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terça-feira, 21 de setembro de 2021

"Raízes" - Poema de Carlos de Assumpção


Adolf Erbslöh (German, 1881–1947), Haus im Garten, 1912,



Raízes

Para Aristides Barbosa


Estou de volta pra casa
Estou de volta a meu lar
A vida aqui tem sentido
Aqui é que é meu lugar

Oxum passeia na praça
Xangô conversa no bar
Hoje de volta pra casa
Convivo com os Orixás

Estou de volta pra casa
Aqui tudo é natural
Té felicidade é fruto
Que se consegue alcançar

Enfim reencontro a fonte
Donde axé jorrando está
Estou de volta pra casa
Estou de volta a meu lar

A vida aqui tem sentido
Aqui é que é meu lugar
Aqui tem congada samba
Batuque pra se dançar

Tem mulheres lindas lindas
Lindas feito lemanjá
Mulheres de largas ancas
E doce encanto no olhar

Estou de volta pra casa
Estou de volta a meu lar
A vida aqui tem sentido
Aqui é que é meu lugar

Agora livre de abismo
Livre pássaro a voar
Aqui tenho vida plena
Com a bênção dos Orixás

Estou de volta pra casa
Estou de volta a meu lar
Hoje vivo como vive
Caracol no meu quintal.
 
 
Carlos de Assumpção
(Quilombo, p. 73-74)
 
 

 Adolf Erbslöh, Autorretrato, 1928
 
 
 "As ideias são as raízes da criação." 
 
 

domingo, 15 de agosto de 2021

"Mãe" - Poema de Carlos de Assumpção



Elin Danielson-Gambogi (Finnish painter, 1861–1919),
"On the Way Home in the Evening Light", 1901 [Also known as 
"Returning Home or Picking Flowers".]
 
 
Mãe


Noite,
Os anos já pintaram de luar os teus cabelos,
No entanto, tudo parece estar acontecendo agora,
Neste instante.

Noite,
Após tantos anos,
Neste momento,
Vejo tudo diante de mim,
Como se estivesse assistindo a um filme
Da infância:

Nós, teus filhos, todos pequenos,
O relógio parado na hora de privações,
Tantos sonhos de asas quebradas pelos cantos
De nossa casa pobre, sem conforto;

Tu, mulher ainda jovem, tão boa, tão calma,
Constelação de esperança e ternura,
Inspirando segurança,
Inspirando fé, amor,
Em meio a tantos vendavais.

Noite,
Tua luta foi para nós teu maior ensinamento
Sofrias (hoje o sei), entretanto,
Em nossa presença, nunca uma lágrima
Rolou pelo teu rosto.

Noite,
Desde criança aprendi a amar-te,
Mas só hoje, adulto, é que vejo, comovido,
As incontáveis estrelas que brilham em teu ser
E que tantos vendavais não conseguiram apagar.
 

Carlos de Assumpção, Quilombo, p. 47-48