"Cantos à beira-mar", publicado
originalmente em 1871, é dedicado à memória da mãe de Maria Firmina dos
Reis e conta com cinquenta e seis poesias, das quais o próprio título da
obra indica os caminhos percorridos em muitas delas, como não poderia
ser diferente. Sendo Guimarães uma cidade litorânea, onde Maria Firmina
dos Reis passou grande parte de sua vida, o mar e a praia são presenças
marcantes nas poesias, esta última transformada em lugar de beleza,
meditação ou melancolia, como pode ser verificado nos poemas “Uma Tarde
no Cumã”, “Nas Praias do Cumã”. “Cismar”, “Itaculumim”, “Meditação”, “Melancolia”, entre outros, nos
quais o ambiente da praia, por vezes, aparece como o lugar propício
para a reflexão em torno dos próprios sentimentos e anseios.
A desesperança com a vida, o sofrimento,
o desejo da morte, os amores não correspondidos, entre outros temas
semelhantes, aparecem em outros poemas. Em parte, isso pode ser fruto do
próprio movimento literário romântico em vigência no Brasil, o qual
Maria Firmina dos Reis observou temáticas, regras de composição e
estilo, presentes tanto em sua produção poética quanto em prosa. Assim,
não se pode desvincular a obra da escritora do seu período de atuação,
pois estão de tal forma entrelaçados que o fundamento central das
poesias encontra eco expressivo nas características do movimento
romântico, em especial na fase do ultrarromantismo, de forte teor
sentimental e espiritual. Alguns dos poemas que trazem essa face são
“Amor”, “Desilusão”, “A dor, que não tem cura”, “Súplica” e “Confissão”.
A exaltação da terra e nacionalismo, bem
como homenagens a pessoas ilustres, são também temas recorrentes,
comprovando o interesse em manter teias de relações que a mantivessem no
meio letrado, além de ser prática recorrente entre escritores do
período. Alguns exemplos são os poemas “Minha terra”, oferecido a
Francisco Sotero dos Reis, “Te-Deum”, oferecida ao poeta Gentil
Homem, “Por ocasião da passagem de Huimatá”, dedicada ao poeta
maranhense João Clímaco Lobato, entre outros.
Nesses e outros poemas sobressai, ainda,
a escrita de textos de cunho nacionalista, nos quais elogia a província
maranhense e a capital São Luís, como os cenários naturais, o passado
de luta, a terna ligação com a própria terra e o receio em deixá-la,
como nos poemas “O proscrito” e “Minha terra”, além dos textos
dedicados aos homens que lutaram na Guerra do Paraguai (1864-1870):
“Poesia”, “À recepção dos voluntários de Guimarães”, “Poesias” e “À partida dos voluntários da pátria do
Maranhão”, “Poesia”, sobre os quais tece o elogio à
resistência e almeja a preservação da memória dos que ali lutaram.
Em outros movimentos nessa mesma obra,
Maria Firmina dos Reis usa da crítica velada contra a opressão
patriarcal, denunciando o papel social destinado às mulheres no período,
que as distanciava do ambiente público. A escritora maranhense subverte
padrões estabelecidos, ao publicar seus textos em jornais e livros.
Neste período, como indica Constância
Lima Duarte (2016), a participação na imprensa era pouco viável às
mulheres, apesar da existência de jornais editados e destinados ao
público feminino, alguns dedicados a reafirmar a cultura patriarcal, e
outros permeados pela questão educacional e reflexões acerca do papel da
mulher, afirmando um desejo de emancipação feminina em meio a forças
contraditórias, ora intermediando o movimento emancipatório, ora
funcionando como obstáculos.
A ousadia de Maria Firmina dos Reis, ao
tratar do tema da opressão feminina, demonstra a compreensão do contexto
senhorial, bem como desnuda sua conceção sobre a sociedade do período
em relação às mulheres, utilizando de uma “estratégia irónica”, por meio
da qual se coloca em lugar subalterno para poder romper com o
emudecimento imposto, lançando ao público seu livro de poesias e outras
obras, como bem observa Juliano Carrupt do Nascimento (2007).
Alguns dos poemas que exprimem essa face
crítica são “No álbum de uma amiga”, “À minha extremosa amiga
D. Anna Francisca Cordeiro”, “Minha Alma”, “Confissão”, “Não quero amar mais ninguém”, este último tecendo
significativa relação com poemas românticos que exaltavam o amor ideal,
no entanto, subverte ao ser construído com um eu-lírico feminino
afirmando não querer amores terrenos, que apenas trazem sofrimentos,
assegurando sua satisfação com o amor idealizado.
Nessa obra sobressai, ainda, um poema
com temática indianista, “Por ocasião da tomada de Villeta e ocupação de
Assunção”, que confere à produção de Maria Firmina dos Reis
mais um ponto de relação com as produções românticas nacionais, nesse
poema é exaltado o caráter guerreiro e vitorioso dos indígenas. Essa
produção tece diálogo com o conto Gupeva, publicado originalmente em 1861, no jornal Jardim das Maranhense, e republicado em 1863 e 1865, respetivamente nos jornais Porto Livre e Eco da Juventude. (Daqui)