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segunda-feira, 9 de dezembro de 2019

"A Cigarra e a Formiga" - Fábula de Esopo, por La Fontaine

A Cigarra e a Formiga (O Gafanhoto e Formiga no original),
ilustração de Milo Winter, é uma das fábulas atribuídas a Esopo
e recontada por Jean de La Fontaine em francês.


A Cigarra e a Formiga 


Tendo a cigarra cantado durante o verão,
Apavorou-se com o frio da próxima estação.
Sem mosca ou verme para se alimentar,
Com fome, foi ver a formiga, sua vizinha,
pedindo-lhe alguns grãos para aguentar
Até vir uma época mais quentinha!
- "Eu lhe pagarei", disse ela,
- "Antes do verão, palavra de animal,
Os juros e também o capital."
A formiga não gosta de emprestar,
É esse um de seus defeitos.
"O que você fazia no calor de outrora?"
Perguntou-lhe ela com certa esperteza.
- "Noite e dia, eu cantava no meu posto,
Sem querer dar-lhe desgosto."
- "Você cantava? Que beleza!
Pois, então, dance agora!" 


Fábula de  Esopo, por La Fontaine


Ilustração de Teguh Mujiono (tigatelu)


A Cigarra e a Formiga
(Bocage)


Tendo a cigarra em cantigas
Folgado todo o Verão
Achou-se em penúria extrema
Na tormentosa estação.

Não lhe restando migalha
Que trincasse, a tagarela
Foi valer-se da formiga,
Que morava perto dela.

Rogou-lhe que lhe emprestasse,
Pois tinha riqueza e brilho,
Algum grão com que manter-se
Até voltar o aceso Estio.

«Amiga, diz a cigarra,
Prometo, à fé d’animal,
Pagar-vos antes d’Agosto
Os juros e o principal.»

A formiga nunca empresta,
Nunca dá, por isso junta.
«No Verão em que lidavas?»
À pedinte ela pergunta.

Responde a outra: «Eu cantava
Noite e dia, a toda a hora.»
«Oh! bravo!», torna a formiga.
– Cantavas? Pois dança agora!»


Manuel Maria Barbosa du Bocage


A cigarra e a formiga - Ilustração de Calvet-Rogniat (1812-1875)


A Cigarra e a Formiga 
 (A Formiga Boa - Monteiro Lobato) 


Houve uma jovem cigarra que tinha o costume de chiar ao pé do formigueiro. Só parava quando cansadinha; e seu divertimento era observar as formigas na eterna faina de abastecer as tulhas.
Mas o bom tempo afinal passou e vieram as chuvas . Os animais todos, arrepiados, passavam o dia cochilando nas tocas.
A pobre cigarra, sem abrigo em seu galhinho seco e metida em grandes apuros, deliberou socorrer-se de alguém.
Manquitolando, com uma asa a arrastar, lá se dirigiu para o formigueiro. Bateu – tique, tique, tique...
Aparece uma formiga friorenta, embrulhada num xalinho de paina.
- Que quer? – perguntou, examinando a triste mendiga suja de lama e a tossir.
- Venho em busca de agasalho. O mau tempo não cessa e eu...
A formiga olhou-a de alto a baixo.
- E que fez durante o bom tempo que não construiu a sua casa?
A pobre cigarra, toda tremendo, respondeu depois dum acesso de tosse.
- Eu cantava, bem sabe...
- Ah!.. . exclamou a formiga recordando-se. Era você então que cantava nessa árvore enquanto nós labutávamos para encher as tulhas?
- Isso mesmo, era eu...
Pois entre, amiguinha! Nunca poderemos esquecer as boas horas que sua cantoria nos proporcionou. Aquele chiado nos distraía e aliviava o trabalho. Dizíamos sempre: que felicidade ter como vizinha tão gentil cantora! Entre, amiga, que aqui terá cama e mesa durante todo o mau tempo.
A cigarra entrou, sarou da tosse e voltou a ser a alegre cantora dos dias de sol. 

Monteiro Lobato, do livro Fábulas


The Ant and the Grasshopper – by Jr Casas


A Cigarra e a Formiga
(Millôr Fernandes)


Cantava a Cigarra
Em dós sustenidos
Quando ouviu os gemidos
Da Formiga
Que, bufando e suando,
Ali, num atalho,
Com gestos precisos
Empurrava o trabalho;
Folhas mortas, insetos vivos.
Ao vê-la assim, festiva,
A Formiga perdeu a esportiva:
“Canta, canta, salafrária,
E não cuida da espiral inflacionária!
No inverno
Quando aumentar a recessão maldita
Você, faminta e aflita,
Cansada, suja, humilde, morta,
Virá pechinchar à minha porta.
E na hora em que subirem
As tarifas energéticas,
Verás que minhas palavras eram proféticas.
Aí, acabado o verão,
Lá em cima o preço do feijão,
Você apelará pra formiguinha.
Mas eu estarei na minha
E não te darei sequer
Uma tragada de fumaça!”
Ouvindo a ameaça
A Cigarra riu, superior,
E disse com seu ar provocador:
“Estás por fora,
Ultrapassada sofredora.
Hoje eu sou em videocassete,
Uma reprodutora!
Chegado o inverno
Continuarei cantando
- sem ir lá –
No Rio,
São Paulo,
E Ceará,
Rica!
E você continuará aqui
Comendo bolo de titica.
O que você ganha num ano
Eu ganho num instante
Cantando a Coca,
O sabãozão gigante,
O edifício novo
E o desodorante.
E posso viver com calma
Pois canto só pra multinacionalma.”

sábado, 4 de maio de 2019

"A Lebre e a Tartaruga" - Poema de Curvo Semedo


"A Lebre e a Tartaruga", Ilustração de Milo Winter 


A Lebre e a Tartaruga

(Fábula)


«Apostemos», disse à lebre
A tartaruga matreira,
«Que eu chego primeiro ao alvo
Do que tu, que és tão ligeira!»
 
«Cala a boca, toleirona,»
Lhe disse a lebre mofando,
«Ou tens perdida a cabeça,
Ou comigo estás zombando.» 

Respondeu-lhe a tartaruga:
«Nisso me estás a entender
Que receias apostar
Porque não queres perder.»

«Pois tu, vã, que és uma lesma
Queres competir com a lebre?
Isso é doença, estás vária, 
Provém do efeito da febre;

Eu, que por uma charneca
Corro dos galgos em frente,
Que os canso, sem que me possa
No lombo ferrar o dente,

Havia temer a quem
Gasta uma hora em dar um passo?»
Retrucou-lhe a tartaruga
Com todo o desembaraço:

«Leva, amiga, de bazófias
Desculpas não valem nada;
Se tem medo não aposte,
Porém, dê-se por cangada. 

Ando no mar e na terra;
Sei muito bem o que é mundo,
Propus-me a apostar contigo
Porque sei no que me fundo.»

«Pois vá feito,» diz a lebre;
«E aquele velho sobreiro
Seja a meta, e leve o prémio
A que chegar lá primeiro;

De juiz não precisamos;
Porque eu na meta vou pôr
As apostas que serão
Da primeira que lá for.» 

Eis vai cumprir o que ajusta,
E volta num breve prazo;
Não digo o que foi a aposta
Porque isso não vem ao caso.

Dado o sinal da partida,
Estando as duas a par,
A tartaruga começa
Lentamente a caminhar.

A lebre tendo vergonha
De correr diante dela,
Tratando uma tal vitória
De peta ou de bagatela,

Julga, cheia de vaidade,
Que ainda tempo lhe sobeja
Se entrar a correr já quando
Perto do sobreiro a veja.

Deita-se, e dorme o seu pouco;
Ergue-se, e põe-se a observar
De que parte corre o vento,
E depois entra a pastar;

Eis deita uma vista de olhos
Sobre a caminhante sorna,
Inda a vê longe da meta,
E a pastar de novo torna.

Olha; e depois que a vê perto,
Começa a sua carreira;
Mas então apressa os passos
A tartaruga matreira.

À meta chega primeiro,
Apanha o prémio apressada,
Pregando à lebre vencida
Uma grande surriada.

Não basta só haver posses
Para obter o que intentamos;
É preciso pôr-lhe os meios,
Quando não, atrás ficamos.

O contendor não desprezes
Por fraco, se te investir;
Porque um anão acordado
Mata um gigante a dormir.


Curvo Semedo, in 'Composições Poéticas' 
Tradução livre das Fábulas de La Fontaine


A Lebre e a Tartaruga é uma das Fábulas de Esopo (Esopo (620—560 a.C.), que foi posteriormente recontada por Jean de La Fontaine  (1621—1695), na qual uma lenta tartaruga vence a corrida de uma lebre. Moral da História: 'Quem corre cansa, mas devagar se vai longe.' (daqui)