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domingo, 17 de maio de 2020

"Beijo eterno" - Poema de Olavo Bilac


Joseph Caraud, La déclaration, 1877 


Beijo eterno
 
 
Quero um beijo sem fim,
Que dure a vida inteira e aplaque o meu desejo!
Ferve-me o sangue. Acalma-o com teu beijo,
Beija-me assim!
O ouvido fecha ao rumor
Do mundo, e beija-me, querida!
Vive só para mim, só para a minha vida,
Só para o meu amor!

Fora, repouse em paz
Dormida em calmo sono a calma natureza,
Ou se debata, das tormentas presa, -
Beija inda mais!
E, enquanto o brando calor
Sinto em meu peito de teu seio,
Nossas bocas febris se unam com o mesmo anseio,
Com o mesmo ardente amor!

De arrebol a arrebol,
Vão-se os dias sem conto! E as noites, como os dias,
Sem conto vão-se, cálidas ou frias!
Rutile o sol
Esplêndido e abrasador!
No alto as estrelas coruscantes,
Tauxiando os largos céus, brilhem como diamantes!
Brilhe aqui dentro o amor!

Suceda a treva à luz!
Vele a noite de crepe a curva do horizonte;
Em véus de opala a madrugada aponte
Nos céus azuis,
E Vénus, como uma flor,
Brilhe, a sorrir, do ocaso à porta,
Brilhe à porta do Oriente! A treva e a luz – que importa?
Só nos importa o amor!

Raive o sol no Verão!
Venha o Outono! do Inverno os frígidos vapores
Toldem o céu! das aves e das flores
Venha a estação!
Que nos importa o esplendor
Da primavera, e o firmamento
Limpo, e o sol cintilante, e a neve, e a chuva, e o vento?
Beijemo-nos, amor!

Beijemo-nos! que o mar
Nossos beijos ouvindo, em pasmo a voz levante!
E cante o sol! a ave desperte e cante!
Cante o luar,
Cheio de um novo fulgor!
Cante a amplidão! cante a floresta!
E a natureza toda, em delirante festa,
Cante, cante este amor!

Rasgue-se, à noite, o véu
Das neblinas, e o vento inquira o monte e o vale:
“Quem canta assim?” E uma áurea estrela fale
Do alto do céu
Ao mar, presa de pavor:
“Que agitação estranha é aquela?”
E o mar adoce a voz, e à curiosa estrela
Responda que é o amor!

E a ave, ao sol da manhã,
Também, a asa vibrando, à estrela que palpita
Responda, ao vê-la desmaiada e aflita:
“Que beijo, irmã!
Pudesses ver com que ardor
Eles se beijam loucamente!”
E inveje-nos a estrela... e apague o olhar dormente,
Morta, morta de amor!... 

Diz tua boca: “Vem!”
“Inda mais!”, diz a minha, a soluçar... Exclama
Todo o meu corpo que o teu corpo chama:
“Morde também!”
Ai! morde! que doce é a dor
Que me entra as carnes, e as tortura!
Beija mais! Morde mais! Que eu morra de ventura,
Morto por teu amor!

Quero um beijo sem fim,
Que dure a vida inteira e aplaque o meu desejo!
Ferve-me o sangue: acalma-o com teu beijo!
Beija-me assim!
O ouvido fecha ao rumor
Do mundo, e beija-me, querida!
Vive só para mim, só para minha vida,
Só para o meu amor!
 
 Antologia: Poesias
São Paulo: Martin Claret, 2002,
 p. 57-93, Sarças de Fogo
 

domingo, 12 de janeiro de 2020

"Confissão" - Poema de Charles Bukowski


Joseph Caraud (French painter, 1821-1905), Ball of Yarn, 1863


Confissão


Esperando pela morte
como um gato
que vai pular
na cama
sinto muita pena de
minha mulher
ela vai ver este
corpo
rijo e
branco
vai sacudi-lo talvez
sacudi-lo de novo:
hank!
e hank não vai responder
não é minha morte que me
preocupa, é minha mulher
deixada sozinha com este monte
de coisa
nenhuma.
no entanto
eu quero que ela
saiba
que dormir todas as noites
a seu lado
e mesmo as
discussões mais banais
eram coisas
realmente esplêndidas
e as palavras
difíceis
que sempre tive medo de
dizer
podem agora ser ditas:
eu te
amo. 


(Tradução: Jorge Wanderley, 1938-1999) 


Joseph Caraud, La réussité, 1896



EPITÁFIO


Chegar já foi a partida.
De onde estive até nascer.
Viver só custou a vida.
Não custa nada morrer.


Jorge Wanderley
(1938-1999)

Jorge Wanderley nasceu no Recife, Pernambuco, em 1938. Médico, poeta e tradutor, começou a escrever aos 16 anos de idade, publicando seu primeiro livro Gesta e outros poemas, em 1960. Ainda em sua cidade natal, formou-se em Medicina, com especialização em Neurocirurgia, carreira que abandonaria alguns anos após sua chegada ao Rio de Janeiro, em 1976. Na capital carioca, concluiu mestrado e doutorado em Letras, pela PUC. Nesta universidade e na UFF foi professor de Literatura Brasileira e Teoria da Literatura nos anos 1980.

Conhecido sobretudo como tradutor e crítico literário, não menor foi sua obra própria, que se estendeu ao longo de quatro décadas, resultando em um fazer poético que permaneceu sempre em constante construção, grande parte reunido hoje em sua Antologia Poética, livro publicado postumamente em 2001. Jorge Wanderley  publicou inúmeras crónicas e ensaios literários em revistas e jornais, além de uma dezena de traduções, tanto de clássicos da literatura, de Dante (de quem traduziu todos os poemas esparsos e também os poemas de Vita nuova) a Shakespeare, como de autores contemporâneos, entre os quais Bukowski, com quem muito se identificava, por ver no bardo americano uma reprodução de si mesmo.

Em 1998, finalizou a primeira parte de seu projeto que compreendia a tradução integral d' A Divina Comédia — com a tradução anotada do Inferno, de Dante. Também escreveu ensaios e prólogos acerca de suas traduções, sendo laureado postumamente com o Prémio Jabuti de Tradução Literária, em 2004, pela sua tradução do Inferno.

Jorge Wanderley faleceu no Rio de Janeiro, em 11 dezembro de 1999. (Daqui)