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terça-feira, 4 de dezembro de 2018

"Protesto" - Poema de Walmir Ayala


Christoffer Wilhelm Eckersberg (Danish painter, 1783 – 1853),
A Nude Woman Doing Her Hair Before a Mirror, 1841.
Hirschsprung Collection


Protesto 


Não é no teu corpo que se imola
para a ceia dos meus sentidos
a vítima núbil, a áurea mola
que cinge o amor recente aos idos.

Mas é também no teu corpo que corre
o sangue que o meu sangue socorre.

Não é no teu corpo que se ergue
a guerra fria dos meus nervos,
nem nasceram tuas transparências
para a cegueira dos meus dedos.

Mas é também no teu corpo insano
que perscruto meu desconforto humano.

Não é no teu corpo, nos teus olhos
de fauno, que colho as minhas ditas,
nem o jasmim de tua boca flore
para a visão que me solicita.

Mas é também no teu corpo único
que o amor à forma do Amor reúno.

Não é no teu corpo que concentro
minha sede (esta sede ferina
que morre de seu farto alimento
e vive de quanto se elimina)

Mas é também teu corpo a medida
destas águas sobre a minha ferida.

Não é no teu corpo, mas é tanto
no teu corpo meu último refúgio,
que amoroso e em pânico me insurjo
contra a fonte que és: júbilo e pranto.

Mas é também no teu corpo o tudo
da solidão em que me aclaro e escudo.

Em teu corpo, canal que brande e acalma
minha alma, este pássaro árduo e mudo
na estranha migração da tua alma. 


Walmir Ayala
, in 'O Edifício e o Verbo'


Christoffer Wilhelm Eckersberg, Naked Woman Putting on her Slippers, 1843
 

"Pelo exemplo de Beatriz compreende-se facilmente como o amor feminino dura pouco,
se não for conservado aceso pelo olhar e pelo tato do homem amado."

Dante Alighieri,
Purgatório (Divina Comédia)


terça-feira, 6 de novembro de 2018

"Meus amigos, meus conhecidos, meus afetos e desafetos" - Poema de Walmir Ayala


Christoffer Wilhelm Eckersberg, Rainbow at Sea with some cruising Ships, 1836



Meus amigos, meus conhecidos


Meus amigos, meus conhecidos, meus afetos e desafetos,
meus leitores e detratores, ouçam e atendam:
quando chegar a hora do meu último repouso,
busquem meu corpo onde ele estiver,
na poeira do Rio ou na neve gaúcha,
nalgum Japão antípoda, ou aqui mesmo,
na rua Dr. Luiz Januário, uma rua que
possivelmente já tenha perdido os belos paralelepípedos
em nome do duvidoso progresso.

Busquem meu corpo de carro ou rabecão, de carrinho de mão
ou num simples lençol usado,
e depositem ali, atrás da Igreja da mãe de Nazaré,
naquela terra que o mato insiste em invadir,
e onde não há sinal de diferença de classe ou de sonho,
tão singelas são as lápides.

Deitem-me ali, com toda memória possível que tenham de mim,
lembrem e inventem sobre a minha vida, mas deixem-me ali.

Quero enfrentar a vida eterna com prazer,
o vento e o azul do céu fazendo um toldo móvel sobre o meu leito.

Eu e o silêncio
ouvindo eternamente o mar. 


Walmir Ayala

Rio, 11-08-1990


terça-feira, 4 de outubro de 2016

"Até o Fim" - Poema de Walmir Ayala


Petrus van Schendel (1806 - 1870), Market by candlelight, 1869



Até o fim


Até o fim com esta garganta
e estes olhos
líquidos, até o fim
com estas mãos
trémulas.

Até o fim com estes pés exaustos
e estes lábios costurados
ao pé da noite. Até o fim
sem dizer nada.

Até o fim estes canais premindo
o sangue.
Até o fim o obrigatório oxigénio
sobrevivência
no abstrato
difícil ar.

Até o fim a tinta ilesa do amor
na alma,
até que quebrem as epidermes
desta mentira,
e o fim prossiga
até o fim. 


 in ‘Antologia Poética’


Petrus van SchendelFish Seller, Evening Market, 1843


E minha alma, sem luz nem tenda,
passa errante, na noite má,
à procura de quem me entenda
e de quem me consolará…