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quinta-feira, 17 de julho de 2014

"O Amolecimento pela Sociedade de Consumo" - Texto de Urbano Tavares Rodrigues


Giuseppe De Nittis (1846 –1884, pintor italiano), Place des Pyramides (1876)


O Amolecimento pela Sociedade de Consumo


"Nos países subdesenvolvidos, a arte (literatura, pintura, escultura) entra quase sempre em conflito com as classes possidentes, com o poder instituído, com as normas de vida estabelecidas. Em revolta aberta, o artista, originário por via de regra da média e da pequena burguesia ou mais raramente das classes proletárias, contesta o statu quo, propõe soluções revolucionárias ou, quando estas não podem sequer divisar-se, limita-se a derruir (ou a tentar fazê-lo pela crítica, violenta ou irónica) o baluarte dos preconceitos, das defesas que os beneficiários do sistema de produção ergueram contra as aspirações da maioria. Nas sociedades industriais mais adiantadas, o artista pode permanecer numa atitude idêntica de inconformismo; porém, os resultados da sua actividade de criação e reflexão tornam-se matéria vendável e, nalguns casos, matéria integrável. O consumo do objecto artístico, seja ele o livro, o quadro ou o disco, quando feito sob uma tutela de opinião, que os meios de comunicação de massa, em escala larguíssima , exercem, torna-se, senão totalmente inócuo, pelo menos parcialmente esvaziado do seu conteúdo crítico. Despotencializa-se. Amolece. É o que se verifica, por exemplo, em boa parte, nos Estados Unidos. A ideologia repressiva da liberdade no mundo capitalista monopolista torna-se tanto mais perigosa quanto absorve, ou procura absorver, as próprias formas políticas de exercício das liberdades ditas essenciais, quando aceita no seu seio o escritor, acusador iconoclasta por natureza, recuperando-o em banho asséptico, limando-lhe os dentes. Mas, entendamo-nos, nem sempre o artista se dá conta dessa operação, até porque nem sempre, de facto, é ele próprio o paciente da operação que lhe reduz a perigosidade, senão que o é, sim, a sua obra, a qual, pelo poder diminutivo de uma dada comercialização, se rectifica. "

Urbano Tavares Rodrigues, in "Ensaios de Escreviver" 
 
 
Urbano Tavares Rodrigues (1923-2013)
 
 
Ficcionista e ensaísta, nascido em 1923, formado em Filologia Românica pela Faculdade de Letras de Lisboa Urbano Augusto Tavares Rodrigues foi leitor de Português nas universidades francesas de Montpellier e Sorbonne e, entre 1949 e 1955, foi professor nas áreas de Língua, Literatura e Cultura Portuguesas em Montpellier, Aix-en-Provence e Paris (Sorbonne). 
De regresso a Portugal, em 1955, foi nomeado assistente da Faculdade de Letras de Lisboa, cargo que seria obrigado a abandonar, desenvolvendo, entre meados dos anos 60 e até à Revolução de abril, uma intensa atividade como tradutor e como jornalista em periódicos como o Diário de Notícias.
 Em 1974, seria convidado a reintegrar os quadros da Faculdade de Letras de Lisboa, onde exerceu a atividade docente até 1993. A sua vivência durante o regime salazarista foi marcada por sucessivos envolvimentos em ações de resistência (integrou atos de rebelião estudantil; apoiou a candidatura do general Humberto Delgado à Presidência da República, em 1958; filiou-se, em 1969, no Partido Comunista Português; efetuou viagens clandestinas à Checoslováquia e a Cuba), mercê das quais foi por diversas vezes detido, viu algumas obras apreendidas e foi proibido de lecionar. 
No período pós-revolucionário, participou ativamente na vida política nacional, tendo integrado as listas do PCP nas eleições legislativas de 1975. Colaborou em publicações periódicas como Colóquio, Gazeta Musical e de Todas as Artes, Vértice, JL, tendo sido codiretor de Europa e integrado o corpo redatorial de Letras e Artes e de O Século. Foi diretor da extinta Sociedade Portuguesa de Autores e, em 1980, nomeado presidente da Associação Portuguesa de Escritores, tendo ainda integrado vários júris de prémios literários. 
No domínio do ensaio, em publicações ou como conferencista, destacam-se como temas de preferência as relações literárias luso-francesas e estudos capitais sobre autores como Manuel Teixeira Gomes, sobre quem redigiu a sua tese de licenciatura (sob orientação de Jacinto do Prado Coelho), e sobre quem defenderia a tese de doutoramento: Manuel Teixeira-Gomes - O Discurso do Desejo.
 A sua obra literária foi várias vezes distinguida, tendo recebido o Prémio Ricardo Malheiros para Uma Pedra no Charco, em 1958; o Prémio da Imprensa Cultural, em 1966, para Imitação da Felicidade; o Prémio Aquilino Ribeiro da Academia de Ciências para Fuga Imóvel, em 1982; o Prémio da Crítica do Centro Português da Associação Internacional de Críticos Literários, em 1987, para Vaga de Calor; o Prémio Fernando Namora para Violeta e a Noite, em 1991; e o Grande Prémio de Conto Camilo Castelo Branco, da Associação Portuguesa de Escritores, para A Estação Dourada
Como ficcionista, o escritor, que viveu em França durante a primeira metade dos anos 50, inscreve-se numa segunda geração neorrealista que, repensando o legado marxista, à luz do existencialismo e de um pessimismo com determinações históricas internacionais, no período do pós-guerra, e, mais concretamente, em Portugal, num período de reforço dos mecanismos de repressão fascista, irá sendo permeável a uma intrusão da imaginação e do irreal no registo socialmente datado. 
Em entrevista inserta no número de Letras e Letras que lhe é consagrado, confessa ter sempre oscilado entre "o realismo e o fantástico": "a pressão da realidade envolvente, que era política e socialmente sórdida, empurrava-me com frequência, com o imperativo das grandes obrigações morais, para o testemunho, mas nunca esse testemunho-denúncia, tão marcado, parece-me, em Uma Pedrada no Charco ou em Os Insubmissos, se alheou da experimentação estética ou da infinita curiosidade pelos recessos e pelas contradições da alma humana. Por tudo isso nunca tive propriamente escola. Sinto-me devedor do simbolismo. Do realismo e naturalmente do neorrealismo, mas também do surrealismo, que desde o início terá deixado sedimentos no meu estilo." (Cf. entrevista conduzida por José Manuel Mendes a Urbano Tavares Rodrigues, in Letras e Letras, n.º 18, 5 de junho de 1989.)
Em fevereiro de 2002 recebeu o Prémio Vida Literária da Associação Portuguesa de Escritores.
Urbano Tavares Rodrigues foi casado com a também escritora Maria Judite de Carvalho.

Urbano Tavares Rodrigues. In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2014. [Consult. 2014-07-17].
 

Giuseppe De Nittis, Self-portrait 
 

"Nenhum homem de bem se torna rico de repente." 
 
Públio Siro 
Roma Antiga
-85 // -43 
Escritor, Poeta 
 
 
Giuseppe De Nittis, The Victoria Embankment, London, 1875 
 

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

"Geração à rasca - A nossa culpa" - Texto de Maria dos Anjos Polícia


 
Sherree Valentine Daines (British painter, b.1956)


Geração à rasca - A nossa culpa

 
Um dia, isto tinha de acontecer.
Existe uma geração à rasca?
Existe mais do que uma! Certamente!
Está à rasca a geração dos pais que educaram os seus meninos numa abastança caprichosa, protegendo-os de dificuldades e escondendo-lhes as agruras da vida.
Está à rasca a geração dos filhos que nunca foram ensinados a lidar com frustrações.
A ironia de tudo isto é que os jovens que agora se dizem (e também estão) à rasca são os que mais tiveram tudo.
Nunca nenhuma geração foi, como esta, tão privilegiada na sua infância e na sua adolescência. E nunca a sociedade exigiu tão pouco aos seus jovens como lhes tem sido exigido nos últimos anos.

Deslumbradas com a melhoria significativa das condições de vida, a minha geração e as seguintes (atualmente entre os 30 e os 50 anos) vingaram-se das dificuldades em que foram criadas, no antes ou no pós 1974, e quiseram dar aos seus filhos o melhor.
Ansiosos por sublimar as suas próprias frustrações, os pais investiram nos seus descendentes: proporcionaram-lhes os estudos que fazem deles a geração mais qualificada de sempre (já lá vamos...), mas também lhes deram uma vida desafogada, mimos e mordomias, entradas nos locais de diversão, cartas de condução e 1º automóvel, depósitos de combustível cheios, dinheiro no bolso para que nada lhes faltasse. Mesmo quando as expectativas de primeiro emprego saíram goradas, a família continuou presente, a garantir aos filhos cama, mesa e roupa lavada.
Durante anos, acreditaram estes pais e estas mães estar a fazer o melhor; o dinheiro ia chegando para comprar (quase) tudo, quantas vezes em substituição de princípios e de uma educação para a qual não havia tempo, já que ele era todo para o trabalho, garante do ordenado com que se compra (quase) tudo. E éramos (quase) todos felizes.

Depois, veio a crise, o aumento do custo de vida, o desemprego, ... A vaquinha emagreceu, feneceu, secou.

Foi então que os pais ficaram à rasca.
Os pais à rasca não vão a um concerto, mas os seus rebentos enchem Pavilhões Atlânticos e festivais de música e bares e discotecas onde não se entra à borla nem se consome fiado.
Os pais à rasca deixaram de ir ao restaurante, para poderem continuar a pagar restaurante aos filhos, num país onde uma festa de aniversário de adolescente que se preza é no restaurante e vedada a pais.
São pais que contam os cêntimos para pagar à rasca as contas da água e da luz e do resto, e que abdicam dos seus pequenos prazeres para que os filhos não prescindam da internet de banda larga a alta velocidade, nem dos qualquer coisa phones ou pads, sempre de última geração.

São estes pais mesmo à rasca, que já não aguentam, que começam a ter de dizer "não". É um "não" que nunca ensinaram os filhos a ouvir, e que por isso eles não suportam, nem compreendem, porque eles têm direitos, porque eles têm necessidades, porque eles têm expectativas, porque lhes disseram que eles são muito bons e eles querem, e querem, querem o que já ninguém lhes pode dar!

A sociedade colhe assim hoje os frutos do que semeou durante pelo menos duas décadas.

Eis agora uma geração de pais impotentes e frustrados.
Eis agora uma geração jovem altamente qualificada, que andou muito por escolas e universidades mas que estudou pouco e que aprendeu e sabe na proporção do que estudou. Uma geração que coleciona diplomas com que o país lhes alimenta o ego insuflado, mas que são uma ilusão, pois correspondem a pouco conhecimento teórico e a duvidosa capacidade operacional.
Eis uma geração que vai a toda a parte, mas que não sabe estar em sítio nenhum. Uma geração que tem acesso a informação sem que isso signifique que é informada; uma geração dotada de trôpegas competências de leitura e interpretação da realidade em que se insere.
Eis uma geração habituada a comunicar por abreviaturas e frustrada por não poder abreviar do mesmo modo o caminho para o sucesso. Uma geração que deseja saltar as etapas da ascensão social à mesma velocidade que queimou etapas de crescimento. Uma geração que distingue mal a diferença entre emprego e trabalho, ambicionando mais aquele do que este, num tempo em que nem um nem outro abundam.
Eis uma geração que, de repente, se apercebeu que não manda no mundo como mandou nos pais e que agora quer ditar regras à sociedade como as foi ditando à escola, alarvemente e sem maneiras.
Eis uma geração tão habituada ao muito e ao supérfluo que o pouco não lhe chega e o acessório se lhe tornou indispensável.
Eis uma geração consumista, insaciável e completamente desorientada.
Eis uma geração preparadinha para ser arrastada, para servir de montada a quem é exímio na arte de cavalgar demagogicamente sobre o desespero alheio.

Há talento e cultura e capacidade e competência e solidariedade e inteligência nesta geração?
Claro que há. Conheço uns bons e valentes punhados de exemplos!
Os jovens que detêm estas capacidades-características não encaixam no retrato coletivo, pouco se identificam com os seus contemporâneos, e nem são esses que se queixam assim (embora estejam à rasca, como todos nós).
Chego a ter a impressão de que, se alguns jovens mais inflamados pudessem, atirariam ao tapete os seus contemporâneos que trabalham bem, os que são empreendedores, os que conseguem bons resultados académicos, porque, que inveja!, que chatice!, são betinhos, cromos que só estorvam os outros (como se viu no último Prós e Contras) e, oh, injustiça!, já estão a ser capazes de abarbatar bons ordenados e a subir na vida.

E nós, os mais velhos, estaremos em vias de ser caçados à entrada dos nossos locais de trabalho, para deixarmos livres os invejados lugares a que alguns acham ter direito e que pelos vistos - e a acreditar no que ultimamente ouvimos de algumas almas - ocupamos injusta, imerecida e indevidamente?!!!

Novos e velhos, todos estamos à rasca.
Apesar do tom desta minha prosa, o que eu tenho mesmo é pena destes jovens.
Tudo o que atrás escrevi serve apenas para demonstrar a minha firme convicção de que a culpa não é deles.
A culpa de tudo isto é nossa, que não soubemos formar nem educar, nem fazer melhor, mas é uma culpa que morre solteira, porque é de todos, e a sociedade não consegue, não quer, não pode assumi-la.
Curiosamente, não é desta culpa maior que os jovens agora nos acusam. Haverá mais triste prova do nosso falhanço?
Pode ser que tudo isto não passe de alarmismo, de um exagero meu, de uma generalização injusta.
Pode ser que nada/ninguém seja assim. 

Publicado 9th March 2011 por 'Assobio' (Maria dos Anjos Polícia)


Coldplay - 'The Scientist'