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terça-feira, 9 de junho de 2020

"Canto de Outono" - Poema de Ruy Belo


  Ernest De Nagy (Hungarian-American painter, 1881–1952), 'Autumn Woods and Stream'.


Canto de Outono 


Os rouxinóis inexoráveis da primavera
trazidos até nós por certa curta carta
em que canto da noite cantarão agora
que já os frágeis frios vindimam?
E os lilases crudelíssimos de junho
inalteráveis como o céu das férias grandes
talvez desdobradas sobre a adolescência
de que nos valerão perante a insinuante música do outono?
E a mãe que o filho suga a ruga
que mãos estenderá sobre estes rostos
onde poisaram patas implacáveis dias?
E quando o vento verga os choupos do princípio
e despe os ramos dos plátanos familiares
faltará muito que nos cubram provisoriamente
as folhas fatigadas das desoladas árvores?
Já sobe a nossos pés o cedro do silêncio
Promete-nos o sol que sobre os nosso rostos
hão de na primavera ondular os trigos.


Ruy Belo,"Obra Poética de Ruy Belo"
Vol. 2, pág. 14 | Editorial Presença Lda., 1981 


 
Patrick William Adam (Scottish painter, 1854–1929), 'Treescape with Shepherd', 1898


Outono

 A verde folhagem
Dia a dia desbotando...
É chegado o outono!

quarta-feira, 13 de maio de 2020

"Declaração de Amor" - Poema de Carlos Drummond de Andrade


Ernest De Nagy (Hungarian-American painter, 1881–1952), "Gladíolos"


Declaração de Amor


Minha flor minha flor minha flor.
Minha prímula meu pelargônio meu gladíolo
meu botão-de-ouro.
Minha peônia.
Minha cinerária minha calêndula
minha boca-de-leão.
Minha gérbera.
Minha clívia.
Meu cimbídio.
Flor flor flor.

Floramarílis. Floranêmona. Florazálea.
Clematite minha.
Catleia delfínio estrelítzia.
Minha hortensegerânea.
Ah, meu nenúfar.
Rododendro e crisântemo
e junquilho meus.
Meu ciclâmen.
Macieira-minha-do-japão.
Calceolária minha.
Daliabegônia minha.
Forsitiaíris tuliparrosa minhas.
Violeta… amor-mais-que-perfeito.

Minha urze.
Meu cravo-pessoal-de-defunto.
Minha corola sem cor
e nome no chão de minha morte.


Carlos Drummond de Andrade



Declaração de Amor por Carlos Drummond de Andrade


quarta-feira, 26 de fevereiro de 2020

"Prefiro rosas, meu amor, à pátria" - Poema de Ricardo Reis / Fernando Pessoa



Ernest De Nagy (Hungarian-American painter, 1881–1952), Roses, 1927.


Prefiro rosas, meu amor, à pátria


Prefiro rosas, meu amor, à pátria,
E antes magnólias amo
Que a glória e a virtude.

Logo que a vida me não canse, deixo
Que a vida por mim passe
Logo que eu fique o mesmo.

Que importa àquele a quem já nada importa
Que um perca e outro vença,
Se a aurora raia sempre,

Se cada ano com a Primavera
As folhas aparecem
E com o Outono cessam?

E o resto, as outras coisas que os humanos
Acrescentam à vida,
Que me aumentam na alma?

Nada, salvo o desejo de indiferença
E a confiança mole
Na hora fugitiva. 

1-6-1916

Odes de Ricardo Reis
(Heterónimo de Fernando Pessoa)