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terça-feira, 16 de julho de 2024

"Traço Escuro" - Poema de João Rui de Sousa


Julio Romero de Torres (Spanish painter, 1874–1930), 'Horas de angustia', 1904.
Julio Romero de Torres Museum


 
Traço Escuro 
 
 
Quando os dias sangram
e a parede branca é conspurcada
com o carvão das brumas,
com o arquejar de quem, frágil, flutua
entre as vides do sol e o langor
das luas,
apago as luzes todas e o caminho
torna-se um traço escuro que ressoa. 


João Rui de Sousa,
in 'Quarteto para as Próximas Chuvas', 2008



quarta-feira, 3 de julho de 2024

"Da Língua à Palavra" - Poema de José Augusto Seabra



Joseph Ducreux
(French painter, 1735–1802), 'Self-portrait', called 
'La Surprise' ('The surprise'), 1790s, Nationalmuseum.


Da Língua à Palavra...

                                                                                Ao João Rui de Sousa

Da língua à palavra
segrego um espaço
— istmo, alegria
da voz que refaço.

Saboreio a casca
do som que me morre
junto ao sopro quente
que da boca escorre.

Prolongo a carícia
em ouvidos sábios
que a não desperdicem.
E sofro-a nos lábios.
Dentro recomeça
a luta do sangue
com o pensamento.
E a palavra sangra.


José Augusto Seabra,
em 'A Vida Toda', 1961.


Joseph Ducreux, 'Self-portrait', called 'Le Silence' ('The Silence'), 1790s,
 

"É importante cultivar teu poder do silêncio como teu poder da palavra."

"It is as important to cultivate your silence power as it is your word power."


William James, citado em "Touchstones: a book of daily meditations for men‎" -
Página 4, David Spohn, Anonymous - Hazelden Publishing, 1986 - 400 páginas.
 

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

"Roteiro" - Poema de João Rui de Sousa



Gleb Goloubetski (Russian painter, b. 1975)


Roteiro


Meu jeito visionário — meu astrolábio.
Meu ser mirabolante — um alcatruz.
De variadas coisas fiz a minha esperança
e sempre em várias coisas vi a minha cruz.

Aos padrões que em vários pontos encontrei
na rota íntima de vestes tropicais
eu dei as mãos, serenas e intactas,
as minhas dores mais certas e reais. 

Nos vários sítios que — abismos —
toldaram minha voz por um olhar,
eu evitei o perigo e os prejuízos
à voz feita de calma, meu cantar.

Aos rasgos que, de outrora, evocados
foram sempre pelo seu valor,
eu dei a minha tez de dúvida e de espanto,
o meu silêncio amargo, o meu calor,

E aos pontos cardeais que em volta, vacilantes,
desalentavam já meu ser cativo,
parei o gesto, roubei o polo sul da esperança
como lembrança para um dia altivo.


João Rui de Sousa
[Poeta, tradutor e ensaísta português, n. 1928]




Gleb Goloubetski (Russian painter, b. 1975)


"Só numa situação concreta sabemos o que realmente somos."

(Vergílio Ferreira)


quarta-feira, 17 de agosto de 2011

"Ascensão" - Poema de João Rui de Sousa


 
Auguste Rodin, The Kiss, 1882


Ascensão 
 
 
Beijava-te como se sobe uma escadaria:
pedra a pedra, do luminoso para o obscuro,
do mais visível para o mais recôndito
- até que os lábios fossem
não o ardor da sede, nem sequer a magia
da subida,
mas o tremor que é pétala do êxtase,
o lento desprender do sol do corpo
com o feliz quebranto dos meus dedos. 


João Rui de Sousa
,
in 'Obstinação do Corpo', 1996


Auguste Rodin by Edward Steichen, 1902 

Artista francês, Auguste Rodin nasceu a 12 de dezembro de 1840, em Paris, e faleceu em 1917. 
Dotado de um talento natural para a perceção das formas, nunca foi contudo admitido na Escola de Belas-Artes. 
 
A cabeça em argila Homem com o Nariz Partido foi rejeitada pelo Salão de 1864. Tornou-se aluno e assistente de Carrier-Belleuse, executando algumas das encomendas que este recebia. A descoberta da obra de Michelangelo Buonarroti, numa viagem a Itália em 1874, libertou o seu estilo e fez-lhe integrar a importância do modelado. 
 
A controvérsia gerada no Salão de 1877 pela Idade do Bronze acabou por lhe granjear a proteção oficial. Recebeu assim várias encomendas, entre elas o projeto de As Portas do Inferno, o monumento Os Burgueses de Calais e a estátua de Honoré de Balzac.  
 
A sua reputação continuou a aumentar, expondo no Salão de Paris, na Exposição de Bruxelas e na Exposição Universal de 1900. 
 
Rodin quebrava as superfícies para dar novos efeitos de luz, deixava partes por acabar, exprimindo a ideia de a estátua brotar da pedra. 
 
A paixão por Camille Claudel, sua colaboradora e irmã do escritor Paul Claudel, inspirou-lhe as várias versões de O Beijo e outras obras de temática erótica. A última fase de Rodin liga-se ao movimento simbolista e inclui uma série de mãos e de figuras femininas alegóricas.
 
Auguste Rodin. In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora.


Auguste Rodin, Primavera: jovem com chapéu de palha, 1865. 
[Retrato de Rose Beuret-Rodin, esposa do escultor], 
Bronze


Auguste Rodin, 'O Pensador'
 
 
“Eu escolho um bloco de mármore e dele retiro tudo o que não preciso.”
 
Auguste Rodin
 



"O espírito esboça, mas é o coração que modela." 
 
Auguste Rodin


 
Auguste Rodin, 'Os Burgueses de Calais'