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domingo, 5 de abril de 2026

"Fé" - Poema de Czesław Miłosz



William Brymner (Canadian painter and educator, 1855–1925) & Horatio Walker
(Canadian painter, 1858–1938), "À l'ombre du pommier" (In the shade of the apple tree), 1903,
Musée national des beaux-arts du Québec.


Fé


Fé, é quando vemos
A gota de orvalho ou a folhinha pelo rio fluir
E sabemos que existem pois têm de existir.
E ainda que de olhos fechados nos deixemos sonhar
Só haverá no mundo o que havia
E as águas do rio a folhinha vão levar.

Fé, é quando ferimos
O pé na pedra e sabemos que as pedras
Lá estão para que os pés nos firam.
Vejam quão grande é a sombra das árvores,
Assim como a nossa e a das flores,
O que não tem sombra, não tem força para existir.
in "Alguns gostam de poesia" - Antologia 
 (Poemas de Czesław Miłosz e Wisława Szymborska),
Tradução de Elżbieta Milewska e Sérgio das Neve, 
Editora Cavalo de Ferro, 2004.
 
 

Czesław Miłosz em 1999
 
Czeslaw Milosz foi um escritor polaco nascido a 30 de junho de 1911, em Seteiniai, na Lituânia. Filho de um engenheiro civil, acompanhou a família na sua mudança para o território polaco, em consequência da assinatura do Armistício, fixando-se em Vilna. Aí estudou, licenciando-se em Direito pela Universidade de Vilna em 1934.
Enquanto estudante, publicou o seu primeiro livro, uma coletânea de poemas intitulada Poemat O Czasie Zastyglym (1933). Empreendeu depois uma viagem que o levou até Paris, onde teve oportunidade de estreitar os laços que o uniam a um tio afastado, diplomata e poeta reconhecido em língua francesa. Em 1936 regressou a Vilna, onde não só publicou o seu segundo livro, Trzy Zimy, como passou a trabalhar na emissora de rádio da cidade. Foi despedido no ano seguinte por razões políticas, que o colocavam em simpatia com a esquerda, e mudou-se para Varsóvia, cofundando o movimento literário Zagary. 
Em 1939 a Polónia foi invadida por tropas alemãs, acontecimento que despoletou a Segunda Guerra Mundial. Milosz juntou-se à Resistência, escrevendo artigos em que condenava a ideologia Nacional-Socialista. Em 1945, terminada já a guerra, publicou Ocalenia, obra que lhe valeu a admissão no Corpo Diplomático do regime comunista. A partir de 1946 cumpriu uma missão na representação polaca da cidade de Washington, até que, em 1951, ao ser transferido para Paris, pediu asilo político a França, onde viveu até 1960. Durante esse período publicou Zniewolony Umysl (1953), trabalho que foi traduzido para a língua inglesa com o título The Captive Mind, e em que revela os problemas que afetavam os intelectuais tentando sobreviver sob a alçada de Estaline. Traktat Poetycki (1957), obra em que defende a validade da poesia nas comunidades, foi considerada como uma das suas melhores obras. 
Em 1960 partiu para os Estados Unidos da América, onde se tornou professor catedrático de Línguas Eslavas na Universidade de Berkeley. Tomou a cidadania norte-americana em 1970. No início da década de 80 regressou à Polónia, onde foi acolhido com grandes honrarias, e fixou-se na cidade de Cracóvia. Czeslaw Milosz foi galardoado com vários prémios, entre os quais o Nobel da Literatura em 1980.
Czeslaw Milosz faleceu a 15 de agosto de 2004. (daqui)

quarta-feira, 4 de março de 2026

"Alexandra" - Poema de Joaquim Pessoa



Horatio Walker (Canadian painter, 1858–1938),
"Portrait of a Woman with a Purple Scarf", n.d.



Alexandra


Há pequenas aves que têm raízes nas palavras,
essas palavras que não ficam arrumadas com decência
na literatura,
palavras de amantes sem amor, gente que sofre
e a quem falta o ar quando faltam as palavras.
Quando digo o teu nome há uma ave que levanta voo
como se tivesse nascido o dia e uma brisa
encarcerada nas amêndoas se soltasse para a impelir
para o mais frio, para o mais alto, para o mais azul.
Quando volto para casa o teu nome vai comigo
e ao mesmo tempo espera-me já
numa casa construída com dois nomes,
como se tivesse duas frentes,
uma para a montanha e outra para o mar.
Por vezes dou-te o meu nome e fico com o teu,
espreito então pelas janelas de onde
se veem coisas que nunca antes tinha visto,
coisas que adivinhava mas que não sabia,
coisas que sempre soube mas que nunca quis olhar.
Nessas alturas o meu nome é o teu olhar,
e os meus olhos são justamente a pronúncia do
teu nome que se diz com um pequeno brilho molhado,
um som pequeno como um roçagar de asas
dessas aves que constroem o ninho na folhagem da fala
e criam raízes fundas nas palavras vulgares
que os vulgares amantes engrandecem
quando falam de amor. 


Joaquim Pessoa, in "Guardar o Fogo"



"Guardar o Fogo" de Joaquim Pessoa
Editor: Edições Esgotadas
Edição: junho de 2013

RESUMO

«Os cento e quatro poemas que compõem "Guardar o Fogo" constituem um conjunto coeso, organizado em torno do eixo da criação literária. Se, em obras anteriores de Joaquim Pessoa, esta temática nunca deixou de estar presente, aqui, o processo da criatividade poética é o cerne, a espinha dorsal, o corpo do corpus.
Complexa na sua aparente simplicidade, jogando com a vertente ora lírica ora prosaica da linguagem, a poesia de "Guardar o Fogo", com profundas raízes na “Mãe-terra”, é impetuosa, apaixonada, intimista, luminosa, impregnada de sensualidade. Mas, em concomitância, é uma poesia de pendor existencialista, subtil e afavelmente irónica, terna e doce, com laivos de sombra, inquietação e anticonformismo, um vislumbre e anelo do “azul”, como o azur de Baudelaire ou o um pouco mais de azul de Mário de Sá-Carneiro. A obra deixa transparecer um poeta amadurecido, mais sereno, cujo crescimento no ofício continua a surpreender e a encantar.» 
 

In Prefácio, Maria da Conceição Andrade & Maria Fernanda Navarro (daqui)