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sábado, 28 de março de 2026

"Rumor de água" - Poema de Carlos de Oliveira



Túllio da Costa Victorino (Pintor naturalista português, 1896-1969),
Lavadeiras - Tomar, 1944.


 Rumor de água


Rumor de água
na ribeira ou no tanque?
O tanque foi na infância
minha pureza refratada.

A ribeira secou no verão
Rumor de água
no tempo e no coração.
Rumor de nada.


Carlos de Oliveira, in "Colheita Perdida",
Casa Minerva, 1948.
 
 
Pinturas de Túllio da Costa Victorino

Túllio da Costa Victorino, Lavadeiras no regato, 1963.
 
 

Túllio da Costa Victorino, Paisagem, 1941.


Túllio da Costa Victorino, Casa com figuras, s.d.
 
 
Túllio da Costa Victorino, Ribeira do Porto, 1943. 


Perguntou-se a José Saramago:
– Como podem homens sem Deus serem bons?
Sua resposta foi:
– Como podem homens com Deus serem tão maus?


José Saramago, em Entrevista, 2009.
 

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

"Até ao sabugo" - Poema de José Saramago


 
Jan van Kessel, the Elder (Flemish painter, 1626–1679),
"Festoon, masks and rosettes made of shells"
(Festons, masques et rosettes de coquillages),

17th century, Fondation Custodia.



Até ao sabugo 


Dirão outros, em verso, outras razões,
Quem sabe se mais úteis, mais urgentes.
Deste, cá, não mudou a natureza,
Suspensa entre duas negações.
Agora, inventar arte e maneira
De juntar o acaso e a certeza,
Leve nisso, ou não leve, a vida inteira.

Assim como quem rói as unhas rentes.


José Saramago, Os poemas possíveis, 1966.


 

Jan van Kessel, the Elder, 'Garden and house spiders with grass snakes
and caterpillars contorted and entwined to spell the artist's name'
, 1657.


"A vida é breve, mas cabe nela muito mais do que somos capazes de viver."


José Saramago, in Deste Mundo e do Outro (Crónicas), 1971.




Hubertus Quellinus (Flemish printmaker, drawing artist and painter, 1619–1687), 
and
 Johannes Meyssens (Flemish Baroque painter, engraver, and print publisher, 1612–1670)
'Portrait of Jan van Kessel in the book Het Gulden Cabinet', by Cornelis de Bie.
 

Nascido em Antuérpia, Jan van Kessel, o Velho (1626–1679) pertencia a uma dinastia de pintores famosos. O seu avô era Jan Brueghel, o Velho (1568–1625), e David Teniers, o Jovem (1610–1690), era seu tio. 
Foi aluno do pintor Simon de Vos (1603–1676) e também recebeu instruções do seu tio Jan Brueghel, o Jovem (1601–1678). 
Jan van Kessel, o Velho ingressou na Guilda de São Lucas, em Antuérpia, em 1645, e especializou-se em naturezas-mortas de flores, estudos meticulosos de insetos e séries alegóricas representando os quatro elementos, os sentidos ou as partes do mundo. Tornou-se notório pelos fins didáticos e científicos de suas obras sobre a natureza.
Apesar de van Kessel ter sido capitão da Guarda Cívica em Antuérpia e de ter tido uma carreira produtiva, tinha inúmeras dívidas quando morreu, em 1679.
Jan van Kessel, o Velho foi pai dos pintores Jan van Kessel, o Jovem (1654–1708) e Ferdinand van Kessel (1648–1696).
 

segunda-feira, 8 de setembro de 2025

"Ao volante do Chevrolet pela estrada de Sintra" - Poema de Álvaro de Campos



Mota Urgeiro (Pintor português, n. 1946), Vista de Sintra, s.d.



Ao volante do Chevrolet pela estrada de Sintra


Ao volante do Chevrolet pela estrada de Sintra,
Ao luar e ao sonho, na estrada deserta,
Sozinho guio, guio quase devagar, e um pouco
Me parece, ou me forço um pouco para que me pareça,
Que sigo por outra estrada, por outro sonho, por outro mundo,
Que sigo sem haver Lisboa deixada ou Sintra a que ir ter,
Que sigo, e que mais haverá em seguir senão não parar mas seguir? 

Vou passar a noite a Sintra por não poder passá-la em Lisboa,
Mas, quando chegar a Sintra, terei pena de não ter ficado em Lisboa.
Sempre esta inquietação sem propósito, sem nexo, sem consequência,
Sempre, sempre, sempre,
Esta angústia excessiva do espírito por coisa nenhuma,
Na estrada de Sintra, ou na estrada do sonho, ou na estrada da vida...

Maleável aos meus movimentos subconscientes do volante,
Galga sob mim comigo o automóvel que me emprestaram.
Sorrio do símbolo, ao pensar nele, e ao virar à direita.
Em quantas coisas que me emprestaram guio como minhas!
Quanto me emprestaram, ai de mim!, eu próprio sou!

À esquerda o casebre — sim, o casebre — à beira da estrada.
À direita o campo aberto, com a lua ao longe.
O automóvel, que parecia há pouco dar-me liberdade,
É agora uma coisa onde estou fechado,
Que só posso conduzir se nele estiver fechado,
Que só domino se me incluir nele, se ele me incluir a mim.

À esquerda lá para trás o casebre modesto, mais que modesto.
A vida ali deve ser feliz, só porque não é a minha.
Se alguém me viu da janela do casebre, sonhará: Aquele é que é feliz.
Talvez à criança espreitando pelos vidros da janela do andar que está em cima
Fiquei (com o automóvel emprestado) como um sonho, uma fada real.
Talvez à rapariga que olhou, ouvindo o motor, pela janela da cozinha
No pavimento térreo,
Sou qualquer coisa do príncipe de todo o coração de rapariga,
E ela me olhará de esguelha, pelos vidros, até à curva em que me perdi.
Deixarei sonhos atrás de mim, ou é o automóvel que os deixa? 
Eu, guiador do automóvel emprestado, ou o automóvel emprestado que eu guio?

Na estrada de Sintra ao luar, na tristeza, ante os campos e a noite,
Guiando o Chevrolet emprestado desconsoladamente,
Perco-me na estrada futura, sumo-me na distância que alcanço,
E, num desejo terrível, súbito, violento, inconcebível,
Acelero...
Mas o meu coração ficou no monte de pedras, de que me desviei ao vê-lo sem vê-lo,
À porta do casebre,
O meu coração vazio,
O meu coração insatisfeito,
O meu coração mais humano do que eu, mais exato que a vida.

Na estrada de Sintra, perto da meia-noite, ao luar, ao volante,
Na estrada de Sintra, que cansaço da própria imaginação,
Na estrada de Sintra, cada vez mais perto de Sintra,
Na estrada de Sintra, cada vez menos perto de mim...

11-5-1928

Álvaro de Campos

Poesias de Álvaro de Campos. Fernando Pessoa. 
Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993). - 37.


Mota Urgeiro, Sintra, óleo s/tela, 70 x 90 cm.
 

"Tudo em Sintra é divino, não há cantinho que não seja um poema."

Eça de Queiroz
, no livro "Os Maias."
 


Mota Urgeiro, Palácio da Pena - Sintra, óleo s/tela, 70 x 90 cm.
 

"Sintra daria um bom paraíso no caso de Deus fazer outra tentativa!"

José Saramago, no livro "Memorial do Convento."
 

quarta-feira, 25 de junho de 2025

"Labirinto" - Poema de José Saramago

 

 
Rafał Olbiński (Polish illustrator, painter, and educator, living in the 
United States, b. 1943), A labyrinth of hearts.
 

Labirinto


Em mim te perco, aparição noturna,
Neste bosque de enganos, nesta ausência,
Na cinza nevoenta da distância,
No longo corredor de portas falsas.

De tudo se faz nada, e esse nada
De um corpo vivo logo se povoa,
Como as ilhas do sonho que flutuam,
Brumosas, na memória regressada.

Em mim te perco, digo, quando a noite
Vem sobre a boca colocar o selo
Do enigma que, dito, ressuscita
E se envolve nos fumos do segredo.

Nas voltas e revoltas que me ensombram,
No cego tatear de olhos abertos,
Qual é do labirinto a porta máxima,
Onde a réstia de sol, os passos certos?

Em mim te perco, insisto, em mim te fujo,
Em mim cristais se fundem, se estilhaçam,
Mas quando o corpo quebra de cansado
Em ti me venço e salvo, me encontro em ti.


José Saramago
, in Os Poemas Possíveis.
Portugália Ed., 1966.
 

terça-feira, 20 de maio de 2025

"Metáfora" - Poema de José Saramago

 

William Bruce Ellis Ranken (British artist and Edwardian aesthete, 1881-1941),
The Promenade, 1904.
 

Metáfora 


Trago nas mãos um búzio ressoante
Onde os ventos do mar se reuniram,
E das mãos, ou do búzio murmurante,
Alastra em cor e som irradiante
A beleza que os olhos te despiram.

 
 José Saramago,
in "Os poemas possíveis". 3ª ed.,

Lisboa: Editorial Caminho, 1981.
 
 

segunda-feira, 12 de maio de 2025

"Poema à boca fechada" - José Saramago



Felix Nussbaum
(German-Jewish surrealist painter, 1904–1944),
 "The Refugee", 1939, Yad Vashem Art Collection. 

 

 Poema à boca fechada 


Não direi:
Que o silêncio me sufoca e amordaça.
Calado estou, calado ficarei,
Pois que a língua que falo é de outra raça.

Palavras consumidas se acumulam,
Se represam, cisterna de águas mortas,
Ácidas mágoas em limos transformadas,
Vaza de fundo em que há raízes tortas.

Não direi:
Que nem sequer o esforço de as dizer merecem,
Palavras que não digam quanto sei
Neste retiro em que me não conhecem.

Nem só lodos se arrastam, nem só lamas,
Nem só animais boiam, mortos, medos,
Túrgidos frutos em cachos se entrelaçam
No negro poço de onde sobem dedos.

Só direi,
Crispadamente recolhido e mudo,
Que quem se cala quando me calei
Não poderá morrer sem dizer tudo.


José Saramago, in Os Poemas Possíveis, 1966.
  Editorial Caminho, Lisboa, 1981 (3ª edição). 

 

quarta-feira, 30 de abril de 2025

"Arte poética" - Poema de José Saramago


Jean Metzinger (French painter, theorist, writer, critic and poet, 1883 - 1956),
Paysage coloré aux oiseaux aquatiques, 1907, oil on canvas, 74 x 99 cm,
 

Arte poética
 

Vem de quê o poema?
De quanto serve
A traçar a esquadria da semente:
Flor ou erva, floresta e fruto.
Mas avançar um pé não é fazer jornada,
Nem pintura será a cor que não se inscreve
Em acerto rigoroso e harmonia.
Amor, se o há, com pouco se conforma
Se, por lazeres de alma acompanhada,
Do corpo lhe bastar a presciência.
Não se esquece o poema, não se adia,
Se o corpo da palavra for moldado
Em ritmo, segurança e consciência.
3ª ed., Lisboa: Editorial Caminho, 1981.

sábado, 12 de abril de 2025

"Pequeno cosmos" e "Química" - Poemas de José Saramago


 
William Bruce Ellis Ranken (British artist and Edwardian aesthete, 1881-1941),
 The Garden Door, 1926.
 

Pequeno cosmos
 

Ah, rosas, não, nem frutos, nem rebentos.
Horta e jardim sobejam nestes versos
De consonâncias velhas e bordões.

Navegante dum espaço que rodeio
(Noutra hora diria que infinito),
É por fome de frutos e de rosas
Que a frouxidão da pele ao osso chega.

Assim árido, e leve, me transformo:
Matéria combustível na caldeira
Que as estrelas ateiam onde passo.

Talvez, enfim, o aço apure e faça

Do espelho em que me veja e redefina.
 
in "Os Poemas Possíveis". 3ª ed., 
Lisboa: Editorial Caminho, 1981.
 
 
William Bruce Ellis Ranken, Covent Garden, 1930.
 
 
Química 

 
Sublimemos, amor. Assim as flores
No jardim não morreram se o perfume
No cristal da essência se defende.
Passemos nós as provas, os ardores:
Não caldeiam instintos sem o lume
Nem o secreto aroma que rescende. 


José Saramago
,
in "Os Poemas Possíveis"
 

sábado, 1 de março de 2025

"Na ilha por vezes habitada" - Poema de José Saramago

 
Alex Colville (Canadian painter and printmaker, 1920–2013), Dog and Priest, 1978.
 
 

Na ilha por vezes habitada


Na ilha por vezes habitada do que somos, há noites,
manhãs e madrugadas em que não precisamos de morrer.
Então sabemos tudo do que foi e será.
O mundo aparece explicado definitivamente e entra em nós uma grande serenidade,
e dizem-se as palavras que a significam.
Levantamos um punhado de terra e apertamo-la nas mãos.
Com doçura.
Aí se contém toda a verdade suportável: o contorno, a vontade e os limites.
Podemos então dizer que somos livres,
com a paz e o sorriso de quem se reconhece
e viajou à roda do mundo infatigável,
porque mordeu a alma até aos ossos dela.
Libertemos devagar a terra onde acontecem milagres
como a água, a pedra e a raiz.
Cada um de nós é por enquanto a vida.
Isso nos baste.


José Saramago,
in "Provavelmente Alegria", 1970.
 
 

  "Provavelmente Alegria" de José Saramago,
 Porto Editora, julho de 2014.


SINOPSE

A caligrafia da capa é da autoria do escritor Nuno Júdice. 

A segunda investida poética de Saramago surge quatro anos após Os Poemas Possíveis. São poemas de sombra e de luz, entrançados, de uma elaboração feita através do seu próprio avesso, simultaneamente de mar e de trevas. «Devagar, vou descendo entre corais. / Abro, dissolvo o corpo: fontes minhas / De águas brancas, secretas, reunidas / Ao orvalho das rosas escondidas.»

Poemas na altura inovadores, marcados pelo amor dito-escrito em transparências breves, imprecisas, e uma certa amargura-tristeza bem portuguesas, na sua raiz claramente lírica. A paixão parece sobrepor-se à militância: «Branco o teu peito, ou sob a pele doirado? / E os agudos cristais, ou rosas encrespadas / Como acesos sinais na fortuna do seio? / Que morangos macios, que sede inconformada, / Que vertigem nas dunas que se alteiam / Quando o vento do sangue dobra as águas / E em brancura vogamos, mortos de oiro.» E o erotismo faz, de forma decidida, a sua aparição em verso: «Teu corpo de terra e água / Onde a quilha do meu barco / Onde a relha do arado / Abrem rotas e caminho.» - Diário de Notícias, 9 de outubro de 1998. (daqui)

 
Alex Colville, Living Room, 2000.


«Não tive ilusões, a minha poesia é o que é, limpa, honesta e em algum momento terá sido algo mais do que isso mas, enfim, não vou ficar na História como poeta. Suponho que se ficar na História será como um romancista que também fez alguns versos.»

sábado, 21 de setembro de 2024

"Obsessão" - Poema de Francisco Bugalho

 

 
Mota Urgeiro (Pintor português, n. 1946), Ribeira de Odivelas - Alentejo.



Obsessão

 
Dentro de mim canta, intenso,
Um cantar que não é meu:
Cantar que ficou suspenso,
Cantar que já se perdeu.

Onde teria eu ouvido
Esta voz cantar assim?
Já lhe perdi o sentido:
Cantar que passa perdido,
Que não é meu estando em mim.

Depois, sonâmbulo, sonho:
Um sonho lento, tristonho,
De nuvens a esfiapar...
E, novamente, no sonho
Passa de novo o cantar...

Sobre um lago, onde em sossego
As águas olham o céu,
Roça a asa de um morcego...
E ao longe o cantar morreu.

Onde teria eu ouvido
Esta voz cantar assim?
Já lhe perdi o sentido...
E este cenário partido
Volta a voltar, repetido,
E o cantar recanta em mim. 

 in "Margens"
 
 
Mota Urgeiro (Pintor português, n. 1946), Amanhecer no Alentejo.
 

"Um escritor é um homem como os outros: sonha. E o meu sonho foi o de poder dizer deste livro, quando terminasse: 'Isto é um livro sobre o Alentejo'."


Citado em "José Saramago: il bagaglio dello scrittore‎" - Página 41, de Giulia Lanciani.
Publicado por Bulzoni, 1996 - 256 páginas.
 

domingo, 7 de abril de 2024

"O Casulo" - Poema de Fernando Namora


Charles Spencelayh (English painter, 1865–1958), An Old Master. Watercolour.


O Casulo


No casulo:
uma mesa quatro cinco estantes
livros por centenas ou milhares
tijolos de papel onde as traças
acasalam e o caruncho espreita
sólidas muralhas de elvezires onde
a rua não penetra
uma máquina de escrever olivetti
com a tinta acumulada nas letras mais redondas
cachimbos barros estanhos medalhas fotos
bonecos marafonas lembranças
retratos alguns gente ida ou vinda
gorros usbeques gorros bailundos leques
japoneses arpões açorianos sinos de não sei donde
ou sei esperem sinos da troica em natais noturnos
marfins africanos óleos desenhos calendários
feitiços da Baía a mão a fazer figas
tudo do melhor contra raios coriscos mau olhado
retratos dizia Jorge o de Salvador Júlio o da Morgadinha
Berglin o cientista Kostas o dramaturgo
e outros e outros
Afonso Duarte o das ossadas pórtico
destas lamúrias o sorriso sibilino e rugoso
que matou no Nemésio o bicho harmonioso
mais de agora o Umberto Eco barbudo
a filtrar-me com medievismo os gestos tontos
e outros e outros
suecos brasileiros romenos gregos
e ainda aqueles em que a Zita foi escrevendo
a minha sina de andarilho
Tolstoi patrono obcecante um pastor a tocar
pífaro algures nos Balcãs sinais da Bulgária da Polónia
da Finlândia sinais de tantas partes onde
fui um outro de biografia aberrante
sinais da minha terra também
a minha de verdade e não as outras
a que chamam minhas por distraído palpite
o Lima de Freitas num candeeiro alumiando
a mulher verde-azul em casas assombrada
mestre Marques d’Oliveira num esquisso
de alto coturno a carta de Abel Salazar
que o sol foi comendo não se lendo já
o que a censura omitiu
aqui a China também representada
um ícone de Sófia as plácidas cabras
do Calasans o tinteiro de quando
se usavam plumas roubaram-se o missal do Cicogna
um almofariz para esferográficas furta-cores
a caixa de madeira floreada veio da Rússia
deu-ma a Tatiana sob promessa (cumprida)
de a pôr bem em frente das minhas divagações
anémonas nórdicas da Anne
miosótis búlgaros da Rumiana
o poster é alemão Friede den Kindern
nunca pedi a ninguém a decifração
dois horóscopos face a face
cangaceiros nordestinos
o menino ajoelhado do Tó Zé
num gesso já sem braços nem rosto
objetos objetos o pote tem as armas de não lembro quem
embora o nome que venha por de cima
seja o meu e eu também no óleo carrancudo
do Zé Lima há um ror de anos
melhor não saber quantos
o molde para o bronze é um perfil onde
desenganadamente me reconheço
tanta bugiganga tanto bazar tanto papel
branco ou impresso uma faca para
apunhalar alguém a cassete de poesias na voz
da Maria Vitorino as esculturas astecas
do Miguel medalhas medalhas outra vez lembranças
agendas sem préstimo canetas gastas mais papéis
letras miúdas ou letras farfalhudas
depende da ocasião
um livro de filigrana
as paredes mal se vêem estantes copiosas já disse
quadros em demasia e ainda
as rendas de minha mãe em molduras destoadas
ela no retrato de cenho descontente
fitando-me até ao miolo dos desvairos
o bordão de régulo justiceiro
obliquando no trono de catos
amuletos africanos o mata-borrão que foi
de um pide deu-mo o fuzileiro no pós-Abril
uma bela cabeça de mulher do João Fragoso
jarras de sacristia candeias de cobre
sem pavio um samovar de madeira um samurai de veludo
os painéis de São Vicente em miniatura
a áurea trombeta do troféu lusíada
de parceria com o Manuel Cargaleiro
áureos pesados troféus o marasmo branco
de Pavia na tela sem idade
livros livros os correios não param
de mos trazer para maior sufocação
cartas a granel por responder relógio não há mas ouço-o
sem falhar um segundo há cordas cordões medalhas medalhões
armas lauréis proibições
perfumes em minaretes levantinos.

Esquecia-me de uma coisa porém
na gaveta um passaporte para a vida
com data há muito ultrapassada. Caducou.

Porque será que nunca o revalidei?


Fernando Namora
, in 'Nome Para Uma Casa', 1984.
 

Charles Spencelayh, The bibliophile. Oil on canvas.
 

"Quando leio um livro tenho a impressão de lê-lo somente com os olhos, mas de vez em quando deparo com um trecho, talvez apenas uma frase, que tem um significado para mim, e ele torna-se parte de mim; tirei do livro tudo o que me é de alguma utilidade, e não posso extrair mais, ainda que o releia uma dúzia de vezes.
Veja, parece-me que cada um de nós se assemelha a um botão de flor fechado, e a maior parte do que lê e faz não faz efeito nenhum; mas há certas coisas que têm uma significação particular para a gente, e elas abrem uma pétala; e as pétalas abrem uma por uma, e no final a flor está aí."

W. Somerset Maugham, in 'Servidão Humana', 1915.


'Servidão Humana' de Somerset Maugham.
Edições Asa,  2009 (1ª ed.),
Trad. de Ana Maria Chaves.

 
SINOPSE
 
Servidão Humana é um dos romances mais emblemáticos do século XX e a obra-prima de Somerset Maugham. Esta narrativa clássica de entrada na idade adulta conta a história de Philip Carey, alter ego do autor na sua juventude, dividido entre o fervor religioso da família e o desejo de liberdade que os livros e os estudos lhe dão a conhecer. Na sua ânsia por independência e aventura, Philip sai de casa em busca de uma carreira como artista em Paris. Mas os seus planos vão ser postos em causa quando se apaixona perdidamente pela mulher que mudará a sua vida para sempre.
Relato inigualável sobre o poder do desejo e da sede de liberdade do homem moderno, Servidão Humana coloca-nos friamente perante a nossa própria visão da vida, as nossas dúvidas e o poder transformador das decisões.  (daqui)


Charles Spencelayh (English painter, 1865–1958), The Artist's Studio, 1953. Oil on canvas.
 

"Enquanto eu durmo, este povo silencioso de estátuas e pinturas, esta humanidade remanescente, paralela, continua de olhos abertos a velar pelo mundo a que, dormindo, renunciei. Para que o possa encontrar novamente ao descer à rua, mais velho eu e precário, porque mais duram afinal as obras da pedra e da cor do que esta fragilidade de carne."
 

segunda-feira, 10 de julho de 2023

"Sobre a minha cidade" - Poema de Vasco Graça Moura


Armando Aguiar (Pintor português, n. 1964), Ribeira do Porto, s.d.



Sobre a minha cidade

Sobre a minha cidade, falei-te ontem mostrei-te
as esquinas do tempo, a imagem de fachadas
que ainda conheci, de outras que
eu próprio ignorava; sobre

a minha cidade e suas pedras, seus espaços
de árvores graves; e o que foi arrasado,
ou está a desfazer-se; as manchas do presente, a
poluição dos homens; e o que foi

violentamente arrancado por negócios sucessivos,
erros, brutalidades: o que era e o que foi
o que é dentro de mim o seu obscuro,
imaginário ser: costumes e conflitos,

maneiras de falar, a gente
e a confusão das ruas, as casas do Barredo;
sobre a minha cidade achei que tu
tiveste gratidão, a viste.

que percorreste as pontes que da minha
cidade a ti me trazem, entre
gaivotas alastrando e músicas diferentes,
e foste nascer nela.


Vasco Graça Moura
, in “Os Rostos Comunicantes”,
Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1984;
“Poesia 1963/1995”, Lisboa: Quetzal Editores, 2007


 
Armando Aguiar (Pintor português, n. 1964), Cheia em Miragaia (Porto), s.d.


"Afinal, o Porto, para verdadeiramente honrar o nome que tem, é, primeiro que tudo, este largo regaço aberto para o rio, mas que só do rio se vê, ou então, por estreitas bocas fechadas por muretes, pode o viajante debruçar-se para o ar livre e ter a ilusão de que todo o Porto é Ribeira. A encosta cobre-se de casas, as casas desenham ruas, e, como todo o chão é granito sobre granito, cuida o viajante que está percorrendo veredas de montanha."
 


"Viagem a Portugal" de José Saramago,
Edição/reimpressão: 10-2021,
Editor: Porto Editora 


Resumo

Entre outubro de 1979 e julho de 1980, José Saramago percorreu o país lés a lés a convite do Círculo de Leitores, que comemorava o décimo aniversário da sua implantação em Portugal. Disse o autor após essa deambulação, misto de crónica, narrativa e recordações, que «o fim de uma viagem é apenas o começo de outra. É preciso ver o que não foi visto, ver outra vez o que se viu já, ver na primavera o que se vira no verão, ver de dia o que se viu de noite... É preciso voltar aos passos que foram dados, para os repetir, e para traçar caminhos novos». 
Este é um livro decisivo para José Saramago, na medida em que se constituiu como um marco que ofereceu ao autor condições materiais para se dedicar à escrita a tempo inteiro. Esta edição especial de Viagem a Portugal inclui todas as fotografias que Saramago fez ao longo da sua viagem — quase todas inéditas —, a par de fotografias de Duarte Belo, e a sua publicação coincide com o início das comemorações do Centenário de José Saramago. (daqui)
 
Afinal, o Porto, para verdadeiramente honrar o nome que tem, é, primeiro que tudo, este largo regaço aberto para o rio, mas que só do rio se vê, ou então, por estreitas bocas fechadas por muretes, pode o viajante debruçar-se para o ar livre e ter a ilusão de que todo o Porto é Ribeira. A encosta cobre-se de casas, as casas desenham ruas, e, como todo o chão é granito sobre granito, cuida o viajante que está percorrendo veredas de montanha.“ — José Saramago, livro Viagem a Portugal Viagens. Contos. Romances, José Saramago, Lello & Irmão, 1991,

Fonte: https://citacoes.in/citacoes/2029990-jose-saramago-afinal-o-porto-para-verdadeiramente-honrar-o-nom/?utm_content=cmp-true
Afinal, o Porto, para verdadeiramente honrar o nome que tem, é, primeiro que tudo, este largo regaço aberto para o rio, mas que só do rio se vê, ou então, por estreitas bocas fechadas por muretes, pode o viajante debruçar-se para o ar livre e ter a ilusão de que todo o Porto é Ribeira. A encosta cobre-se de casas, as casas desenham ruas, e, como todo o chão é granito sobre granito, cuida o viajante que está percorrendo veredas de montanha.“ — José Saramago, livro Viagem a Portugal Viagens. Contos. Romances, José Saramago, Lello & Irmão, 1991,

Fonte: https://citacoes.in/citacoes/2029990-jose-saramago-afinal-o-porto-para-verdadeiramente-honrar-o-nom/?utm_content=cmp-true

terça-feira, 22 de fevereiro de 2022

"Mediadora do Vento" - Poema de António Ramos Rosa

 
 
 
Mediadora do Vento


Ligeira sobre o dia
ao som dos jogos,
desliza com o vento
num encantado gozo.

Pelas praias do ar
difunde-se em prodígios.
Tudo é acaso leve,
tudo é prodígio simples.

Pequena e magnífica
no seu amor volante
propaga sem destino
surpresas e carícias.

Pátria, só a do vento
de tão subtil e viva.
Azul, sempre azul
em completa alegria. 


António Ramos Rosa
,
in "Mediadoras", Lisboa: Ulmeiro, 1985



Nadir Afonso, 'Lisboa'


“Chegaram a Lisboa ao cair da tarde, na hora em que a suavidade do céu infunde nas almas um doce pungimento.”

José Saramago, in 'A Jangada de Pedra', 1986
 


A Jangada de Pedra

 
Romance de José Saramago (Prémio Nobel da Literatura, em 1998), publicado em 1986. É adaptado para cinema, em 2002, sob a realização de George Sluizer (La Balsa de piedra).

A trama começa por relatar uma série de acontecimentos insólitos, terminando com a separação da Península Ibérica do continente europeu. Gera-se um clima social agitado de confrontos entre o povo e as tropas do governo.
Durante o percurso errante da península no oceano Atlântico, surge a possibilidade dela colidir com o arquipélago dos Açores. A população, desesperada, abandona as cidades do leste português. Perante as inesperadas deslocações dos habitantes, os governos português e espanhol não conseguem responder de maneira eficaz. Posteriormente, a Península Ibérica desvia-se dos Açores, de forma inexplicável, e desloca-se para Norte, o que permite às populações deslocadas regressarem às suas casas. Mais tarde, os cidadãos da península verificam que esta deixa de movimentar-se, passando a girar em torno de um eixo, fenómeno que durou um mês.
No fim da ação, a jangada de pedra imobiliza-se, deixando, no entanto, em aberto, a possibilidade de futuras movimentações.
As personagens que se destacam neste romance são Joana Carda, Joaquim Sassa, José Anaiço, Pedro Orce e Maria Guavaira.

Saramago exibe uma escrita particular de fortes traços modernistas, onde predominam os períodos e parágrafos longos, a escassez de pontuação, o cruzamento híbrido do discurso do narrador com o das personagens, a abundância do discurso indireto livre e o uso de expressões populares portuguesas.
A obra, que fora publicada no ano em que Portugal e Espanha aderiram à Comunidade Económica Europeia (C.E.E.), atual União Europeia, satiriza as autoridades políticas e os jogos de poder. (daqui)

 

domingo, 6 de setembro de 2020

"Ó meus irmãos contrários" - Poema de Paul Éluard


Wybrand Hendricks, The Four Chief Commissioners of the Amsterdam Harbor Works, c. 1791-1795

(Group portrait of the four chief commissioners of the ports, quays and cranes in Amsterdam, sitting around a table (from the left to right): Christiaan Scholten, Christiaan van Orsoy, Jan Petrus Scholten van Aschat and Frederick Alexander Vernède. On the table some books, paper and an inkstand. On the back the weapons of the four portrayed men.)


Ó meus irmãos contrários 


Ó meus irmãos contrários que guardais nas vossas pupilas
A noite infusa e o seu horror
Onde vos deixei eu
Com vossas pesadas mãos no azeite preguiçoso
Dos vossos atos antigos
Com tão pouca esperança que a morte tem razão
Ó meus irmãos perdidos
Eu vou para a vida tenho aparência de homem
Para provar que o mundo é feito à minha medida

E não estou só
Mil imagens de mim multiplicam a luz
Mil olhares semelhantes igualam a carne
É a ave é a criança é a rocha é a planície
Que se misturam a nós
O ouro desata a rir ao ver-se fora do abismo
A água o fogo despem-se por uma única estação
Já não há eclipse na fronte do universo. 
 

Paul Éluard.
in "Algumas das Palavras"
Tradução de António Ramos Rosa


Wybrand Hendricks, The Board of Teylers Foundation, 1786


Não calar 


"Há uma regra fundamental quando se vive como nós estamos a viver – em sociedade, porque somos uns animais gregários – que é simplesmente não calar. Não calar! Que isso possa custar em comunidades várias a perda de emprego ou más interpretações já o sabemos, mas também não estamos aqui para agradar a toda a gente. Primeiro, porque é impossível, e segundo, porque se a consciência nos diz que o caminho é este então sigamo-lo e quanto às consequências logo veremos."


José Saramago, in 'Uma Longa Viagem com José Saramago'