Mostrar mensagens com a etiqueta Victor Brauner. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Victor Brauner. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

"Liberta em Pedra" - Poema de Natércia Freire


Victor Brauner (1903-1966), La fiancée de la nuit, 1937



Liberta em Pedra


Livre, liberta em pedra. 
Até onde couber 
tudo o que é dor maior, 
por dentro da harmonia jacente, 
aguda, fria, atroz, 
de cada dia. 

Não importam feições, 
curvas de seios e ancas, 
pés eretos à luz 
e brancas, brancas, brancas, 
as mãos. 

Importa a liberdade 
de não ceder à vida, 
um segundo sequer. 

Ser de pedra por fora 
e só por dentro ser. 
- Falavas? Não ouvi. 
- Beijavas? Não senti. 
Morreram? Ah! Morri, morri, morri! 

Livre, liberta em pedra, 
voltada para a luz 
e para o mar azul 
e para o mar revolto... 
E fugir pela noite, 
sem corpo, nem dinheiro, 
para ler os meus santos 
e os meus aventureiros, 
(para ser dos meus santos, 
dos meus aventureiros), 
filósofos e nautas, 
de tantos nevoeiros. 

Entre o peso das salas, 
da música concreta, 
de espantalhos de deuses, 
que fará o Poeta? 


Natércia Freire, 
in 'Liberta em Pedra'


Natércia Freire


Natércia Freire, escritora portuguesa, nasceu em 1920, em Benavente, e faleceu a 19 de dezembro de 2004. Estudou música e tirou o curso do Magistério Primário. Dirigiu o suplemento literário "Artes e Letras" do Diário de Notícias e colaborou em publicações diversas e na Emissora Nacional, fazendo palestras mensais. Iniciou-se como decente na escola primária em 1944. Foi convidada para a Comissão de Leitura da Fundação Calouste Gulbenkian, de que se tornou membro, de 1971 a 1974.
Revelou-se na poesia em 1939 com a coletânea Meu Caminho de Luz. Foram-lhe atribuídos os prémios literários Antero de Quental (por Rio Infindável em 1947 e Anel de Sete Pedras em 1952), Ricardo Malheiros (1955) e Nacional de Poesia (1972), este último pela obra Os Intrusos. Da sua vasta obra destacam-se ainda Horizonte Fechado (1942) e os contos de A Alma da Velha Casa (1945). (Daqui)


segunda-feira, 26 de setembro de 2011

"Quadras soltas" - Poemas de António Aleixo


Victor Brauner, Dancing girl, 1934


 Quadras soltas


De te ver fiquei repeso,
Em vez de ganhar perdi;
Quis prender-te, fiquei preso,
E não sei se te prendi.

A começar pelo «urso»
De Coimbra, a estudantada,
Só quando se acaba o curso,
Sabe que não sabe nada.

Alheio ao significado,
Diz o povo, e com razão,
Quando ouve um grande aldrabão:
- Dava um bom advogado.

Há tantos burros mandando
Em homens de inteligência,
Que às vezes fico pensando
Que a burrice é uma ciência!

Foste beijar o menino,
Quando, afinal eu vi bem
Que beijaste o pequenino
Porque gostavas da mãe.

Sem que o discurso eu pedisse,
Ele falou; e eu escutei,
Gostei do que ele não disse;
Do que disse não gostei.

Para não fazeres ofensas
E teres dias felizes,
Não digas tudo o que pensas,
Mas pensa tudo o que dizes.

Sei que pareço um ladrão...
Mas há muitos que eu conheço
Que não parecendo o que são,
São aquilo que eu pareço.




Victor Brauner, The Surrealist, 1947


"Um Homem percorre o mundo inteiro em busca daquilo que precisa e volta a casa para encontrá-lo."

George Moore, The Brook Kerish


Susana Félix - Amanhecer