Mostrar mensagens com a etiqueta Esopo. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Esopo. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 16 de setembro de 2022

"O velho, o rapaz e o burro" - Poema de Curvo Semedo


Illustration by Arthur Rackham (English book illustrator, 1867-1939), 
 
 

Illustration by Arthur Rackham, The Miller, his Son, and their Ass, 1912
 
 

Illustration by Arthur Rackham, The Miller, his Son, and their Ass, 1912
 
  
Illustration by Arthur Rackham, The Miller, his Son, and their Ass, 1912
 
 
Illustration by Arthur Rackham, The Miller, his Son, and their Ass, 1912
 
 
Illustration by Arthur Rackham, The Miller, his Son, and their Ass, 1912
 

 
 
 

O velho, o rapaz e o burro
 
 
O mundo ralha de tudo,
Tenha ou não tenha razão.
Quero contar uma história,
Em prova desta asserção.
 
Partia um velho campónio
Do seu monte ao povoado;
Levava um neto que tinha,
No seu burrinho montado. 

Encontra uns homens que dizem:
— Olha aquela que tal é!
Montado o rapaz, que é forte,
E o velho, trôpego, a pé!

Tapemos a boca ao mundo —,
O velho disse; Rapaz,
Desce do burro, que eu monto,
E vem caminhando atrás
 
Monta-se, mas dizer ouve:
Que patetice tão rata!
O tamanhão de burrinho,
E o pobre pequeno à pata!
 
Eu me apeio! — diz, prudente,
O velho de boa fé;
Vá o burro sem carrego,
E vamos ambos a pé. 

  Apeiam-se, e outros lhe dizem:
Toleirões, calcando lama!
De que lhes serve o burrinho?
Dormem com ele na cama?

 
Rapaz —, diz o bom do velho,
Se de irmos a pé murmuram,
Ambos no burro montemos,
A ver se inda nos censuram.


Montam, mas ouvem de um lado:
Apeiem-se, almas de breu,
Querem matar o burrinho?
Aposto que não é seu!

 

Vamos ao chão —, diz o velho,
Já não sei que hei de fazer!
O mundo está de tal sorte,
Que não se pode entender.

É mau se monto no burro,
Se o rapaz monta, mau é,
Se ambos montamos, é mau,
E é mau se vamos a pé!
 
De tudo me têm ralhado,
Agora que mais me resta?
Peguemos no burro às costas,
Façamos inda mais esta!

Pegam no burro; o bom velho
Pelas mãos o ergue do chão,
Pega-lhe o rapaz nas pernas,
E assim caminhando vão.

Olhem dois loucos varridos! —,
Ouvem com grande sussurro,
Fazendo mundo às avessas,
Tornados burros do burro! 
 
  O velho então pára, e exclama:
Do que observo me confundo!
Por mais que a gente se mate,
Nunca tapa a boca ao mundo.

Rapaz, vamos como dantes,
Sirvam-nos estas lições:
É mais que tolo quem dá
 Ao mundo satisfações.
 

Curvo Semedo, in Composições Poéticas 
 (Versão/Trad. da Fábula de La Fontaine)
 

"O velho, o rapaz e o burro" (Aesop's Fables) é uma fábula adaptada das Fábulas de Esopo (Esopo, 620—560 a.C.), que foi posteriormente recontada por Jean de La Fontaine (1621 —1695). Moral da história: "Cada cabeça, sua sentença".
 
 
Curvo Semedo: "O velho, o rapaz e o burro". 
 

Esopo

 Velázquez, Portrait of Aesop (Esopo), c. 1638, Museo del Prado
 

Famoso fabulista da antiga Grécia, terá nascido em Ammonious, na Frígia, e terá vivido entre o século VII e o VI a. C. As únicas informações sobre a sua vida, passíveis de credibilidade, que chegaram até aos dias de hoje são transmitidas por Heródoto, Plutarco e Heracles Pôntico, mas são tão escassas e até, por vezes, contraditórias que se chega a duvidar da existência de tal personagem. Através destes autores ficamos a saber que Esopo viveu em Samos, foi escravo, embora tenha conseguido ser alforriado, viajou pelo Egito, pela Babilónia e pelo Oriente, tendo sido morto pelos habitantes de Delfos. Plutarco conta que a sua morte teve origem numa condenação por ter roubado uma taça de ouro do interior do templo dedicado a Apolo em Delfos. Conta ainda que este acontecimento foi provocado por uma armadilha montada pelos sacerdotes do dito templo, devido a Esopo ter denunciado os maus costumes em que eles viviam. Esopo foi, então, condenado pela população de Delfos que o lançou do alto de um penedo.

Ainda pela pena de Plutarco temos notícia da sua parca fisionomia: era feio (de cabeça aguda, nariz achatado, barriga e lábios salientes), corcunda e gago, embora muito dotado intelectualmente e corajoso, a acreditar no episódio acima referido da denúncia dos sacerdotes. Tinha o dom da palavra e uma grande habilidade para contar histórias simples em que os personagens eram animais ou personagens mitológicos e nas quais havia sempre ensinamentos morais muito profundos e verdadeiros. Um curioso episódio da sua vida ilustra a sua grande inteligência. Era Esopo ainda escravo do seu primeiro senhor quando este, insatisfeito com o seu trabalho em casa, o mandou cultivar os campos. Um dia o senhor recebeu de um trabalhador um cesto de figos que confiou ao seu escravo Agathópodes enquanto ia ao banho público. Agathópodes planeou comer os deliciosos figos juntamente com um colega e imputar as culpas a Esopo. Esopo, que naquele dia tinha jejuado, bebeu água quente e vomitou para provar a sua inocência, e o senhor, obrigando os outros escravos a fazer o mesmo, encontrou e puniu os verdadeiros culpados. 
 
Esopo atribuía o seu dom da linguagem ao facto de ter ajudado uns sacerdotes de Ártemis e foi este dom que impressionou o seu terceiro senhor, Xanto, um conhecido filósofo de Samos que passeava no mercado de escravos acompanhado dos seus alunos. Xanto imaginou que Esopo fosse exibido para valorizar os outros dois escravos e perguntou-lhes o que faziam. Cantor fazia todas as coisas e custava mil moedas. Gramáticos também fazia todas as coisas e custava duas mil moedas. Ambas as quantias eram impensáveis para Xanto, que dirigiu a sua pergunta a Esopo, que respondeu que nada fazia porque os outros dois já faziam tudo e que era na verdade deformado, mas que um filósofo deveria considerar a mente para além da aparência. Xanto comprou Esopo por um preço muito reduzido e, mais tarde, surpreendido pela sua genialidade, veio a libertá-lo. 
 
Provável inventor da "moral da história", Esopo tornou-se um mito e foi citado por, para além dos autores já mencionados, Aristófanes e, ao que parece, Sócrates pôs em verso as suas fábulas, com base na coletânea, hoje perdida, que em meados do século V a. C. circulava em Atenas. A mais antiga coletânea de fábulas atribuídas a Esopo de que se tem conhecimento é a de Demétrio de Faleros (século IV a. C.), depois encontra-se outra de Bábrio (século III d. C.) e Fedro (século I d. C.). 
 
No século XIV um monge grego, de nome Planudio, escreveu a Vida de Esopo, sendo-lhe atribuída também a coletânea que hoje é conhecida como Fábulas de Esopo. La Fontaine e Florian, entre uma imensidão de outros autores cuja influência é mais indireta, inspiraram-se diretamente nas Fábulas de Esopo. La Fontaine escreveu também a sua biografia, A Vida de Esopo, o Frígio, considerando-o um grande sábio que ensinava a verdadeira sabedoria com muita arte. 
 
As centenas de fábulas da autoria de Esopo incluem histórias que fazem parte do património de todo o mundo. Na "Raposa e as Uvas", a raposa, desdenhando as uvas que não conseguia alcançar, deu origem à moral "É fácil desdenhar o que não se consegue ter" enquanto na "Raposa e o Corvo" sugere "Nunca confies nos que te gabam demasiado" e na "Raposa e a Máscara" diz que "O valor do exterior é pobre substituto do valor interior". Em "O Galo e a Pérola", em que o animal prefere um grão de aveia à pérola, sugere que "As coisas valiosas são para os que as sabem apreciar". Em "O Lobo e o Cordeiro" em que o primeiro come o segundo invocando razões inexistentes diz que "A um tirano qualquer desculpa lhe serve". No "Cão e a sua Sombra" existe a moral de que "Cuidado em não perderes o essencial, ao tentares agarrar a tua sombra". No "Leão Moribundo" a máxima é "Apenas os cobardes atacam a majestade agonizante". Nas "Rãs que Queriam Ter um Rei" Esopo sugere que "Mais vale não ter governo nenhum que ter um governo cruel". No "Homem Calvo e a Mosca" chega à conclusão de que "Quem ataca de mais inimigos insignificantes prejudica-se a si mesmo". No "Cão e o Lobo" o último diz que "Mais vale fraco e livre do que gordo e escravo". A Fábula "A Gata e Afrodite", em que a gata, transformada em mulher pela deusa, se esquece da sua nova condição e corre atrás de um rato para o comer, Esopo viu a seguinte lição: "O perverso pode mudar de aparência, mas nunca de hábitos".

As fábulas atribuídas a Esopo, pois como tudo o resto não é certo que dele sejam, podem ter sido inspiradas nas fábulas escritas em sânscrito chamadas Pancatantra e Hitopadesa, tanto pela semelhança como pelo elemento acima referido da viagem de Esopo ao Oriente.
As fábulas caracterizam-se por serem lições alegóricas sobre o comportamento moral exemplar, em que as personagens são animais. É, sobretudo, uma forma de pedagogia muito importante essencialmente para as crianças, cuja viva imaginação fixa mais facilmente tudo quanto seja do domínio do fantástico.  (Daqui)
 
 

segunda-feira, 9 de dezembro de 2019

"A Cigarra e a Formiga" - Fábula de Esopo, por La Fontaine

A Cigarra e a Formiga (O Gafanhoto e Formiga no original),
ilustração de Milo Winter, é uma das fábulas atribuídas a Esopo
e recontada por Jean de La Fontaine em francês.



A Cigarra e a Formiga 


Tendo a cigarra cantado durante o verão,
Apavorou-se com o frio da próxima estação.
Sem mosca ou verme para se alimentar,
Com fome, foi ver a formiga, sua vizinha,
pedindo-lhe alguns grãos para aguentar
Até vir uma época mais quentinha!
- "Eu lhe pagarei", disse ela,
- "Antes do verão, palavra de animal,
Os juros e também o capital."
A formiga não gosta de emprestar,
É esse um de seus defeitos.
"O que você fazia no calor de outrora?"
Perguntou-lhe ela com certa esperteza.
- "Noite e dia, eu cantava no meu posto,
Sem querer dar-lhe desgosto."
- "Você cantava? Que beleza!
Pois, então, dance agora!" 


Fábula de  Esopo, por La Fontaine


Ilustração de Teguh Mujiono (tigatelu)


A Cigarra e a Formiga
(Bocage)


Tendo a cigarra em cantigas
Folgado todo o Verão
Achou-se em penúria extrema
Na tormentosa estação.

Não lhe restando migalha
Que trincasse, a tagarela
Foi valer-se da formiga,
Que morava perto dela.

Rogou-lhe que lhe emprestasse,
Pois tinha riqueza e brilho,
Algum grão com que manter-se
Até voltar o aceso Estio.

«Amiga, diz a cigarra,
Prometo, à fé d’animal,
Pagar-vos antes d’Agosto
Os juros e o principal.»

A formiga nunca empresta,
Nunca dá, por isso junta.
«No Verão em que lidavas?»
À pedinte ela pergunta.

Responde a outra: «Eu cantava
Noite e dia, a toda a hora.»
«Oh! bravo!», torna a formiga.
– Cantavas? Pois dança agora!»


Manuel Maria Barbosa du Bocage


A cigarra e a formiga - Ilustração de Calvet-Rogniat (1812-1875)


A Cigarra e a Formiga 
 (A Formiga Boa - Monteiro Lobato) 


Houve uma jovem cigarra que tinha o costume de chiar ao pé do formigueiro. Só parava quando cansadinha; e seu divertimento era observar as formigas na eterna faina de abastecer as tulhas.
Mas o bom tempo afinal passou e vieram as chuvas . Os animais todos, arrepiados, passavam o dia cochilando nas tocas.
A pobre cigarra, sem abrigo em seu galhinho seco e metida em grandes apuros, deliberou socorrer-se de alguém.
Manquitolando, com uma asa a arrastar, lá se dirigiu para o formigueiro. Bateu – tique, tique, tique...
Aparece uma formiga friorenta, embrulhada num xalinho de paina.
- Que quer? – perguntou, examinando a triste mendiga suja de lama e a tossir.
- Venho em busca de agasalho. O mau tempo não cessa e eu...
A formiga olhou-a de alto a baixo.
- E que fez durante o bom tempo que não construiu a sua casa?
A pobre cigarra, toda tremendo, respondeu depois dum acesso de tosse.
- Eu cantava, bem sabe...
- Ah!.. . exclamou a formiga recordando-se. Era você então que cantava nessa árvore enquanto nós labutávamos para encher as tulhas?
- Isso mesmo, era eu...
Pois entre, amiguinha! Nunca poderemos esquecer as boas horas que sua cantoria nos proporcionou. Aquele chiado nos distraía e aliviava o trabalho. Dizíamos sempre: que felicidade ter como vizinha tão gentil cantora! Entre, amiga, que aqui terá cama e mesa durante todo o mau tempo.
A cigarra entrou, sarou da tosse e voltou a ser a alegre cantora dos dias de sol. 

Monteiro Lobato, do livro Fábulas


The Ant and the Grasshopper – by Jr Casas


A Cigarra e a Formiga
(Millôr Fernandes)


Cantava a Cigarra
Em dós sustenidos
Quando ouviu os gemidos
Da Formiga
Que, bufando e suando,
Ali, num atalho,
Com gestos precisos
Empurrava o trabalho;
Folhas mortas, insetos vivos.
Ao vê-la assim, festiva,
A Formiga perdeu a esportiva:
“Canta, canta, salafrária,
E não cuida da espiral inflacionária!
No inverno
Quando aumentar a recessão maldita
Você, faminta e aflita,
Cansada, suja, humilde, morta,
Virá pechinchar à minha porta.
E na hora em que subirem
As tarifas energéticas,
Verás que minhas palavras eram proféticas.
Aí, acabado o verão,
Lá em cima o preço do feijão,
Você apelará pra formiguinha.
Mas eu estarei na minha
E não te darei sequer
Uma tragada de fumaça!”
Ouvindo a ameaça
A Cigarra riu, superior,
E disse com seu ar provocador:
“Estás por fora,
Ultrapassada sofredora.
Hoje eu sou em videocassete,
Uma reprodutora!
Chegado o inverno
Continuarei cantando
- sem ir lá –
No Rio,
São Paulo,
E Ceará,
Rica!
E você continuará aqui
Comendo bolo de titica.
O que você ganha num ano
Eu ganho num instante
Cantando a Coca,
O sabãozão gigante,
O edifício novo
E o desodorante.
E posso viver com calma
Pois canto só pra multinacionalma.”

sábado, 4 de maio de 2019

"A Lebre e a Tartaruga" - Poema de Curvo Semedo


"A Lebre e a Tartaruga", Ilustração de Milo Winter 



A Lebre e a Tartaruga

(Fábula)


«Apostemos», disse à lebre
A tartaruga matreira,
«Que eu chego primeiro ao alvo
Do que tu, que és tão ligeira!»
 
«Cala a boca, toleirona,»
Lhe disse a lebre mofando,
«Ou tens perdida a cabeça,
Ou comigo estás zombando.» 

Respondeu-lhe a tartaruga:
«Nisso me estás a entender
Que receias apostar
Porque não queres perder.»

«Pois tu, vã, que és uma lesma
Queres competir com a lebre?
Isso é doença, estás vária, 
Provém do efeito da febre;

Eu, que por uma charneca
Corro dos galgos em frente,
Que os canso, sem que me possa
No lombo ferrar o dente,

Havia temer a quem
Gasta uma hora em dar um passo?»
Retrucou-lhe a tartaruga
Com todo o desembaraço:

«Leva, amiga, de bazófias
Desculpas não valem nada;
Se tem medo não aposte,
Porém, dê-se por cangada. 

Ando no mar e na terra;
Sei muito bem o que é mundo,
Propus-me a apostar contigo
Porque sei no que me fundo.»

«Pois vá feito,» diz a lebre;
«E aquele velho sobreiro
Seja a meta, e leve o prémio
A que chegar lá primeiro;

De juiz não precisamos;
Porque eu na meta vou pôr
As apostas que serão
Da primeira que lá for.» 

Eis vai cumprir o que ajusta,
E volta num breve prazo;
Não digo o que foi a aposta
Porque isso não vem ao caso.

Dado o sinal da partida,
Estando as duas a par,
A tartaruga começa
Lentamente a caminhar.

A lebre tendo vergonha
De correr diante dela,
Tratando uma tal vitória
De peta ou de bagatela,

Julga, cheia de vaidade,
Que ainda tempo lhe sobeja
Se entrar a correr já quando
Perto do sobreiro a veja.

Deita-se, e dorme o seu pouco;
Ergue-se, e põe-se a observar
De que parte corre o vento,
E depois entra a pastar;

Eis deita uma vista de olhos
Sobre a caminhante sorna,
Inda a vê longe da meta,
E a pastar de novo torna.

Olha; e depois que a vê perto,
Começa a sua carreira;
Mas então apressa os passos
A tartaruga matreira.

À meta chega primeiro,
Apanha o prémio apressada,
Pregando à lebre vencida
Uma grande surriada.

Não basta só haver posses
Para obter o que intentamos;
É preciso pôr-lhe os meios,
Quando não, atrás ficamos.

O contendor não desprezes
Por fraco, se te investir;
Porque um anão acordado
Mata um gigante a dormir.


 in Composições Poéticas  
Tradução livre das Fábulas de La Fontaine

"A Lebre e a Tartaruga" é uma das Fábulas de Esopo (Esopo (620560 a.C.), que foi posteriormente recontada por Jean de La Fontaine (16211695), na qual uma lenta tartaruga vence a corrida de uma lebre. Moral da História: 'Quem corre cansa, mas devagar se vai longe.' (Daqui)