado pelo vento
Do mistério sem fim que esconde Deus
E enluta de negrume o azul dos céus!
A vida é uma rajada esplendorosa,
Perpassando e animando cada cousa
É doido torvelinho, que se eleva
E rasga, de alto a baixo, a fria treva,
Desvendando figuras repentinas,
Formas do amor, aparições divinas!
Poetas, cantai, banhados no clarão,
Que alvorece da infinda comoção,
Que de estrelas orvalha a Imensidade
E em meus olhos é lágrima e saudade...
Poetas, cantai a vida, o bem e o mal!
Consumi-vos no incêndio universal,
Que enche de labaredas o Infinito!
E é Deus, talvez, num desespero!
Um grito De Deus! Grito de dor incandescente,
Na eterna escuridão, eternamente!


Teixeira de Pascoaes
(1877–1952), 
in 'Vida Etérea', 1906



Albert Bierstadt, 'Sundown at Yosemite', c. 1863, Thyssen-Bornemisza Museum


"Admiramos o mundo através do que amamos."

Alphonse de Lamartine
[Autor, poeta e estadista francês, 1790–1869]


domingo, 19 de julho de 2026

"Tempo de luta" - Poema de José Henrique dos Santos Barros

 


Jean Béraud (Peintre français, 1849–1935), 'La sortie du lycée Condorcet', 1903


Tempo de luta


No tempo em que lutámos
com espadas de pau e pistolas de dedos
nesse tempo em que sabíamos
que a mãe era o totem todo‑poderoso
que perseguia os índios e ganhava a guerra
e só nos exigia o sacrifício dos sapatos limpos
no tempo em que o mundo era uma bola alegre
igual à do futebol que o pai do João comprou
livres fomos caminhando nas ondas
até que chegámos a uma praia e ficámos
desarmados sem totem sem bola sem sacrifícios fáceis por fazer
desde então muita coisa aconteceu
por exemplo
o João foi à guerra e morreu.


J. H. Santos Barros 
(1946–1983),
in 'Alexandrina, como era – Todos os Poemas'


sábado, 18 de julho de 2026

"Havia um Menino" - Poema de Fernando Pessoa



Pál Balkay
(Hungarian painter and teacher, 1785–1846),
 'The Sister and Brother', n.d.


Havia um Menino


Havia um menino
que tinha um chapéu
para pôr na cabeça
por causa do sol.

Em vez de um gatinho
tinha um caracol.
Tinha o caracol
dentro de um chapéu;
fazia-lhe cócegas
no alto da cabeça.

Por isso ele andava
depressa, depressa
pra ver se chegava
a casa e tirava
o tal caracol
do chapéu, saindo
de lá e caindo
o tal caracol.

Mas era, afinal,
impossível tal,
nem fazia mal
nem vê-lo, nem tê-lo:
porque o caracol
era do cabelo.


Fernando Pessoa (1888–1935),
in 'O Meu Tio Fernando Pessoa', de Manuela Nogueira.
Famalicão: Centro Atlântico, 2015. p. 87

[Poema dedicado ao sobrinho Luís Miguel – o Bebé –
que não queria pôr o chapéu “por causa do sol”.]


 
(daqui)



"Pedi tão pouco à vida e mesmo esse pouco a vida me negou." 


Bernardo Soares, semi-heterónimo de Fernando Pessoa, in 'Livro do Desassossego' - Vol.II.
Org. e fixação de inéditos de Teresa Sobral Cunha. Lisboa: Presença, 1990.
 
 

sexta-feira, 17 de julho de 2026

"Diálogos do jardim" - Poema de Cecília Meireles



Victor Gabriel Gilbert (French painter, 1847–1935), 'Her New Friend', n.d.



Diálogos do jardim


Debaixo de tanto calor,
o pássaro arranjou um ramo verde e fresco,
e pôs-se a falar.

O pássaro perguntava-me:
"Lembras-te das grandes árvores,
com lágrimas douradas de resina?"

Respondi-lhe que sim, que me lembrava,
que naquele tempo ouvíramos falar em âmbar,
e queríamos fazer colares de resina:
mas em nossas mãos ela perdia a transparência.

"Lembras-te dos cajus maduros,
caindo fofamente na folhagem morta do chão?"

Respondi-lhe que sim, que ainda os via,
muito longe, amarelos e túrgidos,
às vezes, rebentados, na queda,
escorrendo, perfumosos, sumo doce.

"Lembras-te das rodelinhas douradas
que a folhagem e o sol balançavam por cima dos livros?"


Respondi-lhe que sim, e que eram livros de histórias,
e foram depois romances, e um dia poemas,
e mais tarde pensamentos difíceis...

E o passarinho perguntava:
"Lembras-te da tua voz devolvida pelo eco?"

E eu me lembrava, mas não das palavras,
só que as respostas eram sempre incompletas.

"E o recorte da montanha, no horizonte,
lembras-te como era azul e negro? E as palmeiras?
E as sebes de flores encarnadas?"

E eu me lembrava de tudo, e sentia o aroma da tarde,
e o canto das cigarras, e o lamento dos sabiás
e das rolas,
e via brilhar a bola azul do telhado, que amei tanto,
e sentia, tão doce, a minha perpétua solidão.

E perguntei ao pássaro: "Onde estavas,
para me perguntares tudo isso?
Também já viveste tanto?"


E ele me respondeu: "Não, tudo isso está no fundo dos teus olhos.
Eu só vou perguntando o que estou lendo...
E, porque o leio, canto." 
 

Cecília Meireles
(1901–1964)
in  'Dispersos'


quinta-feira, 16 de julho de 2026

"Saber dar o lugar" - Poema de José Jorge Letria


 
Real Bordalo (Artista plástico português, 19252017), O Elétrico, Lisboa.


Saber dar o lugar

 
No transporte em que viajas,
se logo encontras lugar,
é natural que te apresses
para nele te ires sentar.

É um direito que tens
e não deves recusar,
a não ser que alguém precise
ainda mais do lugar.

A grávida que está de pé
ou o senhor deficiente
precisam que te levantes
para que um deles se sente.

Podes perder o conforto
que repousa e sabe bem
mas ficas com a alegria
de ter ajudado alguém.

E é essa a recompensa
de uma boa educação;
afinal só estamos bem
se os outros também estão.

Se assim fores procedendo,
tendo sempre o outro em vista,
hás de ver que bem que sabe
não querer ser egoísta.


José Jorge Letria, em "Porta-te bem!"
Porto, Ambar, 2003.
 

quarta-feira, 15 de julho de 2026

"Não há mistério" - Poema de Hélder Macedo

 
 
Guilherme Parente (Pintor português, 1940–2025 ), 'Vem por aqui', s.d.



Não há mistério


Não há mistério
há corpos
com saídas e entradas
que se encontram
e articulam o serem divididos

não há não há mistério

e só assim conheço a minha imagem
onde mais me desconheço
no teu corpo
minha imagem verdadeira
como quis sempre não saber

há corpos
corpos apenas que não são embrulhos
de alma
nem morte redimida pela vida

por isso meu amor vejo-me em ti
porque te desconheço
e também te vejo em mim
mas não falo já de mim nem para ti

porque não és o corpo
que reflito
à tua semelhança
que no entanto é tudo quanto sou
sossega meu amor

não há mistério
meu amor
meu excesso frio de paixão
há corpos
há corpos que se encontram
e se sondam
até que os corpos parem de morrer.


Hélder Macedo,
in 'O Lago Bloqueado', 1977
 

 
Hélder Macedo (daqui)

Poeta, romancista e ensaísta português, Hélder Malta Macedo nasceu a 30 de novembro de 1935, em Krugersdorp, na África do Sul. Passou a infância em Moçambique e regressou a Lisboa com 12 anos, tendo mais tarde frequentado a Faculdade de Direito de Lisboa. Ainda na fase da juventude, deu os primeiros passos no domínio da ficção literária, escrevendo um romance e alguns contos que o regime ditatorial instaurado em Portugal censurou, impedindo a sua publicação - o livro foi, após a revolução de 1974, revisto pelo autor, que decidiu não o publicar. Contudo, conseguiu editar o seu primeiro livro de poemas com 21 anos de idade.
Empenhado na sua vida académica, fez uma pausa na escrita que só retomou anos mais tarde. Jovem de convicções anti-fascistas, foi perseguido pela PIDE (Polícia de Intervenção e Defesa do Estado). Aquando da campanha de Humberto Delgado, que recebeu o seu empenhamento entusiasta, não conseguiu iludir a vigilância da ditadura e foi preso.
Exilou-se em Londres em 1960, vindo a formar-se em Literatura e História. Docente do King's College, aí realizou os seus estudos de doutoramento.
Em 1991 e 1998 editou os romances Partes de África e Pedro e Paula, respetivamente, que considera serem reflexo da sua identidade, declarando que neles "há, salvo o erro, uma dicção, uma voz própria, minha?". Intelectual humanista, afirma que a sua obra narrativa, apesar de idealista, "não é de ilusões". Concretamente, Pedro e Paula, romance político e cívico, retrata o que é fundamental numa época, a época de 60, vivenciada pelo autor e caracterizada pela total ausência de liberdade e por uma guerra colonial que afetava milhares de famílias portuguesas. Por isso, afirma Hélder Macedo que esta obra "prende-se com a sua própria memória portuguesa dos anos de ditadura e guerra colonial". Reavaliando a história portuguesa de um passado muito recente, este romance constituiu um sucesso no meio editorial.
Coorganizador de Folhas de Poesia, Hélder Macedo colaborou em várias publicações, como Graal, Hidra I ou Colóquio/Letras. No domínio do ensaio, Hélder Macedo distinguiu-se com estudos de crítica literária que apresentavam perspetivas inovadoras sobre a conexão do texto literário com o horizonte mental e cultural em que foi produzido. Dessa bibliografia ensaística merecem especial destaque os conhecidos estudos Do Significado Oculto da "Menina e Moça" (prémio da Academia de Ciências de Lisboa) e Camões e a Viagem Iniciática, onde o privilégio de uma interpretação esotérica permitiu a explanação de um sentido novo para textos clássicos da literatura portuguesa.
No domínio da poesia, Hélder Macedo, tendendo a estabelecer nexos de intertextualidade a nível de temas e formas com alguns dos seus autores de eleição, nomeadamente com Camões e Cesário Verde, ocupa pelo equilíbrio que mantém entre discursividade e formas rítmicas, entre metaforização e expressão pessoal, um lugar singular na atual poesia portuguesa.
Publicou Vícios e Virtudes (2000) e o livro Viagem de Inverno e Outros Poemas, uma coletânea da sua poesia, editada pela Editora Record, do Brasil.
Tendo vivido em Portugal entre 1975 e 1980, onde exerceu, durante um curto período, funções públicas e políticas, Hélder Macedo tornou-se professor de Literatura Portuguesa no King's College de Londres, onde se encontra a viver há anos, embora nunca abdicando da sua condição de português livre. (daqui)

terça-feira, 14 de julho de 2026

"Amor sem fruto, amor sem esperança" - Poema de Manuel Maria Barbosa du Bocage



Gillis van Tilborgh (Flemish painter, c.1625–c.1678), 'Village Inn', c. 1657–1659,
Hermitage Museum


Amor sem fruto, amor sem esperança


Amor sem fruto, amor sem esperança
É mais nobre, mais puro,
Que o que, domando a ríspida esquivança,
Jaz dos agrados nas prisões seguro.

Meu leal coração, constante e forte,
Vendo a teu lado acesos,
Flérida ingrata, os ódios, os desprezos,
O rigor, a tristeza, a raiva, a morte,
Forjando contra mim, por ordem tua,
Mil setas venenosas,
Em prémio destas lágrimas saudosas,
Inda assim continua
A abrasar-se em teus olhos... Vis amantes,
Corações inconstantes,
De sórdidas paixões envenenados,
Vós, a cujos ardores,
A cujos desbocados
Infames apetites
A Virtude, a Razão não põe limites,
Suspirai por ilícitos favores,
Cevai-vos em torpíssimos desejos,
Tratai, tratai de louco um amor casto,
Que eu nos grilhões que arrasto;
Tão limpos como o Sol, darei mil beijos.

Peçonhenta aliança,
Vergonhoso prazer, de vós não curo;
De ti, sim, porque és puro,
Amor sem fruto, amor sem esperança.


Manuel Maria Barbosa du Bocage
,
in 'Excerto de Flérida - Idílio Pastoral'



Obras de Gillis van Tilborgh

Gillis van Tilborgh (Flemish painter, c.1625–c.1678), 'A picture gallery', c.1660–1670
 


Gillis van Tilborgh, 'Elegant Company', c. 1655–1675
 


Gillis van Tilborgh, 'Family Portrait', c.1665, Mauritshuis.
 
 

Gillis van Tilborgh, 'A Noble Family at Meal' ('Family Portrait'), c. 1665–1670,
Museum of Fine Arts, Budapest
 
 
"A nossa vida não é espiritualmente senão uma vivência perene de valores. Viver é tomar posição perante valores e integrá-los em nosso mundo, aperfeiçoando nossa personalidade na medida em que damos valor às coisas, aos outros homens e a nós mesmos. Só o homem é capaz de valores, e somente em razão do homem a realidade axiológica é possível." 

Miguel Reale, 'Filosofia do Direito'
 
[Miguel Reale (São Bento do Sapucaí, 6 de novembro de 1910 – São Paulo, 14 de abril de 2006) foi um jurista, filósofo, ensaísta, advogado, poeta, memorialista, teórico integralista e professor universitário brasileiro.] 
 


Gillis van Tilborgh, 'The Interior of a School Room', 1660


"Mestre, depois de pai, é o nome mais nobre e mais doce que um homem pode dar a outro."

Edmondo De Amicis, em "Cuore" ("Coração"), 1886 


segunda-feira, 13 de julho de 2026

"Éclogas pequenas em que fala um só pastor" - Poema de José Dantas Motta

 

 
Paulus Potter (Dutch painter, 1625–1654), 'The Young Bull', 1647,
Mauritshuis, The Hague, Netherlands.



Éclogas pequenas em que fala um só pastor

 
No Sertão das Vacarias o leite e o País
escorriam do mistério e das estrelas serranas.
As vacas, ruminando o tempo,
pastavam o sereno num campo de bíblias.

E foram delas, Joaquina, e foram delas
que Jó nasceu, o Cristo e meu pai.
E o eu sabê-lo morto, mortas sei as invernadas,
por isto, substituindo-o na paterna casa,
aonde agora razão venho dar de mim,

esforço envidei por que corresse ainda,
nas margens de um sentido crepúsculo,
um novo rio que da pobreza manasse.
Tudo o que eu pude dar-vos dela,
em sossego e noite, perdi. Porque a noite,

hoje em mim, é apenas lembrança de poesia,
sol e crescimento. Contudo
nela ainda precisamos crer, Joaquina,
como a morada da paz, da nostalgia
e da conformação, além do que

todos os dias são prisões, nunca exílio.
E se eu em Deus outra vez vier a crer,
e esta carcaça, de novo, Ele se dignar
de bem cavalgar, que o faça à noite
com seus túmulos e suas estrelas,

porque, em verdade, o dia me envelhece.
De facto eu creio que morri.
E quem não morreu, Joaquina?
 
 
José Dantas Motta
(Escritor e poeta brasileiro, 1913–1974)



Eugène Lepoittevin
(French painter, lithographer, illustrator and cartoonist, 1806–1870),
'Paul Potter painting the Young Bull', 1843.


"O Homem é o único animal que pode permanecer, em termos amigáveis, ao lado das vítimas que pretende comer antes de comê-las."
 
"Man is the only animal that can remain on friendly terms with the victims he intends to eat until he eats them." 
 
  Samuel Butler (English novelist and critic, 1835–1902), in 'The Note-Books of Samuel Butler';
Selections arranged and edited by Henry Festing Jones, 1912. 
 

domingo, 12 de julho de 2026

"Gata Angorá" - Poema de J. G. de Araújo Jorge



Arthur Heyer
(German-Hungarian painter, 1872
1931),
 "Angora Cat on Chair",  n.d.
 
 
Gata Angorá


Sobre a almofada rica e em veludo estofada
caprichosa e indolente como uma odalisca
ela estira o seu corpo de pelúcia, – e risca
um estranho bordado ao centro da almofada...

Mal eu chego, ela vem... (nunca a encontrei arisca)
– sempre esse ar de amorosa; a cauda abandonada
como uma pluma solta, pelo chão deixada,
e o olhar, feito uma brasa acesa que faísca!

Mal eu chego, e ela vem... lânguida, preguiçosa,
roçar pelos meus pés a pelúcia, de prata,
como a implorar carícias, tímida e medrosa...

E tem tal expressão, e um tal jeito qualquer,
– que às vezes, chego mesmo a pensar que essa gata
traz no corpo escondida uma alma de mulher! 


J. G. de Araújo Jorge
(1914
1987),
in "Amo!", 1938.
 
 
Arthur Heyer, "In Joyful Anticipation", n.d.
 
 

Arthur Heyer, "Angora cat and kitten with a beetle", n.d.
 


Arthur Heyer"Young Angora Cat",
n.d., oil on canvas, 40 × 50 cm.


Elegia

Não é exclusivo do escritor o entendimento e o amor pelos gatos. Recordo, por exemplo, quanto Chopin amava o gato que acorria à sua companhia, mal o pressentia a dedilhar o piano. Adoçando-lhe as horas convulsivas com a companheira George Sand, o gato não era apenas para o compositor o lenitivo mas também uma compensação e alguma vez, quem sabe, o colaborador de algum som que o gato oferecia ao compositor, ao passar ao longo do piano.

Por mim, que até então não conhecera o convívio com qualquer gato, posso dizer que o meu amor e respeito mantidos pelo Jeremias não me inspiraram apenas o livrinho “Memórias do Senhor Jeremias o Gato das Botas Brancas” mas um amor e uma saudade que as lágrimas não extinguem. Dizem-me que os gatos têm uma alma e eu acredito, tão grande e sensível era o meu diálogo com o Jeremias que aspiro a encontrá-lo um dia, junto de quantos mais amei e já partiram, enlutando a minha solidão de desespero e dor. Sonho com ele e acordo com a sensação de que está a meu lado e me abraça, tocando-me o rosto com o focinhito frio e húmido, como que a querer minorar a minha dor e a minha solidão, em vão varridas pelas muitas lágrimas solitárias de saudade que me ficou quando a sua ausência levou o pouco que me restara da longa vida vivida.

Manuela Azevedo (Jornalista e escritora portuguesa, 1911–2017) (daqui)
 
 

sábado, 11 de julho de 2026

"A Fantasia da Natureza" - Poema de Antero Coelho Neto


 
Reynaldo Manzke (Pintor brasileiro, 1906–1980), 'Vilarejo', 1943.
Aguarela sobre papel, 19 x 28 cm.


A Fantasia da Natureza


Natureza alegre
do despertar repetido
que se eterniza plena
no horizonte colorido.

Ora a chuva cai
molhando terra e corpos.

Ora o pássaro azul
voa em canto e vai
dizendo que existe Deus.

Ora o céu é seco
e os animais sedentos
vagam loucos pelos campos
rachados, ardentes e mortos
parecendo não existir Deus.


Antero Coelho Neto
(Médico, escritor, professor e reitor brasileiro, 1931–2016)
 
 

Reynaldo Manzke, 'Uma carroça na estrada', s.d. Aguarela sobre papel.
 

"Acho que o mundo vai acabar em preto e branco, igual a um filme antigo.
Talvez, enquanto haja cores, consigamos sobreviver."
 

Neil Gaiman

(Autor britânico de contos, romances, banda desenhada e roteiros, n. 1960)
 

sexta-feira, 10 de julho de 2026

"O testamento do gato" - Poema de Luísa Ducla Soares



Regina Shadhan, 'Cat on laptop computer', n.d.


O testamento do gato 


Ai, se um dia eu morrer
não quero ser enterrado,
hei de ficar ao solinho,
em cima do meu telhado.

Levem-me três carapaus
e um pratito de leite.
Comer sempre bons petiscos
é o meu grande deleite.

Convidem três gatas pretas
com unhas bem afiadas,
Pois mesmo depois de morto
preciso de namoradas.

Ai, se eu um dia morrer
não me façam despedidas,
eu volto sempre de novo
que um gato tem sete vidas.


Luísa Ducla Soares,
in 'A Cavalo no Tempo', 2003




'A cavalo no tempo' de Luísa Ducla Soares;
Ilustração de Abigail Ascenso. Porto Editora -
Edição/reimpressão: 01-2015.


SINOPSE
 
Plano Nacional de Leitura

Livro recomendado para o 5.° ano de escolaridade, destinado a leitura orientada.

A passo, a trote ou a galope, todos nós viajamos a cavalo no tempo e nessa viagem descobrimos o mundo, desvendamos os outros, revelamo-nos. Abrimos os olhos para os desacertos do mundo: a guerra, a violência, a solidão. Tomamos consciência da evolução da Humanidade através dos tempos. Com nonsense, sensibilidade e sentido crítico, Luísa Ducla Soares faz-nos pensar e cavalgar no ritmo dos seus poemas.
A coleção Educação Literária reúne obras de leitura obrigatória e recomendada no Ensino Básico e Ensino Secundário e referenciadas no Plano Nacional de Leitura. (daqui)
 

  
Regina Shadhan, 'Three black cats playing with a mouse', n.d.
Acrylic on canvas, 20X20cm.
 

quinta-feira, 9 de julho de 2026

"Quem sempre foi, sempre será" - Poema de Pedro Bandeira


Ralph Hedley
(English realist painter, woodcarver and illustrator, 1848–1913),
'Barred Out', 1896, Laing Art Gallery.


Quem sempre foi, sempre será


No passado e no futuro,
preste muita atenção,
para os dois não misturar,
pois só vai dar confusão!

Os políticos prometem,
se ganharem a eleição.
Se mentiram no passado,
no futuro mentirão!

Os ladrões não tem jeito,
pois em tudo põem a mão.
Se roubaram no passado,
no futuro roubarão!

Os cantores e as cantoras
vão cantar sua canção.
Se cantaram no passado,
no futuro cantarão!

As velhinhas tão doentes
tomam mel com agrião.
Se tossiram no passado,
no futuro tossirão!

Quem disser que estou errado,
que não tenho razão,
saiba que eu estou muito certo,
nisso eu sou um campeão!

Pois quem hoje é um boboca
não vai ter conserto não.
Quem foi bobo no passado,
no futuro é paspalhão.


Pedro Bandeira,
em "Por enquanto eu sou pequeno"
Editora Moderna


♥♥♥

Obras de Ralph Hedley


Ralph Hedley, 'The New Scholar', c. 1900/1906.
 
 

Ralph Hedley, 'The Monitor', 1898.
 
 
 
Ralph Hedley, 'The truant's log', 1899, Private collection.
 

 
Ralph Hedley, 'The Village School', 1912.
 
 
 
Ralph Hedley, 'Home Lessons', 1887.



"A educação exige os maiores cuidados, porque influi sobre toda a vida."

 
 
[Frase atribuída ao filósofo e escritor romano Séneca (c. 4 a.C. – 65 d.C.)]

quarta-feira, 8 de julho de 2026

"O Menino Azul" - Poema de Cecília Meireles



Herbert William Weekes (British painter, 1841–1914), 'Fowl Talk', n.d.


O Menino Azul


O menino quer um burrinho
para passear.
Um burrinho manso,
que não corra nem pule,
mas que saiba conversar.

O menino quer um burrinho
que saiba dizer
o nome dos rios,
das montanhas, das flores,
— de tudo o que aparecer.

O menino quer um burrinho
que saiba inventar histórias bonitas
com pessoas e bichos
e com barquinhos no mar.

E os dois sairão pelo mundo
que é como um jardim
apenas mais largo
e talvez mais comprido
e que não tenha fim.

(Quem souber de um burrinho desses,
pode escrever
para a Ruas das Casas,
Número das Portas,
ao Menino Azul que não sabe ler.)


Cecília Meireles
,
 em 'Ou Isto ou Aquilo', 1964.

♥♥♥ 

Obras de Herbert William Weekes
 
Herbert William Weekes,'The Odd One Out', n.d.
 
 
 
Herbert William Weekes, 'The congregation', n.d.
 
 

Herbert William Weekes, 'Old Friends', n.d.
 

 
Herbert William Weekes, 'The Unlikely Connoisseurs', n.d.
 
 

Herbert William Weekes, 'Meadow Matters', n.d.


Burro

O burro é um mamífero da família dos Equídeos. Os burros selvagens vivem em algumas das regiões mais desertas da terra e resistem bastante bem à escassez de água e de alimentos.
O burro selvagem (Eques africanus) vive no nordeste da África distinguindo-se duas subespécies, uma na 
Somália e outra no deserto da Núbia. Semelhantes no aspeto, ainda que um pouco maiores que o burro doméstico, estão em vias de extinção. Alimentam-se de ervas e bebem água salobra, tolerando bem quer as altas quer as baixas temperaturas. O burro selvagem da Núbia distingue-se do da Somália pelas riscas pretas que mostra nas patas. (daqui)