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sexta-feira, 28 de março de 2025

"Saudades não as quero" - Poema de Afonso Lopes Vieira


Henry Alexander (American painter from California, 1860–1894),
The Artist in his Studio.

Saudades não as quero


Bateram fui abrir era a saudade
vinha para falar-me a teu respeito
entrou com um sorriso de maldade
depois sentou-se à beira do meu leito
e quis que eu lhe contasse só a metade
das dores que trago dentro do meu peito.

Não mandes mais esta saudade
ouve os meus ais por caridade
ou eu então deixo esfriar esta paixão
amor podes mandar se for sincero
saudades isso não pois não as quero.

Bateram novamente era o ciúme
e eu mal me apercebi de que batera
trazia o mesmo ódio do costume
e todas as intrigas que lhe deram
e vinha sem um pranto ou um queixume
saber o que as saudades me fizeram.

Não mandes mais esta saudade,
ouve os meus ais por caridade,
ou eu então deixo esfriar esta paixão,
amor podes mandar se for sincero,
saudades isso não pois não as quero.


Afonso Lopes Vieira
, em "Antologia Poética",
Guimarães Editores - 1966.




Henry Alexander, In the Laboratory, ca. 1885–87.


"Tão fiel fui ao glorioso ofício, que perdi o sono e a saúde."


Dante Alighieri
, em 'Inferno'

 

quarta-feira, 12 de março de 2025

"O ar da minha dama" - Poema de Dante Alighieri


 
Georg Pauli (Swedish painter, 1855-1935), Lady in a Landau Carriage, Paris, 1881-83.
  Nationalmuseum. 


O ar da minha dama 

 
Tanto é gentil e tão honesto é o ar
da minha dama, quando aos mais saúda,
que toda a língua de tremor é muda,
e os olhos não se atrevem de a fitar.

E ela perpassa, ouvindo-se louvar,
vestida de humildade e tão sisuda,
que se diria que, do céu transmuda,
à terra veio milagres comprovar.

E é graciosa tanto a quem na mira
que dá dos olhos tal ternura ao seio,
que entendê-la não pode o que a não sente.

E é como se em seus lábios fora ardente
um espírito suave e de amor cheio
que, sem dizê-lo, às almas diz: — Suspira. 
in 'Poesia de 26 Séculos" de Jorge de Sena.

terça-feira, 4 de dezembro de 2018

"Protesto" - Poema de Walmir Ayala


Christoffer Wilhelm Eckersberg (Danish painter, 1783 – 1853),
A Nude Woman Doing Her Hair Before a Mirror, 1841.
Hirschsprung Collection


Protesto 


Não é no teu corpo que se imola
para a ceia dos meus sentidos
a vítima núbil, a áurea mola
que cinge o amor recente aos idos.

Mas é também no teu corpo que corre
o sangue que o meu sangue socorre.

Não é no teu corpo que se ergue
a guerra fria dos meus nervos,
nem nasceram tuas transparências
para a cegueira dos meus dedos.

Mas é também no teu corpo insano
que perscruto meu desconforto humano.

Não é no teu corpo, nos teus olhos
de fauno, que colho as minhas ditas,
nem o jasmim de tua boca flore
para a visão que me solicita.

Mas é também no teu corpo único
que o amor à forma do Amor reúno.

Não é no teu corpo que concentro
minha sede (esta sede ferina
que morre de seu farto alimento
e vive de quanto se elimina)

Mas é também teu corpo a medida
destas águas sobre a minha ferida.

Não é no teu corpo, mas é tanto
no teu corpo meu último refúgio,
que amoroso e em pânico me insurjo
contra a fonte que és: júbilo e pranto.

Mas é também no teu corpo o tudo
da solidão em que me aclaro e escudo.

Em teu corpo, canal que brande e acalma
minha alma, este pássaro árduo e mudo
na estranha migração da tua alma. 


Walmir Ayala
, in 'O Edifício e o Verbo'


Christoffer Wilhelm Eckersberg, Naked Woman Putting on her Slippers, 1843
 

"Pelo exemplo de Beatriz compreende-se facilmente como o amor feminino dura pouco,
se não for conservado aceso pelo olhar e pelo tato do homem amado."

Dante Alighieri,
Purgatório (Divina Comédia)


sábado, 5 de julho de 2014

"Aqui louvo os Animais" - Poema de Sebastião Alba


Joaquín Sorolla, Portrait of a Jack Russell, 1909, Private Collection


Aqui louvo os Animais


Súbdito só de quem não reina, 
aqui louvo os animais. 
Há, entre mim e eles, uma funda 
relação de videntes: 
as paisagens que fendem 
e a minha, sepulta, 
perfazem um mesmo habitat. 
Desde que os não sondo, 
fez-se luz em nosso convívio. 
O ar inicial 
que ensaiava, icárico, 
nas bolas de sabão, 
mas não atina com o vácuo 
da cidade, vem-me 
dos seus pulmões arborescentes. 
Alheios à sua pele 
na osmose dos textos, 
ignoram que nas águas 
por correr, desta página, 
cruzam, saudando-se, 
o «Beagle» e a Arca de Noé. 


Sebastião Alba,
 in 'O Limite Diáfano'


Sebastião Alba


Sebastião Alba, pseudónimo de Dinis Albano Carneiro Gonçalves (11 de Março de 1940 / 14 de Outubro de 2000, nasceu na freguesia da CividadeBraga. Filho de Albano Moaz dos Santos Gonçalves, professor primário, e Adelaide Sebastiana Peixoto de Oliveira Carneiro, doméstica, partiu em 1949, com nove anos, para a colónia de Moçambique, passando a viver em Tete com os seus pais e irmãos. 
No início da década de 50, após passar no exame de admissão ao Liceu Salazar de Lourenço Marques, frequentou o Colégio Camões e também o Instituto Liceal na Beira. Em finais dos anos 50, a família passou a viver em Quelimane
Após ter sido incorporado no Contingente Geral em Boane aos 21 anos, desertou no segundo dia. Acabou detido e acusado de extravio de bens militares: cinto e bivaque. Ficou detido por dois anos e meio, sem julgamento e sob tortura, no isolamento. No entanto, ainda se ausentou quatro vezes da Casa de Reclusão. Cumpriu os quinze meses de pena a que foi condenado pelo Tribunal Militar na 23ª Enfermaria do Hospital Miguel Bombarda. Acompanhou sempre o conflito armado entre o Exército Português e a FRELIMO. Tendo manifestado o seu apoio à FRELIMO após a independência, e após frequentar um curso de formação em Inhanbane, foi convidado para assumir o cargo de administrador da província da Zambézia. No entanto, desanimado, acabou por abandonar o cargo passados alguns meses sem sequer pedir demissão.
Acabou por se fixar em Maputo com a família, entrando em contacto com intelectuais e figuras políticas, tais como Marcelino dos SantosRui NogarSérgio VieiraHonwana, etc. 
Em Outubro de 1974, Sebastião Alba vê publicado O Ritmo do Presságio, acompanhado de uma nota de apresentação por José Craveirinha, na colecção O Som e o Sentido da Livraria Académica de Lourenço Marques. Em 1981 e 1982 são publicados, respectivamente, O Ritmo do Presságio e A Noite Dividida pelas Edições 70.
A desilusão com a situação política em Moçambique e a preocupação com as filhas fez com que, relutantemente, voltasse a Portugal em 1983. 
Após um período atribulado por várias desilusões, (divórcio dos pais, morte da mãe, morte do pai, divórcio da sua esposa) acaba por voltar a Braga, passando a habitar quartos de aluguer. O problema com o álcool e tabaco agravam-se. Toma vida de andarilho, acabando por viver na rua, por escolha própria.
Em 1996, é publicada pela Editora Assírio e Alvim, através da colaboração do poeta Herberto Hélder, A Noite Dividida, que tenta recuperar o conjunto da sua obra poética, embora incompleta.
Na manhã 14 de Outubro de 2000, foi atropelado mortalmente por um condutor que se pôs em fuga, em Braga. A 7 de Outubro, num bilhete quase premonitório ao amigo Vergílio Alberto Vieira escrevia: «Se um dia encontrarem morto "o teu irmão Dinis", o espólio será fácil de verificar: dois sapatos, a roupa do corpo e alguns papéis que a polícia não entenderá.»
A título póstumo, foi publicada em 2000 a antologia Uma Pedra Ao Lado Da Evidência, cujas provas ainda foram revistas por Sebastião Alba.

Obras de Sebastião Alba:

1 - Poesias, Quelimane, Edição do Autor, 1965.
2 - O Ritmo do Presságio, Maputo, Livraria Académica, 1974.
3 - O Ritmo do Presságio, Lisboa, Edições 70, 1981.
4 - A Noite Dividida, Lisboa, Edições 70, 1982.
5 - A Noite Dividida (O Ritmo do Presságio / A Noite Dividida / O Limite Diáfano), Lisboa, Assírio e Alvim, 1996.
6 - Uma Pedra Ao Lado Da Evidência (Antologia: O Ritmo do Presságio / A Noite Dividida / O Limite Diáfano + inédito), Porto, Campo das Letras, 2000.

DaquiSebastião Alba - Projecto Vercial - Universidade do Minho


Galeria de Joaquín Sorolla y Bastida
Joaquín Sorolla y Bastida, The Gardens at the Sorolla Family House, 1920


"Não há maior dor do que a de nos recordarmos dos dias felizes quando estamos na miséria."

(Dante Alighieri)


Joaquín Sorolla y Bastida, My Family, 1901


"A fama que se adquire no mundo não passa de um sopro de vento, que ora vem de uma parte, ora de outra, e assume um nome diferente segundo a direção de onde sopra."

(Dante Alighieri)


Joaquín Sorolla y Bastida, Clotidle sitting on the sofa, 1910


"A razão vos é dada para discernir o bem do mal."

(Dante Alighieri)


Joaquín Sorolla y Bastida, Clothilde at the Beach, 1904


"Abre a mente ao que eu te revelo e retém bem o que eu te digo, pois não é ciência ouvir sem reter o que se escuta."

(Dante Alighieri)


Dante Alighieri, Afresco na Capela Bargello,

domingo, 1 de junho de 2014

"A Luz do teu Amor" - Poema de Guilherme de Azevedo


Sir Walter  Westley Russell (British painter and art teacher, 1867‑1949), Cordelia, 1930.


A Luz do teu Amor


 Oh! Sim que és linda! a inocência 
Em tua fronte serena 
Com tal doçura reluz!... 
Tanta e tanta... que a açucena 
Tão esplêndida a existência 
Não lha doura assim à luz! 
Oh! que és linda, e mais... e mais 
Quando um traço melancólico 
Te diviso no semblante 
Nos teus olhos virginais! 
Que doçura não existe 
Ai! ó virgem, nesse instante 
Na poética beleza 
Desse traço de tristeza 
Que te vem tornar mais bela 
Mal em teu rosto pousou! 
E eu te quero assim, ó estrela, 
Que se inspira em mim a crença 
Triste... triste, que és mais linda, 
Mas dessa beleza infinda 
Das ficções da renascença 
Que a poesia perfumou! 

Fita agora os olhos lânguidos 
Na estrela que te ilumina, 
Eu não sei que luz divina 
De amor nos fala em teu rosto! 
Eu não sei, nem tu... ninguém!... 
Que a vaga luz do sol posto, 
Que a palidez da cecém, 
Que a meiguice dos amores, 
E que o perfume das flores 
Não respiram a harmonia 
Desse toque leve... leve 
Do mais puro sentimento, 
Da mais suave ilusão! 
As flores leva-as o vento; 
Mas a divinal poesia 
Que em teu peito se alimenta 
Não a desfaz a tormenta, 
Nem a consome o vulcão! 

E assim! - Lembra-me ainda 
Aquele instante suave! 
Havia paixão infinda 
No terno gorjeio da ave 
Que ao longe... ao longe se ouvia 
Ressoar na laranjeira! 
Assim foi... assim tão pálida 
Que eu te vi a vez primeira 
Naquele instante sem par! 
Sim! Oh! se a alma do poeta 
É como a ardência do mar, 
Que se calma e se aquieta 
À luz que baixa dos céus; 
Eu por ti surgi, ó bela, 
O cantor daquela estrela 
Que fulge lá no horizonte, 
Que me voa a vida em êxtase 
Quando sobre a minha fronte 
Cai a luz dos olhos teus! 

E se o passado foi triste 
Sepultei-o num abismo, 
E esqueci ao magnetismo 
Da tua doce expressão 
O gemer da tempestade, 
Mais o ralar da ansiedade 
Daqueles dias de então! 
Se já viste mesmo em sonhos 
Ressurgir graciosa e bela 
De entre os negrumes da noite 
A doce imagem da estrela 
Que sorri ao turvo mar; 
Faz ideia de minha alma 
Que em deserto triste e infindo 
Vivia sem uma palma, 
E que, um dia... um dia lindo, 
Surge à luz do teu olhar! 

E depois a melancolia, 
Aquela doce cadência 
Que tinhas então na fala, 
Tão suave como a essência 
Que somente a flor exala, 
Tudo... tudo me prendeu! 
E hoje elevo as mãos ao céu, 
E bendigo aquele instante 
em que vi a tua imagem 
de vaga luz radiante, 
Embora seja a miragem 
Que na aridez do deserto 
Um instante nos fulgura, 
E que, ora longe, ora perto, 
Bem pouco... bem pouco dura! 
Não negues um dia alento 
Aos débeis sopros de vida 
Que em mim pululam agora 
Com mais força e mais calor! 
Se vives da luz da aurora 
Que à vida te diz bonança, 
Eu só vivo da esperança 
E da luz do teu amor! 


Guilherme de Azevedo, 
in 'Antologia Poética'


Guilherme de Azevedo retratado 


Guilherme Avelino Chaves de Azevedo (Santarém, 30 de Novembro de 1839 - Paris, 6 de Abril de 1882) foi um jornalista e poeta português. 
 
Ligado à "Geração de 70", foi um dos representantes da poesia revolucionária introduzida no país por Antero de Quental ("Odes Modernas", 1865), tendo ainda recebido influências dos franceses Vitor Hugo e Charles Baudelaire.
 
Filho de um escrivão das Finanças, desde a infância mostrou-se fisicamente débil, como resultado de uma queda que o fez coxo e lhe provocou uma lesão de que viria a morrer prematuramente aos quarenta e dois anos de idade. Viveu, por essa razão, obcecado por esconder os seus males físicos. 
 
Em 1871 fundou em Santarém o periódico "O Alfageme", primeiro momento da sua carreira jornalística e onde defendeu, com escândalo no país à época, as ideias revolucionárias da Comuna de Paris
 
Após o falecimento do pai, instalou-se em Lisboa, onde abraçou definitivamente o jornalismo, profissão na qual atingiu posição relevante. Trabalhou nos periódicos "Diário da Manhã", "O Pimpão" e em "A Lanterna Mágica". Colaborou no "Primeiro de Janeiro" com um folhetim semanal, bem como no jornal O Panorama (1837-1868) e nas revistas A Mulher (1879), Ribaltas e gambiarras (1881) e Jornal de Domingo (1881-1883), e ainda na imprensa brasileira. 
 
Como poeta, foi um autor representativo, abordando temas modernos numa escrita de índole épico-social. Publicou os primeiros versos no "Almanaque de Lembranças" de 1864, sob o pseudónimo de "G. Chaves", vindo a colaborar posteriormente em vários periódicos, como o "Comércio de Lisboa", a "Revolução de Setembro" e a "Gazeta do Dia", onde, em parceria com Guerra Junqueiro, manteve as crónicas humorísticas da rubrica "Ziguezagues"
 
Fundou o O António Maria em 1879 com Rafael Bordalo Pinheiro, e, ainda ao lado deste, dirigiu e colaborou no "Álbum das Glórias". No mesmo ano, novamente com Guerra Junqueiro, redigiu a sátira teatral "Viagem à roda da Parvónia", que seria pateada e proibida, mas que Ramalho Ortigão considerou uma "fiel pintura dos costumes constitucionais" do país à época. 
 
Em 1880, em consequência da fama conquistada como cronista mundano e político, o periódico carioca "Gazeta de Notícias" nomeou-o seu correspondente em Paris, função que desempenhou nos dois últimos anos da sua vida. 
 
As suas poesias, reunidas nas três coletâneas "Aparições" (1867), "Radiações da Noite" (1871) e "Alma Nova" (1874), encarnam o novo realismo satírico de inspiração baudelairiana no país. 
Com o pseudónimo "João Rialto" deixou vários escritos com elevado humorismo. (Daqui)
 
 

Galeria de Walter Westley Russell
Walter Westley Russell, Camilla


"Do primeiro amor gosta-se mais, dos outros gosta-se melhor." 

(Antoine de Saint-Exupéry)


Sir Walter Russell, Tying her shoe


"A medida do amor é amar sem medida."

(Victor Hugo)


Sir Walter Russell, Portrait of a Lady


"Quando somos amados, não duvidamos de nada. Quando amamos, duvidamos de tudo." 

(Sidonie Colette)


Sir Walter Russell, The Morning Room


"Gosto desta ideia: que o amor é uma forma de conversação em que as palavras agem em vez de serem faladas."

(David Lawrence, O Amante de Lady Cnatterly)


Sir Walter Russell, Alice, 1926


"Muito pouco ama, quem com palavras pode expressar quanto muito ama." 

  (Dante Alighieri)


Sir Walter Russell, Alderman Robert Styring, Lord Mayor of Sheffield, 1906


"Um homem tem sempre medo de uma mulher que o ame muito." 

(Bertolt Brecht, A Ópera dos Três Vinténs)